← Back to list

[ Prólogo al lector ] — Sor Juana Inés de la Cruz

• • •

um poema / várias vozes · 2026-06-01 11:30 · 2 claps · 8.6 min read
#poesia #tradução #espanhol #sor-juana-inés-de-la-cruz
Open on Medium ↗

[ Prólogo al lector ] — Sor Juana Inés de la Cruz

• • •

/ A POETA

Retrato de Sor Juana Inés de la Cruz (c. 1750), pintado pelo artista mexicano Miguel Cabrera (Museu Nacional de História — Castillo de Chapultepec)

Retrato de Sor Juana Inés de la Cruz (c. 1750), pintado pelo artista mexicano Miguel Cabrera (Museu Nacional de História — Castillo de Chapultepec)

Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana nasceu em 1648, em San Miguel Nepantla, uma pequena localidade situada aos pés de dois grandes vulcões, no México. Filha ilegítima de uma criolla e de um capitão espanhol, cresceu numa sociedade rigidamente hierárquica, em que o acesso ao conhecimento era privilégio de poucos e a educação formal das mulheres vista com muita suspeita.

A lenda conta que aprendeu a ler aos três anos de idade e que, ainda menina, se escondia por horas na biblioteca do avô para devorar os livros que encontrava. Ainda adolescente, foi levada à corte vice-real da capital, onde sua erudição chamou a atenção dos governantes da colônia. Num episódio célebre, dezenas de teólogos, juristas, filósofos e matemáticos foram convidados a examiná-la publicamente, exame ao qual Juana respondeu com tamanho brilhantismo que sua fama logo se espalhou por toda a Nova Espanha.

Em 1669, a fim de preservar sua liberdade de estudos, benesse que dificilmente receberia de um marido terreno, tomou os votos e vestiu o hábito no Convento de San Jerónimo, na Cidade do México. Sua cela monástica, longe de ser um espaço de isolamento intelectual, tornou-se uma das maiores incubadoras de ideias do país, abrigando uma vasta biblioteca, mapas, instrumentos científicos e musicais.

Durante mais de duas décadas, escreveu incessantemente, produzindo sonetos, romances, vilancicos, autos sacramentais, comédias e tratados em prosa. Sua obra circulava tanto na Nova Espanha quanto na Europa, onde foi publicada ainda em vida. Admirada por vice-rainhas, protegida por membros da aristocracia e celebrada por leitores de ambos os lados do Atlântico, conquistou uma reputação rara para uma escritora de seu tempo, chegando a ser apreciada pelo Papa.

Mas sua inteligência também lhe trouxe “contínuos embarazos”. Em 1690, escreveu, a pedido de um nobre, uma crítica a um sermão do famoso jesuíta português, Padre António Vieira. Sua resposta, hoje conhecida como “Carta Atenagórica”, demonstrava um domínio teológico que muitos consideravam inadequado para uma mulher. O bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, publicou o escrito sem autorização da autora e, mais que isso, acrescentou ao texto um covarde prólogo assinado sob o pseudônimo feminino “Sor Filotea de la Cruz”, no qual elogiava o talento de Sor Juana, mas sugeria que ela deveria dedicar-se menos às letras profanas e mais aos estudos religiosos.

A réplica de Juana, a célebre Respuesta a Sor Filotea, tornou-se um dos textos mais importantes da história intelectual da América. Nela, defendeu o direito das mulheres ao estudo, à leitura e à produção do conhecimento com uma lucidez que continua impressionante mais de três séculos depois.

Seus últimos anos foram marcados por pressões religiosas e políticas cada vez maiores. Gradualmente afastou-se da vida literária, vendeu sua biblioteca e renovou seus votos de humildade. Em 1695, durante uma epidemia que assolou o convento, dedicou-se ao cuidado das freiras doentes até morrer ela também, da mesma enfermidade, aos 46 anos.

• • •

/ O POEMA

Prólogo al lector

Estos versos, lector mío, que a tu deleite consagro, y sólo tienen de buenos conocer yo que son malos,

ni disputártelos quiero ni quiero recomendarlos, porque eso fuera querer hacer de ellos mucho caso.

No agradecido te busco: pues no debes, bien mirado, estimar lo que yo nunca juzgué que fuera a tus manos.

En tu libertad te pongo, si quisieres censurarlos; pues de que, al cabo, te estás en ella, estoy muy al cabo.

No hay cosa más libre que el entendimiento humano; ¿pues lo que Dios no violenta, por qué yo he de violentarlo?

Dí, cuanto quisieres de ellos, que, cuando más inhumano me los mordieres, entonces me quedas más obligado,

pues le debes a mi Musa el más sazonado plato, (que es el murmurar), según un adagio cortesano.

Y siempre te sirvo, pues o te agrado, o no te agrado: si te agrado, te diviertes; murmuras, si no te cuadro.

