C39. Como pensar um pássaro na asfixia da tortura?
“É raro as estruturas de autoridade terem uma justificação: não têm nenhuma justificação moral, não têm nenhuma justificação segundo os…
C39. Como pensar um pássaro na asfixia da tortura?
“É raro as estruturas de autoridade terem uma justificação: não têm nenhuma justificação moral, não têm nenhuma justificação segundo os interesses da pessoa que se encontra abaixo na hierarquia, ou segundo os interesses de outras pessoas, ou do ambiente, ou do futuro, ou da sociedade, ou seja do que for. Apenas existem de modo a preservar certas estruturas de poder e dominação, e as pessoas que se encontram no topo.”
Noam Chomsky
O ido ano de 2015 ficou na história como o ano da definição da Agenda 2030 (ONU), constituída por 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A Agenda 2030 poderia teria sido uma agenda que fizesse justiça à adjectivação que lhe coube então: alargada e ambiciosa, com o propósito de “transformar o nosso mundo”. Abordando várias dimensões do desenvolvimento sustentável (social, económico, ambiental) procurava promover a paz, a justiça e instituições eficazes. Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável tinham como base à sua concretização os progressos e lições aprendidas com os 8 Objectivos de Desenvolvimento do Milénio estabelecidos ao longo dos 15 anos anteriores (entre 2000 e 2015) , e eram fruto do trabalho conjunto de governos, organizações e cidadãos de todo o mundo. A Agenda 2030 e os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável foram afirmados como “a visão comum para a Humanidade, um contrato entre os líderes mundiais e os povos e uma lista das coisas a fazer em nome dos povos e do planeta”. Uma boa-vontade que ignorou, ou fingiu não ver, o chão onde assentava: um território neoliberal até dizer chega, parafraseando João Rodrigues, onde qualquer projecto de mudança não é senão um simulacro, um leque a arrefecer o rosto dos reféns torturados para que aguentem, para que o ciclo persista. É por isso que quando se utiliza o termo sustentabilidade temos de questionar o quê e quem é que vai ser, em boa verdade, sustentado. Porém, ainda há quem acredite em pequenos gestos, ignorando que pequenos gestos garantem mudanças miniaturais. Urge, sob este dilúvio de desigualdades, uma alteração de vida radical. Basta deste tempo cínico em que a mudança apenas ocorre, neste como noutros assuntos essenciais, quando levas com a merda pela cabeça abaixo, isto é, quando se torna publicamente insuportável continuar a fingir. Então vem a onda de condenações. Também a pobreza é alvo de constantes lamentos e condenações, mas somente isso; jamais uma acção digna desse nome — apenas, justamente, pequenos gestos, tão envergonhados quanto dilatórios.
No final de 2025, 783 milhões de pessoas viviam abaixo da linha imaginária (vaga e variável) que traça o Limiar Internacional da Pobreza, ou seja, com menos de 1.65€ por dia. Mais de 11% da população mundial vive na pobreza extrema e luta para satisfazer as necessidades mais básicas na esfera da saúde, educação, bem como do acesso à água e ao saneamento. Por cada 100 homens dos 25 aos 34 anos, há 122 mulheres da mesma faixa etária a viver na pobreza, e mais de 160 milhões de crianças correm o risco de continuar na pobreza extrema até 2030. Não desafinado destes números, Portugal, que conta hoje com 1 milhão e 660 mil pessoas em risco de pobreza, só deixa as mesmas escapar às suas garras — afiadas com tantos instrumentos e cuidadas por tantos interesses — após cinco gerações.
“O «subdesenvolvimento» numa parte do mundo é a condição necessária para o «desenvolvimento» noutra.”
