QUE NENHUMA MULHER PRECISE DESAPARECER PARA QUE OUTRA VIDA FLORESÇA
Maternidade atípica, democratização do cuidado e o direito de cuidar sem renunciar à própria existência

QUE NENHUMA MULHER PRECISE DESAPARECER PARA QUE OUTRA VIDA FLORESÇA
Maternidade atípica, democratização do cuidado e o direito de cuidar sem renunciar à própria existência
Eliene Nobre Damacena
Psicóloga — CRP GO 09/2536 Especialista em Neuropsicologia, Neuromodulação, ABA e Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS)
Goiânia — Goiás — Brasil 2026
Resumo
Este artigo analisa a maternidade atípica como questão feminista, social, econômica, psicológica e de direitos humanos. Parte da crítica à romantização da “mãe guerreira” para demonstrar como o cuidado intensivo de crianças, adolescentes e pessoas com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento, doenças raras ou condições crônicas permanece concentrado sobre as mulheres. Discute-se a invisibilidade do trabalho não remunerado, a perda de autonomia econômica, a sobrecarga mental e física, a solidão, o capacitismo institucional e os obstáculos enfrentados nos sistemas de saúde e educação. Trata-se de um ensaio teórico-reflexivo, sustentado por literatura científica, dados oficiais e legislação brasileira. Defende-se que o cuidado é um direito e um bem público, cuja provisão deve ser compartilhada entre Estado, famílias, homens, comunidades, sociedade civil e setor privado. Conclui-se que reconhecer as mães atípicas exige substituir homenagens simbólicas por políticas permanentes de renda, saúde mental, proteção trabalhista, inclusão educacional, acessibilidade, descanso e participação social.
Palavras-chave: maternidade atípica; feminismo; economia do cuidado; saúde mental; deficiência; políticas públicas; direitos humanos.
Abstract
This article examines atypical motherhood as a feminist, social, economic, psychological and human-rights issue. It critiques the romanticization of the “warrior mother” and shows how intensive care for children, adolescents and persons with disabilities, neurodevelopmental conditions, rare diseases or chronic conditions remains disproportionately assigned to women. The discussion addresses unpaid care work, loss of economic autonomy, mental and physical overload, loneliness, institutional ableism, and barriers within health and education systems. This theoretical and reflective essay draws on scientific literature, official data and Brazilian legislation. It argues that care is both a right and a public good and must therefore be shared among the State, families, men, communities, civil society and the private sector. Genuine recognition of atypical mothers requires replacing symbolic praise with permanent policies for income security, mental health, labour protection, inclusive education, accessibility, respite and social participation.
Keywords: atypical motherhood; feminism; care economy; mental health; disability; public policy; human rights.
1. Introdução
Ser mãe nunca foi apenas um ato de amor. Em uma sociedade estruturada pelo patriarcado, a maternidade sempre esteve associada ao trabalho invisível, gratuito e naturalizado das mulheres. Quando essa maternidade é atravessada pela deficiência, pelo autismo, pelas doenças raras ou por outras condições que exigem cuidados permanentes, a desigualdade de gênero torna-se ainda mais cruel. Nasce, então, a maternidade atípica: uma experiência marcada pela resistência cotidiana diante de um Estado insuficiente e de uma sociedade que insiste em romantizar o cuidado enquanto abandona quem cuida. Dados nacionais confirmam a desigualdade: em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos cuidados e afazeres domésticos, contra 11,7 horas dos homens (IBGE, 2024).
A imagem da “mãe guerreira” é frequentemente utilizada para exaltar essas mulheres. No entanto, esse discurso esconde uma realidade incômoda. Nenhuma mulher nasce guerreira. Ela é obrigada a tornar-se forte porque o poder público falha, porque as políticas sociais não alcançam sua família, porque a inclusão ainda encontra barreiras e porque o trabalho do cuidado continua sendo tratado como uma obrigação exclusivamente feminina.
Todos os dias, milhares de mães percorrem consultórios, hospitais, centros de reabilitação, escolas, órgãos públicos e tribunais para garantir aquilo que já deveria ser assegurado pela Constituição: saúde, educação, assistência social e dignidade. O que deveria ser direito transforma-se em favor; o que deveria ser política pública transforma-se em uma batalha burocrática. Esses direitos encontram fundamento na Constituição Federal e no Estatuto da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 1988, 2015).
2. Saúde: entre o direito e a violência institucional
1.1 Percurso metodológico
O texto caracteriza-se como ensaio teórico-reflexivo de natureza interdisciplinar. Articula crítica feminista, economia do cuidado, Psicologia, direitos da pessoa com deficiência, dados estatísticos oficiais e legislação brasileira. Não apresenta pesquisa empírica com participantes; sua finalidade é interpretar criticamente estruturas sociais e institucionais que produzem sobrecarga, invisibilidade e restrição de direitos.
Na saúde, a violência institucional não se manifesta apenas nas longas filas, na escassez de especialistas, na demora dos diagnósticos, na interrupção de terapias e na necessidade frequente de recorrer ao Poder Judiciário para garantir tratamentos indispensáveis. Ela também aparece nas atitudes, nos discursos e nas práticas que deslegitimam a experiência das mães e o sofrimento de seus filhos.
Muitas famílias relatam que, ao buscar atendimento diante de dificuldades comportamentais, sensoriais ou do desenvolvimento, recebem respostas simplificadoras como: “isso é falta de limites”, “é apenas uma fase”, “vocês estão superprotegendo essa criança” ou “hoje em dia qualquer comportamento vira diagnóstico”. Em algumas situações, mães afirmam sentir-se julgadas ao ouvir insinuações de que estariam buscando um diagnóstico apenas para obter benefícios sociais, quando, na realidade, procuram compreender o que acontece com seus filhos e garantir acesso aos direitos previstos em lei.
Essas atitudes produzem profundo sofrimento. Em vez de acolhimento e investigação clínica cuidadosa, algumas mães saem das consultas carregando culpa, vergonha e a sensação de terem fracassado na educação dos filhos. A responsabilidade pelo sofrimento da criança é deslocada para a família, especialmente para a mãe, reforçando estereótipos históricos que atribuem às mulheres a culpa por qualquer dificuldade no desenvolvimento infantil.
Também são frequentes os relatos de descontinuidade do cuidado. Há famílias que enfrentam a falta de medicamentos essenciais na rede pública, interrupção de terapias por ausência de vagas, demora para consultas especializadas e divergências entre profissionais sem que haja diálogo interdisciplinar. Em alguns casos, laudos previamente emitidos são descartados de forma precipitada, condutas terapêuticas são modificadas sem adequada explicação ou orientações baseadas em evidências são substituídas por recomendações sem respaldo científico. Tudo isso aumenta a insegurança das famílias e compromete a continuidade do tratamento.
