Blindagem, sanções e “Trump fez o L”: a narrativa que escapa das mãos da direita
Entre vitórias pontuais e derrotas estratégicas, o bolsonarismo se vê dependente de símbolos frágeis, perde as ruas pra esquerda e abre…
Blindagem, sanções e “Trump fez o L”: a narrativa que escapa das mãos da direita
Entre vitórias pontuais e derrotas estratégicas, o bolsonarismo se vê dependente de símbolos frágeis, perde as ruas pra esquerda e abre espaço para o Centrão retomar o jogo.
Donald Trump em discurso antigo na Assembleia-Geral da ONU. — Foto: ONU/Cia Pak
O “Trump fez o L” não é só meme. É um sintoma. Nas redes, o anúncio de que Donald Trump elogiou Lula na ONU e disse que pretende conversar com ele abriu uma fissura na autoestima do bolsonarismo. A fotografia do momento é nítida: em 5,8 mil comentários analisados por Pedro Barciela no X, 78% leram a fala como positiva para Lula, enquanto apenas 22% tentaram extrair algum sentido negativo. Quando a base vive de símbolos, esse número não é detalhe, é enquadramento.
O caminho até esse enquadramento se dividiu em quatro reações. O humor veio primeiro, com 32% surfando no “Trump fez o L”, uma vingança simbólica de anos de importação de slogans trumpistas. Outros 26% apostaram no ciúme político, com a narrativa de que “bananinha vai surtar” porque o padrinho internacional piscou para o rival. Uma fatia de 18% pediu cautela, lembrando que aceno não é aliança e telefonema não é tratado. Por fim, 14% reforçaram a moldura de estadista para Lula: “se conversar, convence”. O que importa menos é o que Trump quis dizer e mais o que o usuário percebeu: a possibilidade de que Bolsonaro seja descartado a qualquer momento.
Esse desconforto nas redes coincidiu com um gesto contraditório vindo de Washington. Alexandre de Moraes já havia sido incluído na Lei Magnitsky em julho. Ontem, a Casa Branca ampliou o pacote, sancionando sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o instituto da família. Um recado que Eduardo Bolsonaro vinha pedindo há meses e que foi comemorado como vitória pontual do bolsonarismo. Menos de 24 horas depois, Trump elogiou Lula na ONU, citou um abraço nos corredores e prometeu um encontro. Um dia o aceno é para a base bolsonarista, no outro para o governo Lula. Não é alinhamento, é cálculo.
O Itamaraty, no entanto, não se ilude. Diplomatas relataram que Lula não aceitaria uma reunião improvisada. A memória recente do chamado efeito Zelensky pesa: em fevereiro, o presidente ucraniano foi repreendido ao vivo por Trump, teve almoço cancelado e foi convidado a se retirar da Casa Branca. Brasília trabalha para que qualquer contato seja restrito a comércio, sem abrir espaço para armadilhas políticas.

Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky (E) e dos EUA, Donald Trump, antes de reunião na Casa Branca — Foto: SAUL LOEB / AFP
Enquanto isso, as ruas também sinalizam desgaste. O jornalista Thomas Traumann destacou que as manifestações em 17 capitais contra a PEC da Blindagem e a anistia a Bolsonaro mostraram que a direita perdeu o pulso. Ao defender a Blindagem como moeda de troca para tentar salvar Bolsonaro, a oposição não conseguiu vender como prerrogativa parlamentar: para a maioria, soou como reforço de privilégios da classe política. Foi um tiro no pé que expôs o vazio estratégico.
Ato na Avenida Paulista, em São Paulo, contra anistia e a “PEC da Blindagem” 21/09/2025 REUTERS/Amanda Perobelli (Foto: Amanda Perobelli / REUTERS)
Nem a liderança digital conseguiu reagir. No mesmo domingo das manifestações, Nikolas Ferreira publicou um vídeo intitulado “Convite ao extremismo”. Citou Charlie Kirk, perseguições históricas e santos mártires. O vídeo performou bem na sua bolha, mas não dialogou com a pauta que estava nas ruas, que era a Blindagem e a anistia. A escolha de mudar de assunto foi reveladora: era melhor falar de um caso nos Estados Unidos do que encarar o desgaste de uma decisão tomada no Brasil.
O resultado desse encadeamento é visível. O bolsonarismo coleciona vitórias pontuais: uma sanção nos EUA, a votação da urgência da anistia na Câmara, um vídeo viral. Mas a narrativa se desmancha no processo. Até mesmo Tarcísio de Freitas, que em agosto havia ensaiado uma candidatura presidencial, recuou na semana passada, logo após a condenação de Bolsonaro, e anunciou que tentará apenas a reeleição em São Paulo.
A verdade é que a direita conservadora escolheu manter o apoio a Bolsonaro até o fim. Defendeu até taxar o Brasil para isso. Mas aí, os patriotas já não eram mais eles. Votar a PEC da Blindagem foi votar contra o povo. Era o que faltava. A direita que ascendeu se nutrindo da anti-política apareceu ao lado do centrão completamente nua. Até o senador Cleitinho, fenômeno digital da direita, rompeu para criticar a proposta (e ainda demandou a isenção do IR até 5 mil reais). Aos poucos, os líderes da oposição foram assumindo pautas que a população não engoliu, apenas para tentar salvar Bolsonaro.
No vácuo criado, o Centrão fez o que sempre soube: aproveitou o movimento para dar um empurrão. Joga nos bastidores para voltar a ser o dono do poder para além do Congresso. Muda o nome da PEC da anistia, tenta manter o nome de Tarcísio como alguém moderado que ainda pode brigar pelo Palácio da Alvorada. Enquanto isso, a direita se agarra a vitórias pontuais em um cenário em que perdeu a narrativa mais pelos próprios erros do que pelos acertos dos adversários.
메타데이터
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