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Aos idiotas

É um mundo selvagem, diz a canção, mas não, é um mundo civilizado, irreal, povoado de abstrações. O tempo que nos corrói, por exemplo, nem…

Neo · 2023-10-06 19:39 · 170 claps · 2.4 min read
#sociedade #capitalismo #idiota #vida #medium-brasil
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Aos idiotas

É um mundo selvagem, diz a canção, mas não, é um mundo civilizado, irreal, povoado de abstrações. O tempo que nos corrói, por exemplo, nem existe; o relógio é uma abstração, uma representação espacial do tempo que permitiu o desenvolvimento do capitalismo industrial e, consequentemente, a exploração dos trabalhadores, num aprisionamento sem precedentes da vida humana. Falar de relógios, porém, é coisa do passado. Pra que medir o tempo, se todo tempo pode ser tempo de trabalho, de consumo? Pra que descanso, se podemos funcionar continuamente? Também não fazemos, como diz outra canção, o que os macacos faziam, nem somos, como diz ainda outra, homens das cavernas, cotidianamente, em nossos apartamentos de vinte metros quadrados. Não seria isso um sonho, viver de acordo com a natureza? Desejar apenas o que o mundo “natural” tem a oferecer? Nosso problema é outro, reside a léguas e léguas daqui… Também já não é a religião, que, raquítica e capenga, persiste apenas como predadora do desespero e sofrimento alheios; a Igreja, como bem sabem, perdeu o monopólio do tempo há muitos séculos. O capitalismo como religião, talvez? Ideia consistente, mas batida; se é religião, o é inconscientemente, como ideologia reificada. Mas mesmo essa crítica parece esgotada; funcionamos ainda melhor, obrigado, mantendo uma distância irônica em relação ao sistema. E se voltássemos, enfim, a sonhar coletivamente, e se desejássemos, com todas as forças, um futuro diferente? Que forças? — pergunto. Teríamos, antes, que passar por cima dos antidepressivos, dos ansiolíticos, dos indutores do sono; das promessas, feitas em vão, de liberdade e gozo individuais; da superfície, da eterna e hipersaturada superfície, que consome tanta atenção, e cujos nomes são vários (não cabe a mim, como a um demônio, invocá-los).

Do alto da minha preguiça, escolho (escolho?) ser um idiota. Sim, um idiota! “O idiota como herege é uma figura de resistência à violência do consenso. Ele resgata o encanto do forasteiro.” Minha ideologia? O idiotismo — que “erige espaços abertos de silêncio, quietude e solidão nos quais é possível dizer algo que realmente valha a pena ser dito”. Não sou livre, mas tenho agência (tanto quanto possível). Não sou feliz — e aqui não cabe um “mas”. Alegre? Depende. Corajoso? Pode ser, se exigido, mas nunca se sabe ao certo, apenas a posteriori, e não tenho vocação pra tragédia. Também evito, ao máximo, um mundo que já nos tira tanto, e que cobra tão caro (o dobrado tem saído barato, esses dias) por cada alegria concedida, pequena ou grande, fugaz ou duradoura. Um ideal solitário? Sim e não; ser inútil tem seu preço, como sempre e como tudo; mas onde é possível conviver, de fato, senão nas alturas? Não me refiro, é claro, às alturas intoxicadas das abstrações, que esgotam e escravizam, e sim àquelas que, cética e paradoxalmente, são alcançadas através da matéria — da matéria, inclusive, das paixões —, do contato com o que há de mais “real”. De vez em quando, alguém bate à porta e, vivendo como deuses, nos apaixonamos como mortais. Nada parece durar, é verdade, e a volta não tarda a aparecer… Isso não é um manifesto, nem poderia ser. Um convite? Um apelo? Uma expressão. Uma forma de existir. “O idiota se assemelha ao homo tantum, ‘que não tem mais nome, embora ele não se confunda com nenhum outro’. O plano da imanência [à merda, canalhas transcendentes!], ao qual ele tem acesso, é a matriz da dessubjetivação e da despsicologização. É a negatividade que arranca o sujeito de si mesmo e o liberta na ‘imensidão do tempo vazio’. O idiota não é um sujeito, é antes uma existência em flor: simples abertura à luz’.” Eis tudo.

Pensamiento de caracol, Gustavo Pena: https://open.spotify.com/track/0lQxd9GgNLiKk0Ouz1ayiK?si=54bf673412784d3c

Breves referências

Han e Deleuze, dois idiotas.


메타데이터
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