← Back to list

PR

Eu matei um homem. Não fisicamente, como todos os humanos matam desde os primórdios da história bíblica, matei sua fé, a sua vontade de…

Mark Luc · 2025-07-30 17:41 · 3 claps · 9.0 min read
#contos #literatura #literatura-brasileira #indie #surrealism
Open on Medium ↗
Wiki topics: 🎨 · Fine Art

PRAIA DE FACAS

Eu matei um homem. Não fisicamente, como todos os humanos matam desde os primórdios da história bíblica, matei sua fé, a sua vontade de viver, o seu amor pelas pessoas, seu sonho de ser pai e marido, a música de seus sonhos. Fui eu o interruptor. Assassinei a família dele por repulsa de sua vida, por repetidos atos de angústia e desespero, por não ter nascido para esta vocação de protetor, pelo ódio que me dominou em um assassinato do mundo comum. Sem rodeios, era minha vontade: o ódio irrestrito do seu coração. Seus espinhos mais duradouros cravados em minha carne, a força de sua dor na linha do meu tempo e pensamento. O problema é que agora isso não tem mais um fim.

Sento-me numa praia, observando o último pôr-do-sol, em minha última missa, em primeiro sacrifício, em minha prisão eterna observo o voltar deste homem sem destino, espero o gatilho ser puxado, e então, tudo novamente. Estou sentado, com os pés na areia, esperando a hora da minha morte sem fim. Não tive motivação para o crime a não ser a de querer vingança contra o homem, um crime bárbaro, sem perdão, passou em todos os jornais, passou em todo o meu corpo, várias e várias vezes, sem que eu percebesse o que estava realmente fazendo, assinava sem caneta a sina que Deus me reservara. O homem que me arranca a vida nunca conversa comigo, nunca abre para um diálogo o meu perdão, não sinto nele a verdade da caridade e o caminho da desobediência de seu destino. Todo dia, ele caminha em minha direção, passos largos, calmos, calculistas. Consigo vê-lo sempre: sapato de couro, terno comum, camisa e calça da mesma cor. Em suas mãos, um revólver calibre 38 carregado. Em seus olhos, o vazio do meu assassinato. Esperei, resiliente, sem correr. Já tentei correr demais, nunca consigo escapar. Ele não é mais rápido do que eu, não é mais forte do que eu, mas quanto mais me afasto, mais ele se aproxima, quanto mais luto, mais fácil fica para o revólver apontar para a minha cabeça. E então, o gatilho é puxado. O meu sangue escarlate pinta a areia… e de novo, eu estou sentado na praia.

Eu matei a família de um homem. Éramos sujeitos comuns de uma cidade abjeta, que também nos mataria se deixássemos. Hoje, posso considerá-lo quase um amigo, de tanto que o vi, mas é uma pena que em sua mão não tenha o perdão, e sim a justiça. A minha doce justiça. A história do prometeu acorrentado. Mas estou livre. Posso correr, posso molhar pela última vez os meus pés na água purificante da praia. Bang. Minha cabeça é aberta por um projétil. Eu estendo os braços no chão, meu corpo treme uma última vez… e de novo, sentado na praia infinita de areia. O sol queima o meu rosto. Meus olhos ardem e meu corpo me trai mais uma vez. Será que eu vou escapar deste tribunal de um só juiz? Preferiria a pena de morte se me fosse concedida, sem titubear, morreria no outro dia sem direito a uma última refeição e ainda daria um abraço no meu executor, com um sorriso no rosto que diria: finalmente, já era a hora!

