Keep calm and dream on
A positividade millennial do início dos anos 2010

Keep calm and dream on
A positividade millennial do início dos anos 2010
Um certo meme da GenZ emergiu esse ano e ativou algumas discussões interessantes: usar alguns prints do clipe de Home, de Edward Sharpe and the Magnetic Zeros dando a entender que você fez uma vibe meio tilelê e, pra ficar no vocabulário deles que isso é cringe.

Movidos pela lente atual, algumas perguntas surgem (junto com a vergonha de ser de ter sido assim). Da mesma forma como o revival e o orgulho da estética emo do meio dos anos 2000 voltou, guarda-se com certo carinho ter se vestido com uma calça mega apertada, um boot, ter uma barba gigantesca e usado um chapéu com óculos de armação estilo wayfarer.
Tanto pelo olhar do bucolismo, tanto pelo olhar da nostalgia, nós ali por volta dos 30 e poucos anos nos perguntamos “nossa, por que nós não voltamos a essa positividade?”, assim como o pensamento geral de que de fato “we were young, wild and free”.

Usualmente contrastado pela atitude pessimista GenZ, ou que tem vergonha de tudo (no futuro você vai ter vergonha desse seu mullet, seu bigode e sua calça baggy, fica tranquilo, isso vai acontecer com você), a positividade Millenial do início dos anos 2010, como a maioria das coisas na nossa vida carrega o substrato político, econômico e social que vivíamos. Afinal de contas, você não pode virar pra um GenZ, que no início da sua vida adulta já passou por: (1) uma pandemia, (2) a inevitável escalada do fascismo e da alt-right, (3) uma crise planejada do capitalismo tardio, sem perspectiva até mesmo de comprar uma casa ou se aposentar e (4) pelo menos 4 guerras acontecendo no mundo, e falar Keep Calm and Dream On, ou Keep Calm and Have a Cupcake.

Mas o que aconteceu? Pelo menos no Brasil, vivíamos um período de forte desenvolvimento econômico, acesso a educação, políticas progressistas (na medida do possível, mas muito, muito longe de ser o que precisávamos). Lá fora, no norte político, governos progressistas eram eleitos… Jesus, como esse texto tá ficando liberal… Lá por 2016 sabemos o que aconteceu: governos de extrema direita na Itália, golpe jurídico empresarial no Brasil, eleição dos seres mais abjetos já concebidos e bom… entre 2020 e 2023 aconteceu uma coisa meio chata por aí.
Daí o contraste entre toda estética GenZ e a estética Millenial. Eles não são young, wild and free, a angústia climática e econômica, viver na sua juventude momentos históricos e sem qualquer perspectiva de futuro, numa bolha dum tecnofeudalismo. E isso vai para o lado da cultura também, a mudança no estilo das músicas, o impacto do lofi ou de músicas mais paradas, letras melancólicas, que totalmente são diametrais opostos a música que citei no início do texto.
O nosso movimento político da juventude foi cooptado pela alt-right, que sugou essa positividade e fortaleceu seu discurso nas mídias sociais. E hoje, isso se repete, se repetiu na nossa época como tragédia e hoje como farsa. A extrema direita e os detentores dos meios de produção bebem em cima de símbolos da juventude. Trocamos o pixuleco e a primavera árabe pelo chapéu de palha de One Piece.
Mas por um lado, a GenZ já chega com um forte senso de injustiça que nós não tínhamos (a nível de ideologia neoliberal). Nós vimos a uberização do trabalho acontecer, mas eles foram jogados nisso. Nossos sonhos foram massacrados, os deles, nunca tiveram chance de serem gestados.
메타데이터
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