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sobre os livros que li e aqueles que me leram

Divagações sobre livros, língua, tradução, ficção, realidade e sobre todas possibilidades.

tahuany bovi · 2023-10-04 17:38 · 0 claps · 4.9 min read
#livros #criação #ficção #lingua #leitura
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sobre os livros que li e aqueles que me leram

Estive pensando sobre alguns dos livros que li. E especialmente naqueles livros que me leram.

Divagando sobre eles, sem pretenção alguma de chegar em qualquer conclusão, percebi nesses (que me leram) um padrão: todos foram escritos por autores que usam da poesia (no mais cru dos sentidos) para se contarem. Se contarem através de fictícias situações, pessoas e cenários, criando realidades tão irrealmente reais, tão profundamente possíveis, no mais ficcional dos sentidos, e mesmo aquelas mais factuais são separadas da realidade pela linguagem, pela ficcionalização narrativa.

São essas possibilidades de ser que me encantam e que me chamam para a vida e para toda sua potência e caminhos a serem tomados. Mesmo naqueles mais biográficos, o grau de poesia que os envolve cria um véu de ficcionalidade que atrai essa apreciação das possibilidades da vida, afinal, que é ela se não o modo como a enxergamos? A realidade em si são só os fatos, o olhar individual e atento que decidimos dar a eles é a própria experiência e beleza da vida.

Por exemplo, caminhar no parque pode ser só o ato de caminhar no parque. Mas também pode ser o caminhar no parque apreciando a luz que invade as folhas das árvores, a altura e balanço dos galhos dessas árvores, o vento que atravessa essas folhas e raspa na pele enquanto o caminhar acontece, os sons que perpassam essa caminhada até que se cesse, tudo isso cria uma nova dimensão para o singelo, e antes cru, ato de caminhar no parque.

E ouso dizer que o vocabulário tem grande influência nessa hiper-dimensionalização do ato. A romantização só é possível pela linguagem, e o vocabulário que a linguagem carrega é um catalizador dessa romantização. Quanto mais rica ela, mais aquele véu das possibilidades de experiencia sobre um fato cotidiano cresce, e a crueza não mais domina a experiência da vida.

Isso dito, percebemos então que cada falante experiencia de um jeito singular os acontecimentos da vida, isso em detrimento do contexto, amplitude, riqueza e significações da língua em que está imerso. O inglês, por exemplo, é usado para objetos e situações específicos em que a tradução para o português não se sustenta em completude e enfraquece o seu significado — "e-mail" não tem o mesmo peso de "correspondência digital". Em contrapartida, a língua portuguesa possibilita significações irrealizáveis em línguas como o inglês, como aponta o ator Fernando Meirelles em uma entrevista para a revista The Hollywood Reporter, 2019.

“Eu entendo inglês, mas eu não ‘sinto’ inglês. Quando eu falo ‘mango tree’ é só uma árvore. Já ‘mangueira’ lembra minha mãe, a infância. É diferente.” (Fernando Meirelles)

Esse português, tão rico, consegue criar imensuréveis realidades pela junção de 26 letras e sinais de pontuação. Ele é sensível, vivo. Isso, não só por conta da língua em si, mas justamente por sua riqueza, miscigenação e contexto histórico. Friso em uma breve digressão que esse português do qual falo aqui é o brasileiro, língua composta pelo português e também por tantas outras (indígenas, africanas, além das gígias e regionalizações) sendo, por isso, aos meus olhos, uma das línguas mais ricas, complexas e bonitas. Trago, sobre esse contexto, um trecho do poema de Angelo Gabriel:

"Falar português é uma violência. Por isso que soam tão gostoso palavras como dengo, cafuné, xodó. É porque elas não foram impostas, o português é a língua de Portugal, nação que colonizou esse espaço. Antes de 1500 o Brasil falava centenas de línguas, todas indígenas, depois, o Brasil falava mais línguas, ainda indígenas, africanas e europeias, mas a única que foi imposta é o português. Por isso, quando a gente abrasileira o sotaque soa melhor. Por isso quando a gente cria palavra soa melhor. Por isso quando a etimologia da palavra não vem do latim soa melhor. É porque foi o Brasil que pariu essa palavra, e o normal é amar os filhos. Língua é identidade, e cada vez que a gente adapta a língua a nós, mais brasileira ela fica e mais a gente se identifica. Cada vez que eu digo "me diz" ao invés de "diga-me" sou brasileiro. A cada vez que mato o "vós" e chamo "você" sou brasileiro. A cada vez que eu falo como eu falo eu lembro dos meus amigos, da minha mãe, do meu tio, e sou brasileiro. Eu não falo português, eu falo brasileiro. E de preferência que eles não me entendam, afinal não entendem mesmo, nunca criaram nada do nível do samba, do funk, do carnaval e também, como o fariam com esse sotaque que mata vogal? (…)" (Angelo Gabriel)

Mas não é só a língua que tem o poder da ficcionalização, afinal, se fosse somente esse o fator, meus livros favoritos seriam todos de autores brasileiros, quando na realidade há uma diversidade grande, além dos brasileiros, há norte-americanos, chineses, tchecos… E ainda sobre a língua, reforço que a tradução é sim um aspecto importante, é ela que permite fundir a história ao leitor e que permite a aproximação da obra para pessoas não-falantes da língua original, e isso, claro, contando com todas as implicações de uma tradução (tópico para um próximo texto).

Um outro fator é a capacidade narrativa desses autores. Não basta ser bom autor, é preciso se conectar com aquele que consome a história. É preciso atravessar o leitor de uma forma tão avassaladora que ele acorde suas crenças e experiências adormecidas. Percebi como a escrita e conteúdo desses livros já estavam em mim adormecidos, e, por isso, se conectaram comigo de uma maneira inigualável. É essa a finalidade da leitura, ser uma experiência seduzente, intensa, estonteante, delirante. É preciso ter um grau de ficcionalidade para que a distância não seja tão próxima, para que permita ao leitor o ato de sonhar, de construir mundos a partir da narrativa proposta. Mas deve também ter um grau de realidade que atravesse esse leitor, que conecte a história de alguma forma às vivências desse leitor. A história precisa ser tão irrealmente real, tão verdadeiramente ficcional, que a dúvida paire junto com a certeza, que um dualismo se forme e que um novo espaço-tempo jamais antes possível seja criado.

"Naquele dia, esqueceu em algum lugar as toneladas do mundo que carregava nos ombros. Começava a se despedir do seu casulo cinza. Suas asas já tinham cor e forma e rompiam a casca que acolehu por anos a morte se engravidando de uma nova vida. Ainda não era, mas seria uma borboleta" (Carla Madeira, Tudo é rio)

Nesse trecho, Carla Madeira cria uma realidade em que fugir é uma via possível e válida. E mais que isso, conecta-se ao leitor, permitindo-o também essa fuga. Nesse trecho de tudo é rio fugi junto com a personagem, me permiti ser parte da historia e ser construída por ela. Apesar de minha vivência tão tão distante de algumas das histórias contadas nesses livros, e talvez justamente por essa distância, as histórias ressoam em mim depois de tanto tempo. Me fui sendo construída por outras histórias, e seu grau de veracidade pouco importa, afinal, "não saber nem sempre é o pior lugar (Carla Madeira, A Natureza da mordida). Isso me encanta. Que seríamos se não todas as histórias que jamais vivemos? Somos esses sonhos adormecidos, vivos por palavras de outros, por personagens irreais. Um bom livro é aquele em que o leitor é lido, porque muito mais que um agente passivo, esse leitor tem sede de voo, tem ânsia pelos mundos e pelas realidades possíveis.


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