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A cicatriz da mulher negra

Por: Thalia Lins

Thalia Lins in Portfólio: Thalia Lins · 2020-06-20 19:25 · 4 claps · 2.0 min read
#crônicas #preconceito #racism #racismo #mulheres-negras
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A cicatriz da mulher negra

Por: Thalia Lins

Acordei. Mulher. Negra. Coloquei meus brincos de argola preta e um turbante coral – a cor do ano Pantone – no meu cabelo crespo, para ficar um tanto “arrumadinha”. Saí de casa abrindo o jornal, um ritual constante para calejar as dores diárias.

“Que negra linda”, ouvi ao entrar no metrô. Eram 8h57 da manhã. Engoli em seco o restante de saliva presente na minha boca, que entalada ficou junto às outras agoniações. Fiquei perguntando-me “Por que não ‘mulher’ bonita? Que motivo ele tem para enfatizar o ‘negra’?”. De forma instantânea, lembrei das aulas de ética e dos assuntos sobre racismo enraizado. Eis aqui um exemplo claro e real.

Ao estudar jornalismo, criei o hábito de consumir o conteúdo de jornais e revistas com maior frequência. Folhear página por página e não me sentir representada pelas good news era desgastante. Eu estava errada ou minha pele era escura demais para ser encaixada junto aos padrões de beleza historicamente impostos na sociedade?

Minha feminilidade e meu fenótipo de pele escura sempre foram fatores de incômodo. Não somente meu, mas de todas as outras mulheres que compartilham as mesmas características. Seja em um ambiente profissional, em que somos colocadas como ‘sexo frágil’, ou na roda de conversa de alguns amigos, em que nossa ‘cor do pecado’ é tentadora demais para eles.

Pecado. Eva. Adão. A mulher vista como a propagadora da perversidade e o caminho para o erro. Nossas linhas e curvas transformadas em rumos na direção do que é mau. Mau aos olhos dos homens. Nossos corpos como instrumentos de trabalho braçal e, sempre, sexual. Minha cor remetida ao prazer, ou melhor, remetida para suprir o prazer do outro.

Sinto meu estômago embrulhar toda vez que alguém me conta um caso de discriminação racial ou discriminação de gênero. Já ouvi gente dizer “Até quando ficará indignada? Não percebeu que nos dias atuais isso tem sido tão comum?”. E é exatamente esse o problema, preconceito e discriminação sendo tratados como corriqueiros na vida das pessoas. Mas não na minha!

Desde muito cedo, minha mãe sempre me colocou a par dos meus direitos e fez com que eu entendesse com clareza tudo aquilo que me pertencia, tudo aquilo que era meu. Eu cresci com a ideia de conquistar meu direito ao trabalho, ao controle do próprio corpo, à vida, liberdade, educação e à integridade física.

Sempre que minhas atribuições foram confrontadas, minha esperança entendia que a luta por elas tinha dado um passo para trás. Regredido. Demorei para entender que o principal problema estava na visão do outro, em como ele enxerga uma mulher – negra – na sociedade.

O metrô parou na estação Eucaliptos e abriu as portas. Ao colocar um pé para fora fui surpreendida novamente, dessa vez com um “Imagina essa mulata lá em casa”. Ao invés de pensar em responder, meus pensamentos foram direcionados para os dados sobre feminicídio que li na noite de ontem. Paralisei e novamente engoli em seco, sem um movimento sequer. “Mulher negra é espancada no metrô após reagir a comentários machistas”, o medo de ler este tipo de manchete no dia seguinte falou mais alto. A dor diária ainda não calejou.

Thalia Lins. 2019.


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