Origem das Religiões — Parte II
Esta é a segunda parte de um livro sobre a história das religiões da humanidade que começa desde a origem do Homo Sapiens na África, mais…
Origem das Religiões — Parte II
Esta é a segunda parte de um livro sobre a história das religiões da humanidade que começa desde a origem do Homo Sapiens na África, mais de 300 mil anos atrás.
Um livro sobre a história que a própria história conta, com seus acontecimentos reais, na ordem dos próprios acontecimentos, de uma forma que explica nossa mentalidade atual e o que nos resta de legado nos dias de hoje.

Livro sobre a Origem das Religiões
Acesse aqui a Parte I deste livro: https://allineo.medium.com/origem-das-religi%C3%B5es-parte-i-affb2073e5f0
Ou acesse aqui os vídeos sobre esse livro: https://www.youtube.com/watch?v=CugFdQgwWpQ
PARTE I
Introdução Enheduana, a inventora da religião Grandes Dilúvios Mitos da criação Abraão, patriarca do passado Moisés, herói do passado As 12 tribos de Israel Canaã Histórica Habirus, os proto-hebreus Urusalim Dinastia Davídica Henoteísmo judaico Rei Omri Reino de Judá Origem do Judaísmo Evemerismo religioso Animismo ancestral Reis divinos Monoteísmo Dualismo demoníaco Sociologia da religião Dinastia dos Hasmoneus Dinastia Herodiana Expectativas Messiânicas Destruição do Segundo Templo Massacre de Masada
PARTE II
Os Messias Seguidores do Caminho O Pai do Cristianismo Primazia de Marcos Evangelhos Origens do Cristianismo Perseguição Martírica Monomito Antigo e Novo Testamentos Oficialização da Religião Cristã Bíblia Maomé, o Profeta Armado Cruzadas Inquisição Tráfico Negreiro Religião Guerras Religiosas Profecias Apocalípticas Era de Aquário Apoteose, o Pecado Original Misoginia Síndrome do Trauma Religioso Ocultismo Irreligiosidade Fé
Os Messias
O Mito do Messias é uma constante em várias religiões antigas e atuais.
Durante os primeiros séculos da era cristã existiam muitas religiões que possuíam seus Messias (“מָשִׁיחַ”, “Mashiach”, “o ungido” em hebraico), ou seus Cristos ( “Χριστός”, “Khristós”, “o ungido” em grego).
Mais precisamente um filho homem, gerado de forma mágica pela união entre uma mulher e um deus místico, que realiza vários milagres durante a sua vida e que é deificado como o salvador de um povo após sua morte épica.
Alguns Messias com estórias semelhantes à de Jesus de Nazaré já eram cultuados na época em que o cristianismo foi criado (cristianismo primitivo, dos séculos I a IV d.C.). Tem-se por exemplo:
— deus *Hórus do antigo Egito — deus [Mithra](https://pt.wikipedia.org/wiki/Mitra_(mitologia)), adorado pelos povos romanos, persas, hindus e judeus — deus [Krishna](https://pt.wikipedia.org/wiki/Krishna) dos hindus — conceito de Logos definido por [Filon de Alexandria](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Philo?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=sge) no século I d.C. — [Saoshyant](https://pt.wikipedia.org/wiki/Saoshyant) *do Zoroastrismo
E por aí vai.
Os mitos de *Hórus e de [Osíris](https://pt.wikipedia.org/wiki/Os%C3%ADris), por exemplo, têm vários paralelos com a estória de Jesus. Osíris era um antigo rei do Egito que foi assassinado por seu irmão [Set](https://pt.wikipedia.org/wiki/Seth_(divindade)), mas que ressuscitou e se tornou o governante do submundo. Sua esposa [Ísis](https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dsis) concebe seu filho Hórus *de forma mágica, filho esse que reencarna em cada monarca do Egito antigo (Faraó).
“Alguns contam a história de que, no princípio, deuses e heróis governaram o Egito por um pouco menos de dezoito mil anos, sendo o último dos deuses a reinar, Hórus filho de Ísis.” Biblioteca Histórica, de 60 a.C., do historiador grego Diodoro da Sicília
“Quando nós dizemos que Jesus Cristo, nosso mestre, foi produzido sem união sexual, crucificado, morto, ressuscitou, ascendeu aos Céus, nós não propomos nada de muito diferente do que vocês acreditam a respeito dos Filhos de Júpiter” Apologias, teólogo romano Justino Mártir, 155 d.C.
Estranhamente nenhum desses Messias possui até hoje qualquer artefato arqueológico que comprove sua existência real, ou o contrário disso. E também nunca foi encontrado nada deixado por escrito pessoalmente por nenhum deles. Nem sequer já foi encontrado, até o momento, qualquer manuscrito de alguém que tenha convivido com eles durante suas possíveis existências (testemunhas oculares).
Tudo o que se sabe sobre esses Messias vem de manuscritos muito posteriores a eles, escritos por alguém e por algum motivo, principalmente político.
E por isso, todas essas e outras estórias sofreram várias e várias mutações durante as dezenas de séculos em que foram replicadas, por milhares e milhares de vezes, fazendo com que elas acabassem se entrelaçando cada vez mais (paralelomania).
As escavações na região de Nazaré, e de praticamente toda a Galileia. encontram-se muito avançadas. Sabe-se que era uma região de camponeses judeus analfabetos, que falavam o aramaico localmente e que já foi invadida por diversos impérios como o egípcio, assírio, babilônico, persa, grego e por fim romano. Uma região onde não há vestígios de escrita por parte dos antigos povos que viviam ali.

Vista da atual cidade de Nazareth, em Israel, e sua localização na antiga Galiléia
O Ossuário de Tiago datado do ano I a.C. e que possui a inscrição ”Tiago, filho de José, irmão de Jesus”, foi encontrado muito recentemente em 2002 na periferia de Jerusalém, em posse de um engenheiro e colecionador israelense chamado *Oded Golan*.
Infelizmente sabe-se que esta inscrição é falsa e Oded Golan possui mais de 44 acusações de falsificação, inclusive de ossuários. Também é sabido pelos arqueólogos que esses nomes eram extremamente comuns na região, podendo existir na época por volta de uns 20 Tiagos na redondeza como filhos de José e irmão de alguém chamado Jesus.

Oded Golan e o Ossuário de Tiago
O próprio Santo Sudário, a mais famosa relíquia de Jesus, não possui absolutamente nenhuma comprovação histórica nem científica sobre sua autenticidade e é denunciado como falso desde 1389 pela própria Igreja Católica.

Tecido antigo de linho do Santo Sudário com a suposta imagem impressa de Jesus de Nazaré
Foi datado como tendo sido confeccionado por volta 1300 d.C., na Idade Média, ou seja, mais de um século depois da existência de Jesus de Nazaré.
Um experimento com um corpo em tamanho real marcando um tecido demonstrou que as marcas deixadas são completamente diferentes do Santo Sudário. As marcas no tecido ficam alongadas e distorcidas quando ele é aberto, como na figura abaixo à esquerda.
A marca do Santo Sudário, foi na verdade gerada a partir do molde de um corpo esculpido em baixo relevo, como a figura da porta abaixo à direita.

Experimento de marcação em tecido com um corpo de proporções reais
A posição dos braços do homem tapando a genitália no Santo Sudário, também não era comum nos sepultamentos antigos, é muito mais provável que seja mais uma prova do moralismo pudoroso da Igreja Católica da Idade Média.
O Santo Sudário apareceu na França medieval do século XIV, muito semelhante ao Sudário de *Edessa*, do século IV, na atual Turquia.
Encontra-se exposto na Catedral de Turim, no norte da Itália, desde 1578. Nenhuma pesquisa científica é permitida no artefato.

