Rima e Práxis: o RAP brasileiro como leitura analítica da formação social brasileira em Nascimento…
Escrito por Juliana Camará como projeto final da disciplina “Questão Racial, Classe e Formação Social Brasileira” do Mestrado em Educação…
Rima e Práxis: o RAP brasileiro como leitura analítica da formação social brasileira em Nascimento, Moura e Munanga
Escrito por Juliana Camará como projeto final da disciplina “Questão Racial, Classe e Formação Social Brasileira” do Mestrado em Educação profissional em saúde da EPSJV | Fiocruz.

Em 1978, Abdias Do Nascimento afirmou que o genocídio do negro brasileiro operava sob uma máscara: a ficção de uma democracia racial que escondia, sob a aparência de harmonia, séculos de extermínio físico, cultural e econômico. Décadas depois, artistas como Djonga, BK e Baco Exu do Blues chegaram às mesmas conclusões não pelos caminhos da academia, mas pela experiência vivida nas periferias, favelas e becos do Brasil.
Este ensaio propõe uma leitura articulada entre quatro músicas do RAP e do funk brasileiro contemporâneo: “Corra” (Djonga), “The Box Medley Funk 6” (Didi e Oruam), “Movimento” (BK) e “Bluesman” (Baco Exu do Blues), e o pensamento de três intelectuais negros fundamentais para a compreensão da formação social brasileira: Clóvis Moura, Abdias Do Nascimento e Kabengele Munanga. O argumento é que essas músicas cobrem, em conjunto, as três dimensões que os autores identificam como constitutivas da opressão racial no Brasil que são estrutura econômica herdada do escravismo, o genocídio multidimensional que se perpetua no presente e a construção ideológica de uma identidade negra subordinada.
TRÊS LEITURAS DE UMA MESMA ESTRUTURA: MOURA, NASCIMENTO E MUNANGA
Embora Clóvis Moura, Abdias Do Nascimento e Kabengele Munanga compartilhem o diagnóstico de que o Brasil é uma sociedade estruturalmente racista, cada um oferece uma entrada analítica distinta e essa distinção importa para que suas categorias sejam usadas com precisão.
Clóvis Moura lê o racismo pela chave da estrutura econômica e histórica. Para ele, o escravismo não foi um episódio superado pela abolição, mas a matriz sobre a qual se ergueu a formação social brasileira. Em sua “Dialética Radical do Brasil Negro”, Moura argumenta que o capitalismo dependente brasileiro criou deliberadamente uma “grande franja marginal” ocupada por negros, funcional ao sistema porque permite manter baixos salários e uma reserva de força de trabalho descartável. O racismo, nessa perspectiva, é uma “arma ideológica de dominação” que serve a interesses econômicos concretos, não é um preconceito residual, mas um mecanismo ativo de reprodução das desigualdades. Moura também aponta que o aparelho de Estado (polícia, legislação, sistema de justiça) foi historicamente acionado para conter qualquer rebeldia negra que ameaçasse esse equilíbrio.
Abdias Do Nascimento opera no registro do genocídio multidimensional. Seu conceito central, desenvolvido em “O Genocídio do Negro Brasileiro”, ultrapassa a morte física denunciando que o genocídio é também o extermínio cultural, estético, espiritual e psicológico de um povo. Nascimento denuncia o mito da democracia racial como uma “ficção ideológica” que permite ao Brasil manter o racismo operando enquanto nega sua existência. Sua proposta política é o quilombismo: a ideia de que cada forma de resistência negra, dos quilombos históricos às manifestações culturais e políticas contemporâneas, é uma atualização do mesmo princípio de autodeterminação e recusa à submissão.
Referencio Kabengele Munanga na dimensão ideológica e subjetiva do racismo, com especial atenção à construção da identidade. Em sua abordagem conceitual sobre raça, racismo, identidade e etnia, Munanga mostra como o racismo brasileiro opera pela internalização e pela forma que a ideologia dominante fabrica imagens de inferioridade que o próprio sujeito negro pode acabar incorporando, gerando o que ele chama de “autoestima rasgada pela alienação racial”. Munanga também analisa criticamente o papel da mestiçagem como política de Estado, não como celebração da diversidade, mas como estratégia de branqueamento e diluição da identidade negra. Seu conceito de etnocídio, que é a destruição da cultura de um povo mantendo seus corpos vivos, diferente do genocídio físico, é fundamental para entender a apropriação cultural e que a identidade negra, para Munanga, não é um dado natural: ela precisa ser ativamente construída como ferramenta política de resistência.
Com essas três entradas em mente é possível ler as músicas com maior precisão, acionando cada autor onde sua contribuição é mais potente.