Silvia Federici
A pobreza tem de ser lida para além da mera falta de recursos e de rendimento que garantam meios de subsistência sustentáveis. A pobreza manifesta-se através da fome e da malnutrição, do acesso limitado à educação, à saúde e a outros serviços básicos, à discriminação e à exclusão social, bem como à falta de participação na tomada de decisões. A pobreza, escreveu Hannah Arendt, é mais do que a provação. É um estado de “constante necessidade e de miséria aguda cuja ignomínia consiste na sua força desumanizadora; a pobreza é abjecta porque coloca o ser humano sob a ditadura absoluta dos seus corpos, isto é, sob a ditadura absoluta da necessidade.”
É esta necessidade conjunta que tem de ser trazida à cena política e pública, depondo o regime que a instaura, alimenta, mima com grandiosos gestos e medidas solidárias, tudo para que permaneça impotente; mas ela é forte se conjunta, agregando todas as desesperanças e necessidades e se se fizer unida num grito insuportável para o poder, um grito capaz de fundar a liberdade e gerar a felicidade.
Corria o mês de Abril no ano de 2013, quando o Banco Mundial estabeleceu uma nova meta para acabar com a pobreza: que não haja mais de 3% da população mundial a viver com apenas 1,90 dólares por dia até 2030. [Traduzindo: erradicar é deixar um resto. ] Mas não. Como rãs atoladas no lodo, saltando de medo em medo, de esperança vã em esperança vã, sujeitos às coacções mais tenebrosas e a uma propaganda infinda enunciada pelo ‘capitalismo de crise’, permanecemos no charco. E, como tal, em vez de nos revoltarmos todos (porque precisamos de nos agigantar em comunidades) contra o sistema doentio que pereniza estas desigualdades e o triunfo da miséria, alteramos o calendário, conformamo-nos e engolimos o pouco de esmola com que somos brindados a cada dia.
O objectivo proposto de reduzir as situações de pobreza em 15 milhões até 2030 está muito longe de ser atingido. “É preciso fazer mais”, reconhece a Comissão Europeia, deixando reverberar na sala o final do adágio: com menos, sempre mais com menos. De resto, esta é a expressão que acompanhou todos os anteriores projectos: urge fazer mais; (coitados dos pobrezinhos).
Então a Comissão Europeia, que pretende por força de lei militarizar com urgência o continente até 2030, não quis a colisão de datas nem de prioridades e pontapeou para a frente a meta de erradicação da pobreza. Assim, apresentou um conjunto de orientações — eis tudo — que visam ajudar os Estados-membros a erradicar a pobreza na União Europeia (UE) até 2050 — hás-de morrer na miséria e o chulo em festa — com propostas que vão da habitação ao emprego, passando pela pobreza infantil.
Por cá, onde a pobreza desceu de 16,6% para 15,4%, para além dos alegres fogos de artifício já se principiou com uma reforma laboral exemplar. Da crise de habitabilidade (e não de habitação, como se repete continuadamente) sabemos já com que linhas nos cosemos, bem como o quão lucrativa é a especulação imobiliária. Em vez de discutirmos a ‘qualidade’, não apenas das casas, mas do espaço público, da integração urbana, do ordenamento do território estamos a pôr isso tudo em risco em prol da ‘quantidade’. “Estamos a dedicar terrenos classificados como rústicos à construção da habitação, com os enormes perigos de caixa de pandora que se abre, quando se toma uma decisão dessas. Temos 6 milhões de habitações, de grosso modo, e temos 4,1 milhões de famílias. O que quer dizer que temos um superavit de quase 2 milhões de habitações a mais do que famílias”, adianta Gonçalo Antunes. “Portugal é um dos países que tem mais habitações per capita.” Desmentindo os argumentos do sector imobiliário, oespecialista Ricardo Costa Agarez classifica a situação actual como “insustentável”. “É insustentável para as pessoas que, de facto, depois não conseguem viver numa cidade e que têm que ir viver para fora da cidade ou desistir e emigrar. E é insustentável também do ponto de vista do ambiente, porque nós estamos a produzir construção para aplicar dinheiro. Mais nada.”
