Diante do Espelho
Ontem assisti à peça Dois de Nós, no Teatro TUCA. Quantos insights, quanta provocação essa história me trouxe. Posso elencar aqui diversos…
Diante do Espelho
Ontem assisti à peça Dois de Nós, no Teatro TUCA. Quantos insights, quanta provocação essa história me trouxe. Posso elencar aqui diversos temas pelos quais a peça instigou e emocionou o público.
Mas, dando passos atrás, mais precisamente algumas semanas antes, também assisti à peça Hamlet — Sonhos que Virão, no Copan. O famoso personagem de Shakespeare traz, nas falas de Hamlet, a ideia de que a arte é um espelho e tem o papel de revelar, expurgar e, por que não, elaborar nossas dores e alegrias. A arte também possui uma função terapêutica: expressar aquilo que é indizível. O próprio Freud já havia percebido isso ao afirmar que “o artista vem antes da psicanálise”.
Voltando à peça Dois de Nós, pude observar as expressões do público diante desse espelho que a impecável e tocante interpretação de Antonio Fagundes, Christiane Torloni e todo o elenco nos proporcionou — levando-nos a olhar para nós mesmos, para o nosso papel nas relações e no mundo.
Para além da história de um casal, é a história de todos nós. Com um texto impecável, é fascinante observar como a arte e todas as suas expressões nos interpelam, levando-nos a revisitar nossas dores e alegrias, histórias parecidas que vivemos ou que sabemos que alguém viveu.
Ao meu lado, uma mulher foi aos prantos quando a personagem de Torloni descreveu a morte do filho, a responsabilidade pelo cuidado e a culpa que, histórica e injustamente, recaem apenas sobre a mãe. A peça também deixou o homem nu no palco, com o personagem de Fagundes expondo o ideal de um homem autossuficiente — e sua queda diante da pretensão de nunca poder falhar. Vi homens enxugando os olhos diante desse espelho que lhes foi posto.
Ao final, talvez essa seja uma das maiores potências da arte: reunir centenas de pessoas em uma mesma sala e, ainda assim, fazer com que cada uma delas assista a uma peça diferente. O texto era o mesmo. Os atores eram os mesmos. Mas os espelhos refletiam histórias distintas.
Alguns se reconheceram na culpa. Outros, nas perdas. Houve quem se encontrasse nos silêncios, nas renúncias, nos ressentimentos acumulados ao longo de uma vida. E houve aqueles que se viram confrontados com a difícil tarefa de admitir a própria fragilidade.
Saí do teatro com a sensação de que a peça não falava apenas sobre um casal. Falava sobre os desencontros humanos, sobre as expectativas que depositamos uns nos outros, sobre aquilo que dizemos e, principalmente, sobre aquilo que deixamos de dizer. Falava sobre o tempo, esse personagem invisível que atravessa todas as relações.
Talvez por isso a história emocione tanto. Porque não nos permite permanecer espectadores. Em algum momento, somos convocados a subir ao palco. Não o palco real, mas aquele que carregamos dentro de nós, onde habitam nossas perdas, nossos amores, nossas culpas e nossos desejos.
A arte, quando acontece de verdade, não oferece respostas. Ela faz algo mais valioso: formula perguntas das quais não conseguimos escapar. E, naquela noite, Dois de Nós fez exatamente isso.
Saí do teatro sem respostas, mas com a estranha certeza de que as melhores peças são aquelas que continuam sendo encenadas dentro de nós muito depois de o pano cair.
메타데이터
- post_id
- 37fe2bbbf0cc
- slug
- diante-do-espelho-37fe2bbbf0cc
- url
- https://medium.com/@karinasanchescampanharo/diante-do-espelho-37fe2bbbf0cc
- canonical_url
- https://medium.com/@karinasanchescampanharo/diante-do-espelho-37fe2bbbf0cc
- author_url
- https://medium.com/@karinasanchescampanharo
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-13 16:00:06