Confie na Mente #015
Um punkinho, um violão… (parte 1)
Confie na Mente #015
Um punkinho, um violão… (parte 1)

Um dos maiores desafios é montar uma mistura na qual se procura um tema bem específico mas precisa, digamos… misturar, sair da curva e provocar conexões menos óbvias. Então o título acima não faz justiça por completo a playlist. Procurar punks cantando com seu violão é algo tão corriqueiro quanto um garçom te oferecer uma empada no Belmonte… e para sair disso o conceito de punk precisa ser ampliado: sua clara conexão com o folk, suas versões covers acústicas, seus desbobramentos sonoros com outras cordas (seja no piano, na guitarra mais drone) e até os rebeldes musicais que nunca foram associados a este termo mas que não podem de forma alguma não serem considerados desgarrados, inquietos, arruaceiros, faz-tudos e acima de tudo, criativos. Pois bem, sente-se no banquinho, aumente o volume e sinta o bim bom.
SPOTIFY (atenção: duas músicas a menos que no TIDAL)
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Para quem gosta de tirar foto com estátua e ouvir audiobook, segue a descrição completa:
A mistura de número 15 foi tão difícil mas tão difícil de selecionar que sairá em duas partes. Um dos fatores mais legais de se fazer uma playlist é saber como e quando você vai jogar com as ondas sonoras, construir os climas: que momento assustar, animar, quebrar uma linha? Como fazer as oscilações trabalharem para uma narrativa criativa, muito sua, muito própria e como passar isso a quem escuta, de forma a não afugentar o seu ouvinte? Afinal o ouvinte claramente não gostará de tudo que ouvir e está tudo certo. Mas se este sujeito se identificar narrativamente com o encadeamento, provavelmente conseguirá plantar alguma semente de uma percepção mais apurada e variada. E esta é a intenção aqui de se fazer estranhas e pensadas misturas.
Há muitos anos, provavelmente em 1998, uma muito jovem Cat Power, intitulada “nova musa do indie”, fez uma apresentação pocket no Teatro Rival no Rio de Janeiro. Suas raízes punk, somadas com uma timidez absurda e um aparente desnorteamento lisérgico apresentaram aos trópicos um evento único. Poucos diriam que ela sobreviveria ou se tornaria um dos grandes nomes da música na década seguinte. O primeiro ato traz uma homenagem póstuma ao incrível produtor francês Philippe Zdar, que elevou o House e o funk do país a patamares estratosféricos (foi um dos responsáveis por apadrinhar ainda no começo dos anos 90 o duo Daft Punk, por exemplo e posteriormente criou o Cassius). Nada mais punk que abrir a mistura com uma canção entoada emocionadamente por uma eterna, ainda que escondida punk a um dos mais inquietos e rebeldes produtores que a música pop já conheceu. Em seguida não há como não conectar com o também falecido Elliott Smith, que fez das aventuras lo-fi em um violão (e guitarras semi acústicas), uma sonoridade indistinguível e muito imitada em anos seguintes. Um resultado dessas aventuras está na mão de uma das incríveis vozes norte americanas deste folk extremamente peculiar, que emergia nos EUA, Edith Frost, que, com sua voz doce, mas gélida, congela as montanhas de Montana, Colorado e Texas, com um dedilhar que se compara a um feitiço: cortante e hibernal.
Para acordar, o segundo ato abre com ninguém menos que Kim Gordon em um nada acústico mas extremamente visceral e profundo quasi-drone, que estilhaça as superfícies e expõe as entranhas da terra para o planeta, como uma amazona solitária em guerra com o mundo dos homens, numa força tão descomunal quanto contida. E nada pode encaixar melhor quanto o incrível Mount Eerie, que busca nas raízes do black metal, do drone e do folk uma delicadeza que vai aos poucos se rebelando, como num primeiro dia de armistício, os olhos e ouvidos, ainda alertas, desconfiados, saem de seus refúgios e os primeiros cantos de pássaros ecoam pelo ar. Essa delicadeza rebelde, quase natural, sai dos EUA e vai para um lugar originário, Inglaterra, na voz de Syd Barrett, a mente fundadora e mais incompreendida — mas não menos reverenciada e cultuada — do Pink Floyd, falando da fragilidade dos nossos estados mais humanos. Sua influência é tão absurda quanto a próxima figura, de carreira nada errante mas solitária, que, graças as suas explorações sonoras no folk e no Avant-rock, “salvou” o grande disco do Wilco (Yankee Hotel Foxtrot), trouxe um sopro de renovação ao Sonic Youth se tornando um membro da banda por alguns anos e mesmo assim voltou ao seu caminho ronin no Japão, onde encontra suas colaborações mais criativas. O nome dele? Jim O’Rourke, que faz da delicadeza algo tátil, sentido como um carinho marsupial, transcendental, eterno, maternal (infelizmente só disponível na playlist do Tidal).