“O artigo 65.º da Constituição da República Portuguesa é absolutamente extraordinário, porque é muito vanguardista e é muito progressista. Nem todas as constituições de países democráticos na Europa consagram o direito à Habitação — algumas não dizem nada, outras dizem um bocadinho nas entrelinhas. Na Constituição da República Portuguesa, é bastante claro aquilo que lá está”, assinala o investigador Gonçalo Antunes. O problema foi que a realidade das pessoas não acompanhou a Constituição. “Durante décadas, esse direito ficou letra morta. Ficou como um direito filosófico e hipotético, e não efectivamente concretizado, como deveria”, constata o especialista Ricardo Costa Agarez. “Nas décadas seguintes, na verdade, pouco ou nada se fez. E essa é que é a realidade”, concorda o investigador Gonçalo Antunes. As dificuldades de acesso à Habitação estão hoje, 50 anos depois da Constituição, novamente a ter consequências extremas. “É um problema que nos está a trazer outros problemas de volta”, continua Gonçalo Antunes. “Os tais bairros de barracas estão a voltar a aparecer na área metropolitana de Lisboa, já temos alguns bairros com centenas de habitações. O número de pessoas sem-abrigo está a aumentar (essa outra erradicação que o anterior Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa tomou em mãos), assim como os índices de sobrelotação habitacional — não só da população imigrante, mas também de portugueses que aqui nasceram.” (TSF)
No que toca à pobreza infantil soubemos, entretanto, que em Portugal 5% das crianças mergulhadas na pobreza não têm segurança alimentar (assim escrevem os media, mas traduz-se por: não comem) e metade não consegue participar numa actividade extracurricular ou de lazer por motivos económicos. Não puderam estar presentes, coitadas, no Chic Nic lisboeta. Diga-se que as medidas apresentadas pela Comissão Europeia constam naquela que foi a sua primeira Estratégia de Combate à Pobreza e que é composta apenas por orientações aos Estados-membros, não contendo qualquer proposta legislativa.
Respeitando a ordem dos dias e projectando de slogan em slogan a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável prometia não deixar ninguém para trás. Talvez esteja mais do que na hora, isso sim, de entrar impetuosamente pela riqueza adentro, em vez de eternizar a pobreza com cuidados paliativos e acções de primeiros socorros sobre um corpo moribundo carecido de tratamento urgente, profundo e violentíssimo.
Disse Martine Xiberras em As teorias da exclusão: “Existem, pois, formas de exclusão que não se vêem, mas que se sentem, outras que se vêem, mas de que ninguém fala e, por fim, formas de exclusão completamente invisibilizadas, dado que nós nem sonhamos com a sua existência, nem possuímos a fortiori nenhum vocábulo para designá-la.” Já Alfredo Bruto da Costa, em Exclusões Sociais afirmou: “(…) os principais factores explicativos da pobreza e da exclusão social devem procurar[-se] na sociedade: no modo como (…) se encontra organizada e funciona, no estilo de vida e na cultura dominantes, na estrutura de poder (político, económico, social e cultural), tudo são factores que se traduzem em mecanismo sociais que geram e perpetuam a pobreza e a exclusão. (…) a solução do problema requer a eliminação desses mecanismos, o que se não faz sem mudanças sociais”
Num tempo em que tudo propende a ser mensurado em euros, encontramos um alerta agudo na passada, mas actualíssima Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, sob o punho do Papa Francisco: “(…) enquanto não forem (…) solucionados os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade é a raiz dos males sociais (…). A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política económica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral.”
Sabemos, como bem disse Amartya Sen, em Pobreza e Fomes, que “morrer de fome é característico de algumas pessoas que não têm alimentos suficientes para comer. Não é característico de não haver alimentos suficientes para comer”.
Antiquíssima, longínqua, a pobreza, apesar dos muitos adereços da Hora, não desapareceu da face da terra, bem pelo contrário. Em alguns países, demasiados, diga-se, dilata-se e acentua-se. Perante isto, não pode prevalecer uma cegueira, mais ou menos deliberada, um mutismo cúmplice perante milhões de pessoas que sobrevivem em precariedade extrema, que não têm um trabalho digno e se vêem apartados de qualquer participação na vida económica, social, política e cultural.