É importante reconhecer que milhares de profissionais do Sistema Único de Saúde e da rede privada atuam com competência, ética e profundo compromisso com seus pacientes. Entretanto, ainda persistem práticas capacitistas, desinformação sobre neurodiversidade e dificuldades de acesso a serviços especializados que precisam ser enfrentadas por meio de investimento público, educação permanente das equipes e organização das redes de cuidado.
O Sistema Único de Saúde constitui uma das maiores conquistas da sociedade brasileira e desempenha um papel fundamental na garantia do direito à saúde. Contudo, para responder de forma efetiva às necessidades das pessoas com deficiência, das pessoas neurodivergentes e de suas famílias, é indispensável ampliar o financiamento, fortalecer as equipes multiprofissionais, garantir acesso contínuo a medicamentos e terapias e consolidar uma atenção verdadeiramente humanizada, baseada em evidências científicas e no respeito à dignidade das pessoas. Enquanto isso não acontece, muitas mães continuam enfrentando, além da condição de seus filhos, o peso de um sistema que frequentemente exige delas mais resistência do que acolhimento. A atenção integral, universal e articulada à pessoa com deficiência e à sua família constitui dever legal do SUS e das demais políticas públicas (BRASIL, 1990, 2015).
3. Educação inclusiva: matrícula não basta
Na educação, o discurso da inclusão ainda convive com práticas profundamente excludentes. Muitas escolas matriculam crianças e adolescentes com deficiência ou com transtornos do neurodesenvolvimento, mas não oferecem acessibilidade pedagógica, profissionais de apoio em número suficiente, formação continuada para educadores nem adaptações curriculares realmente eficazes. A inclusão, muitas vezes, permanece apenas no papel.
Uma das situações mais dolorosas ocorre quando crianças neurodivergentes apresentam crises de desregulação emocional, sensorial ou comportamental no ambiente escolar. Em vez de equipes preparadas para acolher, compreender e aplicar estratégias de manejo baseadas em evidências, é comum que a primeira resposta seja telefonar para a mãe, solicitando que ela vá imediatamente à escola para “resolver o problema”. Em alguns casos, a criança é retirada da sala de aula, isolada, suspensa ou até convidada a deixar a instituição, como se sua condição representasse um incômodo incompatível com o ambiente escolar.
Essa prática revela não apenas a falta de preparo técnico, mas também a permanência de uma cultura capacitista, que responsabiliza a criança por manifestações decorrentes de sua condição e transfere para a mãe toda a responsabilidade pela mediação dos conflitos. Em vez de construir soluções compartilhadas, muitas instituições acabam reforçando a exclusão.
As consequências são profundas. A criança aprende, desde cedo, que seu modo de existir não é aceito. Passa a associar a escola, um espaço que deveria promover pertencimento e desenvolvimento, ao medo, à rejeição e ao fracasso. A mãe, por sua vez, interrompe repetidamente sua jornada de trabalho, suas atividades pessoais e sua própria vida para atender chamados urgentes, acumulando culpa, sofrimento e exaustão. Não raro, ambas enfrentam olhares de julgamento, comentários preconceituosos e o estigma de serem rotuladas como “problemáticas”, “difíceis” ou até “barraqueiras”, quando, na realidade, estão apenas reivindicando direitos garantidos por lei.
A verdadeira educação inclusiva exige muito mais do que abrir os portões da escola. Ela pressupõe formação permanente dos profissionais, compromisso institucional, trabalho interdisciplinar, diálogo com as famílias e a compreensão de que acolher a diversidade é uma responsabilidade coletiva, e não um fardo imposto exclusivamente às mães atípicas. A inclusão requer acesso, participação, aprendizagem, acessibilidade e apoio adequado, conforme a legislação educacional e o Estatuto da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 1996, 2015).
4. Economia do cuidado, trabalho e feminização da pobreza
O impacto econômico da maternidade atípica revela uma das faces mais perversas da desigualdade de gênero. O nascimento ou diagnóstico de um filho com deficiência, transtorno do neurodesenvolvimento ou doença rara frequentemente altera toda a organização financeira da família. Em um curto espaço de tempo, aumentam significativamente os gastos com consultas, medicamentos, terapias, alimentação especializada, transporte, equipamentos, tecnologias assistivas e adaptações necessárias à vida cotidiana. Paradoxalmente, é justamente nesse momento que a renda familiar tende a diminuir.
Na maioria das famílias, é a mulher quem reduz a jornada de trabalho, pede demissão, abandona a carreira profissional ou migra para atividades informais e precárias para conseguir acompanhar consultas, sessões terapêuticas, reuniões escolares, internações e cuidados permanentes. Essa escolha raramente é livre; ela é imposta por uma organização social que continua atribuindo às mulheres a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado. A sociedade ainda espera que a mãe esteja sempre disponível, enquanto a participação paterna, embora crescente em muitas famílias, nem sempre recebe a mesma cobrança social.
Esse processo evidencia a permanência da divisão sexual do trabalho. Enquanto o trabalho produtivo, remunerado e reconhecido economicamente, permanece associado ao espaço público, o trabalho do cuidado continua sendo invisibilizado, realizado majoritariamente dentro dos lares e sem qualquer remuneração. O cuidado prestado pelas mães atípicas exige conhecimentos técnicos, capacidade de gestão, organização de agendas, mediação entre diferentes profissionais, acompanhamento terapêutico, apoio emocional e vigilância permanente. É um trabalho altamente qualificado, essencial para a vida e para o desenvolvimento de seus filhos, mas que permanece desvalorizado justamente por ser desempenhado por mulheres.
A ausência de políticas públicas capazes de compartilhar essa responsabilidade aprofunda ainda mais as desigualdades. A insuficiência de serviços públicos de apoio, a escassez de centros especializados, a falta de cuidadores, a inexistência de programas consistentes de acolhimento familiar e a rigidez do mercado de trabalho obrigam milhares de mulheres a abrir mão de sua autonomia financeira. Muitas deixam de contribuir para a previdência social, interrompem sua trajetória profissional, perdem oportunidades de qualificação e enfrentam dificuldades para retornar ao mercado de trabalho após anos dedicados integralmente ao cuidado.
