Três eras, nove ídolos: a história do Galo que mora em mim
Quando fiquei sabendo que o Hulk estava de saída do Atlético, me dei conta de uma coisa óbvia e, ao mesmo tempo, dolorida: até os deuses…
Três eras, nove ídolos: a história do Galo que mora em mim

Quando fiquei sabendo que o Hulk estava de saída do Atlético, me dei conta de uma coisa óbvia e, ao mesmo tempo, dolorida: até os deuses envelhecem. E, quando um deus vai embora, o torcedor precisa arrumar um jeito de reorganizar o próprio passado.
Eu, Raphael, atleticano desde 1985, comecei a brincar com uma ideia: e se a história do Galo não fosse uma linha reta, mas um livro em três grandes capítulos? Não um tratado de estatísticas, mas uma espécie de Bíblia alvinegra, cheia de heróis, pecados, milagres e ressurreições.
Foi assim que eu dividi o Clube Atlético Mineiro em três tempos: a pré-história atleticana (1908–1970), a idade média alvinegra (1971–2011) e o renascimento atleticano (2012 até agora).
Três eras, três ídolos em cada uma: nove jogadores para contar, do meu jeito, 118 anos de um clube que insiste em misturar futebol com religião.
A pré-história: heróis que eu nunca vi, mas acredito
A pré-história atleticana é uma terra que eu não pisei, mas na qual aprendi a acreditar como quem acredita em lenda que os mais velhos contam na mesa do bar. É o tempo do amadorismo, das fotos em preto e branco, da camisa pesada num Brasil que ainda nem sabia direito o que era um campeonato nacional organizado.
Lá no começo dessa história, tem um nome que parece inventado de tão perfeito: Mário de Castro. Centroavante do famoso “Trio Maldito”, ele jogou só pelo Atlético, marcou 195 gols em 100 jogos oficiais e ostenta uma das maiores médias de gols da história do futebol brasileiro.
Ao lado dele, num altar que eu montei dentro da cabeça, está Guará, o craque que carregou o time nos anos 30 e 40 e empilhou gols a ponto de ser lembrado como um dos maiores artilheiros da história do clube. Guará é, para mim, a prova de que a grandiosidade do Galo não começou nos anos 70 ou com a televisão; começou no barro, nas arquibancadas improvisadas, nos gritos que ninguém filmou.
Lá atrás também vive Kafunga, o goleiro que virou expressão em Minas quando alguém queria falar de um tempo remoto: “isso foi lá em mil novecentos e Kafunga”.
Ele defendeu o clube por quase duas décadas, foi multicampeão mineiro e participou do time Campeão dos Campeões de 1937, primeiro grande título nacional lembrado com orgulho pela Massa.
A pré-história atleticana, para mim, é isso: três nomes que eu nunca vi jogar, mas que aprendi a respeitar como se fossem parentes distantes. Mário, Guará e Kafunga são a forma que encontrei de agradecer a um tempo que fez o Galo existir antes mesmo de eu nascer.
Idade média alvinegra: brilho, trevas e teimosia
A idade média alvinegra começa em 1971, quando o Atlético ergue o primeiro Campeonato Brasileiro da história, com Dadá Maravilha empurrando a bola para dentro como só ele sabia. Gosto de imaginar aquele dia como a coroação de um reino que finalmente se via no mapa do país — um título que, de tão distante, virou quase um mito de origem.
Mas, se toda idade média tem seus castelos, também tem suas masmorras. No nosso caso, elas vieram em forma de eliminações dolorosas, arbitragens discutíveis, times maravilhosos parados na trave e, mais tarde, a queda para a Série B e um vexame que ganharia nome próprio.
É nesse cenário contraditório que brilha Reinaldo, o Rei, maior artilheiro da história do clube, com 255 gols, e dono de uma elegância que atravessou as décadas.
Mesmo sem ter levantado outro Brasileirão, o time de Reinaldo encantou o país e virou símbolo de um Atlético que jogava o melhor futebol, mas nem sempre levava a taça.
Ao lado dele, como figura constante debaixo das traves e rosto de várias gerações, está João Leite. Revelado pelo próprio Galo, ele é o jogador que mais vezes vestiu a camisa alvinegra em toda a história: 684 partidas oficiais, recorde absoluto do clube.
