Sena: A Formação de um Ídolo do Vitória
A História de Sena, um dos Ídolos do Vitória
Sena: A Formação de um Ídolo do Vitória

Sena durante sua passagem pelo Vitória
Na memória coletiva de comentaristas e torcedores, diferentes épocas da história de um clube de futebol são frequentemente definidas pela grandeza singular de um jogador. O Arsenal dos anos 2000, por exemplo, pertenceu a Thierry Henry e é praticamente impossível recordar um único momento do futebol do clube nesse período que não envolva um drible, um gol ou uma assistência de Henry.
Naturalmente, esse fenômeno antecede a era moderna, já que grandes equipes de todas as décadas contam com talentos transcendentais cujo brilho ainda é lembrado com impressionante precisão por torcedores que tiveram o privilégio de vê-los ao vivo. Diego Maradona e o Napoli dos anos 80, Johan Cruyff e o Ajax dos anos 70, e George Best e o Manchester United dos anos 60 vêm imediatamente à mente como exemplos de jogadores cujas carreiras estão inextricavelmente ligadas a um único clube em um determinado período. Evidentemente, suas trajetórias no futebol se estenderam por várias décadas e equipes, mas — como acontece com todo atleta — eles são lembrados, acima de tudo, pelo auge de suas capacidades; um auge vivido dentro de uma instituição única e definidora.
Para torcedores de todos os clubes do mundo, os jogadores que definem uma era são praticamente imortais — entrelaçados ao tecido da história do clube por meio de vídeos granulados de melhores momentos no YouTube, registros escritos cuidadosamente preservados por guardiões da memória e histórias transmitidas de geração em geração; a lenda crescendo a cada década que passa.
No Brasil dos anos 1970, essas lendas eram, em grande parte, de caráter provincial, já que os campeonatos estaduais tinham mais relevância do que as competições nacionais. As estrelas nacionais eram aquelas que tinham a sorte de serem escolhidas para representar o país no cenário internacional com a Seleção — mas, naquela época, o nível do futebol brasileiro dentro do próprio país era tão profundo em comparação com o resto do mundo que o Brasil poderia, razoavelmente, ter enviado três seleções competitivas para a Copa do Mundo a cada quatro anos.
Assim, na era pré-moderna do futebol brasileiro, o país foi lar de inúmeros jogadores com talento de nível de superestrela que jamais receberam o reconhecimento internacional que mereciam. São homens cujos nomes estão gravados na memória e na mitologia dos clubes onde viveram seus melhores momentos; ídolos de torcidas que passaram a reverenciá-los como se fossem seus próprios.. Homens como Sena, do Esporte Clube Vitória.
Jorge Luis Sena nasceu em São João da Barra, no estado do Rio de Janeiro, em 25 de abril de 1953, filho de Hilda, empregada doméstica, e Ubaldo, tipógrafo que trabalhava em uma gráfica local. A família Sena era enorme — Hilda e Ubaldo tiveram dez filhos — mas extremamente unida.

Da esquerda para a direita: Benedito Sena (irmão), Evaldo Sena (irmão), José Sena (irmão), Ciro Sena (irmão), Jorge, Eliene Ribeiro Sena (esposa), Lea Sena (irmã), Maria Sena (irmã), Marliy Sena (irmã), Hilma Sena (irmã), Maurícia Sena (irmã). À frente: Hilda Sena (mãe), Ubadlo Sena (pai)
“Tenho lembranças muito boas da minha infância”, disse Jorge. “Lembro que a nossa casa tinha um corredor grande — era enorme! A gente fazia bolinhas com meias, e eu e minhas irmãs mais novas ficávamos chutando essas bolas de um lado para o outro como brincadeira. E, se perdessem, elas tentavam me bater! A gente se divertia muito juntos.”
Foi uma infância de recursos modestos, mas repleta de vida — daquelas que moldam, em igual medida, a resiliência e a imaginação.

Sena quando criança, na escola, no início dos anos 1960
Ainda menino, Jorge ajudava a mãe em seu trabalho, buscando água para a lavagem de roupas.. Foi sua primeira lição sobre o valor do trabalho duro.
“Eu ia com um recipiente grande na cabeça para carregar água do Rio Paraíba. Aprendi muito com a minha mãe e, apesar da dificuldade do trabalho, tive uma infância maravilhosa.”
