O pródigo pai — Joaquim
Joaquim era um pai mediano, classe média — ganhava o suficiente e tinha privilégios, mas nada exorbitante também -, um cara comum, nem…
O pródigo pai — Joaquim
Joaquim era um pai mediano, classe média — ganhava o suficiente e tinha privilégios, mas nada extraordinário também -, um cara comum, nem bonito, nem feio e tinha um filho que pegava de quinze em quinze dias, férias e feriados para passeios solares e conhecer mulheres na feira.
Não falava muito dentro de casa com o menino, mas preenchia o silêncio com música o dia inteiro; coisa que aprendeu com seu avô em sua oficina caseira no Rio Comprido -, enquanto ele trabalhava por horas esculpindo madeira, quase sempre cavalos, a radio ficava ligada o tempo inteiro, Joaquim não podia falar durante as músicas porque o avô brigava, mas nos comerciais podia -.
Crescido, se tornou desenhista, designer, algo do tipo, também pintava murais, pixava muros –herança da juventude tediosa da zona norte carioca- e tinha algumas plantas no apartamento amplo de Santa Teresa. Conseguiu comprar o imóvel que ficava até que próximo do Prazeres* um pouco por sorte, um pouco por vir de família classe média Tijucana; nunca teve medo de morar perto de morro e teve alguma ajuda da mãe quando precisou financiar as parcelas baixíssimas do desesperado arquiteto com dívidas gigantes. Ele seria maluco se não comprasse o apartamento em andar alto do Comendador Raposo Lopes.
Nino brincava no chão do escritório ao som de Clube da Esquina, álbum pouco indicado para crianças de seis anos, mas Nino era um menino introspectivo que gostava de colorir revistinhas por horas sem falar nada, parava para beber suco ou água, o que mais ficava ofertado para ele no canto do cômodo em uma mini geladeira comprado uma vez quando Joaquim chegou bêbado em casa e fez compras duvidosas pela internet.
Era o primeiro dia de ceu aberto depois da ressaca do mar vir parar nas avenidas no Leblon; algumas nuvens, clima ameno, não precisava de ventilador, a brisa marítima chegava pela janela.
Joaquim procrastinava em frente a uma escrivaninha sem espaço e abarrotada de papeis, livros, canecas e todo o tipo de bugiganga. Percebeu o final do álbum, com isso, como se saísse de um transe, despertou:
- Puta merda, vou perder o prazo.
Joaquim conferiu por cima dos ombros, Nino não demonstrou interesse no praguejo, então seguiu.
Por funcionar quase que a base de música, buscou por ouvir um álbum que gostava muito, que também havia conhecido pelo avô: Tim Maia. As vezes esquecia que meu avô hoje regula idade com Tim Maia e Jorge Bem Jor. Um álbum atrás do outro, nessa altura até Erasmo Carlos entrava também, às vezes uns sambas tristes, nada sem letra.
O sol descia para perto do mar e Joaquim percebeu que Nino não estava no quarto.
- Nino? Ninoooô!
Nada da voz do menino.
Coçando a cabeça, Joaquim se sentiu amedrontado. Como perdeu o filho em casa?
- Nino! Responde, filho! Ninoooô!
As janelas para a piscina em ruínas estavam abertas, um vento gostoso passava pelas cortinas. Joaquim teve um arrepio: um medo horrível de se aproximar da do beiral da janela, tinha medo de olhar para baixo e se deparar com o corpinho do Nino lá embaixo.
“Hanna vai me matar se ele…”
Joaquim tomou fôlego e caminhou devagarinho até a janela, olhando para baixo com muito custo. Nada, Nino não estava lá embaixo.
“Ufa, que alívio”, pensou.
-Ninoooô!
-Estou aqui, pai.
A voz fina do menino vinha do banheiro.
-Quando o pai chamar, você tem que responder, filho. Fiquei preocupado com você.
-Porque?
-Porque pode ser perigoso.
-Porque?
-Porque… porque… ah, ainda não consegui colocar a rede de proteção na janela, e…
-Como assim?
-Ah, filho, quando você crescer eu te explico. É coisa de pai.
O menino pensou um pouco.
-Dentro de casa é perigoso?
“Merda, piorei tudo” pensou.
-Dentro de casa não é perigoso, mas às vezes pode machucar sem querer. Que nem outro dia quando o pai bateu o dedo na cama, lembra que eu tive que enfaixar o pé e tomar remédio?
-Lembro.
-É tipo isso.
Nino concordou pensativo e voltou para o escritório com o pai. Perguntou se ele podia usar tinta no lugar de canetinha. Depois de alguma barganha, Joaquim concordou em ir comprar tintas para Nino: com uma caixinha de som acoplada na bicicleta do Itaú, os dois desceram até o centro de Santa Teresa e de lá, até a Glória em busca das tintas para o menino.
