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GÊMEOS

Para Carla Cavallieri (Mama Nwe)

Mayara Assunção · 2019-09-27 21:07 · 67 claps · 3.8 min read
#gêmeos #infancia #ibeji #africa
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GÊMEOS

Para Carla Cavallieri (Mama Nwe)

Imagem retirada da Internet

Imagem retirada da Internet

Muitos são os mitos, palpites e especulações sobre gêmeos[1]. “Irmãos da mesma gestação” causam reações variadas pelo mundo. Da “sorte grande” até o “grande azar” a cultura de uma sociedade é fator determinante para os caminhos de gestar, parir, criar e conviver com gêmeos.

Na psicologia, na educação, na literatura, na ciência, na teologia… Diversas são as áreas que estudam sobre este universo. De simples observações até complexos estudos comparativos, muito têm se pesquisado sobre dois (ou mais) indivíduos que são gestados ao mesmo tempo.

Pesquisas apontam que a cada 1.000 nascimentos na África Central, mais de 18 são de gêmeos, um número alto comparado a outras regiões do mundo. Recortando mais ainda em outra região do continente africano, estudos apontam que na Nigéria — país da África Ocidental, entre as mulheres iorubás[2], para cada 1000 gestações, 45 são de gêmeos ou trigêmeos. Inúmeros pesquisadores estão há décadas buscando entender sobre a fertilidade das mulheres nigerianas.

“Na língua iorubá ibeji significa gêmeos: IBI = Nascido e EJI = dois (cfr. Fausto Polo Jean David: Catalogue des Ibeji). Ibeji ou “dois” e Dona Ceci sublinhava o aspecto de nascido em dois. Por isso, a tradição religiosa ioruba considera os gêmeos como seres que têm uma única alma, unida e inseparável (aqui, diga-se de passagem, Monique Augras nos traz um aspecto muito importante sobre a alteridade: o outro que é intimamente ligado com a questão da dualidade) Por esse motivo, quando um gêmeo morre, a vida do outro está em perigo visto que a sua alma não tem mais equilíbrio (cfr. Fausto Polo Jean David: Catalogue des Ibeji).”[3]

As especulações para a causa da fertilidade variam desde o tipo de alimentação até fatores genéticos, o fato é que Mulheres Iorubas (ou com descendência) são consideradas mulheres do ventre fértil.

Em alguns países africanos, acredita-se que “são as crianças que escolhem as suas mães antes de nascer.” Quando nascem gêmeos foi porque duas crianças escolheram a mesma mulher e isso seria uma benção. Já em outros países, acreditava-se que gêmeos seriam o anúncio de uma maldição. O universo que envolve gêmeos é carregado de mistérios. Na tradição ioruba gêmeos trazem prosperidade, alegria e sorte.

Já alguns povos, diziam que “os gêmeos” são frutos de traição. Em outros, que era a presença de um espírito ruim. E ainda hoje, há quem acredite que eles são a representação do “dia de nascer e do dia de morrer”. No Togo, por exemplo, entre os Minas, crianças gêmeas são vistas com naturalidade, sem nenhum mistério. O fato é que as crenças vão se modificando ou se diferenciando de acordo com cada país.

“A situação e as atitudes diante do nascimento gemelário mudaram radicalmente no território ioruba. Pouco a pouco, eles começaram a acreditar que os gêmeos possuem poderes sobrenaturais… Eles deveria receber os melhores alimentos, roupas e as jóias mais bonitas. Eles deviam ser o centro das atenções…” [3]

Entre os Iorubas (Nigéria) e os Lubas [4] existem danças, ritos e festas específicos para marcar o nascimento de dois (ou três) ao mesmo tempo. E também para celebrar a vida desta mãe. Se a figura materna é sagrada em países africanos, a “barriga de dois” está além e precisa ser ainda mais celebrada.

Gêmeos com mãe, Ishedé, Benin, c. 1948–1979. Pierre Verger

Gêmeos com mãe, Ishedé, Benin, c. 1948–1979. Pierre Verger

Existe força, beleza e vitalidade no gerar. E assim, acredita-se que o “gestar múltiplo” potencializa os fios que tecem uma trama de vida, de pessoas e de histórias. É como uma mandala que se expande. A mãe de gêmeos carrega toda a “nova organização”. Gêmeos marcam o antes e o depois deles.

Muitos povos africanos acreditam que entre os gêmeos, aquele que nasce depois é o mais velho (ao contrário do que acreditamos). O mais velho é aquele que dá espaço e cuida do mais novo, enquanto o mais novo se vai.

“Parece que este pensamento instaura até o mesmo outra ordem biológica, uma nova hierarquia de valores com os seus novos deveres e direitos. Nesta ótica, os gêmeos parecem construir uma comunidade… Fato que o mais novo nasça primeiro como um mensageiro que anuncia a chegada do seu irmão mais velho e busca saber se este m,undo vai lhe ser agradável”[3]

Mas de fato, é a mãe que sabe qual é o mais novo e o mais velho. Até porque gêmeos também são conhecidos por suas brincadeiras e zombarias desde o ventre. Dos muitos mistérios que envolvem estas crianças, muitas das respostas (físicas ou espirituais) estão nas suas mães.

São as mães que carregam, nutrem e que observam atentamente os irmãos que dividiram o mesmo espaço. As mães têm o poder de diferenciar, questionar e compreender estes irmãos. E talvez por isso, mães de gêmeos são respeitadas, reverenciadas ou temidas. São assim… Sagradas!

_____

[1] Quando na gravidez há mais de um feto, há uma gestação gemelar. Hoje sabemos que um óvulo fecundado por um único espermatozoide pode se dividir em partes iguais formando assim, gêmeos geneticamente idênticos. Pode também haver a liberação de dois (ou mais) óvulos fecundados por espermatozoides diferentes. Em casos raros, um mesmo óvulo pode se dividir e ser fecundado por espermatozoides diferentes. E em casos raríssimos, um óvulo pode ser fecundado quando a mulher já está no inicio de uma gravidez.

[2] Pesquisas feitas na década de 60 por Percy Nylander e recentemente pelo médico e pesquisador Obinwanne Ugwonali.

[3] N’Dala, Dieudonné Bukasa — Os gêmeos afro-brasileiros e o sincretismo religioso: o culto aos gêmeos — entre África e Brasil

[4]República Democrática do Congo


메타데이터
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