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Heidegger, Martin.

Gabriel · 2026-03-12 01:58 · 2 claps · 2.7 min read
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Wiki topics: PHI · Philosophy

Heidegger, Parmênides. – a deusa verdade; quem seria essa deusa e essa “verdade”? Resposta Heideggeriana

Poema doutrinário de Parmênides, versos 22–32

1, 22–32:

22 – E a deusa me acolheu com simpatia; ela tomou minha mão direita na sua; então, ela falou a palavra e se dirigiu para mim neste modo: “Ó homem, companheiro de imortais condutoras de carro,

25 – que te conduzem, com os cavalos, alcançando nossa morada. Bênção (é) contigo! Pois não um destino ruim te enviou a trilhares este caminho – pois, em verdade, ele está para além dos homens, fora de sua senda (muito batida) -, mas, sim, tanto estatuto como também ordem. Mas é necessário que experimentes tudo, tanto o coração intrépido do desencobrimento bem abrangente,

30 – como também o aparecer na sua aparência para os mortais,

onde não mora confiança no desencoberto. Porém, também, isto haverás de apreender a conhecer, como o que aparece

e que

32 – (na necessidade) permanece usado de modo a ser adequado

ao aparecer, na medida em que transluz através de tudo e (portanto) deste modo tudo consuma.

Quem é a deusa? Antecipamos a resposta adequada somente para o “poema doutrinário” como um todo. A deusa é a deusa “Verdade”. Ela mesma – “a verdade” – é a deusa. Por isso, devemos evitar o modo de falar que falaria de uma deusa “da” verdade. Pois o modo de falar de uma “deusa da verdade” desperta a representação de uma deusa a cuja proteção e bênção “a verdade” é tão somente confiada. Se fosse o caso, teríamos dois fatos: “uma deusa” e “a verdade”, que está sob proteção divina. Poderiamos ainda explicitar este estado de coisas em concordância com exemplos familiares.

Os gregos adoram, por exemplo, a deusa Ártemis como a deusa da caça e, dos animais. A caça e os animais não são propriamente a deusa Ártemis, e sim o que lhe é dedicado e está sob sua proteção. Mas quando Parmênides chama a deusa “Verdade”, então é a própria verdade que é aqui experimentada como a deusa. Isso pode nos parecer

estranho, pois, por um lado, achamos simplesmente estranho que um pensador coloque seu pensar em relação com a palavra de um ente divino.

Atenas, Afrodite, Artemis, Deméter aparecem como “pessoas divinas” delineadas de modo muito claro. A deusa “Verdade”, por outro lado, é amplamente “abstrata”. Poder-se-ia pensar que aqui isso nada tem a ver com “experiência mística” dessa deusa, e sim, que um pensador, por livre iniciativa, “personifica” o conceito geral “verdade” na figura indeterminada de uma deusa. Este processo, de uma “hipostatização” de conceitos gerais como divindades, encontramos certamente com freqüência, em especial na antigüidade tardia.

Também, mesmo quando os pensadores pensam sobre “o divino”, como acontece em toda “metafísica”, este pensar é τὸ θεῖον (o divino), como Aristóteles diz, um pensar a partir da “razão” e não uma reprodução de sentenças de uma “fé” cúltica e eclesiástica. Em particular, porém, causa estranheza o aparecimento “da deusa” no poema doutrinário de Parmênides pelo motivo de que ela é a deusa “Verdade”. Pois “a verdade”, como “a beleza”, “a liberdade”, “a justiça”, tem valência para nós como algo “universal”. Este universal é extraído do particular e atual, do que é cada vez verdadeiro, justo e belo, e é, então, representado de modo “abstrato”, num mero conceito. Fazer “da verdade” uma “deusa”, isto significa certamente fazer de uma mera noção de algo, ou seja, do conceito da essência da verdade, uma “personalidade”.

Um adendo importante da palavra ἀλήθεια (alétheia): O caráter conflitante do desencobrimento. Clarificação provisória da essência da ἀλήθεια e do retraimento.

Quando escutamos imediatamente e, de modo indeterminado, sobre a deusa “Verdade” no “poema doutrinário” e quando concluímos

que aqui o “conceito abstrato” “verdade” foi “personificado” numa figura divina, então nos colocamos neste pensar como aqueles que crêem saber tanto o que seria “a verdade”, como também que essência pertence, de modo peculiar, à divindade dos deuses gregos.

Gabriel

  • Baseado no livro: Heidegger, Parmênides.

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