As consequências ultrapassam o presente. A redução da renda compromete a segurança alimentar, o acesso à moradia digna, a capacidade de investir na educação dos filhos e a estabilidade econômica de toda a família. No longo prazo, essas mulheres acumulam menor proteção previdenciária, aposentadorias reduzidas e maior vulnerabilidade na velhice, especialmente quando enfrentam separações, viuvez ou envelhecimento sem uma rede de apoio.
Não por acaso, estudiosas feministas denominam esse fenômeno de feminização da pobreza. Não se trata apenas da falta de recursos financeiros, mas de um processo estrutural que concentra sobre as mulheres a responsabilidade pelo cuidado sem lhes oferecer condições materiais para exercê-lo com dignidade. A sobrecarga econômica soma-se à sobrecarga física, emocional e mental, criando um ciclo de desigualdade que se perpetua por gerações.
Romper esse ciclo exige reconhecer que o cuidado produz riqueza social. Cada criança que se desenvolve, cada adolescente que conquista autonomia e cada pessoa com deficiência que amplia sua participação na sociedade o faz, em grande medida, graças ao trabalho cotidiano dessas mulheres. Esse trabalho não pode continuar invisível nem tratado como uma obrigação natural da maternidade. Valorizar as mães atípicas significa construir políticas públicas que garantam proteção social, flexibilização das relações de trabalho, ampliação de benefícios, serviços de cuidado compartilhado, incentivos à permanência no mercado de trabalho e corresponsabilização efetiva do Estado, das famílias e da sociedade. Enquanto o cuidado continuar sendo sustentado quase exclusivamente pelas mulheres, a igualdade de gênero permanecerá incompleta e a justiça social continuará sendo uma promessa distante.
5. Solidão, apagamento identitário e saúde mental
Mas talvez a violência mais silenciosa e devastadora seja a solidão. A maternidade atípica frequentemente rompe vínculos sociais, afasta amizades, dificulta a participação em atividades culturais, religiosas e comunitárias, restringe momentos de lazer e compromete profundamente a saúde física e mental dessas mulheres. A rotina intensa de consultas, terapias, internações, reuniões escolares, burocracias e cuidados permanentes reduz drasticamente o tempo destinado ao descanso, ao autocuidado e à convivência social. Pouco a pouco, muitas mães deixam de ocupar espaços públicos, abandonam sonhos, interrompem projetos profissionais e acadêmicos e adiam indefinidamente seus próprios desejos.
Essa solidão não é fruto de uma escolha individual, mas de uma estrutura social que ainda considera o cuidado uma responsabilidade privada das mulheres. Quando a rede de apoio desaparece, quando familiares se afastam, quando parceiros não compartilham de forma equitativa as responsabilidades ou quando as políticas públicas são insuficientes, instala-se uma sobrecarga permanente que atravessa todas as dimensões da vida. A mãe passa a viver em estado contínuo de vigilância, administrando horários, medicações, crises, consultas, demandas escolares, processos administrativos e preocupações com o futuro do filho, muitas vezes sem que alguém pergunte como ela está ou quem cuida dela.
Existe também uma forma de invisibilidade que corrói lentamente a identidade feminina. Com o passar dos anos, muitas mulheres deixam de ser reconhecidas por sua profissão, por seus talentos, por sua produção intelectual, artística ou comunitária. Tornam-se “a mãe do autista”, “a mãe da criança com deficiência”, “a acompanhante”, “a cuidadora”. Sua história, seus sonhos, sua individualidade e sua cidadania tornam-se secundários diante da centralidade do cuidado. A sociedade passa a enxergar apenas a função que exercem, esquecendo que, antes de serem cuidadoras, continuam sendo mulheres com direitos, desejos, projetos, afetos e potencialidades.
Essa perda simbólica da identidade produz consequências que ultrapassam o sofrimento emocional individual e se tornam um grave problema de saúde pública. Quando uma mulher deixa de ser reconhecida por sua profissão, seus sonhos, sua história, sua espiritualidade, sua produção intelectual ou sua participação social para ser identificada exclusivamente como “a mãe que cuida”, ocorre um processo gradual de invisibilização de sua própria existência. Sua identidade passa a ser construída apenas em função das necessidades do filho, enquanto seus desejos, projetos de vida e necessidades emocionais são continuamente adiados ou silenciados.
Essa sobrecarga permanente repercute diretamente na autoestima, na saúde mental e no sentimento de pertencimento social. Estudos vêm demonstrando elevada frequência de ansiedade, depressão, estresse crônico, síndrome de burnout do cuidador, distúrbios do sono, isolamento social e sofrimento psíquico entre mães atípicas. A carga mental é incessante: elas precisam lembrar horários de medicamentos, organizar consultas, acompanhar terapias, dialogar com escolas, enfrentar burocracias, buscar benefícios sociais, administrar crises, planejar o futuro do filho e, ao mesmo tempo, manter a rotina da casa e, quando possível, continuar trabalhando. O cérebro permanece em estado constante de alerta, sem tempo suficiente para descanso físico, recuperação emocional ou elaboração do próprio sofrimento. Meta-análises identificam maior estresse parental em famílias de crianças com autismo ou condições crônicas, com influência relevante do apoio social e da saúde mental dos cuidadores (HAYES; WATSON, 2013; PINQUART, 2018).
Somam-se a isso os sentimentos de culpa que atravessam a maternidade em uma sociedade que continua responsabilizando as mulheres pelo sucesso ou pelo fracasso do desenvolvimento infantil. Muitas mães são levadas a acreditar que não fizeram o suficiente, que deveriam ter percebido antes os sinais do transtorno, que poderiam ter buscado outro profissional, outra terapia, outro medicamento ou outro tratamento. Quando a criança apresenta dificuldades, comportamentos desafiadores ou regressões, a culpa frequentemente recai sobre a mãe, como se ela fosse a principal responsável por circunstâncias que envolvem fatores biológicos, sociais, educacionais e institucionais muito mais amplos.
A expectativa social de que essas mulheres sejam permanentemente resilientes agrava ainda mais esse sofrimento. Espera-se que estejam sempre disponíveis, emocionalmente equilibradas, pacientes, amorosas, organizadas e capazes de enfrentar qualquer adversidade sem demonstrar fragilidade. Não lhes é permitido adoecer, descansar ou simplesmente dizer que estão exaustas. A vulnerabilidade feminina é frequentemente interpretada como fraqueza, quando, na realidade, representa a consequência previsível de uma sobrecarga extrema e prolongada.
