18. O sorriso macabro
Aquele sorriso… O que tinha de enigmático, tinha de macabro.
18. O sorriso macabro

Aquele sorriso… O que tinha de enigmático, tinha de macabro.
Nunca esquecerei. O semblante que já havia sido objeto de admiração, passou a ser um poço de ojeriza. Marco na história da Arte que me atormentou por dias a fio. Não lembro perfeitamente dos detalhes — provavelmente pelo esforço inconsciente de autopreservação da sanidade –, mas pretendo relatar o mais fielmente possível o ocorrido. Espero não apagar…
“POR QUE EU?”, me fiz tal pergunta trocentas vezes naquele período. Talvez eu fosse a candidata ideal aos olhos daquele ser. Candidata a um experimento dos mais doentios. Me recordo estar sentada ao piano numa noite, praticando, quando percebi o início de outra música que contrastava com a melodia que eu estava executando. Por um momento achei que o piano tivesse desafinado ou algo assim. Parei de tocar. A outra música continuou.
Demorei uns minutos para reconhecê-la: Dança das Horas, Amilcare Ponchielli; que fez parte de uma famosa ópera. Me surpreendeu de modo positivo e o pensamento “Nossa, pelo visto tenho um vizinho com bom gosto” me passou pela mente. Sensação que seria logo em seguida substituída pela aflição de estar sendo observada. Mas de onde? Provável que da única janela daquele aposento. Aconteça o que acontecer, não vá até a janela! Eu fui. A passos de formiga. Rígidos. Sendo atraída pelo ímã da curiosidade mórbida. Meu medo me dava a impressão de haver quilômetros entre o piano e a janela. Faltavam só mais dois passos quando ouvi — ou achei ter ouvido — uma batida na porta da frente. Por puro reflexo virei minha cabeça em sua direção. E foi por puro instinto que a desvirei novamente em direção à janela. Antes não tivesse instinto… Senti meu coração sair pela boca ao ver sua face pressionada contra a vidraça, levemente distorcida, mas de todo reconhecível: vestia no rosto uma máscara com uma imagem impressa d’A Monalisa. Sim, aquela. A famosa. Do sorriso enigmático, desconcertante… macabro. Fui ao chão.
Acordei no dia seguinte, de manhã. Havia tempos que não desmaiava. A julgar pelo meu histórico, já havia desmaiado mais do que qualquer pessoa que eu conhecia. Qualquer pico de adrenalina era o suficiente. O susto da noite anterior não seria diferente. Estou viva? Ufa, foi coisa da minha cabeça… Não foi. Aquela foi a primeira das várias noites de terror que desafiariam a minha estabilidade emocional. Não havia um padrão. Suas aparições eram imprevisíveis, e isso era o que mais me angustiava. Só sabia que chegaria à noite. Tive medo. Mas há de se continuar vivendo, não é mesmo? Escovava eu os dentes antes de dormir quando a melodia começou, anunciando sua segunda visita. Gelei, e congelei. Fitei a pia com olhos esbugalhados, desfocados. E foi ao levantar a cabeça e olhar o espelho do banheiro que pude ver pela segunda vez aquela feição pousada sobre o meu ombro direito. Desarmei como um disjuntor sobrecarregado pela adrenalina. A cada visita e posterior despertar me sentia mais e mais um Cão de Pavlov. As primeiras notas da melodia eram o meu gatilho. A cada aparição aquela figura negra, amorfa, era marcada a fogo como queimaduras de incontáveis graus na memória. Mas algo não fazia sentido.
Por que não me matava? Qual era o seu objetivo? Qual era a sua lógica?
Depois de muito conjecturar e pouco lograr, cheguei à uma conclusão que julguei ser das mais prováveis. Dias antes de sua primeira aparição eu havia lido em alguma revista que era possível, sim, morrer de medo. Literalmente. Era isso o que estava tentando fazer.
Queria me fazer de cobaia. Uma cobaia que passaria o resto da sua vida num experimento até que a teoria fosse comprovada. Agora eu teria que pensar em uma forma de jogar segundo a sua lógica desvairada. Pois bem, se a tal criatura impersonava A Monalisa ou até mesmo o quadro dela em si, eu precisaria pensar num possível ponto fraco que ela, como personagem, ou ele, como objeto, teriam. Resolvi estudar um pouco de História. Li textos, artigos, curiosidades a respeito do tema. Não muito tardou, bolei um plano para expurgar da minha vida quem a atormentava. Aguardei, paciente, pela sua última visita.
A noite chegou e eu estava a postos. Tão logo a melodia começou, corri para o quarto e pus para tocar o hino nacional da Itália — mais alto em volume. Apaguei as luzes e me pus embaixo das cobertas. Segurava uma lanterna. A respiração ofegante e a coragem, ambas duelavam no meu peito. Enquanto isso, passo a passo, com um dedilhar ritmado nas paredes da sala, do corredor, a criatura se aproximava. O ranger da porta se abrindo. O suor frio encharcando o pijama. A quentura que emanava, que se aproximava. Um toque.
Em um só movimento me desfiz das cobertas e apontei a lanterna para o meu rosto. Ou melhor, para a máscara que eu estava usando. A máscara do rosto de Vincenzo Peruggia. Na mesma hora a criatura, aterrorizada, começou a se retorcer e segundos depois desapareceu pela porta como que sendo sugada porta afora por uma espécie de vácuo.
Enquanto tiver a máscara comigo, sei que estarei a salvo.
Obrigada, Vincenzo.
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