Perdi a conta dos dias, mas sempre sei que é contado o período de vinte e quatro horas antes da minha morte. Gosto de ir ao parque, observar a rotina dos transeuntes e ver do que eu abri mão, gosto de pedir uma casquinha de sorvete de chocolate e comer por perto de uma das únicas pessoas que se lembra de mim, uma atendente de cerca de vinte anos. Em uma das vezes, o meu torturador atirou na minha cabeça justo quando estava prestes a falar que a amava. E de que adiantaria? Minuto mais ou minuto menos, ele viria da mesma forma, impávido, colosso. Eu nunca passei de vinte e quatro horas de vida. Fiz tudo o que me veio à cabeça: busquei ajuda de estranhos, contei minha anedota para a polícia, me tranquei em quartos que nem mesmo insetos conseguiriam me encontrar e… Bang. A bala surge e eu ressurjo, na praia, desarmado, observando o mar. Não posso mais formar uma família, nem ter um emprego, nem mesmo posso ter um outro amor, por mais que me faça falta o toque de uma mulher que lembre do meu rosto todos os dias, que acorde ao meu lado e saiba qual é o meu nome. Tive mulheres, pagas, belas, feias, quietas, conversadoras… Mas nenhuma pode ficar. Nenhuma fala o idioma do homem que não morre. O cheiro do meu medo não as permite se aproximarem de mim. É a demarcação de um imortal que morre, é o meu castigo eterno, eu sou a pedra de Sísifo. Eu tenho dias e anos de vida e nenhum deles basta para acreditar que eu conseguirei escapar. Em certo dia, consegui segurar a mão da atendente e ela sorriu para mim, com uma faísca que reacendeu meu coração depois do fim. Ao longe, o homem. Calmo. Sereno. Caminhando em minha direção. Estendo meus braços, e aguardo o fim exclusivo. A atendente não entende, ela nunca entenderia. Eu lembro. Todas as vezes. Todos os lugares. Há dias em que eu gosto de tentar lutar com o carrasco, mas existem outros em que eu só quero dormir. Passo oito horas do meu dia dormindo e as outras oito em angústia. Ele vai aparecer, mas de qual lado? E daí, bang. Praia. Eu amo ver o horizonte calmo. Em uma das vezes, eu consegui uma bicicleta e saí para pedalar pela cidade. Consegui ultrapassar vários ciclistas que olhavam para mim com alegria. Mal eles sabiam que eu fugia do meu destino. Não queria chegar nele por nada. Observo bares, restaurantes cheios de felicidade, baladas de luxúria, rodovias de histórias, berlindas de perigo, ramalhetes de oportunidades, beijos de puro amor, raros brilhos e brindes reluzentes. E eu amo. Meu coração bate mais forte, eu sinto vida, sinto amor, sinto orgulho, sinto arrependimento.

Eu matei o homem que eu poderia me tornar, e lembro de estar lá, no mesmo quarto da família desvivida do meu assassino. Ele me olhava com ódio em seu coração e minha mão pulsava por matá-lo também, mas não tive coragem. Coragem ou desejo? Eu fui corajoso para a vingança contra seus descendentes, dois garotos lindos que me viram irado. A minha forma de ver as coisas nunca foi tão direita, e andando com o pé esquerdo, encontrei os passos do meu azar. Bang, bang, bang. Três mortos, dois sobreviventes. O assassino e o carrasco do amanhecer.

Fui a uma biblioteca uma vez e pude ler romances, contos, crônicas, terrores, amores, catarses e peripécias, tragédias de todo tipo. Acompanhei os grandes heróis epopéicos e os grandes pensadores modernistas, todos em vários dias. Minha forma de viver era imitar a vida daqueles homens. Escrevi os meus pequenos livros, mas nunca chegaram a ser publicados, pois o tempo não respeitou a minha caneta, eu sou um autor condenado a nunca ser lido, mesmo lendo o mundo. No fim da página, a praia me esperava. No fim da praia, o homem. Carregava em minhas mãos diversos livros e diversos autores, que como eu, poderia estar fugindo de um homem. Dante, Nietzsche, Homero, Berkeley, Einstein, Dostoiévski, Virgílio,Kafka… Eu decorei os nomes ou decorei os homens? E por fim não sei se sou eu que vivo através deles ou eles que vivem através de mim, pois se deixo-os na estante, em 24 horas nunca foram descobertos, mas se os leio sem parar, minha memória os retém e começo a recitar as passagens de suas obras. Tranquilo. Como o amanhecer. O vento bagunçou meu cabelo e eu aguardei o tique do relógio. Meu dia começa na metade de outro dia, pois o último momento precisa ser do pôr-do-sol. Eu amo a vista. E a vista me ama. Juntos, somos um. Nem mesmo o assassino do amanhã pode tirar a admiração que tenho por esta natureza. É mística, dever puro, areté, é uma declaração de guerra e paz, é a metamorfose de um inseto, as notas do subsolo das minhas noites brancas, os demônios da minha ilídia, a minha própria odisséia que mais parece uma divina comédia eterna no inferno. Bang. Meus olhos se abrem, pôr do sol. A água purifica, mas nunca me lava. A areia acolhe, mas nunca me salva. Consigo aproveitar a noite e o dia. Quatro horas da tarde, estou morto.

Eu matei e continuo sendo o culpado. Não cheguei a ir em tribunal, a polícia não chegou a me capturar, eu sequer vi um agente da lei ler os meus direitos. Praia. Pôr do sol. Homem. Arma. Disparo. Meu carrasco nunca disse uma palavra para mim depois do que fiz. E nunca diz nada mesmo que todas as vezes venha atrás de mim. Seu silêncio é assustador, mas de certa forma, reconfortante. Eu não preciso lidar com meus erros e encarar que eu não vou sair desse julgamento. Ele não ri de mim, não chora, não grita… só mata. De novo e de novo. E eu, imitando bom morto, aceito que não tenho par nesta peça.