Como afirmou Maria Filomena da Silva Marques em A revisão da estratégia de apoio aos sem-abrigo: o caso de Lisboa: “A exclusão social é um fenómeno complexo, heterogéneo, multidimensional, universal e a sua abordagem é ainda mais difícil face à difusão nos diferentes discursos, tanto económico-políticos e jornalísticos, como nos académicos. A sua banalização adopta o conceito, por vezes, de uma forma equívoca. Assim, é da maior importância construir uma abordagem que seja uma explicação mais fidedigna e permita estabelecer uma definição mais completa. Não afeta apenas pessoas, mas também territórios e instituições sociais. Os lugares podem ser simultaneamente excluídos e provocar a exclusão nos indivíduos, pois são “destinatários de medidas e acolhedores de cidadãos.” São disso exemplo, no caso francês, os denominados quartiers difficiles [bairros complicados, não poucas vezes tidos como sinónimo de bairros sociais], onde existe: uma elevada concentração de famílias “desestruturadas”, um grande número de desempregados, pessoas com empregos precários, entre outras problemáticas. São territórios onde o isolamento social é enorme e onde existe uma significativa taxa de delinquência juvenil. Mas que útero a gerou; onde está a sua nascente? O que esperar daqueles a quem foi amputada a linguagem e encerrada a oportunidade de vida livre? Como pedir gestos democráticos e pacíficos a quem engole à força diariamente tirania e violência? Como refere Serge Paugam «(…) les individus ont conscience d‟hériter d‟un statut dévalorisé lorsqu‟ils résident dans un ensemble d‟habitations (…) dont la réputation est mauvaise (…) se sont inscrits dans la consience social de ses habitants, à tel point que les nouveaux locataires héritent d‟un statut dévalorisé et font l‟expérience de la disqualification social.» Mas a exclusão social tem de ser lida, essencialmente, numa desagregação social a diferentes níveis — económico, político, cultural, ambiental e social”
Vivemos um tempo onde tudo é sensibilização e consciencialização, quando é de uma acção radical e de ruptura com o sistema torturante que nos capturou e domina que precisamos.
“Existem muitas referências que comprovam que se registam mais pessoas a vivenciar situações de pobreza extrema ao ponto de ficarem desalojadas em contextos urbanos. Muitas cidades europeias com o passar dos anos, veem nascer cada vez mais ‘fronteiras internas’, não só sob formas físicas evidentes, mas também ao abrigo de leis e regulamentos administrativos que promovem a exclusão ao imporem condições e limites de acessos a serviços e a outros (…). A adopção deste tipo de políticas reflecte uma recusa ou falha em abordar os problemas persistentes das desigualdades e da pobreza, deslocando assim os riscos, em vez de atenuar os perigos que as pessoas mais vulneráveis enfrentam”, afirmou Alexandra Garcês Reis, em: Criminalização dos sem-abrigo na Europa: abordagens e políticas. De resto, as nossas cidades capitais não têm mostrado outro reflexo; vivem na ânsia imensa de serem acessíveis (a quem?), vendendo-se como meretrizes fáceis.
Mas recuemos. Em 2008, ano em que foi comemorado o sexagésimo aniversário da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, redigida em 1948 por Eleanor Roosevelt, o Banco Mundial difundiu uma nova apreciação da pobreza, situando o número de pobres a nível mundial em cerca de 1,4 mil milhões de pessoas. Ou seja, mais de 40% relativamente aos anteriores 930 milhões expostos no ano de 2005. Em quase um quarto de século, entre 1981 e 2005, contrariamente ao que poderíamos julgar, na Ásia Central e Europa de Leste, por exemplo, o número de pobres mais do que triplicou, passando de 7 para 24 milhões. E referimos o ano de 2008 por ter sido, sobretudo entre os países do sul da europa, nomeadamente Portugal, um ano crítico de uma jornada crítica, jornada essa que, se pontualmente viu sucessos nas suas coordenadas até aos nossos dias, admitiu-os de modo frágil, frugal e fragmentado. Justamente, se há 18 anos conhecemos números impensáveis e vergonhosos no que à pobreza concerne, alastrando-se esta por geografias até então ditas estáveis no panorama social, hoje, com estas novas crises num capitalismo de crise (o seu novel e precioso instrumento), essa terrível nuvem de chumbo regressa, mais pesada e tempestuosa, mais avassaladora.
