Procriação sob o capital: fardo, problema ético ou sintoma social?
1. Introdução
Procriação sob o capital: fardo, problema ético ou sintoma social?
1. Introdução
Nos tempos recentes, tem se tornado uma preocupação de diversos países o fato de as taxas de natalidade estarem cada vez mais baixas. Parece evidente que os jovens de hoje pensam pouco ou nada, e muito negativamente, sobre a ideia de ter filhos. Quando indagados sobre o assunto, frequentemente revelam algumas perspectivas negativas em comum. Alguns tratam a ideia de ter filhos como um fardo desagradável para os progenitores; outros a tomam por um problema ético, ao submeter a pessoa que nasce a este mundo decadente.
À primeira vista, ambas as perspectivas podem parecer absolutamente justas: que mal haveria, afinal, em querer gozar de uma vida boa, sem a imensa limitação de ter um ser que dependerá inteiramente de você por umas boas duas décadas? Que mal haveria em querer, justamente, evitar que um outro sofra tudo o que se sofre no nosso mundo?
O problema, a meu ver, não está — e nem pode ser atribuído — aos indivíduos que chegam a tais conclusões, mas sim ao ambiente social, tão doentio que condiciona neles tais padrões de pensamento. Isso é especialmente grave porque o ser humano, tanto enquanto ser natural como enquanto ser social, depende dos outros, depende do coletivo — o que pressupõe a reprodução — , de modo que a sua negação acabaria por se reverter em um malefício direto para a espécie e para a sociedade como um todo.
2. O pensamento
O Presidente Kim Il Sung, genial teórico e revolucionário sem par que conduziu a luta armada contra o império fascista japonês, a resistência à agressão imperialista e a construção do distinto socialismo coreano, ensinou:
**“A consciência ideológica das pessoas é determinada pelas condições materiais da vida social […]”**¹
Pensamentos e ideias não surgem num vácuo; são sempre reflexo da realidade material objetiva. Assim sendo, é impossível obter uma compreensão correta desses fenômenos ignorando a realidade em que se constituem e vivem os sujeitos em questão.
Sem surpresa alguma, muitos fazem um enquadre incorreto e enganoso do problema ao abordá-lo de um ponto de vista moral: dizem que se trata de um problema cultural, que já não se valoriza a família — que, supostamente, a esquerda e os comunistas querem “destruir” — , que as pessoas estão mentalmente doentes em decorrência disso e que, portanto, caem no antinatalismo, razão pela qual seria preciso atuar no âmbito da cultura e da moral para resolver o problema. Mas isso jamais pode estar correto porque, repito, ignora a realidade social em que as pessoas se constituem, lançando luz sobre um alvo falso e enganoso. E que realidade é essa? Não é outra senão o regime capitalista, moribundo que faz esforços desesperados para não morrer.
Nele, o esclarecimento, decorrente do crescente acesso à informação e à educação, entra em choque com a consciência cada vez mais nítida da realidade em que o sujeito nada possui além de sua força de trabalho para vender, reduzindo-o a um mero servo na base de uma enorme pirâmide mundial controlada por um punhado de senhores que exploram os trabalhadores e o planeta até a última gota enquanto adoecem a sociedade com o veneno do individualismo — resultado direto da propriedade privada dos meios de produção — e todos os seus desdobramentos, entregam-se a práticas desumanas como orgias envolvendo mulheres e crianças sequestradas e rituais macabros, travam guerras por dinheiro etc. Esse conjunto de contradições cada vez mais gritantes, escancaradas e insuportáveis produz no homem nada além de desespero e profundo desgosto diante do mundo.
De fato, inserido em tais circunstâncias, em que, em virtude da violação dos atributos sociais do homem pelo regime capitalista, leva-se uma vida sem dignidade, valor e propósito, como é possível conceber outra coisa senão aquelas duas opções citadas acima? Ora, se este mundo não presta, se vivemos para enriquecer um punhado de parasitas que controlam o mundo e, eventualmente, vamos morrer ou pela guerra travada por eles ou pelo colapso do planeta, por que haveria eu de não querer me agarrar aos efêmeros prazeres que me são permitidos até o fim, para me submeter e me limitar totalmente a criar outro ser? Por que, pior ainda, haveria eu de querer que outro ser estivesse em tais condições tão sofríveis? Que pessoa estúpida ou má (respectivamente) eu seria! Esta é a conclusão a que se chega — e, penso, dificilmente se poderia chegar a outra tão coerente com as circunstâncias dadas. O problema, como ia dizendo, não são, em si, estas ideias ou quem as pensa, mas precisamente o ambiente que lhes dá origem.
3. Um fardo?
O Presidente Kim Il Sung ensinou:
**“O coletivismo é uma das características mais essenciais da classe trabalhadora, e constitui a base da vida social no socialismo e no comunismo, sociedades nas quais os trabalhadores lutam unidos para realizar objetivos comuns.”**²
Procriar, em si, não é um fardo. Torna-se a partir do momento em que, pela instituição da propriedade privada, a família passa a se concentrar num único núcleo isolado do resto da sociedade: pai, mãe e filho — apenas. Como é óbvio, recai particularmente sobre a mãe o fardo, que precisa abdicar de toda a sua vida por aquele novo ser. Quando, na realidade, pelo próprio caráter social e coletivista intrínsecos do homem, o natural seria não haver tal isolamento, mas manter a integração com o coletivo e a sociedade. Era assim no princípio, e volta a ser assim nos países socialistas.
