← Back to list

As canções que você deixou para mim

É engraçado pensar como certas canções marcam nossos corações de uma forma que nos fazem voltar no tempo para uma época onde tudo parecia…

João Paçoquinha · 2020-07-20 12:54 · 1 claps · 3.5 min read
#saudade #isolamento #perdas #música #foça
Open on Medium ↗

As canções que você deixou para mim

É engraçado pensar como certas canções marcam nossos corações de uma forma que nos fazem voltar no tempo para uma época onde tudo parecia mais simples… ou para momentos dos quais muitas vezes gostaríamos de esquecer. É difícil descrever todos os sentimentos que sentimos ao ouvir aquela certa música; muitas vezes chegam a ser um misto de diversas coisas, das quais a única descrição que podemos dar é a melodia que nos marca, como machucados velhos que não cicatrizaram direito, como aquele tombo que você levou quando criança ao aprender a andar de bicicleta. São essas marcas que a música deixa em nós que muitas vezes nos definem como pessoas.

Recentemente, meu avô veio a falecer, e percebo que algo que ele deixou para mim foram todas essas canções que ecoam no meu coração. Muitas delas hoje só me fazem querer chorar, tantas canções que já foram algo que me remetiam à minha infância e aos momentos que tive com ele em sua casa. Lembro-me como ele cantava elas todo desajeitado, sempre fazendo um show na cozinha cheio de caras e bocas, geralmente só pegando o refrão ou simplesmente dizendo como elas marcaram a juventude dele.

Lembro dele me contando de quando ele deu seu primeiro beijo em um bailinho de garagem com Bob Dylan tocando ao fundo. Era algo belo de certa forma ver ele contando aquela história enquanto tocava ‘Like a Rolling Stone’ ao fundo. Eu via no rosto dele a felicidade e a nostalgia por se lembrar de coisas como essas, coisas que ficaram marcadas em sua vida por músicas que ele escutava até antes de morrer. Todas essas histórias que ele me contava desde que eu era criança sempre remetiam a algo belo, como os Beatles, que talvez tenha sido uma das melhores coisas que ele me deu em minha vida.

Desde pequeno, sempre estava lá aquele disco do Sgt. Peppers que eu sempre implorava para ele tocar. Amava ouvir aquele disco e era algo indescritível o que eu sentia naquela época. Eu simplesmente amava ouvir aquelas músicas, e é engraçado ver como algo assim nos marca. E não foi só esse disco dos Beatles que marcou; foram todas as canções que meu avô colocava para tocar nas viagens e nos jantares em família. Foi o acústico do Gilberto Gil com Sítio do Pica Pau Amarelo, foram as músicas do Bowie que minha mãe ouvia enquanto me contava que ele era um Alien que veio para a terra fazer boa música. Foram todos esses momentos e muitos outros que me marcaram quando pequeno, sempre acompanhados de uma trilha sonora que hoje, ao ouvir, me trazem esse misto de sentimentos indescritível com uma enorme saudade de algo que já passou.

Porém, chega uma hora na vida que você começa a escolher as músicas que você quer ouvir, e muitas vezes são aquelas que você já conhecia por causa da sua família. E chega o dia que você começa a descobrir suas próprias músicas e, junto a elas, vem a inevitável adolescência com todos os hormônios à flor da pele e os fones em seus ouvidos. A raiva que vem junto à perda de algo precioso como a infância e o despertar de algo que chamamos de amor. As canções e músicas sempre estiveram por perto em momentos como esses, por mais que você não perceba. Estavam presentes em todas as manhãs que você ia para a escola ou em todas as vezes que você chegava em casa com um tédio enorme por não ter o que fazer.

Lembro-me de todas as vezes que entupi meu antigo celular com música, ao ponto que não sobrava espaço para tirar uma foto. Muito antes de qualquer serviço de streaming como o Spotify, até hoje é uma recordação marcante lembrar que a primeira música que baixei num celular foi ‘Transmission’ do Joy Division. Eu provavelmente devia ter uns 11 anos e estava começando a montar o meu gosto musical. Foi algo que marcou tanto que, quando fiz 13 anos, comprei uma camiseta daquele álbum deles (sim, aquela que todo jovem alternativo usa; não me culpe, aquilo tinha valor sentimental, tá) e uso ela até hoje, mesmo toda esburacada. Com ela vêm todas as bandas que descobri desde lá, vêm todos os shows que fui, os discos que comprei e as playlists que fiz.

Claro que nem tudo o que nos marca é sempre algo belo. A música, de uma forma geral, é algo incrível por conseguir descrever toda essa gama de sentimentos que nós, humanos, sentimos, inclusive a tristeza. E vai me dizer que você nunca ouviu uma música para força? Ainda mais num momento como esse que estamos vivendo.

O mundo inteiro isolado, as pessoas trancadas dentro de suas casas e, fora delas, a morte que as ronda constantemente; grandes amores se acabaram e amizades ficaram cada vez mais vazias com toda essa distância. E no final de tudo, o que nos sobra são nossos fones de ouvido e as memórias que eles nos remetem.

No final das contas, são as canções que você deixou para mim que me fazem querer seguir em frente.

Obrigado por tudo


메타데이터
post_id
413cbdfff5f1
slug
as-canções-que-você-deixou-para-mim-413cbdfff5f1
url
https://medium.com/@verdadesemmentira/as-can%C3%A7%C3%B5es-que-voc%C3%AA-deixou-para-mim-413cbdfff5f1
canonical_url
https://medium.com/@verdadesemmentira/as-can%C3%A7%C3%B5es-que-voc%C3%AA-deixou-para-mim-413cbdfff5f1
author_url
https://medium.com/@verdadesemmentira
status
ok
fetched_at
2026-07-28 23:00:16