Após convenções, cartas de intenção e compromisso, após tratados, acordos muitos e os mais variados documentos, após oceanos de discursos propagandísticos, colhemos incontáveis fracassos e pouca aprendizagem, violações mil e incumprimentos numerosos tanto das Constituições Nacionais quanto da Declaração Universal dos Direitos Humanos que é ainda e só, em diversos pontos do mundo, uma promessa, uma rôta esperança — para não dizermos mero ornamento retórico.
Dito de outro modo, e olhando os artigos 1º e 2º da Declaração Universal, podemos admitir, à imagem de Pierre Sané, que para os pobres, a afirmação destes mesmos artigos se expõe como uma fraude. Recordemos: “Artigo 1.º — Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. Artigo 2.º — Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.”
Actualmente, nada distantes do que nos disse Ricardo J. Rodrigues há 13 anos, se a década de 90 nos desenhou um universo de novos ricos, ‘os primeiros vinte anos do século XXI manifestaram uma outra figura social: os novos pobres.’
Ou seja, ter emprego, ter um curso superior, ter casa nos subúrbios, ter carro, ter cabo e acesso à net, ter telemóvel, ter os filhos na creche, ter visa, ter contas para pagar, ter dívidas, ter fome. A notícia parece que não existe. Mas a verdade é que está vivíssima e alastra. Os novos casos não estão nos escalões mais excluídos da sociedade. Estão na classe média, na geração em idade activa, nos que têm mais aptidões académicas e maiores expectativas de conforto. Esta é a crónica do teu vizinho do lado; quem sabe, esta é a tua própria crónica.
Gaspar Pereira Pessoa, presidente da Liga Nacional Contra a Fome (LNCF) falando da sua experiência, alerta que: “ninguém está livre de cair em desgraça (…). Há mais e mais gente a precisar de ajuda. Há mais e mais gente que tinha uma vida boa e que, de repente, se vê na estaca zero. (…) E o pior é que, ao primeiro impacto, ninguém dá a mão a ninguém. (…) A minha experiência nesta área diz-me que as pessoas, sobretudo estes novos pobres, só nos procuram quando estão desesperadas, quando deram voltas e mais voltas até esgotarem todas as soluções de recurso. Além de passarem fome, estão psicologicamente muito fragilizados. E isso é um entrave a que saiam do buraco e dêem a volta por cima.”
“Um mundo que vive apenas para trabalhar e trabalha até morrer é um mundo de dispépticos que se prepara para se transformar num mundo de semidementes”. “Com toda essa disciplina a toque de caixa, apenas se conseguiu que a vida não mereça ser vivida. No Japão, ao número de mortes causadas pelo excesso de trabalho soma-se o número de suicídios originados pelo desemprego. Durante a sua patrulha anual pelos bosques de Aokigara, no fim de 2012, a polícia japonesa encontrou setenta e três cadáveres, na sua maioria jovens que tiraram a vida por não conseguirem emprego, ou por terem sido despedidos. (…) Penso nesse bosque de cadáveres, no sopé do majestoso monte Fuji, e recordo aquela frase de Morand: ‘A velocidade é um caminho juncado de mortos, uma sede perpétua que nada sacia, um suplício omitido por Dante.’