6. O mito da “mãe guerreira”
Nesse contexto, a romantização da figura da “mãe guerreira”, embora muitas vezes apresentada como um reconhecimento, revela-se uma das formas mais sutis de invisibilização da desigualdade. Ao transformar a resistência em uma qualidade supostamente inerente às mulheres, essa narrativa desloca o foco das causas estruturais do sofrimento para a capacidade individual de suportá-lo. Em vez de perguntar por que tantas mães são obrigadas a enfrentar jornadas exaustivas praticamente sozinhas, a sociedade celebra sua força, sua resiliência e sua capacidade de “dar conta de tudo”, convertendo o que deveria causar indignação em motivo de admiração.
Essa lógica produz um efeito perverso: quanto mais uma mãe suporta, mais ela é elogiada; quanto mais ela silencia sua dor, mais é considerada exemplo de amor e dedicação. O sofrimento torna-se prova de competência materna, e o sacrifício passa a ser tratado como expressão natural do amor. Pouco se questiona quem se beneficia dessa naturalização. Ao exaltar a mulher que suporta o insuportável, desresponsabilizam-se o Estado, as instituições, parte das famílias e a própria sociedade de garantir redes efetivas de apoio e políticas públicas capazes de compartilhar o cuidado.
O mito da “mãe guerreira” também impõe um pesado fardo psicológico. Ele retira dessas mulheres o direito de adoecer, de pedir ajuda, de reconhecer seus limites ou simplesmente de dizer que estão cansadas. Espera-se que sejam incansáveis, emocionalmente disponíveis e permanentemente fortes. Quando demonstram sofrimento, esgotamento ou necessidade de apoio, muitas são julgadas como frágeis, culpadas ou incapazes, reforçando um ciclo de culpa e autocobrança que compromete sua saúde mental.
Sob uma perspectiva feminista, é necessário romper com essa narrativa heroica para reconhecer uma verdade fundamental: nenhuma mulher deveria precisar ser heroína para garantir direitos básicos ao seu filho. O cuidado não pode continuar sendo sustentado pelo sacrifício individual das mães nem tratado como uma vocação feminina ilimitada. Enquanto a força das mulheres continuar sendo utilizada para justificar a ausência do Estado, a insuficiência das políticas públicas, a precarização dos serviços de saúde e educação e a desigual divisão do trabalho do cuidado, estaremos apenas revestindo de admiração uma profunda injustiça social.
As mães atípicas não precisam ser glorificadas por sobreviverem ao abandono institucional. Precisam ser reconhecidas como cidadãs de direitos, com acesso a uma rede de cuidado que lhes permita viver plenamente, exercer sua profissão, preservar sua saúde, cultivar seus projetos de vida e compartilhar responsabilidades. Uma sociedade verdadeiramente justa não mede a grandeza de uma mulher pela quantidade de sofrimento que ela suporta, mas pela garantia de que nenhuma delas precise sacrificar sua própria existência para assegurar a dignidade de quem ama.
Uma perspectiva feminista comprometida com a justiça social exige romper definitivamente com a lógica que naturaliza o cuidado como destino exclusivo das mulheres e transforma o sofrimento materno em demonstração de amor. As mães atípicas não precisam ser admiradas por suportarem o insuportável, nem reconhecidas apenas pela capacidade de resistir ao esgotamento cotidiano. O que elas reivindicam não são homenagens, medalhas simbólicas ou discursos emocionados, mas direitos concretos: acesso oportuno à saúde, educação verdadeiramente inclusiva, proteção social, políticas de cuidado, trabalho digno, renda, acolhimento psicológico, tempo para descansar e uma rede de apoio que compartilhe, de forma efetiva, as responsabilidades do cuidado.
Também é necessário reconhecer que cuidar de quem cuida é uma questão de direitos humanos e de saúde pública. Não é aceitável que mulheres adoeçam física e emocionalmente para suprir a ausência do Estado ou as falhas das instituições. Nenhuma mãe deveria ser obrigada a escolher entre acompanhar o tratamento do filho e manter sua autonomia financeira; entre cuidar da própria saúde e garantir uma vaga para uma terapia; entre exercer sua profissão e responder aos constantes chamados da escola ou dos serviços de saúde. Essas escolhas não são livres: são impostas por uma estrutura que ainda distribui de forma profundamente desigual o trabalho do cuidado.
Uma sociedade democrática e comprometida com a igualdade de gênero precisa compreender que o cuidado é um bem coletivo, indispensável para a sustentação da vida, e, portanto, deve ser igualmente uma responsabilidade coletiva. Isso implica fortalecer políticas públicas intersetoriais, ampliar os serviços de apoio às famílias, promover a corresponsabilização dos homens, valorizar o trabalho do cuidado e construir ambientes de saúde, educação e trabalho que acolham, em vez de excluir. No Brasil, a Política Nacional de Cuidados reconheceu expressamente o direito de ser cuidado, de cuidar e ao autocuidado, bem como a corresponsabilidade social e entre homens e mulheres (BRASIL, 2024, 2025).
O verdadeiro reconhecimento às mães atípicas não está em chamá-las de heroínas ou guerreiras. Está em garantir que continuem sendo mulheres inteiras: profissionais, estudantes, pesquisadoras, artistas, trabalhadoras, cidadãs, companheiras, amigas e protagonistas de suas próprias histórias. Está em assegurar que possam exercer a maternidade sem abrir mão de sua identidade, de seus sonhos e de seu direito de viver com dignidade.
Enquanto continuarmos celebrando o sacrifício feminino em vez de transformar as estruturas que produzem desigualdade, estaremos convertendo sofrimento em mérito, exaustão em virtude e abandono institucional em prova de amor materno. Uma sociedade verdadeiramente justa não precisa de heroínas. Precisa de políticas públicas, compromisso coletivo e da coragem de reconhecer que o cuidado não é uma obrigação natural das mulheres, mas uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade.
7. Maternidade atípica e violência estrutural de gênero
Sob uma perspectiva feminista, essa realidade precisa ser nomeada pelo que ela é: uma expressão da violência estrutural de gênero. Não se trata de uma sucessão de dificuldades individuais ou de escolhas privadas das famílias, mas do resultado de uma organização social que continua atribuindo às mulheres a responsabilidade quase exclusiva pela sustentação da vida. O patriarcado não apenas distribui de forma desigual o trabalho do cuidado; ele transforma essa desigualdade em algo aparentemente natural, invisibilizando um trabalho essencial para a sociedade, desvalorizando econômica e simbolicamente quem o realiza e silenciando as necessidades, os direitos e os projetos de vida dessas mulheres.
