Vida e obra de Vitorino Silva
Vitorino estava sentado na varanda de casa, fumando um cigarro de palha e observando o quintal destruído. Parecia um cenário de guerra. O…
Vida e obra de Vitorino Silva
Vitorino estava sentado na varanda de casa, fumando um cigarro de palha e observando o quintal destruído. Parecia um cenário de guerra. O responsável pelo apocalipse era Bingo, um vira-lata. Aliás, o segundo dos dois vira-latas que Vitorino teve durante a vida.
Pensava no mais e no menos enquanto fitava um buraco feito por Bingo no muro de divisa. Durante a vida toda tinha sido o chefe do almoxarifado da sua cidadezinha. A glória da sua vida era ter passado no concurso público, mesmo que tivesse ocupado sempre o mesmo cargo. A aprovação lhe dava autoridade: Vitorino sentia-se no direito de julgar os outros, embora não o fizesse em público, principalmente depois da aposentadoria.
Se perguntarmos aos dois colegas mais novos que continuam no almoxarifado municipal, eles se lembram do rosto de Vitorino, mas não da voz. Ele quase não falava. Em algum momento, Vitorino soube daquele famoso ditame sobre plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Na virada dos quarenta, ele começou a perseguir esses três itens. O primeiro a ser alcançado foi a árvore; arrumou uma muda de fícus e a plantou na calçada, diante de casa. Em duas décadas, as raízes da árvore cresceram, arrebentaram o muro da frente e agora insidiavam as fundações da casa de tijolos. As trincas espalhavam-se.
Depois, o filho, que se multiplicou por ser três. Nenhum trilhou o sendeiro glorioso do concurso público. O mais velho biscateava, o do meio era muambeiro e o mais novo, manco. Após o nascimento do caçula, a mulher de Vitorino fugiu com o homem que consertava telhados.
O livro, Vitorino começou a escrevê-lo em uma resma de papel que se havia umedecido no almoxarifado. Posta de lado pelo secretário do prefeito — um fresco — , o almoxarife se apossou dela. O sulfite rejeitado seria o suporte do livro, mesmo que meio retorcido e amarelado, como se vítima de mijada. Devagar, folhas e folhas preenchidas com linhas tortas de caligrafia tortuosa foram se acumulando dentro de uma pasta de papelão. O livro de Vitorino era sobre a lealdade dos cães, animal pelo qual ele, em algum momento da vida, teve fascínio. A mãe, dona Xinxinha, muito morta àquela altura, detestava cachorro e nunca tinha deixado os sete filhos terem um totó. De repente, Vitorino se viu escrevendo sobre a lealdade dos cachorros sem nunca ter tido um. Um dia, porém, quando ele fechava o almoxarifado após um longo dia de produção literária — umas dez linhas, mas que lhe tomavam as oito horas de expediente — , um vira-latas aproximou-se abanando o rabo. A primeira reação do almoxarife foi desferir-lhe o maior dos chutes, pois o cão o havia assustado enquanto ele pensava se caroço se escrevia com um s ou dois.
Atingido e assustado, o cão pôs o rabo no meio das pernas e começou a se afastar. Mas um cachorro era justamente o que faltava a Vitorino para escrever sobre cachorros. Com um pedaço de pão tirado do bolso das calças, resto do almoço, o homem começou a atrair o cão que, de ressabiado, passou a segui-lo. O filho manco viu que o cão entrou em casa com o pai.
— Ele vai mastigar tudo.
— Eu cuido. Preciso dele pra escrever.
— Ele escreve?
— Não.
— Ele fala?
— Não.
— Ele não escreve, não fala e ainda vai mastigar tudo. Cachorro só serve pra mastigar as coisas.
— A sua cabeça é manca que nem você.
— Ele vai mastigar tudo.
No dia seguinte, o segundo par de sapatos de Vitorino, o de missa, espalhava-se pela sala, mastigado. Vitorino nunca imaginou que algo compacto como um par de sapatos devidamente despedaçado poderia ocupar uma área tão grande. O cão estava encolhido num canto da cozinha, e assim que Vitorino o viu desferiu-lhe outro chute estrondoso. O cachorro ficou manco depois daquilo.
Passaram-se algumas semanas e alguns parágrafos do livro sobre cães até Vitorino perceber que o cachorro não tinha nome.
— Vai se chamar Valdir.
Valdir era também o nome do filho manco. O Valdir original cobriu o pai com um manto feito de todos os palavrões que a sua manqueira conhecia, mas não teve jeito. Com o tempo, o Valdir-cão passou a ser Valdinho e o Valdir-gente era apenas o Manco. E puxavam a mesma perna, a esquerda.
Longe de ser modelo de fidelidade, Valdinho era finório. Mordia o calcanhar à traição, mascava o que estivesse ao seu alcance. Os seus dentes deram fim a sapatos, chinelos, camisas, à porta do guarda-roupa, à moita de espadas-de-são-jorge. Quando os dentes descansavam, o cão abria buracos. Um deles chegou a um metro de profundidade, justo do lado do portão. Ficou pronto em um dia que Vitorino chegou em casa de fogo. O almoxarife enfiou uma das pernas no buraco e estabacou-se. Ficou ali até o sol raiar. Valdinho aproveitou o sono do dono e reivindicou-o como território.
