Foi você que perdeu
Queria muito estar plena, por cima da carne seca, me sentindo segura e no controle das minhas emoções. Só que a grande verdade é o oposto…
Foi você que perdeu

Foto de Claudia Soraya na Unsplash
Queria muito estar plena, por cima da carne seca, me sentindo segura e no controle das minhas emoções. Só que a grande verdade é o oposto disso.
É muito difícil encontrar compatibilidade no mercado de relacionamentos. Sim, é um mercado. A gente já conta até com vitrine virtual, onde passa pra direita pra aceitar e pra esquerda pra rejeitar. Fora outros meios de divulgação indiretos a que nos submetemos.
Ali ofertamos um formato idealizado que temos sobre nós mesmos, ou acerca de quem somos. Pessoas boas, equilibradas, que se exercitam, quase nunca fumam, que bebem socialmente e os remédios pra saúde mental nunca são mencionados. Jamais. A grande merda é que nem as imagens das viagens internacionais, dos corpos esculturais e sorrisos brancos impecáveis dão conta do caos interno em que estamos mergulhados.
Continua sendo encontrar uma agulha no palheiro. Quando a gente finalmente consegue romper com a barreira do virtual e se encontra, alguns se contentam em ouvir o som da própria voz. Pra gente que é experiente e tem a comunicação como aliada, alguns tons semióticos são inescapáveis. É performance. Até para performar, dá pra ver que o sexo oposto tá muito aquém do que nós mulheres podemos oferecer de bom. Talvez, a Luana Piovani com a sua verdade nua e crua esteja certa. Ela ao menos admite.
Sempre foi a busca pela agulha no palheiro, ainda que a gente só queira brincar um pouquinho de ser feliz. O que antes era o bar, a pista de dança, os bailes, ou mesmo a convivência no ambiente de trabalho (ah! Quem inventou aquele ditado que diz: onde se ganha o pão, não se come a carne!, provavelmente o disse, porque comeu tanto da carne, que se empanturrou e viu que era uma péssima ideia!), agora é o aplicativo para os que não saem, ou não estão saindo pro real. Ou seja, boa parte de nós.
Quando a gente abre o aplicativo, a impressão que dá é que ali está o que sobrou, incluindo eu. De maneira geral, claro. Não sobrei. Talvez nem eles. Na melhor das hipóteses, não acharam ainda o tal grande amor. Eu já achei alguns grandes amores na vida. Posso dizer que tive muita sorte. Construí belas histórias, com pinceladas de aventura, emoção, fogo ardente e muita coisa pra contar. E o que mudou agora?
Agora sobrou uma impáfia, uma desconfiança de que tá todo mundo mentindo, que o povo está bem estranho, que desaprenderam a se relacionar e um certo cinismo da minha parte. Ao me olhar mais profundamente, vejo a minha própria masculinidade pulando, meu desejo de estar no controle nas relações e zero talento para me submeter, além da falta de paciência. Às vezes dá uma vontade de ser dominada, ainda assim, se esbarro nessa pessoa falando sobre isso abertamente, depois da gargalhada, a gente joga pra esquerda. Simples assim.
Em certos casos, o destino põe um macho promissor no caminho. Com tons de não prometeu nada, mas entregou tudo. Ai, papi! Não queria perder o controle, mas não resisto a um gato com pegada. Entro no modo não quero sentir, mas tô sentindo tudo. Quero pensar em outra coisa, mas apenas o mini-flashback fica rodeando a minha mente.

Foto de Alyona Boldynjuk na Unsplash
Outra coisa que eu detesto são histórias pela metade. PUTAQUEPARIU! Por que tem que deixar as coisas pela metade? Sobretudo quando supostamente ambos são livres? Nada nos impede. Nada nos segura. Dá vontade de gritar, dá vontade de fazer a maluca e bater lá, sacudir o bofe, tirar a roupa e terminar o que começamos. Ao mesmo tempo, entra em cena o meu outro lado também, que no meio do conflito sai falando com outros. Vários outros para distrair a mente, parar de pensar e sair dessa obsessão autoimposta.
O fato é que está anoitecendo. A cabeça já se convenceu, a ansiedade não traz nada de bom e o coração não quer sentir nada disso. Porque somos humanos que nos recusamos a sentir. Sentir é chato, dói cada fibra. No meu caso, só consigo me sentir uma grande trouxa por estar perdendo tempo com isso. Então, é o orgulho que estapeia a minha cara com toda a força. A voz sabotadora, amiguinha de velha data só vem dizer o quanto eu tô ridícula. Ela me chama de trouxa e dá gargalhadas num canto da minha mente.
Uma grande trouxa que amanhã estará fazendo outra coisa, pensando na vida prática, buscando outras pessoas e nunca mais pensando no que poderíamos ter feito juntos.
메타데이터
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- 2026-06-12 07:46:06