Do lado esquerdo, Mandílio, o Sudário de Edessa, e do lado Direito o Santo Sudário
A estória de José do Egito também tem vários paralelos com a estória de Jesus de Nazaré. José nasceu miraculosamente sem união sexual, tinha 12 irmãos, foi traído por seu irmão Judá, vendido por 20 moedas de prata, e por aí vai.
“E lembrou-se Deus de Raquel; e Deus a ouviu, e abriu a sua madre. E ela concebeu, e deu à luz um filho, e disse: Tirou-me Deus a minha vergonha. E chamou o seu nome José, dizendo: O Senhor me acrescente outro filho.” Livro do Gênesis 30:22–24
“Então Judá disse aos seus irmãos: Que proveito haverá que matemos a nosso irmão e escondamos o seu sangue? Vinde e vendamo-lo a estes ismaelitas, e não seja nossa mão sobre ele; porque ele é nosso irmão, nossa carne. E seus irmãos obedeceram. Passando, pois, os mercadores midianitas, tiraram e alçaram a José da cova, e venderam José por vinte moedas de prata, aos ismaelitas, os quais levaram José ao Egito.” Livro do Gênesis 37:28
Historicamente, existe a possibilidade de que talvez um humano chamado Jesus tenha vivido na vila rural de Nazaré, periferia israelita explorada pelo Império Romano, com uma população estimada na época por volta de uns 500 camponeses (enquanto Roma já possuía mais de um milhão de habitantes). Esse judeu teria convivido com pescadores essênios do Mar da Galileia (um lago de água doce).
Por volta dos 30 anos de idade, pode ser que Jesus tenha sido batizado pelo apocalíptico João, o Batista, que também se auto designava sendo o tão esperado Messias do povo judeu, como há séculos o Livro de Isaías já profetizava.
“E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judeia, E dizendo: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus. Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.” Evangelho de Mateus 3:1–3
“E, estando o povo em expectação, e pensando todos de João, em seus corações, se porventura seria o Cristo, (…) E aconteceu que, como todo o povo se batizava, sendo batizado também Jesus, orando ele, o céu se abriu; E o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba; e ouviu-se uma voz do céu, que dizia: Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo. E este mesmo Jesus estava como que começando os trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de José, e José de Heli,” Evangelho de Lucas 3:15,21–23
Essa estória pode ter se espalhado pela Galileia e nos próximos anos Jesus convive ali como um orador fundamentalista, pregando com os apóstolos essa chegada Dele mesmo como o Messias judeu.
“Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á.” Evangelho de Mateus 10:34–36, 39
“E tu, Cafarnaum, que foste erguida até ao céu, serás abatida até ao inferno; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje.” Evangelho de Mateus 11:23
Aos 33 anos, Jesus decide sair da Galileia rural e confrontar seu ministério com o principal centro religioso dos judeus, em Jerusalém, a capital da Judeia. Ali é rapidamente delatado para autoridades romanas e judaicas como um pobre e desconhecido insurgente (sedicioso). E então executado como de costume.
São vários relatos descritos por vários historiadores antigos, inclusive da época de Jesus e ninguém nunca relatou historicamente nenhum milagre de nenhuma pessoa chamada Jesus.
“Esse Jesus como Deus encarnado, nascido de uma virgem, que realizava milagres e que ressuscitou no terceiro dia é claramente uma invenção nada criativa do Império Romano.”
Um historiador judeu chamado *Flávio Josefo*, escreveu em 93 d.C. sobre a existência de Jesus. Esse texto foi interpolado posteriormente de acordo com os interesses cristãos, mas segue abaixo uma versão que talvez tenha sido a original escrita por Josefo sem interpolação.
“Havia neste tempo Jesus, um homem sábio. Ele fez seguidores tanto entre os judeus como entre os gentios. E quando Pôncio Pilatos, seguindo a sugestão dos principais entre nós, condenou-o à cruz, os que o amaram no princípio não o esqueceram. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, não está extinta até hoje.” Testimonium Flavianum, Flávio Josefo, 93 d.C.
A palavra Cristo vem do verbo grego “Khrio” (“χρίω”), que significa “ungir”, portanto Khristós (“Χριστός”) significa “o ungido”, ou “Mashiach” (Messias) em hebraico.
Já em latim, a palavra “Christus” não tem relação etimológica com a palavra “crux” (“cruz” em português, ou “σταυρός”, “staurós” em grego).
Esqueletos de judeus do século I d.C. indicam que a altura média entre eles era de mais ou menos 1,55 metros, e a maioria não pesava muito mais do que 50 quilos.
Usando crânios da época e softwares de modelagem 3D, cientistas forenses, liderados pelo antropólogo inglês Richard Neave, determinaram o rosto de um adulto típico da região de Jesus, e chegaram a uma aproximação confiável para o rosto de Cristo. Um jovem de pele morena e cabelos curtos parecido com o descrito na imagem abaixo à esquerda.
Compare-o com a imagem do meio, de um outro judeu da época de Jesus, e a imagem à direita, de um Jesus estereotipado de acordo com os padrões eurocêntricos da época da Renascença no século XV.
“Julgai entre vós mesmos: é decente que a mulher ore a Deus descoberta? Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido? Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu.” Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios 11:13–15

Modelagem forense de um judeu da época de Cristo comparado com seu estereótipo eurocêntrico
Os Seguidores do Caminho
Apesar de não haver qualquer evidência arqueológica para tal, a Bíblia relata que após a morte de Jesus (entre 30 d.C. e 33 d.C.), um grupo messiânico-apocalíptico de seguidores criou uma seita para a renovação do judaísmo.
Eram chamados de “Seguidores do Caminho” (“hē hodos”, ou “o Caminho” em grego), baseados nas conhecidas profecias do profeta Isaías.
“E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão.” Livro de Isaías 35:8
Estavam centrados em Jerusalém e frequentavam o Templo de Salomão. Usavam também as demais sinagogas espalhadas pela Cananeia e também cultuavam sua fé em casa (igreja doméstica).
“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” Evangelho de João 14:6
“E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns deste Caminho, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém.” Livro dos Atos dos Apóstolos 9:2
Seguiam a Lei Mosaica da Torá. Mas diferentemente dos judeus conservadores, os Seguidores do Caminho concretizam o plano messiânico, passando a acreditar fervorosamente que Jesus de Nazaré era o Messias (“Mashiach” em hebraico, ou “Khristós” em grego) e que iria retornar em breve (Parousia) para salvar os judeus de seus invasores e opressores (Apocalipse Iminente).
“E, chegando Jesus às partes de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? E eles disseram: Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas. Disse-lhes ele: E vós, quem dizeis que eu sou? “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Evangelho de Mateus 16:13–16
“Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” Livro dos Atos dos Apóstolos 2:36
Baseado nisso, os Seguidores do Caminho de Jesus, o Cristo, fundam então a “Igreja de Jerusalém” (a Igreja Primitiva).
Obedeciam 12 líderes centrais (Doze Apóstolos), incluindo o líder principal, Simão Pedro, que se diziam as testemunhas oculares da vida e da ressurreição de Jesus.
“E também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;” Evangelho de Mateus 16:18

