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O desencontro do amor

Claus Schotel

Clayton Fagundes Cardoso · 2024-12-17 12:53 · 0 claps · 5.3 min read
#contos #literatura #desencontros #amor #paixão
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O desencontro do amor

Claus Schotel

Eric Fagundes

Eric Fagundes

Ela estava na janela, olhando, contemplando um horizonte que parecia mais distante que o habitual. Na verdade, ela refletia sobre aquele amor que tinha perdido.

Seu nome era tão raro como uma joia: Jheovana.

Era realmente um tesouro de garota, um diamante precioso e único. Medindo apenas 1,48cm, era grandiosa na capacidade de encantar a todos. Os cabelos castanhos eram reluzentes como o sol de verão.

Todo aquele encanto estava ali na janela, posada como uma imponente estátua grega, refletindo.

Mas, quem seria aquele amor por quem Jheovana vivia a pensar? Era a pergunta que Júlio fazia toda vez que a observava fixamente por trás da cortina, na casa bem em frente.

Ele se camuflava como um soldado em meio a floresta para que ela não pudesse notar os seus olhos fixados em sua beleza colossal.

Mas sentia que, mesmo que se mostrasse, se se revelasse para ela, seu transe era tão profundo, tão anestésico, que mesmo um berro próximo aos seus ouvidos não a despertaria.

Ele a conhecia há mais ou menos uns seis meses. Bem, conhecer era força de expressão. Observava-a nesse tempo.

A única coisa que sabia dela era que a mãe trabalhava em um buffet, o irmão, em uma loja de brinquedos, aliás, a mesma rede de lojas em que Jheovana trabalhava, só que em outra unidade.

E quanto ao pai?

Esse tinha dado jeito de sumir no mundo. Seria esse então o grande amor que ela buscava desesperadamente ao olhar toda noite aquele horizonte?

Não, sabia que, pelo pai, ela nutria um sentimento de mágoa.

E como sabia disso também?

Sua melhor amiga que morava na casa ao lado. Mariane era seu nome. Menina de traços leves, de rosto angelical e de voz aguda.

Sabia que tinha uma queda por ele. Mas seus olhos e, principalmente, pensamentos estavam todos voltados para Jheovana.

Mariane sabia disso, mas aceitava a condição de ser sua informante, enquanto ele sofria platonicamente por Jheovana. Uma penitência que tanto Júlio quanto Mariane estavam determinados a pagar.

Era uma espécie de triângulo amoroso bizarro às avessas.

Aliás, era a música do New Order, “Bizarre Love Triangle” que gostavam de ouvir. Bem, não os três juntos, mas Jheovana dançava sublimemente ao som dessa canção.

Como ele sabia disso?

Mariane a gravava dançando e enviava o vídeo a ele pelo Whatsapp.

Era uma invasão de privacidade a quatro mãos.

Em alguns momentos, Mariane ameaçou não realizar os pedidos de Júlio.

Mas o garoto insistente e conhecedor da paixão da garota por ele sempre conseguia ludibriá-la.

Certa vez, em uma conversa, ele chegou a insinuar um beijo só para envolvê-la e convencê-la a fazer o que queria.

Você sabe, Mariane, que sou capaz de tudo para saber sobre Jheovana?

A menina o fitou apaixonadamente e apenas sussurrou — Jura, mas o quê?

O rapaz se aproximou de Mariane vagarosamente, encostou seu nariz no dela sussurrando de volta — isso…

Mariane fechou os olhos aguardando o beijo tão sonhado.

Mas Júlio desviou dos lábios da menina a beijando no rosto.

A frustração se desenhou instantaneamente na face de Mariane, que se virou bruscamente. A garota ameaçou correr, mas foi detida por Júlio que apenas disse — Se me ajudar, eu irei materializar seu sonho, juro!

A frase foi o suficiente para deter Mariane da sua investida de evadir-se.

O pacto patológico de Júlio e Mariane seguiu seu caminho. Mariane o informava das possibilidades de conquista do coração de Jheovana.

Um dos caminhos seria entrar no mundo da garota. No seu trabalho, na loja de brinquedos, ela era apelidada de a “princesinha dos nerds”, por causar um encantamento nos clientes colecionadores principalmente de Hot Wheels e de cards Pokémon.

Todo dia um potencial pretendente usava como pretexto a aquisição de itens, tentando em conversas conquistar o coração da garota. Dia sim e outro também, a moça era acariciada com chocolates e, até mesmo, flores e bijuterias compradas no bairro da Liberdade e claro, boosters de Pokémon e blisters dos Hot Wheels.