Quem cantava (falava) na descida do alto para a Glória era Bezerra da Silva. Depois de comprarem tudo, antes de voltar, os dois passaram no Flamengo. Joaquim deixou Nino molhar os pés no mar antes de pintar a tela recém comprada ali mesmo. Joaquim levou uns oito elogios por estar com o filho: mulheres iam e vinham, perguntavam dos dois, queriam saber da mãe. “Somos separados há quatro anos, mas nos damos muito bem. Pego o Nino toda a semana” o que eram duas mentiras, “somos inseparáveis, não é Nino?”
-É, eu não posso sair da sala.
-Esse Nino é uma figura!
Joaquim ria sem graça com as respostas curtas e inusitadas do filho, conseguia uns números, flertava por gosto com as mães recém separadas e as corredoras que tomavam uma agua de coco pós-treino.
Pretendia ligar durante a semana, já que no fim de semana ia ver a Maria Clara, uma patricinha do Leblon de seios fartos, dona de uma rede de estética; “chegou a hora de investir no futuro!”, as vezes ele pensava quando estava com ela. Estavam saindo havia uns meses e eles se conheceram alí mesmo um dia que levou o Nino para um evento infantil no aterro.
Joaquim deu tchau à distância para a moça bonita que ia embora, Nino se sujava enquanto brincava com as tintas primárias e descobriu como fazia o verde por acidente. O menino não falava nada, agia em silêncio, as vezes mexia o corpinho no ritmo da música, olhava para o mar, voltava à tela: tinha muita paciência.
-Lindo, filho. — comentava o pai vez ou outra. Sentia que precisava incentivar o menino, Hanna falava que era importante.
Nino se manteve concentrado, com os olhos no quadro e Joaquim achava isso um pouco rude, também achava o filho um pouco bobo, não sabia porque, mas pensava coisas assim, sem nunca falar em voz alta. Não se sentia culpado em pensar, mas entendia que não seria bem visto se soubessem.
-Pai, coloca o que a gente tava ouvindo em casa na caixinha?
Joaquim foi assaltado de seus pensamentos, se assustou com a voz concentrada do filho. Demorou alguns segundos para entender que o menino falava da caixa de som;
-Qual, filho?
-Aquele assim: “o sol pega o trem azul, o sol na cabeça” — o menino prolongava as vocais animadamente cantando um pedaço de “Trem azul”.
Achando verdadeiramente engraçado, riu com o menino até encontrar a música no celular. Nas primeiras notas o menino gritou “Esse!”, balançou um pouco e voltou para sua pintura cantando as últimas sílabas dos versos.
Reconsiderando o pensamento sobre o filho dele ser meio bobo, rindo animadamente, Joaquim tirou um cigarro de ceda já enrolado e acendeu.
Já não havia mais sol no Aterro do Flamengo, mas as luzes ainda não estavam acesas. Nino parecia satisfeito com o que fizera, mas não perguntou nada ao pai. Joaquim observou o filho, tirou uma foto dele com o mar ao fundo e o Pão de Açúcar. Enviou para a mãe do menino para ela ficar feliz, cobrar menos os atrasos semana que vem, de repente.
Hanna era o nome da mãe do seu filho, se conheceram no círculo social dos seus pais, amigos da época da escola, os únicos judeus do Pedro II na época deles. De forma natural, Joaquim e Hanna namoraram por anos, começando aos quinze anos de idade. Foram morar juntos pouco antes da pandemia, parecia lógico na época, estavam bem de grana, mas engravidaram e se separaram um ano depois que o Nino nasceu. No dia que Hanna contou para Joaquim que estava grávida, era o dia que ele iria terminar com ela. Para não parecer insensível, não o fez, mas perguntou até semanas avançadas de gestação se Hanna gostaria de manter mesmo a criança. Tentaram muito, mas Joaquim não conseguia mais manter a relação com Hanna, a traía diversas vezes, inclusive com a vizinha de porta, o que era extremamente conveniente; um dia Hanna pegou os dois transando no banheiro do apartamento deles de madrugada, foi terrível. Uma decepção para os pais, que pressionavam um matrimônio por anos, tanto os dela, quanto os dele; e um longo período de vergonha para ele e para a vizinha que ficaram conhecidos como ‘o casal fogoso do decimo primeiro andar’. Depois de muita briga, finalmente conseguiram chegar a um meio termo sobre o filho, que por falar nisso, tinha que falar com Hanna para saber qual o dia da festa de aniversário do amigo que vai cair no dia dele.