A Última Ceia, afresco da igreja Santa Maria delle Grazie, em Milão, pintado em 1490 por Leonardo da Vinci
Com o rápido crescimento do número de seguidores, os 12 apóstolos designaram presbíteros (conselho de anciãos) e diáconos (“servos” em grego) para auxiliá-los, com 7 líderes principais (os Sete Diáconos).
Ainda segundo a Bíblia, por volta de 34 d.C. os Seguidores do Caminho já estavam sendo perseguidos pelos judeus.
Saulo de Tarso era um desses oficiais do Sinédrio judaico designado para executar dissidentes, incluindo os Seguidores do Caminho. Um desses condenados foi o diácono Estevão.
“E, expulsando-o da cidade, o apedrejavam. E as testemunhas depuseram as suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo. E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.” Livro dos Atos dos Apóstolos 7:58,59
Com a crescente perseguição, os fiéis do Caminho se dispersaram para regiões fora de Jerusalém.
“Os que tinham sido dispersos por causa da perseguição desencadeada com a morte de Estêvão chegaram até à Fenícia, Chipre e Antioquia, anunciando a mensagem apenas aos judeus. Alguns deles, todavia, cipriotas e cireneus, foram a Antioquia e começaram a falar também aos gregos, contando-lhes as boas novas a respeito do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles, e muitos creram e se converteram ao Senhor. Notícias desse fato chegaram aos ouvidos da igreja em Jerusalém, e eles enviaram Barnabé a Antioquia.” Livro dos Atos dos Apóstolos 11:19–22
Nasce então a Igreja de Antioquia (atual Turquia), uma das bases do Cristianismo Primitivo, por já ser uma grande cidade com uma grande comunidade judaica helenista fora de Jerusalém.
Igreja da Caverna de São Pedro, em Antioquia (atual Turquia)
Saulo então pede autorização às autoridade judaicas para perseguir dissidentes em outras cidades, como Damasco, por exemplo, a 220 km de Jerusalém (atual capital da Síria).
Mas na estrada para Damasco, Saulo tem uma epifania, e surpreendentemente se converte, passando a ser mais um dos seguidores de Jesus de Nazaré. Deixa então de usar seu nome judeu (Saulo) e passa então a usar seu nome romano, Paulo.
Por volta de 38 d.C., após um período de reclusão, Paulo volta a Jerusalém por um curto período de 15 dias. Lá conhece Simão Pedro e Tiago (que não era um dos Doze Apóstolos mas se autodenominava “Irmão do Senhor”).
“Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para ver a Pedro, e fiquei com ele quinze dias. E não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor. Ora, acerca do que vos escrevo, eis que diante de Deus testifico que não minto.” Epístola de Paulo aos Gálatas 1:18–20
Por volta de 41 d.C., Pedro é preso pelo rei Herodes Agripa I, mas milagrosamente um anjo o liberta da prisão. Pedro foge então de Jerusalém, provavelmente para Antioquia e depois Roma.

Moeda de Herodes Agripa I
Após a fuga de Pedro, Tiago é denominado bispo, líder da “Igreja de Jerusalém” e um judeu grego da ilha de Chipre, chamado Barnabé, é enviado como líder para Antioquia.
Por volta da 45 a.C. Paulo começa a fazer viagens missionárias, pregando a seita do Caminho fora de Jerusalém.
Por volta de 47 d.C., Paulo e Barnabé já estavam pregando juntos pelas regiões de Antioquia, Chipre e regiões da Galácia.
Em Antioquia aparece então nessa época a primeira utilização do termo “Cristão” (“Christianoi”, em grego), significando “a turma do Cristo”. Num primeiro momento esse termo era usado de forma pejorativa, mas posteriormente Paulo e os próprios apóstolos adotaram esse nome com o intuito de dar mais identidade e independência aos Seguidores do Caminho, dissociando-os do judaísmo rabínico.
“E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos.” Livro dos Atos dos Apóstolos 11:26
Porém, os fiéis conservadores de Antioquia estavam questionando a conversão cristã sem a necessidade da prévia conversão judaica. Paulo e Barnabé viajam então para Jerusalém para reunir os demais apóstolos.
Em um evento chamado de Concílio de Jerusalém (em 49 d.C.), liderado por Pedro, Tiago e Paulo, foi determinado que os gentios (os não-judeus) podiam ser convertidos rapidamente para a nova seita, através de um simples ritual de batismo, sem necessidade de circuncisão ou outra burocracia da Lei Judaica (613 *mitzvot, os mandamentos da Torah*).
“Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns outros dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão. Alguns, porém, da seita dos fariseus, que tinham crido, se levantaram, dizendo que era mister circuncidá-los e mandar-lhes que guardassem a lei de Moisés. Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto. E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: (,,,) E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé.” Livro dos Atos dos Apóstolos 15:1–9
Baseavam-se nas antigas profecias do Antigo Testamento para tomar suas decisões:
“Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi, repararei as suas brechas; e, levantando-o das suas ruínas, restaurá-lo-ei como fora nos dias da antiguidade; para que possuam o restante de Edom [gentios] e todas as nações que são chamadas pelo meu nome, diz o Senhor, que faz estas coisas.” Livro de Amós 9:11,12
Essa aceitação em massa de gentios, rapidamente criou conflito com os judeus semitistas. Para agradar aos judeus, os primeiros cristãos também exigiam dos fiéis a abstinência de comida sacrificada, ídolos e imoralidade sexual.
O plano messiânico dos cristãos estava agora fortalecido para se espalhar ferozmente por todo o Império Romano.
E Paulo assim o fez, viajando e escrevendo epístolas por todo o Império.
Por volta de 57 d.C., consegue fazer a Igreja de Jerusalém chegar até o centro de tudo, em Roma, e lá se fixar.
Pedro chegaria em Roma logo depois, por volta de 60 d.C..
“A todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados santos: Graça a vós e paz de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. (…) Eis que tu que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós [cristãos judeus vs. cristãos gentios].” Epístola de Paulo aos Romanos 1:7, 2:17–24
“Mas como seria muito longo enumerar as sucessões de todas as igrejas neste volume, indicaremos sobretudo a tradição daquela Igreja grandíssima, antiga e a todos conhecista, fundada e constituída em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo; a tradição que ela recebeu dos apóstolos e a fé que anunciou aos homens, a qual nos chegou através das sucessões dos bispos.” Contra as Heresias 3.1.1, Padre da Igreja Irineu de Lyon, 180 d.C.
A perseguição aos cristãos agora muda de foco. Deixa de ser uma perseguição judaica estritamente religiosa, e passa a ser uma perseguição política vinda do Império Romano.
Os judeus eram lícitos (*religio licita), tinham permissão do Império Romano de cultuar sua fé. Mas os romanos perceberam que os cristãos eram diferentes dos judeus e os consideraram supersticiosos e perigosos politicamente. Uma ameaça a [pax deorum](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pax_deorum)* (a paz com os deuses).
Usavam o cristianismo como bode expiatório e válvula de escape das próprias crises, confundindo-os como canibais (por “comer o corpo e beber o sangue” de Cristo) e incestuosos (por se autodeclararem “irmãos e irmãs”).
Criminalizaram a seita cristã, simplesmente por se declararem cristãos Nomen christianum (Cristão Nominal).
Em resposta, os cristão passaram a demonizar Roma, apelidando-a de “Babilônia” e seus imperadores de “besta”.
Bispos posteriores da já fundada Igreja Católica, descrevem que os apóstolos Pedro e Paulo morreram em Roma de forma martírica executados pelo Império Romano por volta do ano 67 d.C..
“Tendo vindo ambos à nossa Corinto, os dois plantaram-nos a nós. Do mesmo modo, tendo ensinado juntos na Itália, sofreram o martírio ao mesmo tempo.” Carta aos Romanos, Bispo Dionísio de Corinto, 170 d.C.