Ao tratar o cuidado como uma vocação feminina, e não como uma responsabilidade coletiva, o patriarcado transfere para as mães atípicas o custo humano, emocional, físico e financeiro das falhas do Estado e das instituições. O que deveria ser garantido por políticas públicas, acesso à saúde, educação inclusiva, assistência social, proteção ao trabalho e redes de apoio, passa a depender da capacidade individual de resistência dessas mulheres. Dessa forma, a sobrecarga deixa de ser percebida como injustiça social e passa a ser interpretada como uma consequência “natural” da maternidade.
Essa lógica produz uma dupla invisibilidade profundamente perversa. De um lado, torna invisível o imenso trabalho realizado diariamente pelas mães atípicas: elas administram agendas de consultas e terapias, coordenam equipes multiprofissionais, acompanham o desenvolvimento dos filhos, estudam legislações, reivindicam direitos, enfrentam burocracias, participam de reuniões escolares, organizam medicações, monitoram crises, oferecem suporte emocional e planejam continuamente o presente e o futuro de suas famílias. Trata-se de um trabalho complexo, altamente especializado e indispensável para a promoção da saúde, da educação e da inclusão social. Ainda assim, esse esforço raramente é reconhecido como trabalho. É frequentemente tratado como uma consequência “natural” do amor materno, como se dedicação, competência e disponibilidade permanente fossem atributos inatos das mulheres e não uma construção social que sustenta a economia do cuidado às custas de sua sobrecarga.
De outro lado, essa mesma lógica apaga a própria mulher. Pouco a pouco, ela deixa de ser reconhecida por sua profissão, sua formação, sua trajetória, seus talentos, seus sonhos, suas convicções e seus projetos de vida. Sua identidade passa a ser reduzida à condição de cuidadora permanente, como se todas as demais dimensões de sua existência perdessem relevância. A sociedade deixa de perguntar quem ela é, o que deseja, do que precisa ou quais são suas aspirações. Ela passa a ser identificada apenas pelo vínculo com o filho: “a mãe do autista”, “a mãe da criança com deficiência”, “a acompanhante”, “a cuidadora”. Esse apagamento simbólico restringe sua autonomia, limita sua participação política, dificulta sua permanência no mercado de trabalho, compromete sua saúde física e mental e reduz suas possibilidades de participação plena na vida cultural, acadêmica, profissional e comunitária.
Essa dupla invisibilidade revela uma das formas mais sofisticadas da desigualdade de gênero: enquanto o trabalho das mães atípicas sustenta vidas, fortalece famílias e supre inúmeras lacunas deixadas pelo Estado, elas próprias permanecem socialmente invisíveis. Cuida-se do desenvolvimento da criança, mas negligencia-se o adoecimento da mulher que sustenta esse cuidado. Reconhece-se a importância da maternidade, mas não se reconhece a cidadania de quem a exerce. O resultado é um processo contínuo de apagamento, no qual a mulher deixa de ocupar o centro de sua própria história para viver permanentemente em função das necessidades dos outros.
Romper com essa lógica significa afirmar que mães atípicas não existem apenas para cuidar. Elas são mulheres completas, portadoras de direitos, conhecimentos, desejos, talentos e projetos de vida. Reconhecer seu trabalho implica também reconhecer sua humanidade, sua autonomia e seu direito de existir para além da maternidade. Uma sociedade verdadeiramente comprometida com a igualdade de gênero não pode continuar invisibilizando aquelas que, todos os dias, tornam possível a vida de tantas outras pessoas.
Negar às mulheres o direito ao tempo, ao descanso, ao trabalho digno, à autonomia econômica, ao lazer, à formação continuada, à participação política, à convivência social e ao cuidado de si também constitui uma forma de violência. É uma violência estrutural, cotidiana e silenciosa, que dificilmente deixa marcas visíveis no corpo, mas produz profundas cicatrizes emocionais, sociais e econômicas. Ela se manifesta quando uma mãe abandona sua carreira porque não encontra uma escola preparada para acolher seu filho; quando perde oportunidades de trabalho por precisar comparecer a consultas e terapias; quando adia seus estudos, interrompe projetos pessoais, deixa de cuidar da própria saúde ou renuncia ao convívio com amigos e familiares porque toda a sua energia está direcionada à sobrevivência e ao cuidado.
Essa violência também se expressa na privação do tempo, um dos recursos mais valiosos e desigualmente distribuídos entre homens e mulheres. O tempo das mães atípicas deixa de lhes pertencer. É consumido por filas, deslocamentos, burocracias, medicações, reuniões escolares, processos judiciais, crises inesperadas, internações, terapias e incontáveis tarefas invisíveis que sustentam o cotidiano da família. Quando o tempo de uma mulher é permanentemente apropriado pelo cuidado, ela perde não apenas horas do dia, mas oportunidades de desenvolvimento profissional, produção intelectual, participação cidadã, descanso, lazer e construção de sua própria história.
As consequências dessa sobrecarga são profundas. O adoecimento físico e mental torna-se frequente, a dependência econômica aumenta, a vulnerabilidade social se amplia e a exclusão das mulheres dos espaços de decisão e participação pública se perpetua. Não se trata apenas de uma questão individual ou familiar, mas de um mecanismo que reproduz desigualdades de gênero e compromete a própria democracia, pois impede que milhares de mulheres exerçam plenamente seus direitos e participem, em condições de igualdade, da vida econômica, política, cultural e social.
Enquanto o cuidado continuar sendo tratado como um dever natural das mulheres e não como uma responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, comunidades e sociedade, milhares de mães atípicas permanecerão privadas do direito de existir para além da maternidade. Continuarão sendo lembradas apenas por aquilo que fazem pelos outros, e não por aquilo que são. Defender seus direitos significa afirmar que nenhuma mulher deve ser obrigada a renunciar aos próprios sonhos, à própria saúde, à própria liberdade ou à própria cidadania para garantir a dignidade de quem ama. Uma sociedade verdadeiramente justa é aquela em que cuidar não significa desaparecer.
8. Direitos humanos, interseccionalidade e democracia
Por isso, reconhecer a maternidade atípica como uma pauta feminista é reconhecer que ela ultrapassa a esfera privada das famílias e se inscreve no campo dos direitos humanos, da justiça social e da democracia. A luta dessas mulheres não se limita à busca por terapias, medicamentos, escolas inclusivas ou benefícios assistenciais. Ela denuncia um modelo de sociedade que continua sustentando a economia do cuidado sobre o trabalho invisível e não remunerado das mulheres, enquanto o Estado, as instituições e grande parte da sociedade permanecem insuficientemente comprometidos com a corresponsabilização pelo cuidado.
