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Arquitetura e poder do Volkshalle

O totalitarismo é definido pela enciclopédia Brittanica como uma “forma de governo que teoricamente não permite liberdade individual…

Bernardo Beiriz · 2021-07-04 08:00 · 1 claps · 9.4 min read
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Arquitetura e poder do Volkshalle

Albert Speer (terno cinza à esq.) e Adolf Hitler (apontando à dir.)

Albert Speer (terno cinza à esq.) e Adolf Hitler (apontando à dir.)

Introdução

O totalitarismo é definido pela enciclopédia Brittanica como uma “forma de governo que teoricamente não permite liberdade individual e que procura subordinar todos os aspectos da vida individual à autoridade do Estado” (BRITTANICA, 2021). Compreendendo a arquitetura totalitária como produto e como ferramenta de um Estado totalitário, obtém-se um ponto de referência para explorar obras arquitetônicas associadas a essa forma específica de governo.

O objetivo desse ensaio é analisar as relações entre arquitetura, poder e totalitarismo, tendo como objeto de análise o edifício Volkshalle (Salão do Povo), projetado pela arquitetura nazista. Particularidades da arquitetura totalitária nazista podem ser entendidas como resultado da influência de duas figuras em destaque: Adolf Hitler, líder do Partido Nazista, Chanceler do Reich e Führer da Alemanha Nazista, e Albert Speer, arquiteto-chefe e ministro do Armamento da Alemanha Nazista.

Hitler, Speer e a arquitetura nazista

O projeto arquitetônico nazista confunde-se com a personalidade de Adolf Hitler. A biografia de Hitler, responsável pelo extermínio étnico que matou aproximadamente seis milhões de judeus, revela uma aproximação com a arquitetura antes mesmo que esse alcançasse o poder na Alemanha. Aos 17 anos de idade, aquele que se tornaria o líder do Terceiro Reich já desenhava residências elaboradas (BOEHLERT, 2017, p. 5), tendo, entretanto, sua candidatura para estudar pintura em Viena rejeitada. O conhecido biógrafo de Hitler, Joachim Fest, analisa: “Os projetos revelam que Hitler formulou suas ideias ainda cedo. Já planejava arcos do triunfo quando não passava de um fracassado político provinciano cumprindo pena de prisão” (FEST, 2012, p. 23). O interesse de Hitler pela arquitetura é essencial para compreender o destaque que é dado para as construções durante o regime nazista.

A outra figura importante na arquitetura nazista, em especial àquela relacionada ao Volkshalle, é o arquiteto alemão Albert Speer, que se associa diretamente a Hitler em 1933. Inicialmente, trabalha em reformas para residências do Chanceler, chegando a trabalhar ao lado do então arquiteto-chefe do Partido Nazista, Paul Ludwig Troost. Após a morte de Troost, Speer o substitui no cargo de principal arquiteto do Partido com apenas vinte e oito anos de idade (BOEHLERT, 2017, p. 11). Entre 1933 e 1945, ano da morte de Hitler, Speer ocupou diferentes cargos no governo nazista, com variados níveis de influência. Seu papel mais com maior relevância para o presente ensaio é o de projetar, ao lado de Hitler, o que seria a transformação da cidade de Berlim na Welthauptstadt Germania (Germânia, a Capital do mundo) (FEST, 2012, p. 24).

Estudar com maior profundidade as figuras de Hitler e de Speer cumpre uma dupla função: compreender a influência do ditador no desenvolvimento da arquitetura nazista, questionando o grau de associação dessa arquitetura com a personalidade de Hitler; assim como reforçar o papel de indivíduos específicos na construção de um regime associado à morte, à tortura à destruição.

Principais características da arquitetura nazista

A arquitetura é uma arte e uma ciência centrada na intervenção humana no espaço físico, capaz de produzir efeitos objetivos e subjetivos. “A Arquitetura é um meio de Comunicação. Um meio não somente estético visual, mas que afeta todos os nossos sentidos e, muitas vezes, nossos relacionamentos interpessoais e a forma como encaramos o mundo” (TAVERES, LUCENA, LEITE, 2014, p. 12). Ao estudar a arquitetura do regime nazista, é possível encontrar características e objetivos específicos dessa comunicação, que ocorre a partir do espaço construído.

