três mundos / 2021
Pela terceira vez no dia, deito no banco de madeira que fica no quintal de casa e olho para o céu limpo que fica à minha esquerda. Escuto…
três mundos / 2021
Pela terceira vez no dia, deito no banco de madeira que fica no quintal de casa e olho para o céu limpo que fica à minha esquerda. Escuto minha mãe se aproximando de mim: “vai lá dar um ‘oi’ para o seu avô”. Um ponto positivo de dividir o terreno, é que eu tenho várias companhias, mas acabo esquecendo disso.
Eu o vejo todos os dias da janela da cozinha, ou quando venho para o terreiro olhar para o céu: ele passa a maior parte do dia sentado ao lado dos cachorros sob o sol. Quando eu me levantei do banco e desci um pouco mais pelo quintal até chegar a ele, olhei para cima e vi o lado de fora de um ângulo diferente. Havia tempos que não reparava que a casa era tão grande, e eu só reclamo de quanto meu quarto é pequeno.
O isolamento social me fez questionar algumas coisas a respeito de mim mesma e como lido com as relações familiares. Percebo que a cada dia me sinto menos motivada a continuar uma briga por causa da pia cheia de louça. E por pelo menos trinta minutos de conversa com meu avô percebi que existem muitas coisas a serem exploradas por estarmos juntos todos os dias.
Eu estava sempre distante das pessoas daqui de casa, e temos passado a maior parte do tempo juntos nos últimos meses. Aproveitar isso é muito relevante, porque apesar de ansiar pela realização do sonho de sair da casa dos meus pais e ir construir minha vida sozinha, sinto que essas pequenas conversas, esses momentos onde cozinhamos juntos, ou quando sentamos na rede para jogar conversa fora, são momentos muito especiais e subestimados.
Apesar de não ver a rua há vários dias, sento em uma distância considerável do meu avô. O tópico principal da nossa conversa é o coronavírus, mas as palavras tomam outro rumo quando percebo que tem dois pés de laranja bem escondidos. Como eu não percebi isso antes? Inclino a cabeça para baixo e a Chanel, a vira lata mais nova, está deitada logo debaixo dele. Eu moro aqui. Tem pés de fruta no meu quintal, e eu só conhecia as jabuticabas.
Essa conversa com meu avô definitivamente foi fruto da serendipidade.

A quarentena é um gatilho para imergimos em nossos pensamentos. Esses três mundos… Vivo com medo do mundo lá fora, e ao mesmo tempo descubro um mundo aqui dentro de casa e dentro de mim mesma. Eu sei que não tem ligação alguma, mas é estranho a vida ter que virar de cabeça para baixo para essa reflexão existir comigo.
Espero que o coronavírus acabe logo, e que eu aprenda a valorizar as pequenas coisas próximas a mim que nem percebo que existem. Espero que na correria do dia a dia eu lembre de ouvir como foi o dia dos meus avós. E eu espero que essa vontade imensa de ir morar sozinha venha acompanhada de uma grande saudade.
메타데이터
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