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Zoeira, futebol e a quinta série.

Zé Luís Schmitz

Teclo y Me Voy · 2019-05-14 20:30 · 15 claps · 3.0 min read
#futebol #zoeira #jornalismo-esportivo #sidão #globo
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Zoeira, futebol e a quinta série.

Zé Luís Schmitz

Imagine uma sala de aula. Estamos na quinta série. O professor é aquele tipo engraçadão, que faz piadas o tempo todo para que os alunos gostem dele e da sua aula. Às vezes chega a ser um pouco forçado. Mas estamos na quinta série, ainda nem sacamos isso. No começo, ele vira o legalzão da turma. Ele vê que está dando certo. “Tá dando IBOPE”. Comemora. Faz mais piadas. Mais palhaçadas. Aula, o que realmente importa, tem cada vez menos. Quando percebe, já perdeu totalmente o controle da sala. Os alunos fazem gato-sapato. Não têm mais respeito algum. E aí, meu amigo, passa de todos os limites possíveis.

Agora, imagine outro cenário.

O professor é o jornalismo esportivo.

Os alunos da quinta série são os torcedores brasileiros.

E, como no exemplo 1, perde-se o controle e passa dos limites.

O caso do Sidão, goleiro do Vasco, neste final de semana, é exatamente onde a zoeira passa dos limites. Enquanto tínhamos canais e páginas de redes sociais destinadas especialmente à zoeira estava tudo bem. É apenas um nicho diferente, um outro viés do futebol. Quem gosta segue, quem não gosta não segue. Segue o jogo. E convenhamos: futebol combina com zoação. Tirar uma onda do seu rival quando o time dele perde, quando é eliminado por uma equipe muito inferior ou quando o seu time ganha do time do seu amigo faz parte do esporte que tem a diversão e a alegria como essência. Desimpedidos, Olé do Brasil, Legado da Copa, Cenas Lamentáveis, só pra citar algumas destas páginas, trouxeram essa zoeira típica do torcedor brasileiro para as redes sociais.

Só que lembrem-se. Torcedor brasileiro está em uma eterna quinta série.

Levado pela zoeira destes canais, Tiago Leifert foi um dos primeiros a entrar na onda e levou esse nicho do humor esportivo para a televisão, mais precisamente à Rede Globo. E deu certo. Ganhou um IBOPE danado. Ficou famoso. A massa se divertia. Na Copa de 2014, época em que todo mundo vira uma apaixonado pelo esporte — e isso é o maior barato — foi o auge do garoto. Gente que nem curtia futebol, dizia: “Com o Leifert sim dá graça ver futebol”, “Esse cara é muito divertido”, “Ai que fofinho que ele é, né?”. Deu certo.

Deu certo?

Inspirados pela Leifertização, canais fechados especializados em esporte entraram na onda. Se tava dando certo na maior emissora do Brasil, por que nas outras seria diferente? E foi aí que a ESPN, que já vinha de crises e decisões um tanto quanto questionáveis, virou uma palhaçada completa em toda a programação. Sorte do Trajano ter saído, não aguentaria. A FOX nem se fala. É completamente inassistível. Nas redes sociais então, sem condições. O Esporte Interativo é insuportável. Ale Oliveira nos comentários consegue deixar até Barcelona X Liverpool difícil de ser assistido. O cara não para, é uma metralhadora de piadas completamente sem graça e já esqueceu de falar sobre futebol faz muito tempo. E passou ainda mais dos limites com comentários machistas e racistas.

Lembrem-se. Torcedor brasileiro está em uma eterna quinta série. E, como em uma sala de aula, o jornalismo esportivo perdeu o controle e passou dos limites.

E quem caiu na isca? A Globo. Desimpedidos fez campanha no Facebook e a quinta série inteira votou, ironicamente, no Sidão, que havia falhado no jogo e sofrido três gols, como “Craque do jogo”. Aí deu toda aquela confusão que você com certeza já leu por aí.

Nem vou criticar o Desimpedidos aqui, apesar de achar o canal um saco. Mesmo não concordando com essa brincadeira, eles estavam na onda da zoeira, que é a proposta deles desde sempre. O triste foi a Globo ter entrado na roda e entregue o troféu ao vivo para o goleiro. Uma completa falta de respeito ao profissional, uma humilhação desnecessária. Quando eu jogo uma pelada e erro muito já vou pra casa chateado e puto da cara, imagina um cara que trabalha com isso. E a Globo, macaca velha, poderia ter tido esse tato, né?

Desimpedidos pediu desculpas. Globo pediu desculpas. Até o Galvão pediu desculpas ontem no Bem, Amigos.

Mas, daqui pra frente, que fique a lição pro jornalismo esportivo. Vamos falar mais de futebol e cuidar com a zoeira excessiva. Lembrem-se: o torcedor brasileiro está em uma eterna quinta série. E lá, como todos nós sabemos, ninguém tem noção de onde é o limite.


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