A maternidade atípica evidencia que as desigualdades de gênero, de classe, de raça e de deficiência não atuam de forma isolada, mas se entrelaçam e aprofundam processos históricos de exclusão. Quanto menores os recursos financeiros, mais frágeis as redes de apoio e maiores as barreiras de acesso às políticas públicas, mais pesada se torna a carga imposta às mulheres. Por isso, defender as mães atípicas também significa enfrentar as múltiplas formas de desigualdade que atravessam suas vidas e comprometem o exercício pleno de seus direitos. Os dados brasileiros também evidenciam que gênero, raça e renda intensificam de modo desigual a carga de trabalho não remunerado (IBGE, 2024).
Falar sobre maternidade atípica é, portanto, falar sobre a redistribuição do trabalho do cuidado, sobre a valorização da economia do cuidado, sobre políticas públicas intersetoriais, sobre inclusão, acessibilidade, proteção social e igualdade de oportunidades. É afirmar que cuidar não pode continuar sendo um destino feminino nem uma responsabilidade individual. O cuidado sustenta a vida, fortalece comunidades, movimenta a economia e torna possível o exercício de inúmeros outros direitos. Por isso, precisa ser reconhecido como um compromisso coletivo e compartilhado.
Democratizar o cuidado é democratizar a cidadania. Significa construir uma sociedade em que nenhuma mulher seja obrigada a abandonar sua profissão para garantir uma terapia ao filho; em que nenhuma mãe precise escolher entre sua saúde e o atendimento de uma crise; em que nenhuma família tenha de recorrer ao Judiciário para acessar direitos básicos; e em que a inclusão deixe de ser uma promessa para se tornar uma realidade cotidiana.
Uma democracia não se mede apenas pelo direito ao voto ou pela existência de leis. Ela se mede, sobretudo, pela forma como protege aqueles que sustentam a vida cotidiana. Enquanto milhares de mães continuarem sacrificando sua saúde, sua autonomia, seus sonhos e sua participação social para suprir ausências que deveriam ser assumidas coletivamente, a igualdade de gênero permanecerá incompleta e a justiça social seguirá sendo um projeto inacabado.
O verdadeiro avanço civilizatório acontecerá quando nenhuma mulher precisar deixar de existir como sujeito de direitos para garantir que seu filho exista com dignidade. Nesse dia, o cuidado deixará de ser um peso imposto às mulheres para tornar-se aquilo que sempre deveria ter sido: uma responsabilidade compartilhada, um compromisso ético e uma expressão concreta de uma sociedade verdadeiramente democrática, inclusiva e comprometida com a dignidade humana.
9. Cuidar de quem cuida: um imperativo ético e político
Romper esse ciclo significa reconhecer que nenhuma mulher deveria precisar apagar a própria história para que outra vida possa florescer. A maternidade não pode exigir o desaparecimento da mulher como sujeito de direitos, de desejos, de projetos e de cidadania. Cuidar não deve significar renunciar à própria existência, mas exercer uma experiência humana compartilhada, sustentada por redes de apoio, políticas públicas e corresponsabilidade social.
Uma sociedade verdadeiramente democrática não mede o amor de uma mãe pela quantidade de sofrimento que ela suporta nem pela extensão dos sonhos que ela foi obrigada a abandonar. Ao contrário, reconhece que proteger os direitos das crianças, adolescentes e pessoas com deficiência implica também proteger os direitos de quem cuida delas todos os dias. Não existe inclusão plena quando a mulher que sustenta esse cuidado vive exausta, invisibilizada, empobrecida ou adoecida. Não existe justiça social quando o acesso aos direitos depende do sacrifício silencioso de milhares de mães.
Cuidar de quem cuida não é um gesto de solidariedade ou caridade; é um imperativo ético, político e democrático. Significa reconhecer que o cuidado é um bem público, essencial para a sustentação da vida e para o funcionamento da própria sociedade. Sempre que o Estado, as instituições e a comunidade se omitem dessa responsabilidade, transfere-se para as mulheres um peso que jamais deveria ser carregado de forma solitária.
Enquanto as mães atípicas permanecerem invisíveis em suas próprias histórias, reduzidas apenas ao papel de cuidadoras, continuaremos reproduzindo uma sociedade que naturaliza a desigualdade e transforma o amor em obrigação, a exaustão em virtude e o abandono institucional em responsabilidade individual. A igualdade de gênero permanecerá incompleta enquanto milhares de mulheres precisarem abrir mão de sua autonomia, de sua saúde, de sua profissão, de seus sonhos e de sua própria identidade para garantir direitos que deveriam ser assegurados coletivamente.
O verdadeiro compromisso com a democracia começa quando compreendemos que nenhuma mulher deve ser obrigada a desaparecer para que outra vida tenha a oportunidade de existir com dignidade. Uma sociedade justa não produz heroínas pelo abandono; produz cidadãs plenas, capazes de cuidar sem deixar de viver, amar, trabalhar, sonhar e ocupar todos os espaços que lhes pertencem por direito. Somente quando o cuidado for reconhecido como uma responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias e sociedade poderemos afirmar que estamos construindo um país verdadeiramente inclusivo, feminista e comprometido com a dignidade de todas as pessoas.
10. Democratizar o cuidado e transformar as políticas públicas
Sob a perspectiva feminista, é urgente afirmar que o cuidado não é uma responsabilidade privada nem um destino natural das mulheres. O cuidado é um trabalho essencial à reprodução da vida, à manutenção das famílias, ao desenvolvimento humano e ao funcionamento da própria sociedade. No entanto, embora sustente a economia, a saúde, a educação e a vida em comunidade, continua sendo tratado como uma obrigação feminina, invisível, não remunerada e pouco reconhecida socialmente.
A chamada economia do cuidado permanece alicerçada no trabalho cotidiano de milhões de mulheres que, silenciosamente, compensam as insuficiências das políticas públicas e das redes de proteção social. São elas que acompanham consultas, administram tratamentos, enfrentam burocracias, organizam rotinas, oferecem apoio emocional, garantem a permanência escolar e asseguram a continuidade da vida, muitas vezes à custa da própria saúde, da autonomia financeira e dos próprios projetos de futuro. Quando esse trabalho é naturalizado como uma expressão espontânea do amor materno, deixa de ser percebido como uma questão de justiça social e passa a ser tratado como obrigação moral das mulheres.
