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Em nome do mistério: Como histórias com abadias e livros podem ser tão fascinantes

A leitura é um dos primeiros prazeres que podemos descobrir na vida que nos permitirá ampliar nossos horizontes culturais. Livros são…

Horizontes Culturais · 2024-04-17 00:59 · 0 claps · 4.5 min read
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Ao longo das décadas histórias envolvendo abadias e seus monges copistas seguem nos fascinando — Foto: Colagem/Reprodução

Ao longo das décadas histórias envolvendo abadias e seus monges copistas seguem nos fascinando — Foto: Colagem/Reprodução

Em nome do mistério: Como histórias com abadias e livros podem ser tão fascinantes

A leitura é um dos primeiros prazeres que podemos descobrir na vida que nos permitirá ampliar nossos horizontes culturais. Livros são verdadeiras janelas de conhecimento, nos permitem vivenciar experiências e histórias em nossas mentes. Este é um poder que os livros sempre tiveram, milhares de anos antes que o homem conseguisse acessar o primeiro site e a internet se tornasse esse fenômeno de diversão e aprendizagem ao qual temos acesso atualmente.

Para aqueles que apreciam a leitura a aquisição de um novo livro é sempre algo mágico. Se é um livro novo, a experiência de abri-lo pela primeira vez se torna uma experiência quase mística. O cheiro do livro, o seu tamanho, a expectativa gerada em torno de tudo que ele lhe apresentará. No caso de livros usados a experiência de descobrir o objeto pela primeira vez é igualmente ímpar, você pode até mesmo sentir a energia que ele carrega, a energia deixada pelos corpos humanos que por muitas horas de leitura o seguraram e permitiram que o leitor experimentasse aquela história.

E trazendo para os leitores uma verdadeira obra-prima em que o livro, esse objeto tão sacrossanto para aqueles que apreciam a leitura, é o grande protagonista, o grande vilão e o grande objeto de desejo de personagens e leitores, o italiano Umberto Eco nos presenteou com O Nome da Rosa. Livro simplesmente impecável, não há leitor que já tenha se debruçado sobre o livro que não tenha sido impactado pela aventura de William de Baskerville e seu jovem ajudante Adso.

Uma grande dose de sabedoria usada por Eco ao escrever sua obra reside exatamente na escolha do cenário definido por ele para que se passe toda a trama de sua obra, uma abadia beneditina com monges copistas aficionados por seu trabalho. Uma abadia do início da idade moderna já era um ambiente repleto de mistérios suficientes para atrair qualquer leitor para uma boa história, mas toda a forma como Umberto compõe a aventura de seu franciscano inglês e do jovem beneditino alemão em terras italianas é de tirar o fôlego.

O Nome da Rosa consegue nos apresentar por meio dos personagens grandes debates sobre a natureza humana e as diversas formas em que a ganância leva a caminhos indesejados.

Os personagens da obra literária italiana são tão cativantes justamente porque todos eles são plausíveis, todos dotados de mal e bem, não há ninguém que se mostre puramente bom ou puramente mal, não há um modelo ideal ou um modelo de vilania. Cabe antes de tudo ao leitor definir o que ele acha de cada personagem e formular as próprias conclusões diante de tudo.

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Na esteira deste grande livro que em 1986 tivemos sua adaptação para os cinemas. Estrelado pelo grandioso Sean Connery, que podemos dizer é o ponto alto desta obra cinematográfica, o filme tem seu maior mérito apenas em comprovar que algumas obras literárias são grandiosas demais para se adaptar em parcas horas de película.

O filme planejado pode ter sido uma obra grandiosa, mas a adaptação que podemos assistir é definitivamente algo muito abaixo daquilo que encontramos nas páginas do livro escrito por Eco. Parece uma representação apressada, carente de detalhes e sem o devido esmero, um filme feito para ocupar horário na grade vespertina de algum canal televisivo em qualquer dia da semana em que não surja opção de programação melhor.

Repito, Sean Connery tem uma atuação fantástica nesta obra e para qualquer um que admire a obra do ator escocês vale a pena assistir ao filme, mas tão somente por isto.

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Ainda na esteira de adaptações de O Nome da Rosa trago para vocês o que poderíamos dizer que apesar de não ser uma adaptação da obra de Eco, é certamente um projeto que bebe diretamente da fonte construída pelas páginas da Magnum Opus do autor italiano. Recomendo-lhes o jogo Pentiment — Behind the Ink. O Belo jogo do estilo metroidvania não busca replicar a história já escrita por Eco, mas também não se envergonha de ter nele uma grande inspiração.

Este jogo, que, na verdade, brinca em alguns momentos com a semelhança de sua história e do clássico literário, você terá que viver na pele de um jovem artista que está podendo trabalhar de favor em uma abadia beneditina que tem um ***scriptorium*** com monges copistas trabalhando em livros e manuscritos. O jogo, assim como na obra de Eco, se passa no período em que a capacidade de copiar livros já não é uma exclusividade de monastérios e abadias, com universidades e estúdios de artistas sem ligação à Igreja Católica exercendo a atividade.

No jogo, o protagonista também é incumbido de resolver um mistério envolvendo um homicídio. O jogo possui uma grande semelhança com a história criada por Umberto, como eu já disse, mas não se trata de uma cópia que não dá os devidos créditos ao autor original, mas podemos dizer que O Nome da Rosa teve um filho na era da tecnologia e trata-se de The Pentiment.

As citações a figuras como Preste João enriquecem ainda mais o jogo — Foto: Reprodução

As citações a figuras como Preste João enriquecem ainda mais o jogo — Foto: Reprodução

Mas o ponto alto deste jogo, principalmente para aqueles que já leram O nome da Rosa, obra com enredo inegavelmente superior, é a estilística adotada na criação deste material. O esmero que os produtores utilizaram a desenvolver o jogo tornam-no uma verdadeira obra de arte. O estilo dos gráficos, totalmente inspirado nas iluminuras que costumamos ver em livros produzidos em abadias da época em que o jogo se passa, é um primeiro ponto a se destacar. Sem utilizar de grandes recursos gráficos, um ponto positivo, pois a maioria dos computadores consegue rodar este jogo sem grande desafio, o jogo é definitivamente belo e traz uma grande experiência imersiva para o jogador.

A trilha sonora e a jogabilidade são outros pontos altos, simples, mas imersivas, permitindo ao jogador querer mergulhar cada vez mais no jogo e perdendo horas jogando sem sequer se dar conta disto. Mas como um jogo que tem os livros como ponto de destaque, Pentiment tem uma escolha artística que achei simplesmente um toque de genialidade. Enquanto os personagens falam e suas frases surgem em balões, o texto é escrito em diversas fontes e estilos que marcam suas idades, suas origens e seu nível e instrução. De fato, o jogo vem para nos lembrar em nosso tempo o que Eco nos lembrou ao lançar O Nome da Rosa: livros e abadias nunca deixarão de nos exercer fascínio, se estiverem presentes em boas histórias.


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