Se a finalização orquestral da música anterior abre este terceiro ato ou se este terceiro ato não abre mão de ser do segundo não é possível precisar. O que se sabe é que Mathew E. White, um gigante branco, de inventividade plural (que recentemente fez um disco incrível e esquisitíssimo com o inigualável Lonnie Holley), faz o encontro entre o folk e o gospel-soul sulista estadunidense para trazer em clima de luto e redenção num crescendo orquestrado que casa (sem trocadilhos) com a camaleônica St. Vincent, que carrega um léxico tão misterioso quanto pop em sua carreira de mais altos que baixos, mas não menos corajosa, evocando e homenageando sem dúvida uma de suas grande influências: Joni Mitchell, que dá continuidade, num piano que se funde na sua voz precisa como um carinho quente para dormirmos em paz. Infelizmente a música de Joni não está disponível no Spotify também, apenas no Tidal. Mas não durma: a graça de se fazer uma mistura é a de promover sonoramente um encontro entre Joni e Black Sabbath. Sim… isso mesmo. As explorações sonoras supra-metal, psicodélicas e melódicas da banda são o que eles entregam de melhor (não atirem no pobre que vos escreve… é questão de match). Em Changes, o anúncio está feito para o quarto ato: muda-se radicalmente.
E nada é tão radicalmente tão transcendental que qualquer acústico de Prince, seja no piano, seja no violão, como neste caso de The Truth. Este punk, rebelde eterno, consegue penetrar em todas as camadas de vossos ossos para trazer uma mistura de sentimentos com um controle hipnotizante, que poucos conseguiriam e conseguirão fazer com vossos corpos e vossas almas. E se a experiência é radical, o que falar de The Firemen, projeto (inicialmente eletrônico) de Paul McCartney e Youth (colaborador bissexto do The Orb), numa “murder ballad” fabular, bucólica e… ornitóloga, que fecha com os maiores exploradores do lo-fi, Guided By Voices, em uma de suas centenas (milhares?) de baladas acústico-dadaístas, nas quais, em 42 segundos apenas, se abre um enorme mundo onde os sons das vozes, da velha fita cassete e da gravação precária de notas singelas e românticas habita. Apenas 42 segundos de tanta pluralidade e síntese que só os simbolistas mais ferrenhos conseguem mergulhar e dar o devido valor.
O quinto e último ato não abre acústico, mas semi acústico (e posteriormente muito eletrificado). Aos que pouco conhecem a banda anterior, há sim, uma similaridade ferrenha entre Guided By Voices e R.E.M. ainda que ambos tenham rumado para trópicos díspares. Aqui há um contraste muito explícito: as novas aventuras em hi-fi (nome traduzido do disco) ficam claras, num dos seus melhores álbuns, criado inteiramente em turnê do disco anterior, Monster, no ônibus, e conseguiram, com uma produção límpida, cristalina, transformar o peso da monotonia de ser uma das maiores bandas do planeta na ocasião com um disco que não visa a entregar nada a ninguém, a não ser o que são desde sempre: autênticos rebeldes românticos. E de baladas rebeldes sai a incrível voz visceral e trágica de Michelle Gurevich, recém descoberta mas não menos absolutamente gigante, monumental, como se estivesse se encontrando as escondidas num beco de Varsóvia, com Patti Smith e Kim Gordon. Sua Party Girl é ao mesmo tempo dilacerante quanto sarcástica, nietzchiana e nada solar. Mais punk impossível. A neozelandesa Maxime Funke está também nas descobertas recentes mas não menos interessantes. Sua produção extremamente lo-fi, com pequenas doses de batidas sequenciadas, se misturam ao violão tímido e controlado para trazer uma atmosfera bastante particular, na qual qualquer micro ruído se torna parte da composição. O encerramento se dá por conta de duas músicas: a dolorosa mensagem que Kurt Cobain trouxe para sua então esposa, Courtney Love, numa cover de Huddie ‘Ledbelly’ Ledbetter, eternizada no incrível disco/show Acústico MTV do Nirvana, alguns meses antes do suicídio de Kurt. E se esta mistura de número 15 traz tanta dor quanto delicadeza entãonão há como não fechar com a deliciosa voz moleca de Courtney Barnett, fazendo outra cover, agora de Velvet Underground, talvez a mais punk de todas as bandas não punks da história.
Confie. Apenas confie. Saia do Shuffle. Toque na ordem.
메타데이터
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- 2026-07-24 10:24:05