Cronologia da saga dos Seguidores do Caminho
O Pai do Cristianismo
Por volta do ano 5 d.C., uns nove anos após o provável ano de nascimento de Jesus em Nazaré (4 a.C.), nasce na cidade de Tarso, na atual Turquia, um judeu romano chamado Saulo (Saulo de Tarso).
Aos 28 anos, Saulo era um oficial romano (do clã dos fariseus) que perseguia seguidores da nova e crescente seita da época, os Seguidores do Caminho, seita essa que já desafiava o *Sinédrio *(tribunal judaico) e a Lei de Moisés.
Saulo nunca conviveu nem viu Jesus pessoalmente. Mas em certo momento de sua vida, alega que teve uma revelação divina (Discurso de Fé) e se converteu a Jesus, o Cristo. Passa então a se chamar Paulo. (Conversão de Paulo).
O próprio Paulo é quem descreve esse episódio em sua primeira carta dogmática. Uma epístola endereçada às igrejas da *Galácia, na atual Turquia, escritas em grego [koiné](https://pt.wikipedia.org/wiki/Koin%C3%A9) *da época, por volta do ano 48 d.C. (Epístola de Paulo aos Gálatas).
“Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo. Porque já ouvistes qual foi antigamente a minha conduta no judaísmo, como sobremaneira perseguia a igreja de Deus e a assolava.” (…) “Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, imediatamente, não consultei a carne nem o sangue, Nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.” Epístola de Paulo aos Gálatas 1:11–13, 16–17
Nessa mesma carta, Paulo também se auto denomina como um apóstolo de Jesus (em grego “ἀπόστολος”, ou “enviado”).
“Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem por homem algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos)” Epístola de Paulo aos Gálatas 1:1
Paulo permaneceu como judeu, mas criou sua própria vertente dos ensinamentos de Jesus, chamada de Paulinismo.
Uma vertente paralela aos posteriores Evangelhos canônicos, e mais direcionada aos gentios (cristãos não-judeus) e aos próprios romanos, levando a nova doutrina para a Grécia e para Roma, muito além da Palestina.

Mosaico do apóstolo Paulo da Mesquita Kariye em Istambul, na Turquia
Nos primeiros 40 anos após o episódio da morte de Jesus somente Paulo teria escrito algo sobre o Messias de Nazaré (7 epístolas paulinas), entre 40 d.C. e 70 d.C..

Epístolas de Paulo, únicos manuscritos deixados nos primeiros 40 anos após a morte de Jesus
As cartas escritas por Paulo, para ensinar seus seguidores sobre como agir, nunca foram encontradas como manuscritos originais. Somente réplicas reescritas centenas de anos depois.
Inclusive, das 13 cartas de Paulo oficializadas pelo Novo Testamento, já se sabe que muitas (umas 6) foram escritas na verdade por um autor anônimo, e não por Paulo.
E também a Primeira e a Segunda Epístolas de Paulo aos Coríntios, sabe-se que não foram só duas, mas sim um compilado de várias cartas escritas em diferentes momentos do autor.
Paulo sabia pouquíssimo sobre o nascimento e a vida de Jesus. Escreveu mais sobre sua morte e ressurreição, mas de uma maneira bem diferente dos evangelistas, que eram muito posteriores. Para Paulo, por exemplo, Jesus era um Deus místico que nunca foi um ser humano nem nunca esteve na Terra.
“Ora, se ele estivesse na terra, nem tampouco sacerdote seria, havendo ainda sacerdotes que oferecem dons segundo a lei” Epístola de Paulo aos Hebreus 8:4
A grande verdade é que Paulo foi quem criou e disseminou o cristianismo por conta própria (Pai do Cristianismo), levando sua pregação para fora de Jerusalém e moldando o alicerce, a mensagem e a doutrina cristã (Igreja primitiva).
Criou inclusive o seu caráter universal (universalismo cristão), onde todas as almas do mundo devem se reconciliar única e exclusivamente com o Deus cristão.
“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens.” Epístola de Paulo a Tito 2:11
“Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, Que quer que todos os homens sejam salvos, e venham ao conhecimento da verdade.” Primeira Epístola de Paulo a Timóteo 2:3–4
Todos os evangelistas posteriores se basearam em Paulo de alguma forma, direta ou indiretamente.
“O Cristianismo simplesmente não é baseado em verdades. Consideramos que foi nada mais que uma estória romana desenvolvida politicamente. (…) O Cristianismo, bem como todas as crenças teístas, são a fraude desta Era.” Zeitgeist (“espírito do tempo”), filme estadunidense, 2007

