É história de pescador
A tecnologia sendo usada para salvar tradições
É história de pescador
A tecnologia sendo usada para salvar tradições
O cheiro de café, misturado com a maresia desperta Alexandre. Já são seis da manhã, hora de preparar o barco e partir para as nebulosas águas da Baía de Guanabara, hoje é o dia que os peixes virão ao seu encontro. O mar, conhecido há muito por ele, não está sendo camarada. Alguns trechos estão intransitáveis, os caminhos antes conhecidos, agora nem caminhos são. Com muita paciência e sorte, ele consegue pegar algo, mas sua alegria de dissolve rapidamente. A única coisa que conseguiu pescar foi lixo.
Alexandre Anderson é apenas um pescador. Ou é assim que ele gosta de pensar.
O mageense, que já sobreviveu a seis atentados contra a sua vida, segue recebendo intimidações. Ele e sua família fazem parte do Programa Federal de Proteção a Defensores de Direitos Humanos. Mas, por que um pescador sofreria tantas ameaças? A resposta está no projeto de sua vida: a Associação Homens do Mar da Baía de Guanabara.
AHOMAR, como é popularmente conhecida, é construída por homens e mulheres iguais a Alexandre. Mãos calejadas, vincos esculpidos pelo sol em seus rostos, semblantes cansados, mas com a satisfação que a pesca lhes traz. Eles foram criados a partir das águas da Baía, seus filhos e netos também são sustentados pelo que aquele mar lhes dá. Contudo, essa proveniência diminui a cada dia. Os pescadores artesanais lentamente observam sua cultura e sustento definhando, para que alguns pouquíssimos possam adicionar mais um zero em seus saldos bancários.
O catalisador para a luta de Alexandre veio na virada do milênio. No dia 18 de janeiro de 2000, o rompimento de um duto de petróleo, conectando a Refinaria de Duque de Caixas à pequena Ilha d’Água, desencadeou o segundo maior acidente ambiental da história da Baía. As atividades pesqueiras foram pausadas por 45 dias. A indolência da Petrobrás, responsável pelos dutos, despertou uma revolta em Alexandre e seus companheiros, que se perceberam como formigas à sombra dos pés de um gigante.
A única possibilidade para sobrevivência seria a união e a luta conjunta por seus direitos. Durante anos atuaram como lideranças descentralizadas, foi apenas em 2003 que o grupo começaria a tomar forma. Um cardume que não nadaria mais sozinho. Em uma das primeiras reuniões, Candinho, companheiro de longa data, batizou-os. “Nós não somos pescadores, pescador qualquer um pode ser. Nós somos homens do mar”, lembra Alexandre.
Biólogos, geógrafos e ecologistas se juntaram aos pescadores para estudar a situação da Baía de Guanabara,. Apenas com o auxílio da AHOMAR isso seria possível. Alexandre deixa bem claro que não há lugar onde eles não sejam bem-vindos pelos pescadores. Um estudo publicado em 2010 identificou uma perda superior a 80% dos pescados da região em apenas duas décadas. “Os pescados de maior valor nutritivo estão desaparecendo, a insegurança alimentar está virando uma realidade para quem vive da pesca”, avisou o biólogo e ativista Sérgio Ricardo, que luta pela Baía desde os anos 80.
“A principal causa são as indústrias petrolíferas, que tomaram conta da região. O vazamento de 2000 foi só o maior exemplo disso”, explicou. Em meio a esse cenário pré-apocalíptico, a AHOMAR usa das armas que tem: o conhecimento das águas e a tecnologia. Em seus grupos de WhatsApp, encontrava-se mais do que futebol, memes e histórias de pescador. Os homens do mar tinham costume de fotografar, filmar e compartilhar nos grupos as irregularidades ambientais que encontravam durante a pescaria.
As imagens também eram compartilhadas com as autoridades, mas nem a Marinha, nem o Ministério Público levavam as denúncias à frente. Argumentando que era muito difícil comprovar a veracidade das imagens e a precisão do local onde elas foram registradas.
Deste problema nasceu o aplicativo De Olho na Guanabara, desenvolvido pela AHOMAR em parceria com a 350.org. Idealizado para ser uma plataforma capaz de concentrar as denúncias e criar um banco de dados com fotos, vídeos e coordenadas das irregularidades. “Já conhecíamos o Alexandre e o trabalho da associação com os registros das vazamentos, por isso a parceria aconteceu naturalmente”, informou Luiz Afonso Rosário, responsável pelo projeto do aplicativo.
As denúncias são realizadas por pescadores e moradores da região da Baía e analisadas pela coordenadoria da AHOMAR. “Os pescadores artesanais são os olhos, ouvidos e braços para um efetivo monitoramento dos territórios tradicionais pesqueiros”, defendeu Luiz. Todo esse processo ocorre de forma anônima, para evitar represálias. Após aprovação, as denúncias são exibidas em um mapa on-line acessível por qualquer pessoa.
Essa iniciativa é única no Brasil e está servindo de modelo para aplicação em outras áreas. Luiz e a 350.org têm uma atuação extensa pela Amazônia e pensam nas diversas maneiras em que o projeto pode ser adaptado para as diferente realidades. “Os povos tradicionais sabem melhor do que ninguém o que está acontecendo, por isso, essa fiscalização por parte deles é tão importante. Qualquer outro projeto também irá partir desse mesmo princípio”, respondeu Luiz.
Alexandre entende que a luta ainda irá perdurar por muito tempo, mas não esconde o orgulho que tem pela plataforma. Trata-se do ponto de vista dos pescadores artesanais sendo reconhecido. Perante essa batalha de Davi contra Golias, toda e qualquer pedra é uma arma.
E assim seguem. Juntos, ele e Baía, tentando sobreviver.
메타데이터
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