O primeiro aspecto a ser analisado é a função de propaganda associada à arquitetura do regime totalitário alemão. A propaganda, utilizada como ferramenta para expansão de poder e influência pela ditadura nazista, busca inicialmente destacar a legitimidade do regime, assim como seu caráter nacional e tradicionalista. Ao destacarem esses elementos, os nazistas procuraram influenciar positivamente a recuperação da Alemanha no pós-Primeira Guerra, com a consolidação de um projeto nacional (PÉREZ VARELA, 2015, p. 19). Dentre os elementos da ideologia e da propaganda nazista, é possível destacar a ideia de Volksgemeinschaft (Comunidade do Povo).

Esse conceito está relacionado à concepção de uma única comunidade étnica unindo todos os alemães racialmente “puros” (WOODS, 2014, p. 109), pensamento essencial para o avanço da ideologia racista do nazismo. A arquitetura conecta-se à ideia de Volksgemeinschaft ao produzir edifícios monumentais que, simultaneamente, oprimem o indivíduo, mostrando sua inferioridade em relação ao regime, e demonstram a força e o valor de uma nação unida (WOODS, 2014, p. 109–110).

A arquitetura nazista, segundo a análise de Carolyn Woods, possuiria ainda duas outras funções: o resgate de elementos do período clássico, com destaque para a Grécia e para Roma Antiga, fortalecendo a ideia de um “Reich que duraria mil anos”, e a censura ao desenvolvimento de ideias e valores contrários aos ideais nazista (WOODS, 2014, p. 111–113).

Estilos arquitetônicos no nazismo

Antes de iniciar a análise sobre o Volkshalle especificamente, é necessário destaque para uma ressalva presente tanto na obra de Carolyn Woods como na de Milagros Pérez Varela: a arquitetura nazista não utiliza apenas um estilo arquitetônico, embora o neoclássico tenha uma presença de destaque devido a sua grandiosidade e impressão de poder (WOODS, 2014, p. 111). Pérez Varela afirma que o estilo clássico sempre foi considerado um símbolo de ordem, de maneira que retornos realizados por diferentes civilizações europeias aos elementos dessa tradição, o que ocorre no neoclássico, simbolizam uma tentativa de conferir os valores de justiça, equilíbrio e firmeza a um regime (PÉREZ VARELA, 2015, p. 19–20).

Cristian Igor Raya González argumenta que “a arte alemã sempre esteve ligada à arte clássica” e que “a arquitetura alemã, baseada em sua grande riqueza natural, aproveita ao máximo seus recursos materiais e dá aos edifícios seu próprio caráter” (GONZÁLEZ, 2014, p. 16–17, tradução nossa). Segundo González, a utilização de “materiais históricos”, além de impedir a associação direta dos ideais nazistas com o movimento moderno, também ressalta o apreço da ditadura alemã pelo artesanato, pelo valor do trabalho (GONZÁLEZ, 2014, p. 17). Pérez Varela argumenta que o “estilo” desenvolvido pelo Partido Nacional‑Socialista é contraditório, uma vez que tenta associar elementos industriais e da produção em massa com o artesanato e com o trabalho manual (PÉREZ VARELA, 2015, p. 19).

Outra função desses materiais seria alcançar justamente a durabilidade pensada por Speer (PÉREZ VARELA, 2015, p. 27) quando esse fala sobre a “Teoria do Valor da Ruína”: segundo o arquiteto alemão as obras deveriam ser projetadas considerando a produção de ruínas “visualmente agradáveis” a partir da ação do tempo.

De maneira geral, é possível dizer que a arquitetura nazista, influenciada por Speer e por Hitler, pode ser analisada como uma forma de projeção de poder tanto do regime nazista, como da figura do próprio Führer. As glórias da nação alemã não deveriam ser celebradas apenas no presente, mas também no futuro, de maneira que gerações futuras pudessem continuar a venerar o Führer.

O Volkshalle e a Welthauptstadt Germania

O Volkshalle é um monumento projetado por Albert Speer que nunca chegou a ser construído. Consistindo em uma centro de conferências, com a capacidade de acomodar até 180 000 pessoas em pé, o projeto é atravessado pela arquitetura monumental. Ela deveria “refletir o poder do Führer, provocar admiração, deslumbrar com sua mera presença. Speer usou a escala desproporcional para dar distinção a seus projetos e para gerar uma sensação de pequenez e insignificância em seu entorno” (PÉREZ VARELA, 2015, p. 26).