Entre meados dos anos 70 e início dos anos 90, acumulou 11 títulos do Campeonato Mineiro, participou de campanhas marcantes e ainda fechou o ciclo com a conquista da Copa Conmebol de 1992, o primeiro título internacional oficial do Galo.
E tem Dadá, claro, o profeta da primeira conquista nacional, o homem das frases, dos saltos, da convicção absoluta de que bola na rede é um detalhe que só interessa a quem não tem fé. No meu livro pessoal, Dadá é o cavaleiro que abre a idade média com espada em punho, antes que a escuridão resolva dar as caras.
Essa era termina em 2011, numa tarde sufocante na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas, que virou pântano para o atleticano desavisado.
O 6 a 1 não foi só uma goleada: foi como ser engolido por um jacaré faminto, daqueles que ficam imóveis na beira do rio fingindo que nada vai acontecer, até que, de repente, o bote vem e você já está inteiro dentro da boca.
Ali, longe do Mineirão e com torcida única do outro lado, o Galo apanhou como poucas vezes na história e saiu encharcado de vergonha, obrigado a escolher entre afundar de vez no brejo ou reaprender a voar por conta própria.
Renascimento atleticano: do 6 a 1 ao Hulk
O renascimento atleticano começa justamente onde muita gente achou que era o fim. Após o 6 a 1, o clube poderia ter se acomodado numa melancolia crônica, mas preferiu outra rota: a da ousadia.
Em 2012, chega Ronaldinho Gaúcho, e com ele, não só um jogador, mas um holofote apontado para Belo Horizonte.
Com o sorriso de quem já venceu o mundo, ele ajudou a conduzir o Galo ao título da Libertadores de 2013, um troféu que parecia reservado aos outros e, de repente, estava sendo erguido por um capitão de cabelo preso em coque e camisa 10 nas costas.
Se Ronaldinho foi o maestro, Victor foi o santo. Se eu tivesse que explicar o que é fé para alguém que não gosta de futebol, mostraria o pênalti defendido contra o Tijuana e diria: “tá vendo esse segundo aqui? Foi quando a torcida decidiu nunca mais duvidar do impossível”.
Victor virou “São Victor” não por invenção de marketing, mas porque a Massa decidiu canonizá-lo após tantos milagres em noites de mata-mata, na Libertadores, na Recopa, na Copa do Brasil e em tantos Mineiros levantados com ele no gol.
E aí, quase como um fechamento perfeito de ciclo, surgiu Hulk. Não só o jogador, mas o líder técnico e emocional de um Atlético que, em 2021, finalmente voltou a levantar o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil no mesmo ano, além da Supercopa, encerrando um jejum nacional que já parecia lenda urbana.
Hulk é a prova viva de que um clube pode se reinventar sem perder a alma: ele briga, reclama, chama a responsabilidade, decide e ainda encontra tempo para sorrir na hora de erguer a taça.
Quando penso no que chamo de renascimento atleticano, vejo uma linha que passa por Ronaldinho, é protegida por Victor e explode no grito de gol do Hulk. É a era em que o Galo saiu da boca do jacaré para voltar a morar, com propriedade, entre os gigantes do continente.
Nove nomes para um clube infinito
É claro que o Galo é maior do que nove jogadores. Ficam de fora Éder, Marques, Tardelli, Réver, Luan e tantos outros que, se eu me descuidar, vão me mandar mensagem indignada do além-gramado.
Mas, se eu tiver que resumir em nove rostos a história que me ensinaram, a que eu vivi e a que ainda estou vivendo, fico com eles: Mário de Castro, Guará, Kafunga; Dadá, Reinaldo, João Leite; Ronaldinho, Victor e Hulk.
Nove jogadores para três eras. Nove estátuas imaginárias em volta de um campo que existe dentro de mim, onde o Galo ataca os noventa minutos e a arquibancada nunca vai embora antes do apito final.
Talvez, quando alguém me perguntar no futuro “quem foi o maior da história do Atlético?”, eu continue sem saber responder. O que eu vou saber dizer é: “Senta aqui, deixa eu te contar como esse time caminhou da pré-história ao renascimento, passando por céu, inferno, jacaré e 6 a 1, até chegar ao dia em que até o Hulk virou saudade”.
E, se essa pessoa topar ouvir, talvez descubra que, no fundo, a história do Galo é só uma desculpa bonita para falar de algo ainda maior: o jeito como um clube de futebol consegue caber dentro da vida inteira de um torcedor.
메타데이터
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