Viagens bíblicas realizadas por Paulo para promover sua doutrinação

Cronologia bíblica dos acontecimentos que marcaram a vida de Paulo
Talvez a mais importante mensagem do apóstolo Paulo, que é também o lema principal do cristianismo, é a sua “Ode ao Amor” (“αγαπην”, “*Ágape*”, ou amor em grego), mais precisamente o capítulo 13 da sua primeira carta aos Coríntios:
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e todo o conhecimento, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo conhecimento, desaparecerá; Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor. Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios 13
Assim como o que o Evangelho de João relata sobre Jesus durante a Última Ceia:
“Ora, antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim. Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus e ia para Deus, Levantou-se da ceia, tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Filhinhos, ainda por um pouco estou convosco. Vós me buscareis, mas, como tenho dito aos judeus: Para onde eu vou não podeis vós ir; eu vo-lo digo também agora. Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.” Evangelho de João 13:1,3,4,33,34
Primazia de Marcos
O apóstolo Paulo não escreveu necessariamente sobre a estória e a vida de Jesus de Nazaré, até porque não o conheceu. O que ele sabia veio de brevíssimas convivências com o apóstolo Pedro e com Tiago, o irmão de Jesus.
A estória que conhecemos hoje sobre a vida de Jesus foi contada posteriormente pelos Evangelhos (do grego “εὐαγγέλιον”, que significa “boa nova”). Um gênero literário religioso cujo conteúdo tem a intenção de doutrinar pessoas, sem necessariamente nenhum apego à realidade.
O jovem judeu João Marcos (o Evangelista) não era um dos 12 apóstolos originais e não conheceu nem conviveu diretamente com Jesus de Nazaré, mas segundo a Bíblia, era na casa de sua mãe Maria que os apóstolos se reuniam após a morte do Messias.
Era de família culta e abastada, viajou com Barnabé e Paulo em suas primeiras viagens e também foi colaborador nas epístolas paulinas.
Marcos foi o primeiro a escrever sobre a vida e a morte do Cristo de forma mais biográfica (Primazia de Marcos).
Ele escreveu seu evangelho a partir das palavras de Paulo e dos sermões do apóstolo Simão Pedro (a fonte mais primária), com quem conviveu de forma extensa, acompanhando-os diretamente em suas viagens e pregações desde a década de 40 d.C.. Compilou também histórias e ensinamentos que circulavam oralmente entre os primeiros grupos de cristãos.
“O presbítero também dizia o seguinte: ‘Marcos, intérprete de Pedro, fielmente escreveu — embora de forma desordenada — tudo o que recordava sobre as palavras e atos do Senhor. De fato, ele não tinha escutado o Senhor, nem o seguido. Mas, como já dissemos, mais tarde seguiu a Pedro, que o instruía conforme o necessário, mas não compondo um relato ordenado das sentenças do Senhor.” Papias de Hierápolis, em “Exposição dos Oráculos do Senhor”, 130 d.C.
O apóstolo Pedro era um pescador iletrado da Galileia, enquanto Marcos era um jovem que pertencia a uma família abastada e culta de Jerusalém, falava grego e sabia escrever. Por isso Marcos acompanhava Pedro como seu intérprete e assistente, e inclusive viajou com Pedro para Roma (ou “Babilônia”, apelido pejorativo dado pelos cristãos).
“A vossa coeleita em Babilônia vos saúda, e meu filho Marcos.” Primeira Epístola de Pedro 5:13
O escriba Marcos foi documentar seu evangelho somente após a morte de Pedro e Paulo, ou seja, mais de 40 anos após o episódio da morte de Jesus e mais de 30 anos após o início de sua convivência com Pedro e Paulo.
Marcos também não escreveu nada em aramaico nem em hebraico, mas já em grego. E não escreveu nada em Jerusalém ou na Galileia, mas sim, convenientemente na cidade de Roma, capital do Império Romano.
Historicamente, os artefatos mais antigos e ”originais” que se tem hoje sobre os evangelhos da Bíblia são: os papiros de *Oxirrinco, os [papiros de Chester Beatty](https://pt.wikipedia.org/wiki/Papiro_Chester_Beatty), a [fonte Q](https://pt.wikipedia.org/wiki/Fonte_Q) (ou Evangelho Q) e o [Codex Sinaiticus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Codex_Sinaiticus).*
O mais antigo manuscrito do Evangelho de Marcos é o papiro *P137 ([P.Oxy. LXXXIII 5345](https://www.ees.ac.uk/resource/p-oxy-lxxxiii-5345.html)), reproduzido em grego por algum escriba da época, datado do final do século II d.C. e descoberto na cidade de [Oxirrinco](https://pt.wikipedia.org/wiki/Papiros_de_Oxirrinco) no Egito, em 1903. Este papiro encontra-se hoje na [Biblioteca Sackler](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Bodleian_Art,_Archaeology_and_Ancient_World_Library?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc&_x_tr_hist=true), da Universidade de Oxford (Inglaterra), em posse da britânica [Egypt Exploration Society (EES)](https://www.ees.ac.uk/resource/p-oxy-lxxxiii-5345.html).*
Contém pequenos fragmentos do capítulo 1 do Evangelho de Marcos, em sua frente e verso:
“E aconteceu naqueles dias que Jesus, tendo ido de Nazaré da Galileia, foi batizado por João, no Jordão.” Evangelho de Marcos 1:9

P137, um dos mais antigos pergaminhos do Novo Testamento (II d.C.), com fragmentos do Evangelho de Marcos
O *Codex Sinaiticus*, pergaminho do século IV d.C., seria o primeiro artefato encontrado que contém o Evangelho de Marcos integral e em grego, o primeiro evangelho a ser escrito.
Abaixo o capitulo 1 do Evangelho de Marcos de forma integral, descrito no *Codex Sinaiticus*, já em grego no início do século IV d.C., ou seja, mais de trezentos anos após a vida e morte de Jesus.

Codex Sinaiticus do século IV d.C.
Esse manuscrito foi encontrado no século XIX no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai (Egito). A maior parte deste codex encontra-se hoje na Biblioteca Britânica em Londres.

Codex Sinaiticus contendo o Evangelho de Marcos, datado do século IV d.C.
Como todo texto religioso, sofreu várias e várias alterações com os séculos. Este e outros *codex unciais, como o [Codex Vaticanus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Codex_Vaticanus)* por exemplo, foram produzidos pelos mesmos escribas copistas da época, provavelmente em Roma ou em Alexandria, na primeira metade do século IV d.C., e ambos foram réplicas de fontes semelhantes.
Evangelhos
Os Evangelhos sinópticos (de Marcos, Mateus e Lucas) são dependentes entre si e baseados principalmente no Evangelho de Marcos (mais de 90%). Sendo Mateus e Lucas escritos vários anos após Marcos, por volta de 80 d.C. a 95 d.C..
Na verdade, os evangelhos da Bíblia foram criados por vários escribas anônimos diferentes e nenhum era realmente um apóstolo que conheceu e conviveu com Jesus. São textos propositadamente pseudoepigrafados no século II d.C., ou seja, seus autores foram designados de forma falsa para adicionar alguma credibilidade a seu conteúdo.
Além dos Evangelhos sinópticos, existem relatos sobre um possível Evangelho dos Hebreus, que teria sido escrito em hebraico em Jerusalém (também por volta de 70 d.C.), mas nunca foi encontrado como um artefato original.
Teoricamente escrito pelo apóstolo Mateus, um judeu coletor de impostos para o Império Romano, letrado em aramaico, que conviveu diretamente com Jesus e presenciou pessoalmente a sua ressurreição. Porém a real existência e autoria desse evangelho nunca foram confirmadas.
O que se tem são somente citações, já no século II d.C., de textos posteriores, dos chamados Padres da Igreja (ainda no cristianismo primitivo, posterior aos Evangelhos sinópticos).
Já o Evangelho de Mateus, que se encontra na Bíblia, não é o mesmo que o Evangelho dos Hebreus. Sabe-se que este evangelho sinóptico teria sido escrito quase 100 anos após a vida de Jesus, por vários escribas diferentes e não pelo próprio apóstolo Mateus.
Os evangelhos considerados “legítimos” pela Igreja Católica são os Evangelhos Canônicos, que são os 3 sinópticos mais o Evangelho de João, o último dos quatro. Foi escrito no final do primeiro século (por volta de 90 d.C.), junto com as 3 cartas de João (epístolas joaninas).
Mas desde o século III d.C., já se sabe que todos esses documentos também são pseudoepigráficos, ou seja, não foram de autoria do apóstolo João (aquele que teoricamente estava na Santa Ceia, presenciou a crucificação de Cristo e o viu ressuscitado). E também sabe-se que a historicidade desse evangelho é menos de 10%.
Outro possível evangelho seria o do próprio apóstolo Pedro (Simão). Porém, seu conteúdo é considerado apócrifo, não oficializado pela Igreja Católica e também pseudoepigráfico.
Fragmentos de uma réplica do Evangelho de Pedro foram encontrados em *Akhmim no Egito, em 1886 (nos [Manuscritos de Akhmim](https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3dice_Gn%C3%B3stico_de_Berlim)*).
O texto original é datado como do final do século II d.C., mais de um século após a existência de Pedro, possui estilos literários variados e contém várias divergências com relação aos Evangelhos Canônicos escritos anteriormente. Mais uma obra escrita por autores desconhecidos.
O apóstolo Simão Pedro e o apóstolo João falavam aramaico e ambos eram iletrados pescadores do mar da Galileia. Não é factível que tenham escrito prolixos pergaminhos religiosos, nem em hebraico, nem em grego.
Segundo o Evangelho de Pedro, apócrifo, quem julgou a crucificação de Jesus foi o judeu ***Herodes Antipas (filho de[ Herodes*, o Grande](https://pt.wikipedia.org/wiki/Herodes)) governador da Galileia, e não o romano ***Pôncio Pilatos*, governador da Judeia, como é descrito no Evangelho de Lucas (canônico oficial da Bíblia).
Observe a contradição nos versículos abaixo:
“Mas nenhum dos judeus lavou as mãos, nem Herodes, nem qualquer de seus juízes. Como não quisessem eles lavar-se, Pilatos se levantou. Mandou, então o rei Herodes que levassem o Senhor para fora, dizendo-lhes: “Fazei tudo o que vos ordenei que fizésseis”.” Evangelho de Pedro 1:1,2
“Então ele, pela terceira vez, lhes disse: Mas que mal fez este? Não acho nele culpa alguma de morte. Castigá-lo-ei pois, e soltá-lo-ei. Mas eles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos, e os dos principais sacerdotes, prevaleciam. Então Pilatos julgou que devia fazer o que eles pediam.” Evangelho de Lucas 23:21–24
Existe essa tendência da Igreja, de privilegiar narrativas que culpabilizam romanos por perseguição aos cristãos e isentam os judeus do mesmo.
Outra grande divergência é que o Evangelho de Pedro é docetista, ou seja, para ele o Cristo divino (o Logos encarnado) é uma entidade separada do Jesus humano, um judeu palestino (Teoria do Mito de Jesus).
Muitos textos antigos, incluindo evangelhos e epístolas, na verdade foram descartados pela Igreja Católica e considerados apócrifos (não oficiais), alegando-se diversos motivos como por exemplo, autoria duvidosa, conteúdo folclórico, anacronismos, heresia, etc..
Porém muitos textos, mesmo sabendo-se desses e de outros problemas, foram mantidos como canônicos (ou “autênticos”) de acordo com os interesses do cristianismo da época.
“Um evangelho é um texto religioso, cujo autor que o escreveu não foi Deus. Seu autor tem os pés fincados na Terra, com o tempo e o espaço fixados.” Historiador Dr. André Leonardo Chevitaresse, professor da UFRJ
Um texto apócrifo bastante controverso, mas muito importante para o cristianismo e para a história, são os Livros de Enoque. Na verdade somente a Igreja Ortodoxa da Etiópia considera estes livros canônicos e os inclui na Bíblia pregada em sua Igreja.
Os livros do patriarca bíblico Enoque, mitologicamente o pai de Matusalém e o avô de Noé, são apócrifos e pseudoepígrafos, escritos em aramaico entre III a.C. e I d.C.. São textos apocalípticos que anteciparam e inspiraram vários dogmas do que seria o futuro da religião cristã.
“O tamanho da coleção de textos do livro de Enoque, a diversidade de seu conteúdo e suas muitas implicações para o estudo do Judaísmo antigo e das origens do Cristianismo, fazem dele possivelmente o mais importante texto judaico sobrevivente do período greco-romano” 1 Enoch: The Hermania Translation, Nickelsburg e VanderKam, 2012
Era um livro conhecido pelos evangelistas e inclusive muito citado no Novo Testamento.
“E destes profetizou também Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; Para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.” Evangelho de Judas 1:14,15
“Eis que ele vem com dezenas de milhares de seus santos para julgar a todos, para aniquilar todos os ímpios, para convencer cada alma de todas as ações ímpias que cometeram e de todas as palavras duras que pecadores ímpios disseram contra ele.” Primeiro Livro de Enoque 1:9
Enoque, teoricamente o bisavô de Noé, já falava sobre a vinda de um Messias que seria filho do Deus judáico, falava de anjos caídos, pecado original, juízo final, e por aí vai.
“E o Senhor dos Espíritos sentou o Filho do Homem no trono da sua glória, e o reino foi todo dele.” Primeiro Livro de Enoque 1:9
“Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu.” Evangelho de Mateus 26:64
Foto abaixo do pergaminho do Livro de Enoque encontrado nos Manuscritos do Mar Morto, e ao lado, uma versão antiga da Bíblia Etíope, que contém o Livro de Enoque.