A VIOLÊNCIA DA ORIGEM: “CORRA” (DJONGA)
Amor, olha o que fizeram com nosso povo Amor, esse é o sangue da nossa gente Amor, olha a revolta do nosso povo Eu vou, juro que hoje eu vou ser diferente Éramos milhões, até que vieram vilões O ataque nosso não bastou Fui de bastão, eles tinham a pólvora Vi meu povo se apavorar E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar
(Corra — Djonga)
“Corra”, de Djonga, é a música mais histórica do conjunto analisado. Ela narra a origem da opressão no encontro colonial que ancora toda a formação social brasileira e por isso abre a análise.
Os versos “Éramos milhões, até que vieram vilões / O ataque nosso não bastou / Fui de bastão, eles tinham a pólvora” descrevem com precisão o argumento central de Moura: a dominação colonial não se deu por uma suposta superioridade civilizatória como descrita pelos europeus, mas pelo uso da força militar e do terror como instrumentos de acumulação. O “bastão” contra a “pólvora” não é apenas uma imagem poética, é a síntese de que o escravismo foi um projeto econômico sustentado pela violência, a matriz sobre a qual se ergueu a formação social brasileira. Para Moura, a abolição não desfez essa estrutura; ela apenas reorganizou a exploração, mantendo o negro na “franja marginal” do sistema.
A denúncia “esse é o sangue da nossa gente” ecoa diretamente o que Nascimento define como genocídio: o processo contínuo de martírio que, desde 1500, “fertilizou o solo brasileiro” com corpos negros. O “sangue” de Djonga não é apenas metáfora, mas o extermínio histórico.
Um momento importante da música também está no verso “às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar”. Esse sentimento de imobilidade não é uma simples desesperança individual, é o efeito calculado do que Nascimento chama de “círculo vicioso da discriminação”: um sistema montado de tal forma que as barreiras se reforçam mutuamente, criando um cerco onde o esforço individual raramente é suficiente para romper a estrutura.
O SISTEMA EM FUNCIONAMENTO: “THE BOX MEDLEY FUNK 6” (DIDI E ORUAM)
Vencendo com peso da luta mesmo sendo preto Então vai embora com a sua inveja e com seu preconceito A rua conversa com o gueto, e a bala come no beco Vai morrer polícia e bandido e o crime não vai acabar (…) É assim, o Estado ataca nóis E se nóis for revidar, ainda nóis que é o monstro Antes de morrer, ele gritou que era CV Vai tomar no cu, sistema, o crime ganhou de novo The box medley funk 6 — Didi e Oruam
Se “Corra” fala da origem histórica da opressão, “The Box Medley Funk 6” fala do seu funcionamento cotidiano e da estrutura colonial que se reproduz no presente das periferias brasileiras. Aqui Clóvis Moura é o autor privilegiado, porque a música opera exatamente no registro econômico e estatal que ele teorizou.
“A rua conversa com o gueto, e a bala come no beco” > O “gueto” é a materialização da segregação espacial que o autor aponta como consequência direta do pós-abolição, pois ao ex-escravo foi negado o acesso à terra e ao capital, e sua concentração nas favelas e periferias é também um resultado desse vazio de direitos. O “beco” onde a bala come é o território de um “estado de terror permanente” necessário para manter o controle dos corpos periféricos e a gurra as drogas que justifica o gencídio e traz lucro pros opressores.
“Vencendo com peso da luta mesmo sendo preto” articula com o que Moura descreve ao falar do negro como “símbolo negativo” ou o “mau cidadão” da sociedade; o racismo também funciona como uma força que exige do indivíduo negro um esforço desproporcional para alcançar o que, para o branco, é dado como ponto de partida. Munanga complementa essa análise ao mostrar como essa exigência desproporcional tem raízes nas teorias racialistas do século XIX que forjaram a inferioridade intelectual do negro, e essa herança segue operando nos julgamentos cotidianos sobre mérito e competência. Aqui ainda podemos utilizar uma parte de Djonga em “Corra” quando diz “Pra eles nota seis é muito / Pra nóis nota dez ainda é pouco”.
“É assim, o Estado ataca nóis / E se nóis for revidar, ainda nóis que é o monstro”. Esse paradoxo em que a vítima que se torna criminosa ao resistir é o mecanismo da ideologia racista que associa a negritude à “crueldade inata” e à “criminalidade”, de modo que qualquer reação da população periférica à violência estatal pode ser imediatamente enquadrada como “monstruosidade”, legitimando o extermínio.
