O vento pede de volta
quando se cruzassem pelo prédio. O que aconteceu bem mais rápido do que esperava.

Les Falaises d’Étretat — Félix Vallotton
o vento pede de volta
Depois da ventania, foi à varanda ver o resultado: doiss vasos quebrados, estilhaços espalhados pelo chão e cadê a planta que estava aqui? Duvidou de si por um instante. “Eu tinha mesmo uma planta em cima da estante?”
Debruçou-se à procura e lá estava ela, caída sobre a planta da vizinha. Falaria com a ela quando se cruzassem pelo prédio.
O que aconteceu bem mais rápido do que esperava. Ao voltar do mercado, equilibrando nas mãos uma abobrinha, uma lata de feijão, três tangerinas e um bife, viu-a curvada sobre sua caixa de correio.
— Oi, bom dia. Ainda bem que encontrei você aqui. Precisava falar. — Oi, bom dia. — É que, na ventania de ontem, acho que uma plantinha minha caiu bem em cima de uma planta sua. — Tens certeza? Não vi nada lá fora. Só poeira. Mas vamos subir e você vê.
Ela seguiu na frente, subindo a escada com dificuldade, enquanto explicava que já não conseguia mais se abaixar e agora limpava tudo com o pé. Mostrou o movimento que fazia, arrastando o chinelo no degrau.
— Podes entrar, não repara na bagunça. Ele entrou. — Aqui é a sala. Deixa as compras em cima do sofá. Não se preocupe.
Colocou as compras com cuidado sobre o veludo marrom do sofá enquanto matava sua curiosidade de conhecer a casa. Amadeirada e com uma quantidade gigantesca de porta-retratos dourados, flores de plástico e almofadas bordadas. Tudo iluminado por uma pequena fresta de luz que entrava pela cortina. Cercada por memórias, pensou.
— Tem muita coisa porque a casa anterior era maior. Meu marido, meu filho… Tu sabias que meu filho morava na sua casa? Naquela época, quando telefone era muito caro, meu marido conseguiu puxar o fio do telefone daqui até lá. Ele gostava de fazer essas coisas. Tinha jeito para isso.
Ela lhe mostrou o banheiro com orgulho.
— Este armário foi ele quem fez. Vês? Tem uma gaveta escondida para a roupa suja. E fez esses armários também. Construiu isso, e aqui, e ali…
As mãos dela tocavam com carinho a superfície de cada móvel. Ela parou na porta da varanda.
— Era ele quem cuidava das plantas, mas agora é muita coisa para mim. Vem. Vamos lá fora.
Ele subiu em cima do caixote bambo, se esticou e resgatou sua planta.
— Ainda tenho as ferramentas dele aqui. Vou fazer o que com tudo isso? Ele trabalhava na radiodifusão. Se aposentou antes de mim, e eu ainda trabalhava. Ele ia me buscar no trabalho todo dia de carro. Todo dia. Fez também esse armário aqui com essas gavetas, e cuidava das plantas, e de mim. É difícil se acostumar a não ter mais ele aqui.
Na porta, na despedida, ele ofereceu ajudas que sabia que ela nunca iria pedir.
Voltou para casa, colocou a planta novamente no seu lugar. Varreu e recolheu cada pedaço dos vasos. Organizou-os sobre a mesa. Tinha tempo e silêncio para montar aquele quebra-cabeça. As peças se encaixavam perfeitamente que quase não se notava onde haviam quebrado. O encaixe dava tanta satisfação que quase pediria ao vento para quebrá-los novamente. Brincou de pensar que talvez tivesse invocado aquela ventania por, na semana anterior, ter ouvido repetidamente Wild is the Wind. Lembrou-se de quando era pequeno e tinha medo do mar, seu pai cantava uma música que xingava Netuno e as ondas cresciam e cresciam, ameaçadoras. Talvez o vento não entenda as canções de amor. Ou talvez, em sua fúria invisível, entenda o amor melhor do que ele .
메타데이터
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