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Rolou o baile MET, o tema é CAMP e o que isso tem a ver?

No dia seguinte ao baile de gala do MET nossos feeds foram bombardeados com fotos de celebridades vestidas de maluquices como hambúrgueres…

Laura Stumm · 2019-05-08 00:57 · 6 claps · 3.2 min read
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Rolou o baile MET, o tema é CAMP e o que isso tem a ver?

No dia seguinte ao baile de gala do MET nossos feeds foram bombardeados com fotos de celebridades vestidas de maluquices como hambúrgueres e fadas, fazendo um grande contraste ao tema religioso do ano passado.

A festa marca o início da exposição Camp: Notes of Fashion, inspirada no ensaio *Notes on Camp*, de Susan Sontag, de 1964, que codificou em anotações a “nova cultura” e sua evolução como fenômeno estético.

Camp, em sua essência, é a estética que se opõe a seriedade. Porém, como fenômeno estético (do grego aisthésis: percepção, sensação, sensibilidade), tem como função causar impacto, e não necessariamente seguir um estilo.

“O objetivo do camp é combater o sério. O camp é brincalhão, anti-sério. Envolve uma relação nova e mais complexa com o os “sérios”. Pode-se levar a sério o frívolo e o frívolo sobre o sério.” Notes on Camp, de Susan Sontag

A palavra foi criada no início do século XX, especificando um código que ainda era muito privado e quase esotérico, usado em grande parte por homens gay da época.

“Usado principalmente por pessoas de excepcional carência de caráter” definição do Oxford English Dictionary em 1909

Ao considerar o nível de incompreensão em torno da homossexualidade naquele tempo, é fácil entender o apelo a esta estética, que era muito mais buscar uma identidade do que subvertê-la à fantasia.

A obsessão por interpretar e depravar o gênero teve claramente um efeito significativo em nossa sociedade, e o público queer tornou-se uma força poderosa diante da discriminação e da opressão. Este é o papel da estética: criar uma sensibilidade, uma maneira de ver e consumir.

Mas o termo “camp” ganha um significado ainda mais amplo quando se entende por sua terminologia. Camp é entender o mundo como um palco, onde o artifício pode superar a arte e o exagero vai além do suficiente.

“É o que é extravagante de um modo inconsistente, e não passivo. Nada pode ser camp que não parece brotar de uma sensibilidade irreprimível e descontrolada. Sem paixão, obtém-se o pseudo-camp, o que é simplesmente decorativo e seguro, ou seja, chique.” Notes on Camp, de Susan Sontag

Ironia como antítese da seriedade: este foi nosso feed de hoje.

Mas este conceito se mantém vivo através de criadores como John Galliano, que já praticava “camp” na Dior há mais de 15 anos.

Dior Couture 2004

Dior Couture 2004

Também como o novo “inquilino” desta cultura Virgil Abloh, que usa das aspas para trazer sua pitada irônica.

Off-White

Off-White

John Waters, cineasta e artista visual, também foi outro personagem importante nesta cena. Reconhecido pelo seu cinema underground dos anos sessenta. A partir de Pink Flamingos, Waters tornou-se conhecido por suas cenas bizarras e uma estética que reverbera até hoje.

Mas os ícones camp também vão da sua ascensão à decadência, quando caem no cansaço da imagem. Cher é um exemplo. Rainha camp antes mesmo da cirurgia plástica e do photoshop, que afirmava seu estilo nem que fosse com pedrinhas e miçangas.

Mas por que promover o camp hoje?

Na realidade, estamos em uma época de tanta artificialidade que Camp está por toda parte.

Quando a vulgaridade se tornou não apenas uma questão de mau gosto, mas uma estratégia que pode desde eleger um presidente como transformar a Kim em ícone, o camp vira uma ferramenta estética.

Ano passado Rei Kawakubo desfilou uma coleção inspirada no ensaio de 1964, e defendeu o exagero dizendo que não era de mau gosto: “Pelo contrário, o campo é realmente e verdadeiramente algo profundo e novo e representa um valor que precisamos”.

E de fato essa alternância estética tem muito a ver com a nossa relação irônica que vivemos entre o cômico e o sério, e o quanto, mesmo não admirando, nos identificamos. Enquanto em 2018 curtíamos os looks religiosos do MET, em 2019 damos risadas com os hilários.

Talvez esta seja a maneira de entender toda esta onda mais conservadora e extremista que estamos vivendo, como uma grande ironia.

Moschino 1991

Moschino 1991


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