Gosto de ir a teatros para assimilar os bons contos do cinema, mesmo que todos eles já tenham sido vistos por mim. Viajar para outras cidades, curar minhas feridas emocionais, passear com um cachorro que eu mesmo adotei…. e então, morrer. Eu posso fazer tudo isso e ainda assim ser morto. Nas primeiras vezes, tive medo de que fosse enlouquecer, e cheguei muito perto disso se não fosse uma psicóloga voluntária que por ironia do destino, atende em frente à praia. Gosto de fazer minhas sessões com ela, olhando para o mar. Confesso meu crime sem lágrimas nos olhos. Ela não se lembra de tudo e sempre acha que estou louco, mas digo coisas que só ela me contou. O choque passa, o coração abre. Ela é meu anjo da guarda e se pudesse eu fugir do meu mortífero acompanhante, pediria que ela fosse a testemunha do meu julgamento. Nos apaixonamos em uma das vezes em que contei a ela tudo que acontecia. Disse que ela me salvava em todas as vidas que eu tinha, mesmo sabendo que eu a perdia no entardecer do outro dia. Naquela pequena consequência dos meus atos, fizemos amor, um desmaio de ternura no fim do mundo.Ela passou a noite comigo, cuidando de meu coração, fazendo as dores desaparecem, tornando-me um homem que não tinha mais medo, pois se o fim fosse com ela, seria bom. O olhar dela entra no meu, e vejo que a ternura do amanhecer se aproxima, sem chance de resolução, ela me diz que está na hora, diz que precisa dar um pequeno passeio, que em nosso idioma sagrado significava a minha hora de morrer. Então, o meu carrasco entra no quarto, e eu me escondo nos braços dela. Ela não o vê, mas sente medo por mim, suas mãos tremiam ao segurar meu corpo antes do fim. Antes do cano da arma me encarar, refresco a vida olhando para Beatriz… É, esse é o nome dela. Ela sorri. Bang. Morto, novamente. Praia. Lembro-me que nas primeiras vezes, me entreguei à polícia, passei todas as vinte e quatro horas em uma cela, pedindo perdão. Não adianta. O homem entra no bloco, para em frente à minha cela, aponta o revólver e bang. Morto. Não adiantam as igrejas, nem os padres, nem os bispos e nem todos os sacristãos que me atendem. O meu juiz não respeita nem mesmo as igrejas. “Eis o corpo de Deus” , o corpo de Cristo é quebrado em dois pedaços, e o meu assassino quebra a minha alma. Me escondi atrás do padre uma vez, mas ele não viu nada. Eles nunca vêem nada, somente eu o vejo, meu perseguidor cruel e sem fim. O padre ministra-me o viático, estive em prantos como uma criança, agarro-me com força na batina do homem santo, procurando sinal de fuga, mas ele só tem tempo de escutar a rápida confissão que tenho presa na garganta, me abraçar para confortar o meu juízo final e assistir o sapato do assassino encurtando a minha vida a cada passo. Meu coração se acelera e o sacerdote me deita no chão da igreja. O arrancar do meu ar se faz presente a cada declaração de que quero viver mais. Não há perdão para os assassinos, e eu aceitei isso. Eu amava ver como o padre levantava o cálice e exclamava que existe uma nova e eterna aliança. Não acredito em nada. Não posso acreditar, depois de tudo. A minha aliança foi com a morte. Eterna aliança. Bang. Praia. Vou até a igreja mais uma vez, mas está vazia. Não há homens que compreendam minha fuga. Faço paradas espetaculares em pontos de ônibus, para às vezes, andar pela cidade, conversando com estranhos, ouvindo suas histórias de vida, rindo e chorando com cada um, procurando neles um pouco de mim. Não encontro nada. Volto para a praia, fico boiando na água. Náufrago de mim mesmo, afogo-me na minha culpa. Molhado, retorno para o horizonte. O mar é bonito, e a areia me abraça. A psicóloga e o padre estão no mesmo lugar.

Eu morrerei. Consegui escrever nestas páginas, que encontrei no banco de uma praça. Havia desenhos, um poema de amor. Ganhei um lápis de unicórnio de uma criança. Vou guardá-lo no bolso e deixar o caderno para o mar. O homem se aproxima. Eu não quero morrer. Quero viver. Sinto muito. Me arrependo. E o medo… o medo me abraça como um velho conhecido. Desculpe-me, irmão. Agora eu entendo. Eu queria destruir o que me feriu. Mas destruí o que me faltava. Achei que fosse a família dele. Era a imagem da minha. Talvez eu só quisesse um lar. Talvez eu só soubesse matar. A mulher sorriu antes do tiro. As crianças correram em minha direção. Eu reagi. Três balas. Agora olho para ele. Ele tem os meus olhos. O vento sussurra alguma coisa — mas o som é coberto pelo disparo. Bang.


메타데이터
post_id
3958669b21f2
slug
pr-3958669b21f2
url
https://medium.com/@MarkLRU/pr-3958669b21f2
canonical_url
https://medium.com/@MarkLRU/pr-3958669b21f2
author_url
https://medium.com/@MarkLRU
status
ok
fetched_at
2026-07-18 15:31:21