Vivian Abenshushan
Recolhidos em mutismo, emaranhados em sentimentos de vergonha, culpa e ressentimento, os indivíduos afectados pela pobreza, ficam paralisados e silenciosos, na celebração de um dilacerante grito surdo interior que não encontra palavras para a explicação, assunção e transfiguração de um viver labiríntico e cruciante. Tem-se desenhado um novo paradigma, que as palavras de Ana Carrilho, outrora coordenadora do departamento de acção social da Santa Casa da Misericórdia de Sintra, referem: “o número que mais cresce é de pessoas que nos habituámos a considerar das classes alta ou média-alta. São licenciados que não conseguem a integração no mercado de trabalho (…) entre os trinta e os quarenta anos, com empregos, com os filhos na creche, com dívidas. (…). Esqueça tudo o que pensava sobre o pobre. Antes, o pobre (…) era identificável. Agora são pessoas como nós, bem vestidas, com bons carros. É neste sector da população, nos subúrbios das grandes cidades, que o problema da fome está a crescer.” E trata-se igualmente de uma vergonha que, sendo transversal pois, dá a cara no feminino — rosto de um silêncio que domina sobretudo o ‘orgulho masculino’ ainda tão presente na Hora, pois: “são sobretudo mulheres (…). Os homens ficam nos carros, por vergonha. Elas também têm vergonha, não querem perder a única coisa que lhes resta da vida anterior, que é a sua dignidade.”
Actualmente, assoberbados ainda pelas consequências acidificadas pela nuvem pandémica que assolou o mundo, atónitos (mas não muito) com a multiplicação das guerras mundo fora, asfixiados sob governos caquistocratas e ególatras, este novo rosto de pobreza tende a consolidar-se e a perder essa mesma noção de novo, e o pior, não se manifesta já de modo episódico e superável, senão em crescimento contínuo e intransponível.
Justamente, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a FAO, alerta para o facto de entre 2015 a 2022 a fome ter praticamente duplicado na América do Sul. E neste período, num só ano, 4 milhões de pessoas foram empurradas para a fome na América Latina e no Caribe. [No escuro permanecem os dados actuais da insuportável vida cubana, que sofre uma guerra sem bombas.] Em 2025, 266 milhões de pessoas em 47 países enfrentaram altos níveis de insegurança alimentar aguda, um número que é praticamente o dobro em relação a 2016. O Relatório Global sobre Crises Alimentares de 2026 publicado pela ONU, avisa que a insegurança alimentar aguda duplicou na última década, com apenas 10 países concentrando dois terços das pessoas afectadas, destacando os conflitos e a crise climática como factores agravantes. A nível global, o relatório SOFI 2024 (publicado em Julho de 2024) destacava que 733 milhões de pessoas enfrentavam a fome em 2023, representando um retrocesso de 15 anos nos avanços contra a desnutrição. A América Latina e o Caribe, embora tenham apresentado uma queda na prevalência da fome, contavam ainda com 25,2% da população enfrentando insegurança alimentar moderada ou grave em 2024, com mais de 33 milhões de pessoas a sofrer com a fome na região. Hoje, anos depois dos constantes alertas da FAO, os valores, oscilando, permanecem. Imaginar este corpo comum de pessoas exploradas, pobres, subviventes, asfixiadas na necessidade, todas juntas, é uma visão de força que não percebo porque se demora na transfiguração do solo por meio do derrube deste capitalismo carnívoro.
“Um dos principais projectos do capitalismo tem sido a transformação dos nossos corpos em máquinas de trabalho (…) Já somos mutantes, capazes, por exemplo, de prosseguir com o nosso quotidiano mesmo sabendo que acontecimentos catastróficos ocorrem à nossa volta, incluindo a destruição do nosso ambiente ecológico e a morte lenta de muitas pessoas que hoje vivem nas nossas ruas, por quem passamos diariamente sem pensarmos muito nem demonstrarmos algum tipo de emoção.”