Bien pudiera yo decirte por disculpa, que no ha dado lugar para corregirlos la prisa de los traslados;

que van de diversas letras, y que algunas, de muchachos, matan de suerte el sentido que es cadáver el vocablo;

y que, cuando los he hecho, ha sido en el corto espacio que ferian al ocio las precisiones de mi estado;

que tengo poca salud y continuos embarazos, tales, que aun diciendo esto, llevo la pluma trotando.

Pero todo eso no sirve, pues pensarás que me jacto de que quizá fueran buenos a haberlos hecho despacio;

y no quiero que tal creas, sino sólo que es el darlos a la luz, tan sólo por obedecer un mandato.

Esto es, si gustas creerlo, que sobre eso no me mato, pues al cabo harás lo que se te pusiere en los cascos.

Y a Dios, que esto no es más de darte la muestra del paño: si no te agrada la pieza, no desenvuelvas el fardo.

• • •

/ AS VOZES

[andré foltran]

Prólogo ao leitor

Estes versos, meu leitor, que a seu deleite consagro, cuja maior qualidade é eu saber que são fracos,

não venho aqui defendê-los, nem mesmo recomendá-los, que isso seria endeusar demais o pouco trabalho.

Que não te quero aos meus pés: por que diabos amaria aquilo que eu nem sonhei que às suas mãos chegaria?

Fique à vontade, leitor, até mesmo pra queimá-los, pois se fui livre ao fazê-los, são livres pra censurá-los.

Não há coisa mais liberta que a opinião humana; se nem o Deus a violenta, por que eu, que nem sou santa?

Pois diga o que quiser deles, quanto pior for a mordida que lhes der, melhor ainda, mais você está em dívida,

pois deve à minha Musa pelo saboroso prato da vida, que é falar mal, como bem diz o ditado.

Sempre lhe presto um serviço: ou lhe agrado, ou não lhe agrado; se lhe agrado, se diverte, reclama, se desagrado.

Bem podia eu dar desculpa que, na pressa dos traslados, sequer pude corrigi-los, nem deu tempo de ajeitá-los;

que vêm de diversas penas, e que algumas, de rapazes, matam sem pena o sentido, fazem do verbo cadáver;

e que, quando os escrevi, foi só no curto intervalo que sobrava às exigências próprias deste meu estado;

que tenho pouca saúde e contínuos embaraços, tantos que, ao dizer isto, troto com algo entre os braços.

Mas a desculpa não serve, lhe daria a ideia errada de que seriam melhores não fosse eu tão ocupada;

e não quero que assim pense, só pretendo mesmo dá-los à luz, tão só pra cumprir aquilo que me emprenharam.

Acredite se quiser, que isto nada me encasqueta, pois no fim não fará mesmo o que lhe der na veneta?

E adeus, que isto não é mais que uma amostra do drapeado: se não te agrada o tecido, nem desembrulhe este fardo.

É certo que, quando Sor Juana escreveu o poema, embarazo ainda não era amplamente usado para se referir à gravidez como é hoje em espanhol. Não me parece inocente, no entanto, o seu uso, vindo da pena ousada de quem vem, e já que, mais adiante, ela se vale da metáfora de “dar à luz” ao verso, reforçando a imagem, um tanto desconfortável para a época, de uma freira constantemente grávida (ainda que fossem gravidezes de poemas, apenas). Como em português a palavra embaraço não tem esse significado direto de gravidez (apesar de, também aqui, como em qualquer lugar do mundo, ser ela um grande embaraço), mas só aquele original de obstáculo, empecilho, estorvo — e de timidez, claro — , fiz com que a freira trotasse sua pena com “algo entre os braços” e que os versos não lhe fossem mandados, mas “emprenhados” nela. Não vi muita utilidade em manter certos embaraços sintáticos seiscentistas, portanto, e quando pude, optei por uma linguagem mais direta, uma tradução mais hospitaleira, exceto nos lugares onde o enrosco, a meu ver, produzia algum ganho de (duplo) sentido ou efeito estético que valia a pena. Também coloquei, aqui e ali, uma coisinha ou outra do léxico religioso para efeito de graça, coisa que a própria Inés fazia bastante, que também não sou santo.

• • •

[karen kawana]

Prólogo ao leitor

Estes versos, caro leitor, que a teu deleite dedico, e que tem de bom apenas eu saber que são tétricos,

nem os discutir quero nem quero sugeri-los pois isso significaria dizer que os acho magníficos.

Não busco tua validação, pois não deves, querido, estimar o que nunca achei que chegaria a teu domicílio.

Deixo-te bem à vontade para odiá-los, eu não ligo, pois, afinal, sei muito bem que isto é de teu arbítrio.

Não há coisa mais livre no ser humano que seu juízo e se Deus não o proíbe, por que eu hei de proibi-lo?

Diga o que quiseres deles, quanto maior o opróbrio com o qual os julgares, maior tua dívida comigo,

pois deves à minha Musa o prato mais convidativo, que, no adágio cortesão, é provocar um burburinho.

