Os fantasmas de Merinó
Entre os fantasmas que habitam o homem, nenhum é tão letal quanto a inveja e a ganância.

O Solar Assombrado, de Ganymédes José
Os fantasmas de Merinó
Entre os fantasmas que habitam o homem, nenhum é tão letal quanto a inveja e a ganância.
Após muitos anos em posse do Solar da Marquesa Domitila de Castro, localizado na região de Higienópolis, São Paulo, o Dr. Imperador Merinó e sua esposa, Libernácula, decidem vendê-lo. Seu fim será a demolição, com um grande edifício erguido em seu lugar.
Porém, um pouco mais adiante, na ocasião de um grande jantar, a razão da venda é revelada: o desejo do casal é de evitar discórdias quanto ao direito de herança entre os familiares. Em zelo, o próprio doutor diz: “como sabemos que o dinheiro é sempre fonte de malquerença, desentendimento, desarmonia, disputa e até morte, Libi e eu achamos melhor vender o imóvel, livrando-os dessa desagradabilíssima herança”.
Reunidos um dia antes da assinatura da venda do Solar, nesse grande jantar, os únicos parentes dignos da herança – estes, da parte de Merinó – não ficam nada contentes com a informação. Além da destituição da possibilidade de posse, ainda seriam testemunhas da tal assinatura.
Merinó não arreda de sua decisão, apesar dos protestos. Assim, maldades inflamam os corações dos convidados da vez, que se aprontam para resolver o “terrível problema”.
Embora uma antiga história sobre a possível visita da fantasma da Marquesa perturbe alguns presentes, em cada quarto do Solar, à sua própria maneira, as mentes perambulam em busca de meios de conquistar o lugar — e isso, terrivelmente, ainda que custe a vida de Merinó.
Nos primeiros cinco capítulos de O Solar Assombrado, o autor Ganymédes José se debruça [sutilmente] sobre a seguinte tese: inveja e ganância são poderes incríveis, capazes de destruir vidas.
Na vida ordinária, não é raro que muitos tenham mais do que outros: saúde, beleza, conhecimento, força de vontade, caráter etc. Todavia, a inveja impera sobre o ter mais do que outro, e a ganância se manifesta no encanto do poder de simplesmente ter mais. A combinação dessas duas forças é deveras trágica.
Embebidos de ambas, os parentes de Merinó, no calor da madrugada, maquinam suas próprias ações com certa urgência — o tempo é curto. Mas, como esperado, a fantasma da Marquesa lhes causa assombro e, de uma forma ou de outra, atrasa seus planos.
Contudo, ainda assim, a presença da Marquesa não é um problema, mas apenas mais um incômodo no meio do caminho de cada um. E veja que ironia: o resquício fugaz da morte - um fantasma - tenta [indiretamente] afastá-los de seus torpes pensamentos, mas seus corações se apressam, com muito furor, e fazer o mal em troca de um “bem maior”.
Seja pelo luxo e glamour que o lugar poderia proporcionar, ou pela grana que o Solar poderia gerar, ganância e inveja falam mais alto que a razão. O passado, na forma de concreto, ali, no vívido presente, ressoa mais do que a própria vida de Merinó — na vã circunstância, um velho lugar vale mais do que a singela existência de um tio, cunhado e irmão.
Tal como alerta Tiago em sua carta, nas Sagradas Escrituras, “onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males” (Tg 3.16), é bom que fiquemos atentos aos fantasmas que, ainda em vida, tentam tomar as nossas [vidas] em favor das suas que em si mesmas já se definham.
E, para além dos outros, tomemos cuidado para que nós mesmos não nos tornemos os tais fantasmas. Afinal, “a inveja é a podridão dos ossos” (Pv 14.30), e é de dentro que primeiro começamos a morrer.
REFERÊNCIAS
- Livro: O Solar Assombrado, de Ganymédes José — citação, página 15
- Bíblia Sagrada: Tiago 3 e Provérbios 14
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