JOAQUIM: O amor comeu minha paz e minha guerra.
Os Três Mal-amados de João Cabral de Melo Neto (1943)
JOAQUIM: O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
Os Três Mal-amados de João Cabral de Melo Neto (1943)
O tempo comeu o amor cabralino da jovem professora?
Os cantos das folhas do meu caderno dourado estão contando todas as histórias que eu escuto. Releio as minhas anotações tentando estudar pra prova. Mas os escritos desleixados, rabiscados nas extremidades das páginas já tão folheadas em movimentos de retorno, de estudo, de insistência, são tão mais interessantes que reverberam pelo quarto, o reduto da interioridade do sujeito — como disse um desses críticos da bibliografia.
(tanoeiro é quem faz barril na pancada)
E o autor precisa estar pensando, sabe? Anotei isso várias e várias vezes. Pensando sobre o que eu ainda não sei bem. Mas é certo que ainda é sobre Manuel Bandeira, porque é isso que diz o cantinho. E aí, lá vamos nós para as anotações com setas: elevando o cacto. É, o poema do Cacto é muito bom:
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de [iluminação e energia:
– Era belo, áspero, intratável.
Você já viu um cacto desse tamanho? Eu nunca vi. Mas desde então, desde 7 de agosto, não deixo de sonhar com cactos. Estão presentes em todos os meus momentos de descanso. Basta fechar os olhos e lá está: um cacto gigante, enorme, potente. Sempre em pé. Meu inconsciente mantém o cacto do Bandeira sacramentado em branco como a dor sublimada em gesso barroco. Talvez nos meus sonhos não vente como na poesia dele. Não há essas palavras feias como “tufão furibundo”. Eu não permito que as palavras do grotesco entrem no meu universo sublime.
(vai, vai até a tônica)
E há o momento da espera em “Namorados” que grudou em mim, que não me larga mais. É como se meus olhos agora vissem o amor como a sombra de duas pessoas se olhando e, indo do princípio de uma mão de um a ponta do nariz do outro, contorna o vai-e-vem de um corpo de lagarta traçando o caminho da paixão doce e paciente. Lá vai a lagarta amarela consagrando os namorados. Os versos desse poema não simulam nada. São beleza pura. São as outras formas do belo, convocando-o para si.
palavra pequena que estende o tempo
Essa última anotação de beira é também uma anotação de seta. Mas, na verdade, é uma entrada do dicionário particular da professora — que nos é gentilmente oferecido durante as aulas, transformada em rabisco de canto. Só pra não esquecer. Fico feliz em ter anotado a definição de infinitamente na poesia do MB. Ainda que eu jamais pudesse esquecer como um cacto é capaz de cair por uma vida inteira.
elogio para a roupa que veste a professora
O canto estava distraído nesse dia. E muito. Há, no corpo do texto, uma grafia elaborada para dizer “Drummond” e circulada por corações preenchidos ou vazios de tinta preta da caneta. Mas as anotações fazem algum sentido, serviram para os estudos, pelo menos! Mais que isso, escrevo, em determinada altura da página “intertexto com o grito de Cristo”. As inquietudes dele se tornam um pouco as minhas e não logro entender como um poema de tantas faces se interpela, intertextualiza, entre-texto-entre-grito-entre-vida-entre-mito. Nascemos e morremos na dúvida e, mais que isso, presos na reverberação desse grito.
o poema não está interessado
Uma anotação incompleta. O que é interessa ao poema, afinal? Certamente um parêntese do corpo da página pode tentar responder a isso: (prostíbulos?). Sim, estamos falando de um poema de nascer de dia. Mas não sou só eu que tenho dúvidas, as páginas me dizem: releia esse soneto. Essa minha mania de dar ordens o tempo todo. Nem eu mesma escapo.
TA2MEOSDM
Chegamos ao dia do poema mais marcante. Espero que a minha amiga L. leia esse texto. Ela vai entender. Não, não estou divulgando sua senha daquela rede social, fique tranquila, ninguém vai saber. Só nós sabemos! Essa é a beleza desse poema, lembra? Nós dividimos o sentimento do mundo.