Livro de Enoque nos pergaminhos do Mar Morto e uma versão antiga da Bíblia Etíope
Origens do Cristianismo
Os fariseus (os “separados” em hebraico) eram uma das principais facções judaicas que coexistiam na Judeia no primeiro século da Era Comum (1 d.C.). Se consideravam a elite, segregados dos demais judeus e gentios por serem mais restritos. Eles já acreditavam na ressurreição dos mortos, em demônios e em juízo final. Também não dependiam do Templo de Jerusalém para pregar, fundavam as próprias sinagogas (que deram origem ao Judaísmo Rabínico de hoje).
Já os essênios (os “piedosos” em hebraico), outra facção judaica da época, eram um grupo mais asceta (mais radical), extremamente apocalíptico e messiânico, que pregava veementemente a vinda iminente de um Messias para restaurar a ordem e trazer a salvação mundial. Consideravam o culto no Templo de Jerusalém impuro e corrupto, e eram perseguidos pelos demais judeus justamente pela pregação da vinda desse Messias.
Os essênios tiveram que se isolar em assentamentos fora das cidades, por isso se concentravam fisicamente mais perto das margens à esquerda do Mar Morto.

Mapa da região da Palestina e de Israel no primeiro século da Era Comum
O Pergaminho de Isaías (*1QIsa a), escrito em hebraico e datado por volta do século II a.C., era um dos artefatos dos manuscritos do Mar Morto que foi encontrado na caverna 1 de [Qumran](https://pt.wikipedia.org/wiki/Qumran) (região ocupada naquela época por judeus essênios, veja mapa acima). O 1QIsa *continha fragmentos do Livro de Isaías com suas profecias.
“Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros, e o seu nome é Pele-Joez-el-Gibbor-Abi-ad-sar-shalom” Livro de Isaías 9:5–6
O significado de *Pele-joez-el-gibbor-abi-ad-sar-shalom* às vezes é interpretado como “Maravilhoso em conselho é Deus, o Poderoso, o Pai Eterno, o Governante da Paz”.

Grande Rolo de Isaías, um dos manuscritos do Mar Morto, contendo profecias messiânicas
Na verdade uma boa parte das estórias escritas nos Evangelhos sobre o nascimento e a vida do Jesus de Nazaré, já estava contida de alguma maneira nas tão conhecidas e esperadas profecias messiânicas da Bíblia Hebraica (no Antigo Testamento).
O Livro de Miqueias (também contido nos Manuscritos do Mar Morto, 1QpMic), por exemplo, descreve que o Messias nascerá em *Efrata *(atual Belém), pequena vila localizada ao lado de Jerusalém, na antiga região palestina de Judá.
“Mas tu, Belém-Efrata, embora sejas pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para mim aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante, em tempos antigos.” Livro de Miqueias 5:2
Essas profecias do Livro de Isaías (escritas provavelmente por três pessoas diferentes), na verdade nunca foram descritas para salvar o povo da Judeia da ocupação do Império Romano no século 1 a.C..
Elas foram endereçadas diretamente para o rei *Achaz *de Judá (ao sul de Israel), o qual Isaías era um conselheiro no século 8 a.C.. O objetivo era tentar acalmar pessoalmente o rei a respeito de um iminente ataque a seu reino pela Assíria. Na antiguidade as profecias eram altamente relacionadas à política (Profetismo).
“Então disse o Senhor a Isaías: Agora, tu e teu filho Sear-Jasube, saí ao encontro de Acaz, ao fim do canal do tanque superior, no caminho do campo do lavandeiro. Assim diz o Senhor Deus: Isto não subsistirá, nem tampouco acontecerá. Porém a cabeça da Síria será Damasco, e a cabeça de Damasco Rezim; e dentro de sessenta e cinco anos Efraim será quebrantado, e deixará de ser povo.” Livro de Isaías 7:3,7,8
O autor do Evangelho de Mateus decide replicar essas mesmas profecias da Torá como o nascimento de Jesus de Nazaré do Novo Testamento, inclusive adicionando um episódio intitulado como o Massacre dos Inocentes, onde o rei da Judeia, Herodes, o Grande, teria ordenado um infanticídio na vila de Belém ao ser avisado sobre o nascimento de um Messias.
“Então Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos.” Evangelho de Mateus 2:16
Esse massacre, no entanto, não é uma verdade histórica, mas sim um mito bíblico, nunca aconteceu na realidade. Até porque Herodes, o Grande, morreu no ano 4 a.C.. O imperador romano que governava durante o nascimento de Jesus era *Octavianus Augustus* e seu governo foi extremamente bem documentado pela história.
E inclusive é mais provável historicamente que Jesus tenha nascido em Nazaré mesmo, e não em Belém, como dizem os evangelhos. É mais uma tentativa da Bíblia de forçar uma herança davídica para o Messias, já que o Rei Davi era um efrateu (Dinastia de Davi).
A própria estória dos “Três Reis Magos” foi distorcida com os séculos. O Evangelho de Mateus descreveu essa estória utilizando o termo “uns magos que vieram do Oriente”, que na linguagem persa da época não significava reis, mas provavelmente astrólogos zoroastristas.
Também nunca foram três o número de magos descrito pelo Livro de Mateus, essa quantidade corresponde originalmente aos presentes oferecidos à criança (ouro, incenso e mirra), e não aos magos.
“E, tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, e perguntaram: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos a adorá-lo.” Evangelho de Mateus 2:2

