o que sei sobre amor,
sobre amor
o que sei sobre amor, hoje
sobre amor
eu já nem sei mais
criei uma forma
e essa forma vai se moldando a cada topada
quando eu conheci ele
meus olhos brilharam
senti o mais perto de deus em alguns anos
olhos enormes
castanhos claros
o suficiente para iluminar meu dia
toda vez que eu acordava
e era olhada
reparada
beijada
sentida
com tanto amor
fiquei tonteada
ele me disse que amor era leve
que amor era calmo
que não precisava de silêncio cortante
que não era certo quando a raiva
chegava
avassaladora
e agredia
ele me disse que não era certo a forma de agir
que eu conhecia
que eu inventei
vendo meus pais
sobrevivendo a outros
homens
que me enlouqueciam
e me enfureciam
singelamente
ou às vezes
descaradamente
na minha mente
a ponto de eu precisar externalizar
a gritos
a tapas
meus sentimentos entalados
sensação mínima
de ser uma mulher
louca
pra eles
que me enlouqueceram
e nem se quer
entenderam
pedi perdão
pelo meu passado
pelos meus traumas
por não me responsabilizar das minhas próprias ações
eu,
agora,
adulta,
a culpa é minha
desculpa
ele que ia falando sempre baixinho
um monte de coisas sem sentido
para que quando eu falasse alto
coisas com sentido
mandasse eu parar de gritar
desculpa
ele que sempre carinhoso e muito forte
mais forte do que eu achava
percebi isso quando me pegou no colo
com uma mão
lindo
mais forte ainda quando socou a parede
e a própria cabeça
várias vezes
desculpa
fica calmo
vai passar
passou
nosso brilho
minha força
eu
não sou mais eu
ele
que me deu confiança
que mulher linda
ele tem
mostrava a todos
meu corpo
era templo
só dele
sexy
me sentia rainha
só dele
pra ele
sempre
monogâmica
fiel
apaixonada
só por ele
e ele
por mim
não
pra ele
meu corpo era dele
percebi isso quando eu tive que gritar
pra ele entender
que o que ele tava adentrando
não era extensão dele
era eu
acabou
já havia sido enlouquecida antes
por homens
mas nunca
invadida
assim
por quem eu amei
por quem eu não conhecia
sim
mas sou mulher
aprendi muito cedo que não
tinha escolha
foi sem que eu quisesse
mas de quem eu não conhecia
de quem eu nunca mais vi
mas de quem eu amei
nunca
já havia sido enlouquecida antes
não pensem que sou boba
já enlouqueci
há ruindade nos dois
mas há um grande vácuo que não entendem ainda
ou fingem
se sou ruim
apenas sou ruim
como um ser humano qualquer
se ele é ruim comigo
a ruindade vem carregada
do peso
de ser homem
e isso nunca vai ser anulado
aqueles olhos lindos
que eu amei tanto
entraram dentro da minha alma
e fizeram questão de cortar
minha crença
sobre amor
castanhos claros
com luz dilaceradora
se tornaram escuros em questão de segundos
tal como fecharam as portas dentro de mim
pouco tenho
com pouco me contento
por enquanto
enquanto ainda lido
com o muito
que me destruiu
quando eu abri as portas
para o jeito
de amar
que inventaram
pra mim
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