Essa lógica perpetua uma das formas mais profundas e persistentes de desigualdade de gênero. Ao concentrar sobre as mulheres a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado, limita sua participação no mercado de trabalho, reduz sua independência econômica, restringe sua presença nos espaços de decisão política e amplia sua vulnerabilidade ao adoecimento, à pobreza e à exclusão social. Trata-se de uma exploração historicamente invisibilizada porque se realiza no espaço doméstico e afetivo, justamente onde o trabalho feminino foi tradicionalmente desvalorizado.
Por isso, democratizar o cuidado é uma das tarefas centrais do feminismo contemporâneo. Isso significa redistribuir responsabilidades entre mulheres e homens, fortalecer políticas públicas de saúde, educação, assistência social e proteção ao trabalho, ampliar redes comunitárias de apoio e reconhecer que cuidar é uma responsabilidade coletiva. Enquanto o cuidado continuar sendo sustentado de forma desproporcional pelas mulheres, especialmente pelas mães atípicas, permaneceremos reproduzindo uma sociedade que depende do trabalho feminino para existir, mas que se recusa a reconhecê-lo, valorizá-lo e compartilhá-lo. A verdadeira igualdade de gênero somente será possível quando o cuidado deixar de ser um fardo imposto às mulheres e passar a ser compreendido como um compromisso ético, político e social de toda a coletividade.
As mães atípicas não precisam de homenagens ocasionais em datas comemorativas, medalhas simbólicas, campanhas publicitárias emocionadas ou discursos que exaltam sua força apenas para, em seguida, esquecê-las na formulação das políticas públicas. O reconhecimento que elas reivindicam não se traduz em aplausos, mas em direitos concretos, permanentes e efetivamente garantidos.
Isso significa assegurar financiamento adequado e contínuo para o Sistema Único de Saúde, ampliar a oferta de serviços especializados de diagnóstico, habilitação e reabilitação, garantir acesso oportuno a medicamentos, tecnologias assistivas e terapias baseadas em evidências científicas, fortalecer a educação inclusiva com formação permanente dos profissionais e equipes de apoio suficientes, oferecer transporte acessível e criar uma rede intersetorial que integre saúde, educação, assistência social, trabalho e justiça. No campo da deficiência e do autismo, o acesso à atenção integral, à reabilitação, aos medicamentos, à educação e ao acompanhamento especializado possui proteção legal específica (BRASIL, 2012, 2015).
Também significa construir políticas públicas voltadas para quem cuida: proteção trabalhista que considere as especificidades da maternidade atípica, flexibilização das relações de trabalho, ampliação da proteção previdenciária, programas de geração de renda, serviços de cuidado temporário (respiro do cuidador), apoio psicológico às famílias, fortalecimento das redes comunitárias e mecanismos que permitam às mulheres permanecer no mercado de trabalho sem abrir mão do acompanhamento de seus filhos.
Mais do que isso, é indispensável que o Estado reconheça o trabalho do cuidado como um trabalho socialmente indispensável, que produz saúde, inclusão, desenvolvimento humano e bem-estar coletivo. Enquanto esse trabalho continuar invisível, gratuito e sustentado quase exclusivamente pelas mulheres, permaneceremos reproduzindo uma das formas mais profundas de desigualdade de gênero. Valorizar o cuidado não é apenas proteger as mães atípicas; é investir na dignidade das pessoas com deficiência, fortalecer as famílias e consolidar uma sociedade mais justa, inclusiva e democrática.
O maior reconhecimento que uma sociedade pode oferecer às mães atípicas não é chamá-las de heroínas, mas garantir que nenhuma delas precise sacrificar sua saúde, sua autonomia, sua profissão ou seus sonhos para assegurar direitos que são dever do Estado e responsabilidade de toda a coletividade. Direitos não podem depender da capacidade de resistência das mulheres; precisam ser garantidos por políticas públicas comprometidas com a justiça social, a igualdade de gênero e a dignidade humana.
Também precisamos romper com a cultura que transforma mulheres em heroínas para justificar sua exploração. A imagem da “mãe guerreira”, tão celebrada socialmente, muitas vezes funciona como um mecanismo de silenciamento: transforma o sofrimento em virtude, a exaustão em prova de amor e o sacrifício permanente em requisito para ser reconhecida como uma “boa mãe”. Essa narrativa romantiza o sofrimento feminino e desvia o olhar das responsabilidades que pertencem ao Estado, às instituições, às famílias e à sociedade. Não queremos mulheres obrigadas a serem incansáveis para compensar a ausência de políticas públicas. Queremos uma sociedade que deixe de produzir o cansaço, o adoecimento e a sobrecarga como preço para acessar direitos que já deveriam estar garantidos.
Lutar pelas mães atípicas é lutar pela democratização do cuidado. É reconhecer que nenhuma mulher deve carregar sozinha a responsabilidade pela sobrevivência, pelo desenvolvimento e pela inclusão de outra vida. É compreender que o cuidado não é um problema privado das famílias, mas uma questão pública, política e profundamente feminista. Afinal, o feminismo também habita as salas de espera dos hospitais, os corredores das escolas, os centros de reabilitação, os processos judiciais para obtenção de medicamentos e terapias, as filas do Sistema Único de Saúde, os pedidos de benefícios assistenciais negados, as audiências públicas e as incontáveis noites em claro vividas por mulheres que insistem em cuidar, mesmo quando são abandonadas pelas instituições que deveriam ampará-las.
Defender as mães atípicas é defender uma nova organização social, na qual o cuidado deixe de ser invisível, desvalorizado e feminizado. É afirmar que o trabalho de cuidar produz riqueza social, sustenta a vida, fortalece a democracia e permite que todos os demais direitos possam existir. Por isso, não pode continuar sendo tratado como uma obrigação moral exclusiva das mulheres nem permanecer oculto sob o discurso da vocação materna.
Enquanto o cuidado continuar sendo sustentado de forma desproporcional pelo trabalho invisível das mulheres, a igualdade de gênero permanecerá incompleta, a inclusão continuará seletiva e a justiça social será apenas uma promessa. A verdadeira emancipação feminina exige redistribuir o trabalho do cuidado, fortalecer políticas públicas, promover a corresponsabilização dos homens, valorizar quem cuida e reconhecer que nenhuma democracia pode ser considerada plena quando depende do sacrifício silencioso das mulheres para funcionar.
A sociedade que queremos construir não é aquela que produz heroínas pelo abandono, mas aquela que garante cidadania sem exigir renúncias. Uma sociedade em que as mães atípicas possam continuar sendo mães, sem deixar de ser mulheres; possam cuidar, sem deixar de viver; possam lutar pelos direitos de seus filhos, sem precisar abrir mão dos próprios direitos. Somente quando o cuidado for reconhecido como uma responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias e sociedade poderemos afirmar que a inclusão, a justiça social e a igualdade de gênero deixaram de ser promessas e passaram a constituir uma realidade concreta para todas as mulheres.