Pinturas sobre os Magos do Oriente da Bíblia
Já a crucificação de Jesus, era um tipo de condenação que em geral acontecia no Império Romano voltada mais especificamente para criminosos de alta periculosidade, como escravos rebelados, estrangeiros e, em raros casos, cidadãos romanos que cometiam crimes graves como estupro ou traição contra o império (*perduellio)*.
“Jesus era um judeu típico da época dele, tudo que tem nos textos sobre Jesus era o que já se falava na Judeia.”
Existia pena de morte no judaísmo (prevista na *Tanakh) e muito mais ainda no Império Romano (“[ius gladii](https://pt.wikipedia.org/wiki/Alta,_m%C3%A9dia_e_baixa_justi%C3%A7a)”*). A execução por crucificação especificamente era considerada uma morte cruel, degradante e vexaminosa.
“O que sacrificar aos deuses, e não só ao Senhor, será morto.” Livro do Êxodo 22:20
“Aquele que blasfemar o nome do Senhor certamente morrerá; toda a congregação certamente o apedrejará.” Livro do Levítico 24:16
“Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, O seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o Senhor teu Deus te dá em herança.” Livro do Deuteronômio 21:22,23
Fotos abaixo da Igreja do Santo Sepulcro na Cidade Velha de Jerusalém, onde supostamente seria o local exato em que Jesus foi crucificado e sepultado.

Fotos da atual Igreja do Santo Sepulcro na Cidade Velha de Jerusalém
É importante ressaltar que mesmo depois dos Evangelhos do Novo Testamento se apropriarem fielmente de tantas profecias do *Tanakh*, ainda assim os judeus não reconhecem Jesus de Nazaré como o Messias, aquele que viria restabelecer a dinastia davídica após tantos exílios estrangeiros.
Jesus na verdade não cumpriu a mais importante das profecias messiânicas da Bíblia Hebraica, que era libertar o povo judeu e trazer a paz para o mundo, por isso os judeus não o consideram como o Messias de Israel.

Judeus orando no Muro das Lamentações em Jerusalém
A literalidade é crucial ao cristianismo. Para os cristãos é essencial que a crucificação e a ressurreição de Jesus seja literal, para justificar a existência da própria religião em si, à parte do judaísmo.
Uma nova ideologia precisava ser criada no final do século 1 da Era Comum. O judaísmo corrente estava absurdamente empobrecido e altamente restrito a um Templo e a um número relativamente pequeno de indivíduos.
Tinham a mentalidade tribal, com um longo e complexo processo de conversão (613 mandamentos, “mitzvah” em hebraico) que passava por um rigoroso tribunal rabínico (*Bet Din*), que existe até hoje. Elitistas, os judeus não faziam questão de novos fiéis, e não pretendiam mudar isso (semitismo).
E ainda por cima os judeus sofriam muitas perseguições, tanto externas quanto dentro das próprias facções judaicas. Ser judeu se tornava cada vez mais perigoso no mundo romano (origens do Antissemitismo moderno).
O apóstolo Paulo preenchia propositadamente essas lacunas do judaísmo em suas cartas, por isso sua seita (Paulinismo) foi a escolhida dentre tantas opções disponíveis.
“Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. (…) E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.” Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios 15:1–6,14
Os próprios judeus se segregavam e tinham preconceito contra os demais judeus não diretamente descendentes e não estritamente convertidos. Se consideravam os únicos fiéis “puros” e chamavam os gentios simpatizantes do judaísmo (os “tementes a Deus” não convertidos oficialmente) de “impuros” (origens do Sionismo moderno).
Paulo abria o judaísmo para todos, não só para a elite descendente ou para os estritamente convertidos.
“Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.” Epístola de Paulo aos Gálatas 3:26–29
A circuncisão (*Brit Milá*), a remoção cirúrgica da pele que cobre a glande do pênis, era uma restrição repudiada pelos não judeus.
Os gentios queriam adotar as práticas judaicas, como observar o sábado, evitar a carne de porco, frequentar sinagogas, etc., mas não era fácil para os homens aceitar essa mutilação como condição para se converter ao judaísmo.
Fotos abaixo de um quadro medieval sobre a circuncisão de *Isaac*. Ao meio os materiais antigos usados para circuncisão, e à direita uma cirurgia judaica de circuncisão na atualidade.

