O Clássico Baixo-Astral
Por Aline Adelino e Ernesto Teixeira
O Clássico Baixo-Astral
Por Aline Adelino e Ernesto Teixeira

Em 2005, ABC e América possuíam momentos parecidos. O ABC tinha ficado sem divisão em 2004 e buscava a classificação para a Série C 2005 no estadual daquele ano. O América acabava de ter sido rebaixado à última divisão nacional, estava em crise política, sem presidente, e buscava se reerguer, sendo conduzido por um grupo de conselheiros americanos que formaram a AMEPAR.
Mesmo em fases tão ruins, o primeiro Clássico do ano se apresentou de uma forma mística. Estádio Machadão, mais de 16 mil pessoas, torcidas meio a meio, torcida do América estreando bandeirão, Sergio Alves e Ivan no ataque abecedista. Sim! Era apenas mais uma rodada da primeira fase do campeonato potiguar daquele ano, mas era também a disputa simbólica da cidade. O movimento na semana inteira, cobertura da imprensa. Provocações, inclusive no finado orkut. Disputa nas arquibancadas, jogadores que não se furtavam a prometer gols e vitórias. O placar de 2 a 2 foi a cereja do bolo.
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Sim! Houve um tempo em que acordar em dia de Clássico-Rei tinha outro peso. Mais que um jogo na tabela, era assunto no ônibus, na padaria, na fila do caixa eletrônico, na sala dos professores, no trabalho, na escola, no portão de casa. O clima se construía aos poucos, na provocação bem-humorada, na expectativa, na sensação de que algo importante estava para acontecer. Hoje, porém, parece que o clássico centenário amanhece mudo.
Parte disso passa, inevitavelmente, pela forma como o futebol vem sendo mediado. A cobertura esportiva local, hoje impedida de acesso livre aos treinamentos, e cada vez mais dependente do material enviado pelas assessorias, transformou o noticiário em vitrine institucional dos clubes. Fotos posadas, falas ensaiadas, vídeos editados, frases que não dizem nada além do socialmente aceitável. Some-se a isso a pressa das redes sociais e temos um produto limpo demais, controlado demais, sem conflito, sem cheiro de arquibancada, sem tensão real. O clássico, que deveria ser disputa simbólica, virou postagem protocolar. Não há qualquer cobertura das arquibancadas, dos bastidores, a torcida não é ouvida pela mídia.
Quando a mídia se limita a reproduzir releases, perde-se o que sempre deu vida ao futebol: a narrativa. O que o jogador realmente pensa? Como está o vestiário? Que feridas estão abertas? Que promessas foram quebradas? Que provocações atravessaram o muro do treino? Sem isso, o jogo vira apenas um evento esportivo, e não um capítulo de uma história maior que a cidade acompanha há mais de um século. E o futebol não pode ser limitado a partidas. Que pobre seria se assim fosse. A mídia perde uma boa oportunidade de cobrir os dois times que, agora, estão na mesma série e, pelo menos em teoria, irão brigar de igual para igual.
Mas o esvaziamento não é só comunicacional. Ele também é emocional. O distanciamento entre clubes e torcidas, a elitização dos estádios, a falta de acesso dos torcedores aos treinamentos, os elencos que mudam sem que a torcida crie um elo, tudo contribui para a sensação de que nada é duradouro o suficiente para criar pertencimento. Rivalidade precisa de continuidade, de memória, de personagens recorrentes. Quem é o ídolo do América que se importa em provocar o torcedor abcdista? Será que algum jogador do ABC dará assistência para o gol de número 100 de wallyson para que seja emblemático num clássico? Sem isso, o clássico vira só mais um compromisso de agenda.
O resultado é um futebol que murcha. Não por falta de paixão das torcidas, ela ainda existe, resistente, teimosa, mas por falta de estímulo coletivo. A paixão precisa ser alimentada por histórias, por disputas simbólicas, por discursos que escapem do marketing. Quando tudo é filtrado, quando ninguém pode dizer nada que fuja do script, o jogo perde densidade, perde drama, perde humanidade.
Talvez o que falte ao Clássico-Rei não seja qualidade técnica (por mais que falte neste caso a vários jogos), mas voz. Voz da arquibancada, voz do bairro, voz do torcedor comum, voz do repórter que pergunta o que incomoda e não apenas o que cabe no post. Futebol não sobrevive só de imagem bonita; ele precisa de ruído, de contradição, de narrativa em disputa. Futebol precisa ser político.
Enquanto a cobertura continuar tratando o clássico como produto e não como fenômeno social, ele seguirá existindo no calendário, mas não no imaginário. Por isso, realmente não precisa de transmissão na maior emissora do estado, passa-se o jogo do Flamengo mesmo… Clássico que não ocupa o imaginário vira apenas jogo. Jogo que se esquece na manhã seguinte. Jogo que já não acorda a cidade.
O resultado dessa sucessão de acontecimentos é um baixo astral em ambas as torcidas. Não há empolgação. Não há provocação sadia. Se fala de tudo na cidade, menos do principal jogo de futebol que existe há mais de 110 anos.
É isso que dói, perceber que não foi o torcedor que deixou de sentir, foi o futebol que deixou de provocar.
Se um dia esse clássico já foi chamado pelo imprensa de Clássico dos Clássicos, ou de Clássico das Multidões, antes de ser chamado de Clássico Rei nos anos 1960, hoje está mais para Clássico Baixo-Astral. Uma pena!
메타데이터
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