Os anos foram se passando e Valdinho construía seu império de ruínas. Vitorino escrevia o livro, que cada vez mais lhe parecia uma coletânea de mentiras. Um dia qualquer, o caminhão da loja de materiais de construção — que trazia pintada na traseira a palavra ‘simento’ — perdeu o eixo e colheu Valdinho na calçada. O Manco foi ao almoxarifado avisar o pai.
— O caminhão pegou o Valdinho.
— E levou pra onde?
— Atropelou.
— Foi tarde.
Depois, apareceu Bingo, achado por Vitorino enquanto roía uns ossos que o açougueiro lhe havia dado. Embora nunca tenha ganhado um chute, parece que sua missão era continuar o legado de Valdinho. Mastigava o que podia, destruía o que alcançava. Era o vigário do demônio na Terra.
Trinta anos de almoxarifado e Vitorino aposentou-se. É numa tarde qualquer, uns dez anos após a aposentadoria, que o encontramos admirando a destruição causada por Bingo no quintal. Pitava o cigarro e pensava no livro sobre a fidelidade dos cães, que estava completo havia já uns cinco anos. Cento e setenta e cinco páginas com várias fotos de cachorros retiradas de jornais e revistas. Era o triunfo da mentira, celebrava as virtudes que inexistiam nos seus cachorros. Tiveram de ser modelos o Rin-Tin-Tin e a Lessie. Vitorino tinha mandado cópias para várias editoras na capital, mas nunca obteve resposta alguma. Sabe-se que uma das cópias foi parar em uma loja de calçados. Usavam as folhas para rechear os sapatos.
Vitorino tinha a árvore, tinha os filhos e tinha o livro.
Enquanto Bingo tentava inutilmente morder as raízes do fícus, chegou o mensageiro da Prefeitura, Arlindo, que lhe esticou um envelope.
O Município rendia-lhe homenagem: um próprio público ganharia o seu nome.
— Algum reconhecimento depois de tanto tempo.
A Prefeitura não era a madrasta ingrata que ele sempre imaginou. Talvez ele pudesse discursar e falar do seu livro sobre a fidelidade dos cães. Talvez o prefeito o ouvisse e telefonasse para alguém da capital resolver o assunto. Talvez seu livro fosse finalmente impresso e conhecido pelos amantes de cachorros, embora Vitorino agora os detestasse, principalmente Valdinho e Bingo.
Na Prefeitura, o prefeito e um secretário esperavam Vitorino. Mais ninguém. O ex-almoxarife ficou triste por não haver plateia.
— Seu Vitorino! Tudo bem?
O caminho sob o sol do começo da tarde havia sido penoso. Os joelhos de Vitorino já não eram mais os mesmos. Talvez, em breve, ele fosse se juntar ao rol dos mancos, com Valdinho e Valdir.
Prefeito e secretário puseram o velho no carro e saíram da cidade. Chegaram a um descampado fora do perímetro urbano, sobre o qual um monte de lixo, coroado de urubus, se erguia. O dia estava um braseiro, e o prefeito tinha rodelas de suor sob os braços. O secretário estava púrpura.
— Seu Vitorino, o senhor sabe o quanto a reciclagem é importante, não?
Vitorino pensava em reforma de casa. Será que lhe iam reformar a casa?
O prefeito prosseguiu.
— Tendo em vista o trabalho que o senhor desempenhou por trinta anos no Almoxarifado Municipal e a importância da reciclagem para a sustentabilidade do planeta, a egrégia Câmara Municipal resolveu batizar o novo parque de reciclagem com o seu nome…
Era um terreno no ermo, delimitado por uma cerca de bambu e com uma pilha de lixo no meio. Vitorino observou bem a área e deu uns passos para dentro do cercado. A brisa quente trouxe o cheiro forte do lixo cozido pelo sol. Vitorino sentiu um engulho e parou. Observou de novo e ouviu o zumbido de centenas de moscas. Viu um rato esgueirar-se. Lembrou-se do cão Valdinho e dos filhos, o manco, o biscateiro e o muambeiro. Lembrou-se de Bingo, o rabo do Tinhoso neste mundo de Deus. Lembrou-se do fícus que lhe arrebentava as fundações da casa.
Ergueu a vista e, por trás do monte de lixo, a placa nova, reluzente, que informava ser aquele o Parque de Reciclagem “Vitorino Silva”. Atrás de Vitorino, o prefeito e o secretário, com medo da arapuca que lhes havia armado a oposição na Câmara ao pôr o nome de um cidadão pacato — e ainda por cima ex-funcionário municipal e idoso — num lixão.
Vitorino virou-se para os dois, que já estavam sem alma, abriu os braços e os abraçou ao mesmo tempo. Uma lágrima de alegria escorreu pelo rosto do ex-funcionário.
— Sabe, estou completo. Plantei minha árvore, tive meus filhos, escrevi meu livro. Agora tem algo com o meu nome. É bonito.
Vitorino mirou novamente o monte de lixo. O prefeito e o secretário se entreolhavam. Tinham perdido a cor. O sol fritava tudo em volta. O cheiro do lixo, trazido por uma lufada de vento quente, ficou mais forte. A lágrima e o suor de Vitorino confundiam-se. Puseram-se os três dentro do carro e voltaram para a cidade.
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- 2026-07-06 23:12:02