Aaron Mumford Boehlert escreve:

Era um edifício cuja única função era a elevação do Führer a uma dimensão quase divina através do vasto e impossível contexto arquitetônico que ele havia moldado para si mesmo. O Volkshalle teria constituído uma relação histórica auto-reflexiva na qual o papel desempenhado por Hitler como pai do Terceiro Reich era impossível de negar. Em vez de unir os alemães em um lembrete de sua liberdade como súditos do Reich, Hitler, em vez disso, concebe uma estrutura onde os alemães serão unificados em seu acesso privilegiado ao Führer (BOEHLERT, 2017, p. 67, tradução nossa).

A observação da maquete do Volkshalle permite estabelecer uma conexão instantânea entre o projeto nazista de Speer e Panteão de Roma. Projetado para ficar no centro da cidade, ao final da Via Triumphalis, o monumento/prédio seria o principal prédio em um complexo de edificações do Reich (BOEHLERT, 2017, p. 61). Diversas são as interpretações possíveis para os elementos de poder presentes no projeto nazista.

Em primeiro lugar, pode-se pensar em termos de dominação mundial, assim como proposto por Aaron Boehlert. Segundo esse aspecto, o Volkshalle representa o pensamento megalomaníaco de Hitler, que buscava o domínio sobre todo o território europeu. O projeto da Welthauptstadt Germania, nesse sentido, não faz referência apenas a uma renovação de Berlim, mas na criação de uma grande capital mundial, possibilitada pelas conquistas militares. A obra é pensada com base em uma Alemanha vitoriosa em suas batalhas, que conseguiu de fato se “espalhar”.

As proporções do prédio, além de extraordinárias, possuem mensagens: o hall do Volkshalle possuiria um volume cinco vezes maior que o prédio proposto para o Reichstag, o Parlamento Alemão (BOEHLERT, 2017, p. 62–63). A importância da representação popular na Alemanha nazista, portanto, é representada a partir do claro contraste visual entre os dois prédios. Além disso, as proporções do prédio, quando em comparação com as do Panteão romano, mostram um claro contraste: a abertura no topo da cúpula do Salão do Povo seria maior que todo o domo da construção romana.

O prédio do regime nazista o Volkshalle “deveria se tornar um ponto de orgulho para os alemães em todo o mundo, e um local para que eles se baseassem no direito divino de seu nascimento, a afirmação subjacente da ideia de uma raça escolhida” (BOEHLERT, 2017, p. 69, tradução nossa). O aspecto religioso, que aparece misturado com a ideologia política, surge como outra forma de validação do poder o Führer e do regime nazista como um todo.

Elementos da construção como a capacidade do orador ver a todos a todo o tempo (embora um espectador não possa ter a certeza de estar sendo observado) remetem ao projeto do Panóptico de Jeremy Bentham. Além disso, pensando sobre a relação da obra com o “estilo arquitetônico” desenvolvido pelo nazismo, que consiste na retomada de elementos do classicismo, é notável observar que a introdução de materiais modernos se dá a partir de uma necessidade: a monumentalidade da obra, a grandiosidade das estruturas, impede que Speer projete-a com materiais tradicionais, apenas (BOEHLERT, 2017, p. 66).

Sendo assim, é possível dizer que o Volkshalle é uma expressão de poder do Reich sobre a população: partindo de um projeto de um local para reuniões (o nome em português é Salão do Povo), o monumento é transformado pela arquitetura nazista em um local de promoção da ideologia nazista. Como consequência, torna-se um local de veneração do racismo, da morte e do Führer.

Impactos da obra

O prédio não chegou a ser construído, dado o fim do Terceiro Reich, ocasionado pela derrota da Alemanha e pelo suicídio de Hitler ao fim da Segunda Guerra Mundial. Os projetos da Welthauptstadt Germania e do Volkshalle, entretanto, deixam marcas, representando um governo ditatorial voltado para o extermínio e para a dominação mundial. Há de se considerar, ainda, que as outras obras promovidas por Hitler e por Speer tiveram consequências graves.