Sílvia Federici
De acordo com os dados apresentados, a proporção de pessoas afectadas pela fome vinha mantendo-se praticamente inalterada desde 2015, próxima de 8% da população global, contudo, nos últimos anos, o número foi crescendo. Os últimos relatórios fornecem novas evidências de que o mundo se afasta, cada vez mais, de seu objectivo de acabar com a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição até 2030; corrija-se, é até 2050. Uma vez mais uma data adiante, atirada na distância, como um cego esticando os braços por sobre o precipício. O director executivo do Programa Mundial de Alimentos, David Beasley, afirma que existe um perigo real de que esses números subam ainda mais nos próximos anos. Os picos globais de preços de alimentos, combustíveis e fertilizantes, agravados pelas crises geradas no útero das mais diversas guerras, ameaçam levar países em todo do mundo à fome. Para Beasley, o resultado será a desestabilização global, fome e migração em massa numa escala sem precedentes.
A pergunta que se coloca é então: como pensar um pássaro, um voo, um beijo, uma flor, como pensar uma imagem, um gesto, um sopro, um som, um verso, como indagar curioso uma escultura, assim, de mão dada com a fome dentro dos filhos? Como decidir de modo lúcido, como escolher responsavelmente um representante político, por exemplo, quando a fome, que não pensa, vai à frente de todos os passos e deixa os ouvidos dispostos a todas as propagandas, assim tão fáceis de emprenhar? Como pode ser habitarmos diariamente este brincar aos ziguezagues legislativos, aos malabarismos discursivos e falsos arrufos de feira, às notícias e auxílios quando o tumor alastra, consome e mata impiedosamente? O que será necessário para vermos que aquilo que habitualmente é chamado de poder não é senão responsabilidade de acção? Para quando o entendimento claro de que o dinheiro é um instrumento, e não o ser humano o seu divertimento, a sua plasticina, o seu escravo-fantoche para torturar? Como deixar correr este curso finíssimo e silente de riqueza acumulada em apenas 1% da população, esses que querem que trabalhes mais, produzas mais para, justificam, te pagarem mais uns cêntimos, mesmo quando fica provado (não escondendo os próprios o embaraço de tal facto) que os seus lucros são pornográficos. Para quando o derrube deste porno-riquismo? Até quando vamos admitir que um boneco em chefe ganhe 226 vezes mais do que a média dos trabalhadores, que as remunerações dos CEO são 53 vezes maiores do que as dos trabalhadores das suas empresas? Se os salários médios dos trabalhadores portugueses continuam entre os mais baixos da Europa, os pacotes salariais destes executivos em nada se comparam. Muitos incluem carro com motorista, combustível sem limite, seguros de saúde e de vida, planos complementares de reforma e até descontos na luz e gás, além de habitação paga pela empresa.(JN) Para quando, pois, sairmos desse afago vão sobre o sangue? Para quando deixarmos de soprar unicamente sobre a ferida e, na assunção do pântano doloroso, drená-lo?
Em La pauvreté, Claude-François Barrat afirmou que “a pobreza herda-se. Não há nada de novo nisso: Bourdieu fala da herança cultural. Nós somos todos ‘herdeiros’ das nossas origens familiares e de uma cultura familiar. Há, pois, um fenómeno de transmissão intergeracional da pobreza e, por consequência, reprodução social do fenómeno. Mas há pior: a escola contribui para manter as desigualdades sociais (…) ela permite aos grupos sociais mais favorecidos culturalmente perenizar a sua dominação cultural, atirando as crianças das famílias pobres na pobreza e na exclusão”
Foi já na década de 80 que se realizaram os primeiros estudos acerca da pobreza em Portugal. Só em 1985 se realizaria o primeiro inquérito direccionado especificamente à pobreza, coordenado por Alfredo Bruto da Costa e Manuela Silva, dois dos autores pioneiros em Portugal no estudo do fenómeno tendo concluído que, e seguimos o estudo de Hugo Pinto e Jorge André Guerreiro: “48% das famílias residentes no Continente viviam em condições de pobreza”. Estes números assustadores, que contrastavam com a aparente prosperidade económica dos últimos 20 anos do Estado Novo, desaguam, justamente, dessas décadas precedentes onde, e primeira nota, se “vivia uma ‘aceitação’ de vocação da pobreza, a dita pobreza honrada — um dos mitos do Estado Novo” (Fernando Rosas). Ora, justamente, nos últimos tempos, através de um estudo da PORDATA, soubemos que mais de 4 milhões de pessoas, antes de apoios sociais, são pobres. Vamos repetir: sem os apoios sociais, 4,4 milhões são pobres ou têm rendimentos abaixo do limiar da pobreza [actualmente estabelecido nos 723 euros mensais]. Todos os ciclos legislativos nos são apresentadas estratégias nacionais e internacionais para o combate e a erradicação da pobreza. O processo é lentíssimo e curto, muito curto. Está viciado e é gerido pela indiferença do explorador que é também o promotor da alteração; ele é o solidário. Não chega. É para derrubar. Mas qual solidariedade?