Tanto Hilda quanto Ubaldo eram disciplinadores rigorosos — uma característica necessária para criar dez filhos — e enfatizavam com frequência a importância da educação formal para Jorge e seus irmãos. Mas, embora respeitasse profundamente seus pais, Jorge tinha outra paixão a seguir: o futebol.
“Meus pais tinham personalidades muito fortes”, disse Sena, “E tínhamos que fazer tudo o que eles mandavam. Se desobedecêssemos — castigo! A prioridade era ir à escola. Mas eu fugia da sala de aula para jogar futebol.”
Jorge foi apresentado ao futebol pelos próprios pais, ambos torcedores de clubes do estado do Rio de Janeiro — “Meu pai era torcedor do America e minha mãe preferia o Flamengo.” Assim como sua mãe — e como a maioria dos moradores de São João da Barra — Jorge também torcia para o Flamengo. E, desde que se lembra, sonhava em se tornar jogador profissional. Mas o caminho até o futebol profissional em um país apaixonado pelo esporte como o Brasil era difícil — especialmente para um jovem que vivia em uma cidade remota como São João da Barra.
“Na minha cidade era muito difícil jogar; não havia times profissionais. Eu jogava apenas como amador.”
E assim, sem a oportunidade de atuar em categorias de base organizadas de um clube profissional, Jorge desenvolveu seu jogo de maneira informal, em ligas e torneios de bairro, com equipes pouco estruturadas, muitas vezes formadas mais pela proximidade entre os jogadores do que por planejamento. Desde cedo, ficou claro para os moradores locais que Jorge não era um jogador comum — era um talento prodigioso, dono de um dom especial. Foi nesses cenários improvisados e competições informais que Jorge passou a ser conhecido por torcedores e colegas simplesmente como “Sena”.
Embora o futebol fosse seu grande amor, e jogar profissionalmente sempre tivesse sido seu sonho, a conquista da Copa do Mundo de 1970 pelo Brasil, no México, marcou um ponto de virada na maneira como ele passou a enxergar seu futuro no esporte — foi o momento em que um sonho de infância se transformou em um objetivo concreto.
A partir dali, Sena passou a se dedicar obsessivamente à busca por se tornar jogador profissional. Mas o caminho até esse mundo não seria fácil, pois convencer olheiros e dirigentes do futebol profissional do talento e do potencial que ele sabia possuir revelou-se um exercício de persistência, muitas vezes à beira da frustração.
“Desde os 12 ou 13 anos eu ia ao Rio de Janeiro para fazer testes nos grandes clubes do estado — Botafogo, Vasco, Fluminense — mas nunca era aprovado. Então eu voltava para casa, muito decepcionado. Mas dizia a mim mesmo: ‘Tenho o sonho de ser um atleta profissional famoso’. Então trabalhei como garçom e depois como ajudante de pedreiro para me sustentar enquanto corria atrás do meu sonho. Todos os anos eu fazia essa viagem para tentar uma vaga nesses clubes e me tornar jogador profissional.”
A rejeição pouco fez para desanimá-lo. E, quando os caminhos tradicionais para chegar ao futebol de clubes não deram resultado, Sena foi criativo.
“Durante o Carnaval, jogadores de futebol iam passar férias na minha cidade. Ficavam até a Quarta-feira de Cinzas. Então, em 1971, houve dois jogos entre o clube amador pelo qual eu jogava e um time que tinha um jogador parente de Paulo César Puruca — lateral-direito do Vasco da Gama. Fiz dois gols no primeiro jogo. Ao que tudo indica, isso impressionou o Puruca, que levou o Edu, do America, para assistir ao segundo jogo em que atuei. Fiz mais dois gols. Nem o Edu nem o Puruca falaram nada comigo. Depois disso, voltei para casa achando que aquela poderia ter sido a última oportunidade da minha vida de causar uma boa impressão em pessoas do futebol profissional.”
E assim, apesar de ter jogado de forma excepcional — como sempre fazia — , a atuação de Sena diante de Edu não lhe rendeu a oportunidade que ele esperava. Ainda assim, manteve-se determinado e pediu ao irmão que conversasse com Edu e Puruca sobre a possibilidade de um teste no America ou no Vasco da Gama.
“Depois de duas semanas, meu irmão entrou em contato comigo e disse que eu tinha um teste no Vasco!”
Tragicamente, isso também parecia um beco sem saída, já que Sena não se encaixava no perfil de jogador que o então técnico do sub-20, Célio de Souza, procurava.