Por fim, “vai morrer polícia e bandido e o crime não vai acabar” e “Antes de morrer, ele gritou que era CV / Vai tomar no cu, sistema, o crime ganhou de novo” não é fatalismo e sim uma leitura estrutural. O crime não é uma falha do sistema capitalista dependente brasileiro; é parte do seu funcionamento. Eliminar o crime exigiria eliminar as condições que o produzem e isso implicaria romper com a própria estrutura da formação social brasileira. O sistema ganhar de novo nesse caso se ilustra na morte de mais um negro na engrenagem desse sistema, nesse caso a partir da associação ao tráfico, mas também podedia ser pela via da morte como policial soldado.
A BATALHA PELO SÍMBOLO: “MOVIMENTO” (BK)
Botaram as drogas no meio dos Panteras Baixa autoestima no meio das negras Maldições em nós por várias eras E hoje nós que somos bruxos, feiticeiras Malcolm X, eu não tô bem com isso Mataram Marielle e ninguém sabe o motivo Na real todos sabemos o motivo É o mesmo de nenhum dos meus heróis continuar vivo (..) Mandam tu se calar, nunca abaixe o tom No show, nós somos Martin Luther King em Washington Manifestações, libertar mentes e pulsos Buscando soluções, fim dos choros e soluços Vamo derrubar o nome dessas ruas, essas estátuas Botar herói de verdade nessas praças Se tu se expõe muito (plá!), toma sem cara Mas lutamos, (há!) Thomas Sankara (Movimento — BK)
“Movimento”, de BK, vem para analisar as formas organizadas de resistência. A música de Bk dialoga diretamente com as propostas práticas de Nascimento e com o conceito de identidade política unificadora de Munanga.
A abertura “Botaram as drogas no meio dos Panteras / Baixa autoestima no meio das negras / Maldições em nós por várias eras / E hoje nós que somos bruxos, feiticeiras” opera em dois registros simultâneos. O primeiro é a denúncia da sabotagem de movimentos negros em que Nascimento documenta como o establishment (e, no caso norte-americano, o próprio FBI) utilizou estratégias de infiltração e criminalização para destruir organizações como os Panteras Negras, rotulando-as como “criminosas” em vez de “políticas”. O segundo é a dimensão psicológica do genocídio que Munanga tematiza, a “baixa autoestima” não é um problema individual, mas o efeito acumulado de séculos de ideologia racista que impõe ao negro / e nesse caso mais especificamente a mulher negra / uma imagem de inferioridade. A subversão de BK está em transformar esse estigma em potência, “bruxos e feiticeiras” não é rendição à acusação, mas sua ressignificação como fonte de força ancestral.
O verso “Mataram Marielle e ninguém sabe o motivo / Na real todos sabemos o motivo / É o mesmo de nenhum dos meus heróis continuar vivo” > O assassinato de lideranças é o funcionamento habitual de uma engrenagem que Nascimento descreve como projetada para impedir que o negro “reconquiste o controle de seu destino”. O “motivo” que todos sabem, mas poucos dizem, é o impacto do quanto as pautas raciais são silenciadas e o processo de genocídio é naturalizado.
“Vamo derrubar o nome dessas ruas, essas estátuas / Botar herói de verdade nessas praças” é onde o quilombismo de Nascimento aparece, já que derrubar estátuas coloniais é um ato de refundação simbólica do espaço público. Para Nascimento, o quilombo é o paradigma de qualquer ação negra de autodeterminação; é um território onde o negro define seus próprios termos, seus próprios heróis, sua própria narrativa. Substituir as estátuas de colonizadores por figuras como Zumbi dos Palmares ou Thomas Sankara é devolver ao negro a posição de sujeito, não de objeto, da história.
Por fim, “Mandam tu se calar, nunca abaixe o tom” é a formulação da resistência ao silenciamento que Nascimento denuncia. O Estado brasileiro utilizou instrumentos legais e repressivos para censurar a discussão racial, rotulando o protesto negro como “subversivo”. Manter o tom alto, nesse contexto, é uma recusa à domesticação.
O SEQUESTRO CULTURAL E A APROPRIAÇÃO CULTURAL: “BLUESMAN” (BACO EXU DO BLUES)
Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos O primeiro ritmo que tornou pretos livres Anel no dedo em cada um dos cinco Vento na minha cara, eu me sinto vivo A partir de agora considero tudo blues O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues O funk é blues, o soul é blues, eu sou Exu do Blues Tudo que quando era preto era do demônio E depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues É isso, entenda Jesus é blues Falei mermo (…) Eles querem um preto com arma pra cima Num clipe na favela gritando: Cocaína Querem que nossa pele seja a pele do crime Que Pantera Negra só seja um filme Eu sou a porra do Mississipi em chama Eles têm medo pra caralho de um próximo Obama Racista filha da puta, aqui ninguém te ama Jerusalém que se foda, eu tô à procura de Wakanda, ah (Baco Exu do Blues — Bluesman)
“Bluesman”, de Baco Exu do Blues, diferente das músicas anteriores, que denunciam a violência física, econômica ou política, opera no território da violência simbólica e cultural.
