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Teoria do Ferro Quente

Dizem os sábios — e por sábios entendo eu e mais dois ou três amigos de jornalismo político em Brasília — que o ser humano é o único…

Marcus Vinicius Leite · 2025-11-25 18:42 · 2 claps · 2.7 min read
#bolsonaro #prisão #brasil #política #comportamento-humano
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Teoria do Ferro Quente

Dizem os sábios — e por sábios entendo eu e mais dois ou três amigos de jornalismo político em Brasília — que o ser humano é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra. Parece que a família Bolsonaro resolveu inovar: é o primeiro clã político a tropeçar na própria tornozeleira.

Vamos aos fatos, com a seriedade que o tema merece (ou quase). Conforme registram os anais da Justiça — e os vídeos virais –, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em sua reclusão domiciliar, dedicou-se a uma inusitada atividade de ferreiro amador. Armado de um ferro de solda, o mesmo que outrora usaram para tentar soldar a pátria, meteu-se a violar o case de sua tornozeleira eletrônica. Não era uma tentativa de rompê-la, jurava ele aos agentes. Era mera “curiosidade”. A mesma curiosidade que matou o gato parece estar guiando os passos de nosso protagonista. Um estadista, no auge de seu isolamento, descobre a vocação para ourives de aparatos eletrônicos. Que belo exemplo de reciclagem profissional na terceira idade.

Enquanto o pai exercitava sua veia de inventor, o filho, Flávio Bolsonaro, convocava uma vigília. O resultado foi um espetáculo de tragicomédia que nem Molière ousaria escrever. No lugar de uma massa enfurecida, o que se viu foi um ato falho. Um cidadão, o tal Ismael, invadiu o palanque montado para o luto político e soltou o verbo: “Seu pai que abriu 700 mil covas… seja julgado!”. Foi o suficiente para a encenação virar um misto de velório e briga de rua. O clima, segundo relatos jornalísticos, era de “velório”. E olhe lá, pois em velórios de verdade geralmente há mais compostura.

E eis que chega o clímax, ou melhor, o anticlímax. No exato momento em que o Globo Rural — programa que, diga-se de passagem, sempre nos deu mais lições de Brasil que muitos noticiários políticos — exibia uma reportagem sobre… os arrotos de bovinos, eis que um plantão anuncia a prisão do ex-presidente. A sincronicidade é de cair o queixo. Primeiro, porque os apoiadores do capitão são frequentemente chamados de “gado” por seus desafetos. Segundo, porque o próprio Bolsonaro já protagonizou cenas públicas com crises de soluço incontroláveis. Como diria Jung em Sincronicidade: Um Princípio de Conexões Acausais, às vezes o universo não nos envia sinais, ele manda é piadas prontas.

A reação do bolsonarismo foi um misto de negação, delírio e messianismo. A orientação, via Alan dos Santos, era “não desanimar”. A tática, segundo Michele Bolsonaro, era transformar tudo numa “guerra espiritual”. Até Alexandre de Moraes foi alvo de uma oração, numa tentativa de convertê-lo de Saulo em Paulo. Confesso que aguardo ansioso o dia em que um ministro do STF responder a um habeas corpus com uma carta paulina.

O presidente Lula, questionado, limitou-se a dizer que “a justiça decidiu”. Frase enxuta, quase budista. Enquanto isso, nas redes sociais, os gurus de plantão já articulam teorias que fariam Erich von Däniken corar. O plano de fuga teria conexões com embaixadas, e a tentativa com o ferro de solda seria parte de um quebra-cabeça geopolítico. É de pasmar. Parece aqueles filmes de James Bond, só que com roteiro de A Praça É Nossa.

O que resta disto? A imagem de um homem, uma ferramenta e uma pulseira. Uma família, um palanque e um ato falho. Um país que, entre arrotos de boi e soluços de ex-presidentes, tenta seguir em frente. Como escreveu o grande Nelson Rodrigues, o Brasil é “um subúrbio do mundo”. E eu acrescento: um subúrbio onde o tragicômico virou gênero literário predominante.

Que fique a lição: na vida, como na política, é melhor não mexer com o que não se entende. Seja uma tornozeleira eletrônica, seja a democracia. Ambos podem dar um curto-circuito.

*Referências bibliográficas para não dizer que não falei de flores: JUNG, Carl G. Sincronicidade: Um Princípio de Conexões Acausais. 1952. RODRIGUES, Nelson. A Cabra Vadia. 1970. MOLIÈRE. Tartufo. 1664. (Para entender a hipocrisia disfarçada de fé).*


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