Quanto vale uma vida?
Os dilemas escondidos por trás da saúde privada do Brasil
SAÚDE
Quanto vale uma vida?
Os dilemas escondidos por trás da saúde privada do Brasil
Em 2023 foram mais de 113 mil registros formais de queixas de negativas de cobertura | foto: Istock
O caso de Luigi Mangione, nos Estados Unidos. Em 2024, Mangione foi preso após assassinar Brian Thompson, CEO da UnitedHealthcare (A maior operadora de planos de saúde do país americano e faz parte do conglomerado UnitedHealth Group, uma gigante global em serviços de saúde), a tiros no bairro de Manhattan, em Nova Iorque. Segundo autoridades norte-americanas, o crime foi premeditado. Como justificativa, Mangione deixou um manifesto em que culpava o sistema de saúde privado por mortes evitáveis causadas por negativas de cobertura (quando o contrato não cobre o procedimento realizado). O caso repercutiu em diversos países, inclusive no Brasil.
Segundo investigações da CIA e do FBI, e declarações no tribunal, Mangione sofria de dores crônicas e transtornos mentais e teria acumulado frustrações após sucessivas negativas de cobertura médica. Em sua mochila, levava um manifesto em que acusava empresas de saúde de se beneficiarem da dor alheia.
A sua defesa alegou violação de seus direitos e motivação desesperada, enquanto a promotoria o denunciou por homicídio, terrorismo, posse ilegal de armas e uso de identidade falsa, podendo até enfrentar pena de morte. Desde Dezembro de 2024, Luige Mangione se declara inocente de todas as acusações, e espera seu julgamento que ocorre nos Estados Unidos no estado da Pensilvânia em regime fechado, que ocorre nos Estados Unidos.
Embora o crime tenha ocorrido no exterior, o alerta é claro: Que, quando a confiança se rompe, e os efeitos extrapolam o campo contratual. No Brasil, os relatos são diferentes no desfecho, mas similares na origem: Negativas, atrasos, sentimento de abandono e desamparo. O Brasil conta com mais de 50 milhões de beneficiários de planos de saúde, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Em contrapartida, o número de reclamações de usuários também cresce, só em 2023, foram mais de 113 mil registros formais de queixas sobre negativa de cobertura, demora em atendimento e descredenciamentos inesperados.
Luzardo da Rocha, de 64 anos, morador de Cachoeirinha, cidade da região metropolitana de Porto Alegre, mantém plano de saúde há mais de duas décadas. Ele relata experiências positivas, como o atendimento rápido durante a Pandemia do Covid-19, mas também momentos de insegurança.
“O plano levou semanas para aprovar a operação quando minha esposa precisou de uma cirurgia no fêmur.” Ficamos com medo de não ter cobertura quando mais precisamos, afirma. Ele continua pagando pontualmente, porém com ressalvas. “Não dá para confiar totalmente.” E continua o relato: “às vezes, o que é entregue pelos planos não condiz com o que é prometido por eles.’’
Corretores no meio da insegurança
Márcia Callegaro, de 47 anos, moradora da grande região de Porto Alegre, corretora de planos de saúde há 31 anos, acompanha de perto esse abalo na confiança. “As pessoas buscam geralmente por um plano completo, com assistência e cobertura nos maiores hospitais de Porto Alegre, e principalmente para procedimentos cirúrgicos e exames de rotina.” “Os contratos são longos e técnicos”. O cliente acha que terá tudo, mas há muitas restrições. E, quando algo dá errado, é o corretor que leva a culpa.” Márcia conta que, em alguns casos, os hospitais deixam de fazer parte da rede conveniada, e os clientes só descobrem na hora do atendimento. “Não somos informados pelas operadoras. O cliente acha que fomos negligentes, mas também somos vítimas de um sistema sem diálogo.” O caso de Mangione evidencia a importância da transparência e da previsibilidade no atendimento: “Quando o cliente não entende o que está comprando, ele se sente enganado. E a frustração vira raiva”, resume Márcia.
Além disso, ela aponta a vulnerabilidade da própria categoria: “Se a operadora encerra suas atividades, perdemos comissão e cliente. E não há nenhuma proteção institucional. Trabalhamos sem garantias.”
“Não somos informados pelas operadoras. O cliente acha que fomos negligentes, mas também somos vítimas de um sistema sem diálogo”, Márcia Callegaro, corretora de planos de saúde
Custo versus cuidado
A lógica econômica dos planos também impacta diretamente os profissionais da saúde. Julio Cesar Jesien, presidente do Sindsaúde (Sindicato dos empregados em estabelecimentos de saúde, que representa cerca de 80 mil trabalhadores da área no estado, denuncia pressões por parte das operadoras. Para ele, há muitas questões que ainda precisam de melhorias: “Questionam exames, demoram para autorizar internações, pedem alta precoce. Isso interfere no cuidado e pressiona os profissionais,” relata o presidente.
Quando o custo se sobressai ao valor da vida, não é somente a vítima que sofre, mas também, todos que o ajudaram a chegar àquele plano (?); os familiares, os corretores dos planos, e também, os profissionais de saúde.
Um sistema em colapso moral
O caso de Luigi Mangione é extremo, mas traduz um sentimento crescente entre usuários, corretores e profissionais da saúde: Insegurança. A confiança em operadoras e no sistema como um todo se deteriora diante de negativas, contratos longos e falhas na comunicação.
Enquanto nos EUA o debate chegou ao tribunal e à esfera federal, no Brasil o colapso é cotidiano e silencioso, distribuído entre vidas que dependem de autorização para serem cuidadas, corretores sem respaldo e profissionais exauridos pela lógica do menor custo.
Márcia resume, “Ainda há um longo caminho a trilhar, a falta de diálogo, humanidade e, com tudo cuidado que se sobressai há ,o sistema precisa de humanos, não robôs.” As histórias se cruzam. Vidas são reduzidas a cláusulas contratuais; promessas de proteção se tornam labirintos burocráticos; trabalhadores adoecem enquanto cumprem metas; corretores são responsabilizados por falhas estruturais; e a pressão transforma cuidado em produto.
O que aconteceu nos Estados Unidos escancarou o limite da frustração com o sistema privado de saúde, sinal de um alerta que não pode ser ignorado. Não se trata de justificar a violência, mas de entender a gravidade da desassistência quando o cuidado vira mercadoria.
A pergunta persiste: Quanto vale uma vida?
Reportagem produzida para a disciplina de Fundamentos da Reportagem do curso de Jornalismo da FABICO/UFRGS.
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