Para citar o exemplo da Coreia socialista, a mais longeva e exitosa sociedade desse novo tipo, o país inteiro se converte em uma grande família: todos cuidam de todos, e o Estado toma todas as medidas para facilitar a vida dos pais e das mães, com educação e saúde gratuitos, universais e amplos — de modo que não se torna, de maneira nenhuma, um peso exclusivo dos pais ou da mãe. Poderão, passado o período de licença remunerado concedido a ambos, retornar às suas atividades normalmente, trabalhando, estudando, produzindo e consumindo cultura, pesquisando ciência e tecnologia etc. Sem a menor preocupação de que a seus filhos suceda algum mal, sejam mal-educados ou caiam nas drogas, como é frequente aqui, pois estão sendo bem cuidados pelos vizinhos e pelas creches e escolas do Estado. Menos ainda precisariam se preocupar que os filhos não consigam se inserir na vida profissional e permaneçam em suas casas indefinidamente — como tem se tornado cada vez mais comum aqui — pois há pleno emprego, para não falar do fato de que que o Estado também fornece moradias gratuitamente. Além disso, benefícios especiais são concedidos à mãe de vários filhos — que vão desde os materiais, como redução de jornada de trabalho sem prejuízo salarial, preferência a melhores moradias e a centros de saúde e cultura, até benefícios morais, onde recebem honrarias do Estado, como títulos e medalhas.
Todos esses fatores em conjunto — que não podem ser entendidos como medidas que qualquer país possa simplesmente copiar, mas algo que decorre do próprio caráter da sociedade socialista — eliminam completamente a ideia de ter filhos como um “fardo” para os pais. Deixa de sê-lo e passa a ser, como é natural, uma alegria e um prazer para os progenitores e para todos que estão à volta, para a sociedade como um todo.
4. Um problema ético?
O Dirigente Kim Jong Il, proeminente pensador que enriqueceu profunda e largamente o arcabouço teórico revolucionário, ensinou:
**“De acordo com a visão de vida individualista, não existe nada mais importante do que a vida individual, e a vida termina com a vida do indivíduo. Contudo, na visão de vida coletivista, a vida do coletivo é mais importante que a vida individual, e considera-se que a vida não termina com a vida do indivíduo, mas continua eternamente junto ao coletivo.”**³
Da mesma maneira, procriar, em si, não é um ato antiético. Pode ser encarado dessa maneira a partir do momento em que se vive numa sociedade e mundo tão decadentes que a ideia de fazê-lo impõe sobre quem pensa o grave sentimento de culpa por fazer alguém viver em tal mundo. Mas, desnecessário seria repetir, o problema é inteiramente social: a ideia de que seja algo antiético deixa de ser por completo se nos livrarmos desse sistema decrépito e transitarmos para o próximo estágio, como é requerido pelas leis do desenvolvimento social. Assim, torna-se algo feliz e dignificante.
Como parte de uma espécie, a natureza impõe sobre nós o imperativo da reprodução: o fato de o ato sexual ser prazeroso não é nada mais do que a manifestação prática disso. Como qualquer outra espécie, a nossa “quer” sobreviver, move-se em direção a isso involuntária e inconscientemente. O ser humano, porém, não é apenas um ser natural, mas social. E, em virtude de seus atributos sócio-historicamente formados — a independência, a criatividade e a consciência — não vive, como os demais animais, subalterno aos seus instintos; é guiado por sua consciência, munida de ideologia e conhecimento. Assim sendo, não sai simplesmente se reproduzindo a torto e a direito como um selvagem: fá-lo com propósito e fins bem definidos.
Destarte, sobre o homem, enquanto membro ativo e consciente da sociedade — não a capitalista, onde é objeto, mas na socialista, onde é sujeito — recai a honrosa obrigação moral de engrossá-la com novos integrantes para que ela viva para sempre e seja pujante com a força da juventude. Esta realidade contrasta diretamente com a capitalista: se, deste lado, às pessoas é imposta a reprodução para nada além de produzir mão de obra e força de trabalho a ser explorada pelo burguês, do outro, as pessoas assumem de bom grado e com consciência a sua responsabilidade como indivíduos para com o coletivo do qual fazem parte, para com a sociedade da qual elas se tornaram as genuínas donas. Um é um processo alienante e opressor; o outro, consciente e dignificante.
5. Conclusão
Assim, penso que é preciso observar com bastante atenção as crescentes tendências antinatalistas e abordá-las a partir de uma perspectiva correta: não culpabilizando os indivíduos; não tratando a questão como problema moral; mas lançando a luz sobre a sociedade, adoecida pelo capitalismo cada vez mais atroz e desesperado para sobreviver, que dá origem a tais fenômenos, e apontar a única saída possível: revolução comunista — conclusão que decorre não só dos imperativos das leis científicas do desenvolvimento social, esclarecidas novamente pela Filosofia Juche sobre a base do materialismo histórico-dialético avançado por Marx e Engels, mas também das irrefutáveis e eloquentes evidências oferecidas pelas experiências práticas da construção socialista de quase um século na Coreia socialista.

- KIM IL SUNG. Obras Selecionadas, vol. 5, p. 168 [edição coreana]. In: Editora de Livros Educacionais. *Psicologia Socialista*. Pyongyang, 1974.
- KIM IL SUNG. Obras Selecionadas, vol. 5, p. 465 [edição coreana]. In: Editora de Livros Educacionais. *Psicologia Socialista*. Pyongyang, 1974.
- KIM JONG IL. Para estabelecer a visão revolucionária do Juche, texto original, p. 29 [edição coreana]. In: Kim Chol Ang. *Introdução à Filosofia Juche*. Tóquio, 1992.
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