Pérez Varela afirma que “antes do início dos trabalhos de reordenamento de Berlim, houve um grande número de expropriações e confiscos de propriedade privada, que foram justificados pelo Partido porque deveriam ‘transformar a cidade’” (PÉREZ VARELA, 2015, p. 28–29, tradução nossa). A participação de trabalho escravo nas reformas de Berlim e a expropriação de propriedades de judeus pelos oficiais nazistas são temas que não podem ser descartados ao falar sobre o desenvolvimento da arquitetura totalitária alemã.

O impacto positivo que pode ser visto no projeto do Volkshalle é justamente sua incompletude. O fato de não ter sido construído demonstra a possibilidade de mudança e de luta contra regimes que promovem a morte, a censura e a tortura.

A conexão entre a figura de Hitler e o projeto do nazismo é estudada de maneira aprofundada. A importância de figuras “comuns”, tais como Speer, entretanto, ainda deve ser analisada com maior profundidade. González argumenta que “as construções arquitetônicas, reais ou utópicas, endividadas com o passado, serviram como o próprio Führer aponta como um veículo perfeito para a ideologia política do nazismo (GONZÁLEZ, 2014, p. 51, tradução nossa). Finalmente, Pérez Varela chama atenção para o fato de que:

Os arquitetos sempre foram instrumentos para transmitir o poder de uma nação e, mesmo que exerçam sua atividade em uma estrutura democrática, seus edifícios continuam a refletir o poder ou a imagem daqueles que os encomendam. Por esta razão, a arquitetura de Speer deve ser julgada pelo que ela é: arquitetura a serviço de Hitler. Somente através da compreensão da personalidade do Führer é possível compreender as obras arquitetônicas do Reich. A exposição e a natureza espetacular dos edifícios de Speer respondem, sobretudo, aos projetos do homem que foi considerado o futuro imperador do mundo (PÉREZ VARELA, 2017, p. 37, tradução nossa).

A arquitetura não pode ser dissociada da política, assim como a política não pode ser dissociada da arquitetura. Pensar a relação entre esses dois elementos é extremamente necessário, pois, como dito anteriormente, a arquitetura afeta todos nossos sentidos, podendo alterar nossos relacionamentos interpessoais e a forma como encaramos o mundo.

REFERÊNCIAS

ARQUITETURA da destruição. Direção de Peter Cohen. Suécia: Poj Filmproduktion AB, 1989. 123 min.

BOEHLERT, Aaron Mumford. Hitler’s Germania: Propaganda Writ in Stone”. Senior Projects Spring, 2017. 136 p. Disponível em: < https://digitalcommons.bard.edu/senproj_s2017/136/?utm_source=digitalcommons.bard.edu%2Fsenproj_s2017%2F136&utm_medium=PDF&utm_campaign=PDFCoverPages>. Acesso em: 03 jul. 2021

BRITANNICA, Encyclopædia. Totalitarianism. In: Encyclopædia Britannica. [S. l.], 2021. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/totalitarianism. Acesso em: 2 jul. 2021.

FEST, Joachim. Conversas com Albert Speer. [S. l.]: Editora Nova Fronteira Participações, 2012.

GERMANIA — Hitler’s redevelopment plans for Berlin. [S. l.: s. n.], 2015. 1 vídeo (5 min). Publicado pelo canal Panorama-b Sightseeing Berlin. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Vbuf20xmPKo. Acesso em: 29 jun. 2021

GONZÁLEZ, C. La arquitectura como símbolo de poder en el régimen nazi. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História da Arte) — Facultad de Humanidades, Universidad de La Laguna, San Cristóbal de La Laguna, p. 54. 2014.

PÉREZ VARELA, Milagros. Arquitectura y poder: Albert Speer y el juicio de la historia. 2015. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Fundamentos de Arquitetura) — E.T.S. Arquitectura (UPM), [S. l.], 2015. Disponível em: http://oa.upm.es/44958/. Acesso em: 3 jul. 2021.

TAVARES, Darlane; LUCENA, Adriana; LEITE, Sandra Nunes. Arquitetura é Comunicação. Do XVI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, [S. l.], p. 1–14, 17 maio 2014. Disponível em: http://portalintercom.org.br/anais/nordeste2014/resumos/R42-0338-1.pdf. Acesso em: 3 jul. 2021.

WOODS, C. Assessing the role of architecture as propaganda in the Third Reich. MHIS, Sydney, v. 2, n. 1, p. 107–115, abr. 2014.


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