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condolências aos vivos

Morremos duas vezes. Agora temos que também conceber a capacidade de matar certas coisas — e por coisas estou coisificando pessoas…

Caio Jaeger · 2022-10-15 21:36 · 1 claps · 1.4 min read
#beber #cair #levantar
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condolências aos vivos

Morremos duas vezes. Agora temos que também conceber a capacidade de matar certas coisas — e por coisas estou coisificando pessoas, sentimentos e memórias afetivas — para o nosso próprio bem. E por nosso quero dizer o meu bem.

No final de semana estive em certa reunião familiar e me foi arremate certas noções gerais da convivência entre humanos. A principal delas foi o fato de entender que eu ainda não cresci aos olhos de certas pessoas. Talvez tenha sido a bebida farta ou o clima primaveril, sei apenas que fui me envolvendo em certa colcha de retalho das lembranças dos outros sobre o meu eu infantil ao ponto que me vi preso como uma presa que se debate na teia, subjugada às quelíceras da dona aranha.

A porra ficou séria.

Pergunta: Do que um jovem de 55kg e 1,70 de altura precisa para passar mal?

A) 12 latas de cerveja importada.

B) Alguns copos de cerveja nacional.

C) Uma festa de família repleta de ilustres desconhecidos em pleno cenário eleitoral.

D) Representações infantis alhures da sua infância sem ter vivenciado ab imo pectore os dramas da autoculpabilização de uma sexualidade reprimida, do divórcio dos seus pais ou do abandono parental.

E) Todas as alternativas acima.

(…)

Acho que se as pessoas permitem ainda carregar vivo aquele espírito ginasial de algo que existe em mim mas que não me representa em exatidão aquilo que eu sou agora, então acho que tudo bem matar aquele que ali está e não é aquilo que eu pensava ser quando eu era criança. Olho por olho, dente por dente. Uma vida pela outra. Imaginei o Clint Eastwood ou o Charles Bronson dizendo essas últimas frases.

Vivemos querendo conquistar o reconhecimento das pessoas apenas para nos desfazermos em pedaços ao perceber que muitas das nossas conquistas são apenas construtos elaborados da oportunidade de nos vermos vivos em certos sonhos dos outros. Ou seria o contrário?

Deixe os velhos sonhos morrerem, e com eles, aqueles personagens que não fazem mais parte do seu imaginário. E caso você ainda tenha medo, não se apavore. Ninguém realmente morre nos sonhos. Eles continuarão existindo de alguma forma e ainda assim habitarão em alguma curva dentro de você. Que nem um clichê.


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