Joaquim balançou a cabeça como quem tenta se livrar de uma imagem. Respirou fundo e mirou o filho coçando os olhos, visivelmente brigando contra o sono, disse:
-Nino, vamos pra casa?
O menino concordou sem relutar. Todo sujo de tinta, o pai achou uma torneira para limpar as mãos do filho, deu um jeito de andar para o asfalto e então para casa. O carro (Uber) demorava, mas Nino começava a ficar com sono e seria mais uma coisa para carregar: tinta, quadrinho, menino, mochila, garrafa de água…
Finalmente no carro, Nino dormiu quase um segundo depois do motorista dar a partida. Subindo Santa Teresa, Joaquim olhava pela janela distraído e longe: tentava lembrar a última vez que teve uma história para contar, sentia que não sabia levar a própria vida e não gostava muito de ser pai; por esse último, sabia que não podia falar em voz alta também.
Às vezes pensava em quebrar todo o contato com a mãe do filho e aí nunca mais saberiam dele, só o dinheiro chegaria todo mês de alguma forma e pronto, não teria filho. Passou a mão nos cabelos cacheados de Nino. Queria ir pra Tanzânia, Cusco, Pernambuco, Nova York, Nova Orleans… sei lá, Belém, Rio de Janeiro à noite uns seis anos atrás. Nino dormia profundamente no colo.
Chegando em casa, Joaquim colocou o menino na cama sem banho mesmo, apagou as luzes, mas deixou a do corredor acesa com uma frestinha aberta. Aproveitou para tomar banho e colocar uma roupa mais confortável, levou a caixinha de som para o banheiro, ouviu “Cais” (“Nada será como antes”) do Milton, a primeira de uma lista de sugestão algorítmica na plataforma de música. Fez o jantar com o restante do cigarro de mais cedo, meia taça de vinho, macarrão com temperos fáceis, frango, dois tipos de legumes, alface; pudim feito por sua mãe para sobremesa.
Nino dormia, eram umas 23h e a pia estava limpa, luzes apagadas, um pratinho de pudim esperava Joaquim no sofá. Ele alimentava seu perfil em site de relacionamentos (Tinder), mandava mensagem para as mulheres de mais cedo e também para Maria Clara, confirmando um encontro para semana que vem e Hanna, contando como foi o dia e acertando datas comemorativas, antes de escolher um filme.
Começava uma chuva fina, dessas que molha bem por ser constante. O Rio embaçava alí do alto, foi uma chuva que não parou mais. Joaquim estava feliz por chover, assim não parecia que era o único a não sair de casa naquela noite.
Mais uma passada de olho na criança, seguia dormindo. Lá pelas uma e poucas da manhã pensou em ir dormir, ainda se sentindo infeliz. No dia seguinte tinha que levar o menino para mãe na Tijuca, pensou em passar no bar do Oswaldo na volta, tomar uma cerveja antes de pegar o metrô até o Largo do Machado, “droga, vai ter jogo no Maracanã. Merda!” Joaquim calculou as opções: ou teria que ir muito mais tarde ou muito mais cedo, tudo de Uber, “impossível andar de carro na tijuca em dia de jogo”, pensou; mais cedo não podia, no último acordo com Hanna ela proibiu ser antes das 18h.; Tinha a opção de levar o garoto à escola na segunda, tendo que acordar quatro horas mais cedo, mas essa foi descartada no momento seguinte que foi pensada.
“Ah, amanhã eu vejo.”, resmungou para si e rumou para o quarto, mais uma passada de olho no Nino, chegou ao quarto, deitou em sua cama e logo caiu no sono também.
Joaquim acordou cedo, o tempo estava mais nublado, não conseguiu voltar a dormir e assim que ficou dentro do senso do permitido, ligou para Hanna, para conversar sobre a preocupação com o trânsito e tumulto do bairro por conta do jogo, ela concordou que o melhor era levar a criança logo depois do almoço, “milagre”, pensou um Joaquim aliviado e desconfiado.
Ligou para a mãe que empolgou com a ideia do almoço de domingo com o neto, acharam por bem comer em casa e pedir em algum restaurante, “que tal comida italiana?” sugeriu ela. “Muito bom!” e desligou.
Nino estava brincando de blocos na sala, ouviam o álbum ‘Coisa de Acender’. Joaquim organizou a escrivaninha, limpou as gavetas, guardou os livros, empilhou os cadernos, jogou os excessos fora.
Depois, com pouca dificuldade, convenceu o filho de ir para o banho, depois de secar o Nino, fez a mala da volta para a casa da mãe: roupas lavadas, duas revistas para pintar, lápis de cor, creme de cabelo para os cachinhos, duas tintas, o livro de história e o Seu Jorge, seu leão de pelúcia, fiel amigo desde os dois anos de idade. Conferiu tudo duas vezes, só por garantia.