“Tudo que quando era preto era do demônio / E depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues”. Esse processo de transformação, do demonizado ao aceito, é o que Munanga define como etnocídio. A destruição da cultura negra não pela eliminação física dos seus portadores, mas pela expropriação e esvaziamento do conteúdo político e cultural de suas manifestações. Nascimento chama esse mesmo processo de “folclorização” ou “bastardização” cultural, já que as religiões e as artes negras quando expressadas pelos negros são perseguidas como “feitiçaria” e “patologia mental”, mas quando são apropriadas por mãos brancas, tornam-se “cultura”, “arte” ou “entretenimento”.
A dimensão econômica da apropriação é fundamental para completar a análise, já que, a aceitação cultural da criação negra não vem acompanhada de redistribuição da renda, pois o lucro fica nas mãos brancas enquanto o criador negro permanece marginalizado. Nascimento exemplifica isso ao mostrar como a elite branca comercializa até os nomes dos Orixás em empreendimentos imobiliários de luxo, auferindo lucro sobre divindades e os negros são frequentemente impedidos de praticar sua fé em paz.
“Eles querem um preto com arma pra cima / Num clipe na favela gritando: Cocaína / Querem que nossa pele seja a pele do crime” esses versos denunciam a imposição do que é estereotipado e degradante. Nascimento identifica essa dupla operação > apagar o que é potência, fixar o que é estigma < como constitutiva do genocídio simbólico. O sistema não quer o “Pantera Negra” como agência política; quer o “Pantera Negra” como filme, como entretenimento consumível que não ameaça o equilíbrio de poder e gera lucro ao capital.
Por fim, “Jerusalém que se foda, eu tô à procura de Wakanda” pode ser uma ponte para a categoria de identidade política de Munanga. Wakanda (a nação africana fictícia de Pantera Negra, tecnologicamente avançada e soberana) pode representar o que Munanga descreve como o movimento de construção de uma imagem positiva da negritude. Não uma carência a ser compensada, mas uma civilização com história, potência e futuro. Rejeitar Jerusalém (símbolo de uma tradição religiosa que historicamente justificou a escravidão e a colonização) em favor de Wakanda é recusar a identidade imposta pelo colonizador e construir, ativamente, uma identidade própria.
POR FIM
Os que têm a sensibilidade e a frieza na hora de olhar o Mundo Serão os responsáveis pelos outros olhares Os que nada temem, serão responsáveis por corajosos e covardes Ser a força, o amor, o poder, a sabedoria E a luta pela liberdade só acabe quando ela for encontrada Para que a nossa poesia não seja mais escrita com sangue (Movimento — BK)
Esse texto tem um significado pessoal especial. Poder reunir, em um mesmo trabalho, autores que estão sendo fundamentais para minha formação e o RAP, que me acompanha desde a adolescência e despertou em mim muitas das primeiras reflexões sobre raça, desigualdade e sociedade, é também reconhecer que o conhecimento não se produz em um único lugar. Ao aproximar essas duas formas de leitura do mundo, encerro este percurso reafirmando que ciência, arte e experiência podem caminhar juntas na construção de modos de compreender a realidade e de transformá-la.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- Clóvis Moura. Dialética Radical do Brasil Negro (2014).
- Clóvis Moura. Escravismo, Colonialismo, Imperialismo e Racismo (1980).
- Clóvis Moura. O racismo como arma ideológica de dominação (1994).
- Kabengele Munanga. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia (2003).
- Abdias Nascimento. O genocídio do negro brasileiro (2016).

메타데이터
- post_id
- 3be0f401aedc
- slug
- rima-e-práxis-o-rap-brasileiro-como-leitura-analítica-da-formação-social-brasileira-em-nascimento-3be0f401aedc
- url
- https://medium.com/@produzindosubjetividade/rima-e-pr%C3%A1xis-o-rap-brasileiro-como-leitura-anal%C3%ADtica-da-forma%C3%A7%C3%A3o-social-brasileira-em-nascimento-3be0f401aedc
- canonical_url
- https://medium.com/@produzindosubjetividade/rima-e-pr%C3%A1xis-o-rap-brasileiro-como-leitura-anal%C3%ADtica-da-forma%C3%A7%C3%A3o-social-brasileira-em-nascimento-3be0f401aedc
- author_url
- https://medium.com/@produzindosubjetividade
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-09 15:12:33