“Ele olhou para mim e viu que eu era um cara pequeno”, disse Sena. “Ele gostava de atacantes mais fortes, mas eu era um atacante técnico. Então me dispensou.”
Diante de mais uma rejeição, seria compreensível que Sena desistisse do sonho de fazer carreira no esporte que tanto amava. Mas “desistir” não fazia parte do seu vocabulário. E ele se recusou a deixar a cidade do Rio de Janeiro novamente sem um contrato assinado com um clube profissional.
“Depois do episódio no Vasco, procurei o Puruca e pedi que ele falasse com o Zico sobre um teste no Flamengo. Isso foi em 1972. Então fiz o teste no Flamengo e eles me aprovaram!”
Com isso, Sena conquistava uma vaga no elenco do clube dos seus sonhos.
“Fiquei no Flamengo por 18 meses, fazendo gols, treinando forte. Cheguei a jogar com todos os craques — Zico, Dudu, Vicentinho, Caju! Então eu estava muito feliz lá.”
Costuma-se dizer que sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade. Poucas pessoas tenham personificado esse ditado tão bem quanto Jorge Luis Sena.
Assim, quando Sena foi dispensado pelo Flamengo e imediatamente contratado pelo São Cristóvão, pode até ter sido sorte — mas do tipo que se constrói com preparação obstinada e uma recusa absoluta em ceder.
Em apenas uma temporada atuando pelo time principal do São Cristóvão, Sena se transformou em uma das jovens estrelas mais brilhantes de todo o futebol brasileiro.
“Franz, então técnico do São Cristóvão na época, me recebeu de braços abertos. Eu me destaquei nos treinos imediatamente, marcando de dois a quatro gols em cada coletivo. Não demorou muito para o clube me oferecer um contrato profissional, mesmo eu ainda jogando no sub-20. Minha afirmação em competições oficiais veio em uma manhã de domingo, contra o Bangu, em um torneio sub-20. Fiz 8 gols naquele jogo. Isso foi em 1974. Em 1975 eu já era profissional de fato, jogando no time principal. Naquele ano, fui um dos três maiores artilheiros do Rio de Janeiro — fiquei até à frente de Zico!”

Da esquerda para a direita: Zico, Baltazar e Sena
Como exatamente um jovem com apenas dois anos de experiência formal em um clube organizado se tornou um dos maiores artilheiros do estado do Rio de Janeiro? A resposta está nas próprias palavras austeras de Sena: “Treinar, treinar, treinar.”
De fato, enquanto a maioria dos jogadores desenvolve suas habilidades sob a orientação de treinadores de elite, ao lado de outros talentos promissores, o jogo de Sena foi construído de forma quase solitária no campo de treino, por necessidade — ele simplesmente não teve o privilégio de contar com uma estrutura formal de formação.
“Eu sempre tentei melhorar o meu jogo. Um amigo me deu um livro escrito por Pelé. Nesse livro, Pelé dizia que a forma de aperfeiçoar sua habilidade como jogador é dominar as embaixadinhas. O exercício deve ser feito ao longo de todo o campo, usando todas as partes do corpo, sem deixar a bola cair.”
E assim, impulsionado por uma ética de trabalho incansável e uma determinação constante, Sena conquistou reconhecimento internacional por suas atuações em campo.
“A cada jogo que fazia pelo São Cristóvão, eu ficava mais conhecido. Então, marquei dois gols no Campeonato Carioca contra o Flamengo e passei a atrair a atenção geral Naquela época, o Flamengo era possivelmente o maior clube do país — aquele jogo foi enorme para mim. Foi aí que comecei a chamar atenção.”

Sena com o São Cristóvão após um amistoso em Natal, no qual marcou dois gols
Com o reconhecimento vieram também propostas de alguns dos clubes mais tradicionais e poderosos do futebol — primeiro no Brasil e, posteriormente, ao redor do mundo.
“Muitos clubes me procuraram depois da minha temporada de 1975 no São Cristóvão. O clube recebeu propostas de Palmeiras, Fluminense, Vasco da Gama e Internacional.”
Após duas transferências fracassadas — primeiro para o Vasco e depois para o Internacional — , o presidente do São Cristóvão decidiu buscar no exterior um clube disposto a atender ao valor estipulado pelo seu jogador mais valioso. No fim das contas, encontraram o destino ideal para o próximo salto de Sena: a Espanha.