Mas a menina de voz doce como a de um anjo educadamente recusava gracejos, convites e investidas.

Seu pensamento permanecia naquele grande amor, aquele que ela, da janela, fitava toda a noite.

Aquele amor que atormentava Júlio e até Mariane, que, mesmo amiga, ainda tentava buscar saber do dono dos pensamentos de Jheovana.

Certo dia, Mariane tentou pressionar a amiga para que revelasse seu amor. A garota de voz leve como uma pluma apenas a fitou e disse:

  • Você nunca me apresentou aquele vizinho da frente, aquele ao lado da sua casa.

O rosto de Mariane enrubesceu e a fala se perdeu. Jheovana a fitou com seu olhar meigo colocando a mão no ombro da amiga.

  • Nós duas nunca guardamos segredos uma da outra, exceto eu com meu amor e você com esse que consegui descobrir.

Após a fala Jheovana sorriu para Mariane a abraçando. A menina não se conteve e se desmanchou em lágrimas.

As meninas passaram o resto da tarde ouvindo músicas dos anos 80. Entre sons do Depeche Mode, Tears for Fears e Duran Duran, uma canção em especial, “Right here Waiting” de Richard Marx, tocava os corações das duas amigas. Era Mariane pensando em Júlio e Jheovana pensando naquele seu amor que partirá.

Naquele mesmo instante, Júlio estava na janela, observando e esperando a ida de Jheovana à sacada. Sua espera não obteve resultado, a solução? Ligar para Mariane.

Júlio mandou mensagens e mensagens no ZAP e nada. Ligou diversas vezes e a caixa postal foi o retorno. O desespero no coração do rapaz só cresceu. Naquela altura, a ausência de Jheovana na sacada e de Mariane virtualmente trouxe uma vertigem que acabou por causar um desmaio no rapaz.

Quando despertou, olhou o relógio do celular e viu que ali tinha permanecido desacordado por 1 hora. Sua reação foi correr para achar Mariane. Bateu na porta da garota, mas não foi atendido por ninguém na casa vizinha. Voltou o olhar para casa de Jheovana e viu que lá a escuridão habitava.

Olhou o ZAP e viu que suas mensagens não foram respondidas. O jeito foi correr para o shopping, em direção à loja de brinquedos onde sua amada trabalhava. Estava decidido, iria entrar na loja se declarando para ela.

Ao entrar bruscamente percebeu que Jheovana não se encontrava. Se virou para um funcionário e perguntou:

  • Por favor, onde está Jheovana?

O rapaz de aparência severa, portando tatuagens por todo o corpo, inclusive no rosto, respondeu com uma voz calma.

Jheovana hoje não veio, está de folga.

Júlio só teve tempo de agradecer o rapaz. — Obrigado amigo.

A velocidade com que Júlio saiu da loja foi digna de deixar um atleta dos 100 metros rasos com inveja.

Àquela altura, ele não media mais a sua euforia e ansiedade, só queria encontrar uma das meninas.

Mesmo em um estado alterado, lembrou do local que poderia encontrar Mariane, o parque de diversões Marisa, lá no bairro de Itaquera.

Quando entrou no parque, olhou os brinquedos, levantou a cabeça olhando a roda gigante de um lado, e a montanha russa do outro. Quando voltou a cabeça para baixo, avistou, no banco bem ao centro, uma moça. Foi se aproximando devagar muito por conta da fadiga física que, àquela altura, o tomava por completo.

Quando chegou bem próximo, percebeu os traços de alguém familiar.

Só teve forças para chamar pelo nome.

Mariane?

Ao ouvir o chamado, a moça ergueu vagarosamente o rosto. Naquele instante, o tempo pareceu parar, Júlio foi tendo a noção bem lentamente daquela face que se revelava para ele.

Não era Mariane, mas sim Jheovana!

O coração de Júlio congelou.

A moça trajada com um belo vestido se revelou em um sorriso de Monalisa. Se aproximou e encostando a cabeça no peito de Júlio sussurrou uma frase:

Como te esperei, meu amor.

Ao ouvir a frase Júlio sentiu o corpo formigar, e os olhos foram se apagando lentamente.

O rapaz adormeceu aos pés de Jheovana.

Naquele momento, a moça teve a certeza da partida daquele grande amor que procurava na janela.


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