Essa página está carregada de interrogações. Hoje os cantos não sabiam de nada! Mas anotei com ênfase a palavra “dinamitar” só porque acho bonito o som do d-n-m-t-r. Assim, de mãos dadas com as vogais destruindo o mundo.
Ah… meu bem, vamos lutar contra o CAPETALISMO? -**
>< má! não! não — com fofura!
Um pequeno diálogo que poderia estar no MSN. Mas está num papelzinho amarelo e colado no canto da página do dia 23 de agosto. Oficialmente o dia da música mais legal do Kid Abelha. Eu e a R. trocamos esse bilhetinho na aula porque eu queria guardar escrito a performance da professora interpretando a mensagem dura e indignada do poema Elegia 1938. Guardei mesmo. E só por isso lembro o que é uma e-l-e-g-i-a. Ainda mais essa, que foi lida pelo Caetano, eu lembro da voz dele também. Talvez nem fossem mais precisos os papéis amarelos se ele raptasse todos os poemas do mundo e nos permitisse ouvi-los em cativeiro na sua voz.
literatura brasileira [escrito em canetinha turquesa]
O V. disse que meu caderno é muito sombrio porque escrevo tudo de caneta preta. Resolvi começar a escrever os cabeçalhos dos dias e das disciplinas de caneta colorida. Então, essa cor turquesa está meio tímida aqui, nessa página, meio que descrente da sua estadia. Certa estava ela. Desisti de colorir os cabeçalhos no dia 3.
Chegamos em Claro Enigma! Meu livro favorito. Inclusive, o livro que seguro na foto que se faz ícone do meu espaço aqui no Medium. Lembro bem aquele dia. Lia um poema para várias pessoas. Um poema segurando um livro da biblioteca. Aquele livro que eu tomei como meu várias vezes. E anos depois, pude comprar um pra ser definitivamente meu. Às vezes me sinto como a rosa de Dissolução: Esta rosa é definitiva, ainda que pobre… Esta Ana é definitiva, ainda que pobre…
Nestes dias eu estava muito concentrada e séria. Os cantos estão vazios e as páginas cheias de anotações coerentes. Que chato.
segunda! Mallarmé — bagunceiro formal
Nesse dia eu anotei a alegria de uma segunda seguida de uma brincadeira com o Mallarmé — que com certeza eu deveria respeitar mais. Mas a professora falava dos arranjos e desarranjos formais dos poemas do Cabral e, aproveitando, citava as inovações e reflexões de Mallarmé — esse bagunceirinho formal.
Esse dia foi agitado para os cantos, registro aqui mais algumas anotações desconexas:
aula de fofoca literária
herméticos, sintaticredo
modernismo melhor fase!
Então, no final da página, temos o seguinte: POEMA: O Poema. Puxa, eu ri mentalmente no dia que li esse poema e agora, aqui e escrevendo sobre, posso rir explicitamente. Esse João Cabral de Melo Neto era muito ardiloso. Aonde já se viu escrever um poema chamado O Poema? Muito engenhoso, danado! Essa metapoesia safada que fazia. Que loucura. Eu acho que nunca tinha dado a atenção necessária para esse gênio. Ainda que leia e leia os seus poemas e pense, assim como escrevi em outra parte desses cantos, “(não chego a lugar nenhum)”, me causa um êxtase tão profundo quando chego em algum lugar. O mínimo que seja. O entendimento mais vagabundo tem me deixado feliz nessas páginas. Eu tenho lido Cabral como quando ele escreveu:
palavras impossíveis de poema
Acho tão lindo isso. Acho mais visceral que as vísceras que ele insiste em abordar em seus poemas. Tantas coisas lindas em Cabral. A beleza cabralina cortando feito faca — por dentro.
o amor cabralino da jovem professora
Ao último rabisco de canto de onde nasceu a primeira frase desse texto-sem-sentido que eu precisei colocar em palavra. Uma história da adolescência da professora virou uma frase torta escrita no canto. Mas não só: quando li a experiência daquele Joaquim pensei: o amor e o tempo vão comendo tudo igual lagarta em lavoura e só nos resta é nada-moderno grito do mito. Será que o amor cabralino da adolescente sobreviveu ao “dissoludor” tempo do grito?
메타데이터
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