“Fiquei muito surpreso quando me disseram que eu tinha sido vendido para o Atlético de Madrid! Fiquei muito feliz… então perguntei: ‘onde fica isso?’ Me disseram que era na Espanha, e pronto.”
Com o acordo fechado e sua ida para Madri definida, Sena estava radiante — e com razão. Afinal, apenas três anos antes, ele ainda fazia viagens de ida e volta de sua pequena cidade natal, São João da Barra, no interior do estado, até a cidade do Rio de Janeiro, em busca de uma oportunidade para provar seu valor em um campo de futebol profissional — qualquer campo.
Agora, embarcava em seu primeiro voo, deixando para trás sua vida no Brasil rumo a um país estrangeiro, a mais de 8 mil quilômetros de distância, onde se falava uma língua desconhecida. Mas, embora sua família e seus amigos permanecessem no Brasil, ele levava consigo os ensinamentos e valores transmitidos por seus pais, além do apoio incondicional de toda a sua comunidade.
De fato, é difícil imaginar Sena superando as repetidas frustrações que enfrentou até chegar ao São Cristóvão — quanto mais alcançar um dos maiores clubes da Espanha — sem ter herdado a impressionante ética de trabalho de seus pais ou sem ter absorvido suas insistentes lições sobre a importância de manter a humildade tanto na derrota quanto no sucesso. Sena era um filho dedicado, que levava a sério as palavras dos pais e valorizava profundamente o apoio das pessoas de São João da Barra. Por isso, entendia com clareza que suas conquistas não eram apenas suas, mas fruto dos sacrifícios e da confiança daqueles que o acompanharam em sua trajetória.

Sena com o uniforme do Atlético de Madrid, 1975
Quando chegou ao Atlético de Madrid, em 1975, Sena era um dos vários estrangeiros que o clube pretendia contratar para reforçar o elenco visando a próxima temporada de La Liga.
“Havia o Ivo, do America, o Leivinha e o Luis Pereira.”
Contar com compatriotas brasileiros na Espanha ajudava na adaptação, pois o futebol praticado na Península Ibérica era muito diferente daquele ao qual estava acostumado no Campeonato Carioca.
“Era muito diferente…”, disse Sena. “Na Espanha eles marcavam homem a homem, e os defensores faziam muitas faltas. Então o jogo era extremamente físico.”
Para ajudar Sena a se adaptar a esse estilo mais duro de jogo, o Atlético de Madrid o emprestou ao Rayo Vallecano por uma temporada — uma etapa comum de aprendizado para jovens jogadores em um novo ambiente, ainda em processo de afirmação. Sena, por sua vez, recebeu bem a decisão e aguardava com expectativa a mudança dentro da própria cidade para o clube conhecido como Los Franjirrojos. Mas, antes que pudesse se estabelecer e deixar sua marca na Espanha, sua trajetória mudou de rumo.
“Passei cerca de oito meses no Rayo Vallecano, então minha esposa engravidou e quis ter o bebê no Brasil. Foi aí que comecei a negociar meu retorno.”
Com isso, Sena assinou com o America Football Club do Rio de Janeiro, e sua família em crescimento voltou ao Brasil. Então, justamente quando começava a se reafirmar no futebol brasileiro, sofreu uma fratura na clavícula, o que o afastou de boa parte da temporada.
Embora essa lesão tenha marcado o fim de sua passagem pelo America, ela abriu caminho para o que viria a ser a transferência definidora de sua carreira — a ida para o Esporte Clube Vitória.
“Em 1977, o America devia aos jogadores mais de três meses de salários. O Vitória aceitou pagar esses valores em troca do meu contrato. Eles precisavam de um atacante, sabe? E foi assim que fui parar na Bahia.”
Quando chegou a Salvador, Sena foi recebido de braços abertos por seus novos companheiros — especialmente Sivaldo, um de seus amigos mais próximos desde os tempos no Rio de Janeiro. No clube, tanto jogadores quanto torcedores já conheciam o sucesso de Sena no Campeonato Carioca e estavam confiantes de que ele seria um grande reforço para a equipe.
O que eles não sabiam — o que ainda não podiam compreender — era a dimensão do que estava por vir; a forma como sua presença definiria uma era. Pois Jorge Luis Sena estava destinado a se tornar um dos maiores jogadores da história do Esporte Clube Vitória.

