Os místicos e a mística
Os místicos e a mística — Luiz Oliveira ( 03–02–2021 e 08–02–2021)
Os místicos e a mística
Os místicos e a mística — Luiz Oliveira ( 03–02–2021 e 08–02–2021)
Quando se trata da mística há ao menos dois pontos que são de grande dificuldade: A descrição do estado místico que se vive e a descrição das diversas místicas em pontos centrais. Se a mística é o contato pessoal e único com Deus, ela possui algo de indescritível e de irrepetível, e se é assim, então que sentido haveria em ler os místicos com a finalidade de também se tornar um místico? Certamente não se trata de pura inefabilidade, mas de um caráter de inefabilidade, Imagem da Inefabilidade Divina. Essa Imagem é um aspecto da vivência mística, mas não é tudo, haja visto que o homem é “Imagem e Semelhança de Deus” então é na Semelhança que se mostra possível a comunicação entre os místicos, daí a possibilidade da descrição de algo do que se vive interiormente e do proveito que se pode extrair da leitura dos místicos. Deus bem sabe que o homem que busca a via mística busca aqueles que já a tiveram para saber “o que” almejar, ainda que venha a ter experiências totalmente novas. Aquele que busca a via mística também deve estar ciente de que nenhuma das místicas existentes — ou mesmo tradicionais — se aplica de modo perfeito à sua caminhada, às suas experiências, à sua condição, que tem de fazer ajustes, que tem de procurar por pontos de contato, e não por igualdades em sentido absoluto. Assim como as estrelas do céu visível, os místicos — como estrelas invisíveis do Céu Espiritual -, cada estrela possui brilho próprio e não pode ser reduzida ao brilho da outra, a luz de uma pode realçar a da outra, mas não a ofusca ou a confunde, do contrário aquele que busca a via mística se torna antes um anti-místico, se obscurece pela confusão espiritual.
II
No Ocidente a via mística parece um verdadeiro milagre: A ausência quase esmagadora do mistério, do silêncio, da contemplação, e em contrapartida os excessos dos dogmas, da moral e de outros impedimentos da abertura do coração fazem com que um ocidental que busque a via mística esteja antes rodeado de empecilhos do que com um coração que pode alçar livre voo em direção a Deus. No Oriente todas estas práticas que são fundamentais para a vida mística são parte da prática comum, — ainda que o Oriente esteja bastante desencontrado, ou mesmo “ocidentalizado” — e essa diferença não é só quantitativa, como quem diz “no Oriente há mais santos místicos do que no Ocidente”, mas que talvez tenha um caráter qualitativo também, ou seja, que a mística oriental seja tão mais presente que seja mais fácil alguém se tornar um místico por imitação dos modelos e do modo de vida oriental do que pelo ocidental. O Ocidente faz parecer que a mística é “coisa de mosteiro”, ou “coisa de padre”, fechando muitas portas do Céu, ora porque os exemplos que se tem à mão são estes, ora porque um leigo não sabe nem por onde começar e vê um abismo entre a sua vida e a vida monacal ou sacerdotal.
III No entanto, um ponto fora da curva no Ocidente é Jacob Boehme, místico protestante que começa sua vida não como padre ou como monge, mas como sapateiro, relembrando a trajetória apostólica, relembrando a simplicidade do próprio Cristo como Marceneiro, tornando clara que a mística é possível “até mesmo para o sapateiro” que não precisa estar em conformidade com certas posições sociais tradicionais para que Deus lhe revele algo de Si para o seu coração.
Se o protestantismo tem no seu âmago a intenção de um retorno à simplicidade de Deus e de um retorno ao estilo de vida dos Evangelhos, então é claro que Deus iria abrir esta janela do Céu para a vida mística, claro também que hoje se pode falar nisto justo depois que surge entre nós uma figura como a de Jacob Boehme.
Com o surgimento de um místico como Jacob Boehme ficou claro aquilo que também se mostrava de modo evidente na escolha que Cristo fez dos apóstolos e já em todos os Patriarcas do Antigo Testamento: Deus faz místico, faz santo, faz justo quem Ele quer e por vezes justamente aquela pessoa que não tinha posição social favorável, ainda que também possa fazer estes brilharem no céu, já que no céu cabem muitas estrelas diferentes.
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