Relações que oprimem
Eu sofri todas as violências que uma mulher pode passar.
Relações que oprimem

Eu sofri todas as violências que uma mulher pode passar.
Essa foi minha primeira frase ao sentar no Aquário realizado no último festival Social Good Brasil. Para quem não conhece, Aquário é uma ferramenta de conversa colaborativa em que um grupo pequeno de pessoas senta no centro de um círculo maior para compartilhar suas experiências e reflexões, enquanto o restante observa em silêncio. É um espaço de escuta ativa e acolhimento que convida à vulnerabilidade.
O tema daquela experiência era: Quais as relações que te expandem e que te oprimem? Enquanto ouvia os anfitriões falarem de relações que os fizeram crescer — amizades, parcerias de trabalho, vínculos conjugais –, minha mente foi para um caminho diferente. Lembrei de todas as relações que me oprimiram. Foram muitas, inclusive a relação que eu tinha comigo mesma. Uma corrente de energia começou a passar pelo corpo desde o dedo do pé até a minha cabeça, me impulsionando a levantar e a ser a primeira a falar sobre o tema na roda. Pela primeira vez na minha vida, falei em voz alta e para muitas pessoas presentes que eu tive várias relações abusivas, além de ter sido violentada sexualmente.
Eu realmente não lembro exatamente as palavras que pularam da minha boca naquele momento, mas senti por várias vezes a dor e o desespero que eu vivi tantas vezes em que fui abusada. Me reconectei com a Juliana que em vários momento se manteve em relações que não a expandia e sim, a engolia. Lembrei-me da força que fazia ao me defender, da culpa que sentia depois do abuso. da culpa de ter ficado, de ter bebido, de ter me colocado em situações em que eu poderia, ser machucada. Me encontrei com o Não tantas vezes dito ao sofrer violência sexual, de desespero de ter ficado sem nada, depois que um homem me tirou tudo, dos momentos em que eu me perguntava se eu estava tão errada sim, ao ser manipulada, do medo nos olhos do meu filho ao me ver sendo agredida.
Fiquei de frente com uma Juliana que há muito tempo se escondia, dei espaço, convidei para sentar, ofereci um abraço, e pela primeira vez em muito tempo, honrei essa mulher que tanto aguentou e ainda foi simpática. Essa mulher que mesmo tão abusada, criou e educou seu filho, sem o apoio do genitor. Que mesmo diante de tantas dificuldades construiu uma carreira, se dedicou profissionalmente, estudou, quis ajudar outras mulheres.
Depois de alguns minutos ali falando, eu parei, passei o bastão da fala, silenciei. Fiquei meio zonza, quis sair da sala, mas alguém me pediu que eu ficasse na roda por um tempo. Após a finalização da experiência, fiquei com vergonha de ver as pessoas, fiquei com vergonha das pessoas terem me visto, por completa, desnuda, vulnerável. Levei um tempo para entender que aquele momento foi importante para que eu me alinhasse com a Juliana que eu fui, com a que sou hoje, e a que vou ser amanhã.
Depois do fim da minha última relação amorosa, decidi pausar as relações externas, para construir uma relação saudável comigo mesma, para que a partir de uma base sólida de auto afeto eu possa abrir espaço para uma relação saudável de amor e respeito com outra pessoa.
Hoje, agradeço e honro a minha história. Honro também a história das minhas ancestrais e de tantas outras mulheres cujas vidas foram marcadas pela violência, que tiveram suas forças minadas e suas alegrias roubadas. Mas que, mesmo assim, resistiram. Acredito que, ao compartilharmos essas histórias, podemos transformar as vidas das mulheres que vêm depois de nós.
Com esse relato, surge também a necessidade de compartilhar uma mudança significativa na minha trajetória: a pausa na Ekuali, Consultoria voltada para a Equidade de Gênero que fundei há dois anos ao lado de uma amiga advogada. A Ekuali nasceu do desejo de apoiar empresas no enfrentamento ao assédio moral e sexual, além de promover palestras e treinamentos sobre equidade de gênero, uma causa que me motivou profundamente após anos de violência vividos e minha especialização em Direitos das Mulheres, concluída com uma pós-graduação. No entanto, trabalhar comercializando produtos e serviços voltados para essa temática acabou desencadeando gatilhos emocionais dolorosos, agravados pela baixa prioridade que o mercado ainda dá a questões tão urgentes e essenciais.
Por isso, a Ekuali será pausada, sem previsão de retorno, para dar espaço a novos sonhos e objetivos. No entanto, meu compromisso pessoal com o apoio a outras mulheres permanece inabalável.
메타데이터
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