Sena no Vitória em 1977 (Foto Cortesia de Milton Filho)
O impacto foi imediato para o Rubro-Negro, já que Sena marcou 16 gols em sua primeira campanha no Campeonato Baiano. Somou ainda mais cinco gols no Brasileirão, coroando uma temporada de estreia extraordinária. Assim, sob qualquer perspectiva e por qualquer métrica, 1977 foi um ano excepcional tanto para Sena quanto para o Vitória. Ainda assim, o melhor ainda estava por vir.
Mas, antes que tivesse a chance de consolidar seu legado na história do clube, Sena e sua família sofreram um golpe devastador no início de 1978 — uma tragédia cujas marcas permanecem até hoje.
“Deus nos dá diferentes desafios na vida. Meu segundo filho morreu em 1978. No dia da morte dele, eu estava com fortes dores de cabeça durante o treino com o time em Simões Filho. Tomei um remédio, mas não adiantou muito. Quando cheguei em casa, minha esposa estava sentada e disse que me esperaria enquanto eu tomava banho. Durante o banho, ela foi alimentar nosso filho, Luciano. Então ouvi um grito! Minha esposa disse: ‘ele não abre a boca’. Saí correndo do banho, gritando por ajuda — e tentei fazer respiração boca a boca. Mas não funcionou. Na autópsia, os médicos disseram que ele havia morrido de um aneurisma cerebral.”
Como se pode imaginar, não é possível superar uma perda tão devastadora quanto a morte de um filho. Em vez disso, é preciso aprender a conviver com essa dor e seguir em frente. E, com a ajuda de Deus, foi exatamente isso que Sena e sua esposa fizeram.
“Tivemos que continuar; tivemos que aceitar a realidade. Rezei muito; rezei para ter forças. Comecei a me adaptar e a recuperar minhas forças. Depois de alguns dias, voltei a treinar.”
Não era resiliência no sentido heroico, mas algo mais duradouro — o simples e necessário ato de seguir em frente.
“Depois de toda essa dor, minha esposa engravidou dois anos depois. Deus nos abençoou com dois filhos baianos — Michele e Jean, com apenas um ano e dois meses de diferença! Ao longo dos anos, também acolhemos e criamos uma criança chamada Luciano, com o mesmo nome e a mesma data de nascimento. Fomos ainda abençoados com outra filha, Laysa. Hoje, com cinco filhos vivos — sendo o primogênito Leandro — , meu coração está cheio de gratidão. Sou profundamente grato. A dor nunca desaparece completamente… mas, com o tempo, Deus coloca novas bênçãos em nosso caminho, e elas nos dão força para seguir em frente.”
Após uma pausa de três meses no clube para lidar com o luto pela perda de Luciano, Sena voltou aos treinos em 1978. Ele integrou o elenco do Vitória em uma bem-sucedida excursão internacional, vencendo todas as partidas disputadas tanto na Grécia quanto na Arábia Saudita. Em seguida, no Campeonato Baiano, Sena iniciou uma sequência de três anos absolutamente memorável.
O ano de 1979, em particular, foi o auge de sua carreira — e não é surpresa que também seja uma temporada na história do Vitória que ainda hoje é lembrada com reverência.
1979 marcou a segunda temporada de Aymoré Moreira no comando do Rubro-Negro. Quando chegou a Salvador no ano anterior, já era reconhecido no Brasil como herói nacional por ter levado a Seleção à conquista da Copa do Mundo de 1962. Moreira passou a temporada de 1978 construindo as bases de uma equipe mais coesa do que o clube havia apresentado em anos.
Então, em 1979, com o retorno de Sena, tudo se encaixou. Durante longos períodos daquela temporada, o Vitória foi praticamente imbatível.

EC Vitória, 1979; Sena ajoelhado, segundo da direita para a esquerda
O Vitória começou o Campeonato Baiano de 1979 de forma excepcional, permanecendo invicto nos primeiros 21 jogos. Em campo, a equipe era impulsionada por um ataque empolgante, liderado por um trio ofensivo fluido formado por Sivaldo, Wilton e Sena. Juntos, eles atormentavam as defesas adversárias, abrindo espaços, alternando posições e marcando gols com impressionante facilidade. A figura mais perigosa desse ataque era ninguém menos que Sena, que terminou como artilheiro do clube e da competição, com 25 gols.
