Enquanto o tempo espera
Há um paradoxo tão evidente que quase nunca é examinado. O tempo não muda, o que muda é o vivente.
Enquanto o tempo espera
Há um paradoxo tão evidente que quase nunca é examinado. O tempo não muda, o que muda é o vivente.
Desde pouco depois do princípio do cosmos, o tempo transcorre com constância e regularidade quase monótonas. Nem mais rápido, nem mais lento. Não acelera para acompanhar a ansiedade dos jovens, nem abranda para consolar a angústia dos velhos. O movimento do mundo, das estrelas, das estações, permanece idêntico ao que sempre foi.
Na infância e na juventude, a transformação é contínua, abrupta, por vezes violenta. O corpo se altera, a mente se reorganiza, as paixões surgem e desaparecem, as certezas são trocadas antes mesmo de haverem se tornado frutas maduras. Tudo acontece depressa dentro de quem vive, mas o tempo parece vasto, inerte e abundante. O período de um ano em que acontecem incontáveis eventos parece estranhamente lento.
Mais tarde, quando o organismo conclui sua construção, quando já não cresce, quando já não aprende com a mesma vertigem, quando passa a conservar mais do que a transformar, ocorre a inversão. As mudanças tornam-se escassas, às vezes indesejáveis, quase sempre irreversíveis. O corpo não se refaz, apenas se desgasta. A mente já não se reinventa, apenas perde nitidez. E então surge a impressão oposta: o tempo dispara.
Já o mundo, muda sem cessar. As décadas passam como semanas. Aquilo que antes parecia permanente desaparece com rapidez desconcertante. A mudança é lenta dentro do indivíduo mas o tempo parece correr.
E há ainda um terceiro momento, raramente formulado, embora universal: quando a consciência percebe que a última transformação, a dissolução completa, tarda. Mesmo quando o tempo parece precipitar-se. Mesmo quando tudo já aponta para o fim. Esse atraso não pode ser explicado pela Biologia, Física ou qualquer cálculo humano. É uma experiência íntima, silenciosa, sem linguagem precisa.
Foi essa experiência que começou a acompanhar aquele homem. Ele não tinha nada de excepcional. Não havia realizado grandes feitos, não deixaria nome em lugar algum. Viveu como vivem muitos. Ele trabalhou, sustentou a casa, atravessou anos semelhantes uns aos outros. A vida lhe pareceu natural enquanto estava acontecendo. A estranheza começou apenas quando já não havia muito o que esperar.
Na juventude, ele lembra agora, tudo mudava rápido demais. O corpo obedecia sem resistência e a distância entre querer e fazer era mínima. As decisões tinham consequência imediata. Havia sempre algo novo acontecendo ainda que o cenário permanecesse o mesmo. O bairro, as ruas, o céu, tudo parecia constante. Quem se transformava era ele. Naquele tempo, julgava que o futuro demoraria a chegar.
Agora, sentado com cuidado para não perder o equilíbrio, percebia o contrário. Exceto diante da perda imperceptível de alguma capacidade física ou mental, quase nada nele mudava de um dia para o outro. Ainda assim, os anos passavam com velocidade desconcertante. Pessoas envelheciam e lugares desapareciam e objetos ficam obsoletos. Isso é natural. E, olhando para trás, começou a notar que aquela presença paciente, que nunca o ameaçara de fato, já se manifestara muitas vezes. Primeiro, quase sem ser notada, levara os desconhecidos. O homem que morava três casas adiante, um colega distante de trabalho. Ou alguém de quem se dizia apenas “você soube?”. Naquele tempo, essas notícias não pareciam dizer respeito a ele. Eram acontecimentos do mundo.
Depois vieram os conhecidos. O dono do bar, o vizinho que cumprimentava todo dia, o professor já velho que definhou de um semestre para o outro. Cada ausência criava um pequeno vazio que era logo preenchido por novas rotinas. A cidade continuava funcionando e o não parava.
Mais tarde, ela levou os seus adversários. Gente com quem discutira, disputara espaço e guardara mágoas. E ele percebeu, com certa perplexidade, que o desaparecimento deles não trazia vitória alguma. Apenas o silêncio.
Demorou mais, mas começou então a tocar os próximos. Seus amigos. Um a um, para que sua presença não causasse alarde. Um telefonema inesperado. A cadeira vazia num encontro. A conversa que nunca se repetiria. O assunto inacabado. A cada vez, ele pensava que deveria continuar vivendo como antes.
Por fim, chegou aos parentes. Aí já não havia distância possível. Aquela presença paciente não se ocultava mais nas bordas ou sob as sombras por detrás das portas. Instalava-se na própria memória viva da casa. Objetos permaneciam no lugar, mas sem efeito ou função. Fotografias tornavam-se mais numerosas que as vozes de outrora. E assim, como antes, o silêncio.
Foi nesse ponto que ele percebeu o temperamento daquela coisa. Ela não tinha pressa. Não precisava ser convencida. Não era anunciada. Ela apenas aparecia e retirava. Como alguém que, lentamente, desocupa uma sala começando pelos cinzeiros, copos, talheres, pratos, cadeiras e, por fim, a mesa.
A percepção disso também mudou ao longo da vida. No início, tudo parecia um acidente. Depois, parecia injustiça. Mais tarde, começou a parecer algo metódico e constante. Transformou-se noo modo como as coisas ocorrem.
Levantava-se devagar porque o corpo exigia negociação com as leis da Física. Caminhar até a cadeira da varanda era um percurso curto e fustigante. Sentar-se era menos descanso do que interrupção necessária.
O céu noturno permanecia igual. As estrelas atravessavam seu caminho com a mesma paciência de sempre não participavam da aceleração que ele sentia. Eram regulares, alheias e distantes como haviam sido quando ele era jovem e imaginava que o tempo fosse abundante.
Ele começou a suspeitar que confundira algumas coisas durante toda a sua vida. Confundira mudança com tempo. Na juventude, mudava tanto que acreditava que o tempo o acompanhava. Na velhice, mudava pouco, e por isso imaginava que o tempo havia acelerado. Mas o tempo não participara de nenhuma dessas fases. A sensação de rapidez era apenas o esgotamento das possibilidades.
Essa percepção lhe trouxe uma espécie de perplexidade cansada. Se tudo agora parecia se encaminhar para o término, por que o término não vinha? Se o tempo corria, por que o desfecho demorava?
A última mudança, aquela que transformaria o corpo em matéria indistinta, a presença em lembrança, a lembrança em ausência, não obedecia à mesma lógica das outras. Às vezes, ao engolir as pílulas com dificuldade, sentia como se estivesse sendo observado por algo paciente demais para ser chamado de ameaça. Outras vezes, ao tentar acompanhar com os olhos o movimento das estrelas, tinha a impressão de que o céu se afastava. E ficava ali, olhando o céu por mais tempo do que os olhos suportavam. Talvez a sua espera tenha sido longa demais.
메타데이터
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