Ou agrado, ou não agrado, mas a ti sempre o sirvo: se te agrada, te divertes; gemes, se é duro engoli-lo.

Poderia muito bem dizer-te que ele não foi bem cozido devido à pressa dos copistas ficando assim, sem corrigi-lo,

há tantas mãos diferentes, algumas até de rapazinhos que esquartejam as palavras, tristes vítimas de assassínio!

E que só os pude compor durante os breves interstícios que me permitem as exigências de um cotidiano comprometido,

pois tenho pouca saúde e constantes empecilhos, tantos que minha pena voa, mesmo enquanto redijo.

Mas são explicações inúteis. Pensarás que me vanglorio dizendo que seriam melhores com tempo menos corrido,

e não quero que tal creias, mas só que foram paridos cumprindo um chamado sem qualquer outro motivo.

Claro, penses o que quiseres, não vou me matar por isso, pois, ao final, tu te conduzirás de acordo com teus caprichos.

E a Deus, este é meu jeito de te mostrar o tecido: se não te agrada a peça, não devolvas o remetido.

Primeira vez que leio um poema de Sor Juana Inés de la Cruz, as poetas que escreviam em sua época sempre me surpreendem pela língua ferina e deboche. Até que me diverti nesta tradução. Como de hábito, não costumo observar métrica, mas tento respeitar um pouco da rima e do aspecto semântico. E houve perdas, claro, como o embarazo, mencionado pelo andré foltran.

• • •

[raul coutinho]

Prólogo ao leitor

Estes versos, ó leitor meu, que pra ti deleite consagro, possuem algo que há de bom: eu saber que eles são maus,

nem pô-los em disputa quero e nem quero recomendá-los, porque isso seria querer dar para eles muito caso.

Um certo apreço teu não busco: pois não deves, com precisão, estimá-los porque eu nunca pensei que iriam às tuas mãos.

Ao teu dispor eu me coloco, pois se quiseres criticá-los; então, por fim, és tu que estás, e eu sei bem, mais informado.

Não há coisa mais livre que o entendimento humano; pois se Deus não o violenta, por que hei de violentá-lo?

Dize, o quanto quiseres deles, e que, quanto mais desumano tiveres de morder, melhor me deixarás mais favorável,

este é o fazer da minha Musa: o mais apetitoso prato (é o fazer murmurar), segundo um pensamento cortesão.

Logo sempre a te servir, ora, eu te agrado, ou não te agrado: se te agrado, te divertes; mas murmuras, se não te enquadro.

Bem que eu poderia dizer-te com desculpa, que não há nenhum lugar pra corrigi-los no desvelo de alguns transtornos;

que se vão por diversas letras, e que algumas, de garotinhos, tiram à sorte o sentido que é cadáver do vocábulo;

e se algum verso então refiz, teria de ser em curto espaço no enfoque de tal ócio das circunstâncias do meu estado;

pois possuo mera saúde e com contínuas gestações, tais, que ainda dizendo isso, eu levo a pluma no embalo.

Mas tudo isso mal se encaixa, podes pensar que até me gabo de que possam quiçá ser bons se houvesse feito devagar;

e eu não quero que creias nisso só porque tu estás lhes dando alguma luz, ou tão só por obedecer a qualquer mando.

Ou seja, se acreditares, que sobre isso eu não me mato, portanto, faze tu o que te quiseres a tua vontade.

E, por Deus, esta não é mais que uma amostra do tecido: e se não te agrada tal peça não desembrulhes este maço.

Aquela ironia sagaz. Mesmo que, sente-se ainda reverberar algum barroco hoje em dia. Este que o ornamento que afirma. No cânone era a retórica, e a tensão entre dois polos. Hoje lemos poemas que os penduricalhos se transformaram da retórica para o “trabalho de artesão”, e a tensão como forma ajustada e atual: os dizeres contemporâneos. E como feito, mantenho aqui algo atemporal, que seja fortuito aos tempos de hoje, para então termos uma leitura que dê conta de um diálogo: Juana Inés de la Cruz cara a cara nos dizendo em sua língua a lírica para nossos dias. Isso em algumas inversões, palavras traduzidas de forma literal, e a dicção para um sentido universal. O leitor sente que há algo dele, e outra que, mesmo antigo, se permaneceu.


메타데이터
post_id
3b0931e63f8d
slug
prólogo-al-lector-sor-juana-inés-de-la-cruz-3b0931e63f8d
url
https://medium.com/@umpoemavariasvozes/pr%C3%B3logo-al-lector-sor-juana-in%C3%A9s-de-la-cruz-3b0931e63f8d
canonical_url
https://medium.com/@umpoemavariasvozes/pr%C3%B3logo-al-lector-sor-juana-in%C3%A9s-de-la-cruz-3b0931e63f8d
author_url
https://medium.com/@umpoemavariasvozes
status
ok
fetched_at
2026-06-15 20:49:13