Tudo no seu lugar, Joaquim fechou todas as janelas do apartamento, vai que chove, arrumou o filho e pediu um carro (uber) para casa dos seus pais. “Cariocas são bonitos, cariocas são bacanas…” eles ouviam a rádio, clássico da Antena1.
Chegaram na Tijuca, na parte aristocrática decadente do bairro, alí perto da São Francisco Xavier e Joaquim lembrou de levar uma torta para o almoço como sobremesa, o pai pagou todo o resto. Gostava de almoçar aos domingos com os pais, se sentia filho de novo, o pai sempre comprava uma comida diferente, às vezes fazia strogonoff, às vezes comiam assistindo algumas coisas na tv, entre elas e muitas vezes, o futebol; a mãe costumava assistir também, torciam todos para o Vasco: Nino também, mas por vezes ia brincar sozinho no quarto que foi do seu pai.
Almoçaram bem, risoto de alho poró, salada para compensar. Nino ficou com a avó enquanto Joaquim e seu pai fumavam um cigarro na seda no terraço: falaram sobre trabalho, fofoca da vizinhança e os seus irmãos: Sofia e Nathan. Seu pai estava preocupado com Nathan que estava no ano obrigatório de servir em Israel, mas por enquanto, ele só trabalha na base como médico de UTI. Às vezes Joaquim se sentia competindo com o irmão algum tipo de notoriedade, no fundo invejava ele, mas também o admirava. Sofia casou com um ricaço bancário e foi morar na Lagoa. Essa foi uma surpresa para todos, mas no fundo Joaquim estava orgulhoso da caçula da família.
Deixou os pais curtirem um pouco mais o neto, despediu dos pais e com pouca antecedência, achou por bem pedir um carro para a casa de Hanna.
“Então venha me dizer, O que será da minha vida, oh” Nino balançava os pezinhos com o ritmo da Marina Lima enquanto tentava olhar pela janela do carro, sem realmente ter altura para isso.
Joaquim e Nino chegaram no prédio da Hanna na Sans Peña. Ela morava sozinha, mas tinha um namorado que ainda não havia apresentado para o Nino; Joaquim soube porque o pai dela contou pro pai dele quando foram jogar carta semana passada.
O porteiro liberou a chegada de pai e filho e eles foram até o oitavo andar. Da porta, Hanna escutava Marisa Monte, sua cantora favorita.
-Já chegaram!
-Boa tarde, Hanna. Tudo do Nino está aí, coloquei duas tintas, ele me pediu ontem para comprar.
-Ele tem se sujado muito?
-Vai sujar, mas nada exagerado; ele não gosta muito.
-Menos mal… você quer entrar?
Também tinha algo errado com a Hanna, Joaquim não sabia o que.
-Não, vou pegar o contra-fluxo e passar no mercado na volta, obrigado.
A essa altura Nino já estava na sala, voltou para perto da porta para se despedir. Joaquim se abaixou para o abraço no filho, olhou nos olhos dele e disse: “você pode escolher por você, filho”, algo que dizia a cada despedida, assim como o seu pai fazia e o pai dele antes dele.
Joaquim desceu e foi em direção ao metrô, faria compras no mercado Extra do Largo do Machado, subiria Santa Teresa de Uber com as compras, ouviria mais um álbum do Milton Nascimento e provavelmente trabalharia ainda aquela noite para entregar no prazo a demanda de trabalho da semana passada, mas depois de deixar seu filho em casa, desapareceu.
O jovem pai nunca mais voltou para o apartamento no Edifício Comendador Raposo Lopes, sumindo naquele dia: nunca mais respondeu mensagem ou entrou em contato com os pais ou o filho, ninguém mais soube dele. Autoridades diziam que estavam investigando e apontavam para um crime de oportunidade ou, até mesmo, desaparecimento voluntário, como se um surto transformasse Joaquim em um andarilho. Seus amigos e família achavam pouco provável um judeu não-praticante virar indigente, ele gostava de conforto e dinheiro, dificilmente se adaptaria às marquises e praças, diziam.
Por meses, o retrato de Joaquim estampou várias esquinas e muros de Santa Teresa, Tijuca e adjacências, como Catete, Flamengo, Lapa, Andaraí, Grajaú, até Engenho de Dentro e redondezas, mas ele não foi visto mais em nenhum lugar.
Mês que vem, Nino completará dezesseis anos, há dez Joaquim havia desaparecido no Rio de Janeiro; ele nunca mais voltou.
Ele estava livre.
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- 2026-06-25 07:00:49