A solidariedade, e repito-me, tem de ser muito mais do que um sentimento de zelo pela propriedade alheia. Por outro lado, ela não pode ser o gesto que vem manter a circuito doentio que encarreira o desastre até nova catástrofe. Por vezes, a ferida material é a fissura necessária à transfiguração. Nem tudo o que se quebra deve ser reparado. A solidariedade deve romper com os muitos e apertados limites morais (definidos e controlados pelo capital) e agir, multiplicando-se, não como a acção de um anjo, mas de um demónio que vem, justamente, combater o sagrado instituído. Ela não pode ter medo de se confrontar com o poder ou será um mero gesto disciplinado pelo capital minimizando estragos e necessidades, mas sempre incapaz de as desmantelar porque vinculado a um processo de futuros abortados.
A solidariedade não pode vir em função de um crescimento do lucro daqueles que, aqui, com as suas práticas predatórias, exploratórias e de acumulação são os pais da catástrofe, e ali, dela beneficiam de modo pornográfico. Ou seja, é ingénua, para dizer pouco, a solidariedade que paga do seu bolso rasgado e vazio a necessidade e a carência que a cerca — dando o exemplo alimentar — comprada às grandes distribuidoras que, quietas, amamentam ainda mais o seu cofre. A acção solidária vigorosa e transformadora seria a de assaltar o hipermercado. A caridade é uma máscara que falseia a solidariedade. Esta não pode vibrar à porta das grandes superfícies comerciais gerando um lucro monumental ao predador e uma monumental miséria à presa indigente, cumprindo um gesto da mais violenta desigualdade. E, no entanto, diante desta perversidade brutal, não te resta outra solidariedade, a ti que a procuras por em prática, e sobretudo àquele que a necessita. É da ordem da captura: reféns auxiliando reféns. Entretanto, os armazéns estão repletos de alimentos prontos para ir para o lixo, justamente porque dá mais lucro esta prática do que a sua distribuição. O desperdício é muito lucrativo. Mas nem só com a alimentação. Há muito que se destrói *o lixo* para que não possa ser reaproveitado. A miséria é a garantia do sistema. Este, diante dos teus olhos, manifesta-se tal qual é: “distribuição de morte ao domicílio” (Cesariny). Não vê quem não quer.
Basta de estar atado numa esperança palerma. Erradicar a pobreza? Não vai acontecer; não sob o jugo deste neoliberalismo. Precisamos rebentar o chão de cimento; de outro modo nenhuma semente germinará e a chuva, por mínima que seja, em vez de regar, inundará mortalmente. Não queiras ser o corpo atado a outro corpo: a jangada de sobrevivência de quem te extorquiu toda a vida.
“Trabalhar, hoje, prende-se menos com a necessidade económica de produzir mercadorias do que com a necessidade política de produzir produtores e consumidores, de salvar por todos os meios a ordem do trabalho.”
Comité Invisível

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