Seu nível de desempenho foi tão consistentemente alto que, ao ser questionado sobre o ponto alto da temporada, Sena respondeu sem hesitar: “Todos os jogos foram excelentes…”
No fim, o Vitória acabou ficando com o vice-campeonato na última partida da temporada, quando um erro infeliz do goleiro — o extraordinário Gelson — resultou no gol da vitória do Bahia em um Ba-Vi que decidiu o título. Embora o desfecho de 1979 tenha sido, sem dúvida, frustrante, isso não diminui a grandeza de uma temporada que, em todos os outros aspectos, foi extraordinária.
De fato, o Vitória reagiu de forma notável à decepção daquele desfecho e terminou o Brasileirão na 8ª colocação — um resultado que refletia o crescimento do clube no cenário nacional. E, apesar de não ter conquistado o título baiano, a lembrança de Sena daquela temporada permanece calorosa — tanto pelas grandes atuações da equipe em campo quanto pela verdadeira camaradagem fora dele. Na verdade, essa última talvez tenha sido o legado mais duradouro, já que os companheiros com quem dividiu aqueles anos se tornaram amigos para a vida toda.
“Nós nos reuníamos socialmente depois de cada jogo — fazíamos churrasco. Íamos para a casa do Sivaldo, e a sogra dele preparava comida para nós. Esse tipo de união entre a gente foi o que realmente nos fez ter sucesso. No futebol, se o time não for unido, não vai ter sucesso. Conversávamos de forma leve — sobre os jogos e a vida — enquanto comíamos juntos; e isso nos ajudava a construir uma química que foi fundamental para vencermos tantos jogos.”
Infelizmente para a torcida do Vitória, 1979 foi a última temporada completa de Sena no clube — ele foi vendido em 1980 pelo diretor de futebol Márcio Mont’Alègre e pelo presidente Rui Rosal ao Santa Cruz, do Recife, uma decisão que gerou forte protesto por parte de seus companheiros e dos torcedores rubro-negros. De lá, seguiu para São Paulo, onde defendeu o Palmeiras.
Sena teve uma passagem breve, porém bem-sucedida, pelo Palmeiras antes de retornar ao Nordeste para defender o Esporte Clube Bahia. Tragicamente, sua segunda passagem pelo futebol baiano foi interrompida quando rompeu o ligamento cruzado anterior em 1981.
A lesão o afastou por mais de um ano, e o médico chegou a dizer que ele já deveria se considerar satisfeito se conseguisse voltar a andar normalmente — e que deveria descartar completamente um retorno aos gramados. Claro, Sena, sempre competitivo, estava determinado a desafiar essas previsões, como já havia feito tantas vezes ao longo da vida.
E assim, com a disciplina e a determinação obstinada que haviam impulsionado o início de sua carreira profissional quase dez anos antes, ele começou a se reconstruir, passo a passo, longe dos holofotes.
Após recuperar sua condição física, Sena ainda atuou por mais seis anos, encerrando a carreira em 1987, após conquistar o Campeonato Capixaba, no Espírito Santo, pelo Guarapari, clube próximo à sua cidade natal.

Sena com o Guarapari, ajoelhado, quarto da direita para a esquerda
Ao se aposentar como jogador, fez uma transição natural para a carreira de treinador. Trabalhou por três temporadas, comandando clubes como Guarapari-ES, Americano-RJ e Goytacaz-RJ. Posteriormente, retornou à sua cidade natal, São João da Barra, onde abriu um restaurante, conciliando a atividade com sua trajetória no futebol.
Em 1990, Sena assinou contrato para comandar o Goytacaz e conquistou o título da Segunda Divisão do Campeonato Carioca. Anos depois, voltou novamente às suas origens ao assumir o Esporte Clube São João da Barra, clube recém-fundado. Em sua primeira e única temporada à frente da equipe, conduziu o time ao acesso da Série C para a Série B — o maior feito de sua carreira como treinador. Ao final daquela temporada, decidiu se afastar definitivamente do futebol.
Foi um desfecho à altura de uma vida no futebol que atravessou quatro décadas — dos jogos descalços na infância, em sua casa em São João da Barra, aos estádios profissionais espalhados pelo Brasil e pela Europa. Ainda assim, até hoje, Jorge Luis Sena é mais lembrado por seus anos extraordinários em Salvador, na Bahia, com o Esporte Clube Vitória. Ali, em um período breve, porém incandescente, ele se tornou não apenas um jogador, mas uma memória — daquelas que o clube, e o seu povo, carregam consigo para sempre.

A diretoria do Vitória homenageia Sena em um jogo contra o Flamengo, em 2026, quando lhe presenteou com uma camisa comemorativa
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