11. Considerações finais
Haveremos de ver, qualquer dia, reinando a vitória. Não a vitória de mulheres transformadas em heroínas pela necessidade de sobreviver ao abandono, mas a vitória de uma sociedade que finalmente compreendeu que nenhuma mãe deveria precisar adoecer, empobrecer, abandonar sua profissão, silenciar seus sonhos ou desaparecer como mulher para assegurar dignidade e direitos a seus filhos.
A maternidade atípica revela uma das contradições mais profundas de nossa organização social: enquanto o cuidado sustenta a vida, promove o desenvolvimento humano e supre inúmeras lacunas institucionais, ele continua sendo tratado como obrigação privada, feminina, gratuita e inesgotável. Sobre as mães recaem tarefas que deveriam ser compartilhadas pelas famílias, pelos homens, pelo Estado, pelas comunidades e pela sociedade. Essa concentração injusta do cuidado compromete a saúde física e mental das mulheres, fragiliza sua autonomia econômica, limita sua participação social e transforma direitos fundamentais em conquistas obtidas por meio de desgaste, insistência e judicialização.
Por isso, não basta homenagear as mães atípicas, chamá-las de fortes, guerreiras ou exemplos de superação. Quando desacompanhado de políticas públicas, reconhecimento jurídico, proteção social e corresponsabilidade, esse elogio pode ocultar a violência estrutural que as obriga a suportar o que nenhuma pessoa deveria enfrentar sozinha. A verdadeira valorização começa quando essas mulheres são reconhecidas como sujeitos integrais de direitos: mães, mas também profissionais, estudantes, cidadãs, companheiras, amigas, lideranças e mulheres portadoras de identidade, desejos, limites e projetos de vida.
Democratizar o cuidado significa reconhecer que cuidar é trabalho, direito humano, responsabilidade coletiva e fundamento da própria democracia. Significa assegurar serviços públicos permanentes e articulados, diagnóstico oportuno, atendimento multiprofissional, terapias continuadas, medicamentos, tecnologias assistivas, educação verdadeiramente inclusiva, proteção trabalhista e previdenciária, segurança de renda, apoio psicológico, períodos de descanso e redes comunitárias de suporte. Significa também garantir que as mães participem da formulação, do acompanhamento e da avaliação das políticas que interferem diretamente em suas vidas e nas vidas de seus filhos.
A inclusão não poderá permanecer limitada à existência de leis, matrículas escolares, protocolos ou discursos institucionais. Ela precisa ser percebida na experiência cotidiana das famílias: no acolhimento respeitoso nos serviços de saúde; na escola preparada para compreender a neurodiversidade e manejar situações de desregulação sem culpabilizar a criança ou convocar continuamente a mãe; na assistência social capaz de acompanhar as necessidades concretas; no Sistema de Justiça acessível e sensível; e na atuação ética dos conselhos de direitos, dos órgãos de proteção, dos gestores públicos e das equipes multiprofissionais.
Também é necessário compreender que cuidar de quem cuida não constitui favor, caridade ou concessão. Trata-se de um imperativo ético, psicológico, social e político. Uma mãe exausta, isolada, adoecida ou privada de autonomia não representa uma falha individual, mas o resultado de uma rede insuficiente e de uma sociedade que ainda distribui desigualmente o tempo, os recursos e as responsabilidades. A proteção da saúde mental das mães atípicas deve, portanto, integrar as políticas de saúde, educação, assistência social, trabalho e cuidado, e não aparecer apenas quando o sofrimento já alcançou níveis extremos.
Haverá verdadeira justiça quando mães atípicas não precisarem transformar cada direito em uma batalha solitária nem demonstrar, repetidamente, a legitimidade das necessidades de seus filhos. Será o tempo em que escolas, serviços de saúde, assistência social, Sistema de Justiça, conselhos de direitos, órgãos de proteção à infância e à adolescência, gestores públicos, famílias e comunidades caminharão ao lado dessas mulheres, não como adversários, fiscalizadores de sua maternidade ou meros espectadores, mas como parceiros responsáveis pela construção da inclusão.
Nesse novo tempo, celebraremos cada diagnóstico acolhido com humanidade, cada tratamento assegurado, cada escola verdadeiramente inclusiva, cada barreira derrubada, cada família amparada e cada criança ou adolescente reconhecido em sua singularidade. Celebraremos também cada mulher que pôde continuar estudando, trabalhando, descansando, participando da vida social, cuidando da própria saúde e preservando seus sonhos enquanto exercia a maternidade.
A transformação necessária depende da passagem da admiração simbólica para a responsabilidade concreta; da compaixão ocasional para a garantia permanente de direitos; do cuidado privatizado para a corresponsabilidade social; e da romantização do sacrifício para a construção de condições dignas de existência. Nenhuma política de inclusão será completa enquanto depender do esgotamento silencioso das mulheres.
Defender os direitos das mães atípicas é defender os direitos das pessoas com deficiência, das crianças, dos adolescentes e das famílias. É defender a saúde pública, a educação inclusiva, a igualdade de gênero, a justiça social e a democracia. Acima de tudo, é afirmar que toda vida merece florescer sem que outra precise ser apagada para sustentá-la.
Que esse futuro não permaneça apenas como esperança ou promessa. Que seja construído, desde agora, por meio de decisões públicas responsáveis, financiamento adequado, participação social, compromisso profissional e transformação cultural. Haveremos de ver, qualquer dia, reinando a vitória: a vitória de uma sociedade que aprendeu a cuidar sem explorar, a incluir sem humilhar e a proteger sem exigir renúncias. Uma sociedade na qual mães e filhos possam viver com dignidade, liberdade, respeito, oportunidades, paz e esperança — porque nenhuma mulher precisou desaparecer para que outra vida florescesse.
NOTA DA AUTORA
Este artigo foi originalmente publicado no Pasquim Feminista, da Universidade Federal de Goiás (UFG). A presente versão é compartilhada no Medium com o propósito de ampliar sua circulação e contribuir para o debate sobre maternidade atípica, democratização do cuidado, direitos das mulheres e corresponsabilidade social.
A publicação original permanece reconhecida como o espaço de primeira divulgação deste trabalho.
Eliene Nobre Damacena Psicóloga — CRP-GO 09/2536 Goiânia, Goiás, 2026.
Referências
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