Rituais de circuncisão antigos e atuais
Para a mulher, a misoginia sempre presente nas religiões abraâmicas prevalece. A biologia natural feminina é repudiada até nos rituais de conversão.
Durante o período menstrual e por sete dias subsequentes, a mulher é considerada completamente “impura” (*niddah) para o banho purificador na [mikvá](https://pt.wikipedia.org/wiki/Mikv%C3%A1), parte imprescindível do ritual de conversão judaico ([Tevilah](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ablu%C3%A7%C3%B5es_no_Juda%C3%ADsmo)*).
“Mas a mulher, quando tiver fluxo, e o seu fluxo de sangue estiver na sua carne, estará sete dias na sua separação, e qualquer que a tocar, será imundo até à tarde. E tudo aquilo sobre o que ela se deitar durante a sua separação, será imundo; e tudo sobre o que se assentar, será imundo.” Livro do Levítico 15:19,20
Paulo resolve esses problemas de conversão, trocando o complexo e repudiante ritual de circuncisão, e o misógino ritual do banho judaico (*Tevilah)*, por um simples e rápido ritual de batismo.
“E assim cada um ande como Deus lhe repartiu, cada um como o Senhor o chamou. É o que ordeno em todas as igrejas. É alguém chamado, estando circuncidado? Não se faça incircunciso. É alguém chamado estando na incircuncisão? Não se circuncide. A circuncisão é nada e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus. Cada um fique na vocação em que foi chamado. Foste chamado sendo servo? Não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião.” Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios 7:17–21
O batismo já era comum entre os judeus apocalípticos, para purificação dos pecados e preparação para a iminente chegada do Messias. Mas não substituía o *Tevilah, *para se ter acesso ao Templo de Jerusalém.
Paulo também já descartava o Templo de Jerusalém como obrigatório para exercer o judaísmo. Pregava que o corpo do fiel deve ser seu próprio templo, sem nenhuma necessidade de um edifício físico para adorar a Deus.
“Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo. Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.” Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios 3:9–12, 15–17
Os judeus, incluindo Paulo, já sabiam dos problemas causados com pela antiga tomada de Jerusalém pelos Babilônios, mas após a derrubada do Segundo Templo, passa a ser imprescindível mudar a ideologia e não precisar mais de um templo para praticar a religião.
As novas seitas judaicas começavam inclusive a repudiar a própria capital dos judeus.
“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vos é deixada deserta; Porque eu vos digo que desde agora me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor.” Evangelho de Mateus 23:37-39
Após a queda do Segundo Templo, o imperador *Vespasiano institui um imposto chamado [Fiscus Judaicus](https://en.wikipedia.org/wiki/Fiscus_Judaicus) (“FISCI IUDAICI”), *que tenta identificar claramente quem é um indivíduo judeu e o obriga a pagar um tributo de guerra por ter causado um grande prejuízo à Roma com a Revolta Judaica, incluindo homens, mulheres, crianças e idosos.
Muitos judeus tentam esconder sua religião para não pagar esse imposto e por isso começa uma “caçada” para identificação desses sonegadores (judeus ocultos). Começaram a investigar qualquer pessoa que não cultuasse os deuses romanos (“superstitio”, os superticiosos) e que vivesse como um judeu (“vivere velut Iudaei”).
"Entre outros, o imposto dos judeus foi cobrado com o máximo rigor; foram delatados à sua repartição os que, sem professarem a religião judaica, viviam como judeus, ou os que, dissimulando a sua origem, não pagavam os tributos impostos àquela nação. Lembro-me de ter estado presente, quando ainda era muito jovem, a uma sessão presidida por um procurador, assistido por um conselho muito numeroso, na qual se examinou um nonagenário para ver se era circuncidado." De Vita Caesarum, historiador romano Suetônio, 121 d.C.
Muitas seitas judaicas ditas “impuras” tentavam se livrar desse imposto, causando mais segregação entre os próprios judeus da época.
Da mesma forma que os novos discípulos das seitas dissidentes do judaísmo repudiavam os conservadores judeus, o contrário também acontecia. Os judeus elitistas também repudiavam essas seitas messiânicas sendo criadas a todo momento pela Judeia.
Os apóstolos dessa nova seita chamada cristã (“apostatae”, “apóstatas” em latim) se tornavam, cada vez mais, os maiores opositores do judaísmo na Judeia. Os judeus os acusavam de apostasia por terem renunciado à fé judaica.
Segundo os evangelhos, Jesus se declarava como sendo o próprio deus Javé (Yaweh), e isso era uma grande blasfêmia para os judeus. E Jesus também não se considerava mais um judeu, se diferenciava entre “nós” e “eles”.
“Falando novamente ao povo, Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida”. Os fariseus lhe disseram: “Você está testemunhando a respeito de si próprio. O seu testemunho não é válido! (…) Protestaram eles: “Nós não somos filhos ilegítimos. O único Pai que temos é Deus”. Disse-lhes Jesus: “Se Deus fosse o Pai de vocês, vocês me amariam, pois eu vim de Deus e agora estou aqui. Eu não vim por mim mesmo, mas ele me enviou. Vocês pertencem ao pai de vocês, o diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.” Disseram-lhe os judeus: “Você ainda não tem cinqüenta anos, e viu Abraão? “ Respondeu Jesus: “Eu lhes afirmo que antes de Abraão nascer, Eu Sou! “ Então eles apanharam pedras para apedrejá-lo, mas Jesus escondeu-se e saiu do templo.” Evangelho de João 8:12–13, 41–44, 57–59
“Eu e o Pai somos um. Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar. Respondeu-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas procedentes de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia e porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo.” Evangelho de João 10:30–33
Outro problema era a inexistência física das tábuas de Moisés.
Os judeus alegam que elas sempre estiveram dentro da Arca da Aliança, mas os cristãos começaram a afirmar que as tábuas na verdade foram quebradas pelo próprio Moisés e devolvidas a Deus pelo anjo Barnabé, porque os judeus adoravam carneiros e essa idolatria não podia ser tolerada.
Para os cristãos, somente eles agora eram merecedores das leis de Moisés.
“Porque, se não formos dignos, seremos excluídos da herança, como o foi o nosso antepassado. Pois sabei qual foi a ordem que ele deu: ‘Voltai para vós, para que as nações não se tornem partícipes da minha Aliança’. E assim aconteceu. Porque por causa dos seus pecados, Moisés as [as tábuas] recebeu e as lançou de suas mãos, e a Aliança foi quebrada, para que a Aliança de Jesus, o Bem-Amado, fosse selada em nosso coração, na esperança da fé nele.” Epístola de Barnabé 4:7-8
Ao mesmo tempo os judeus passaram a criar seu próprio Messias chamado *Bar Kochba (“filho da estrela”), concorrente com Jesus, o Cristo. Para os judeus, Bar Kochba foi um herói real, líder da terceira revolta dos judeus contra os romanos ocorrida em 132 d.C. ([Revolta de Barkokebas](https://pt.wikipedia.org/wiki/Terceira_guerra_judaico-romana)*).
“Os judeus, tendo-se armado outra vez e rebelado contra os romanos, não suportaram por muito tempo. O líder dessa seita era um homem chamado Barcochebas, que significa ‘estrela’, um homem tirânico e assassino, mas que, apoiado em seu nome, fingia ser um luminoso que descia do céu para iluminar os que sofriam. A guerra atingiu o seu auge no décimo oitavo ano do reinado de Adriano, em Betar, uma praça forte muito importante… A partir desse momento, foi proibido a toda a raça dos judeus pôr os pés na região em volta de Jerusalém. Barcochebas, o líder da rebelião dos judeus, ordenava que os cristãos fossem levados a suplícios terríveis, caso não renegassem a Jesus Cristo e blasfemassem contra Ele. Relata-se que, nestas circunstâncias, pereceram inúmeros mártires.” História Eclesiástica, bispo palestino Eusébio de Cesareia, 312 d.C
“No tempo de Ben Koziva [Bar Kochba], o ímpio Adriano destruía Betar. E estava lá Ben Koziva, e ele tinha duzentos mil [soldados] que ‘cortavam o dedo’. Costumava Rabi Akiva dizer sobre ele: ‘Este é o Rei Messias.’ Talmude de Jerusalém (Ta’anit) 4:5 (9a)

Escultura de Bar Kochba em sua batalha contra os romanos
No segundo século da Era Comum, o clima de instabilidade era gritante, por isso esse pequeno e pobre grupo de provincianos vindos da Judeia chamavam cada vez mais a atenção dos romanos majoritários e donos do poder.
“Cláudio (o imperador) expulsou os judeus de Roma porque estavam constantemente se tumultuando por causa de Cresto (Cristo).” De Vita Caesarum, historiador romano Suetônio, 121 d.C.
Perseguição martírica
Existem vários relatos históricos da perseguição romana aos judeus durante o primeiro século. Mas por outro lado, a perseguição romana aos cristãos nessa época, não se sabe o quanto era real ou fictícia.
Essa perseguição aos cristãos foi descrita principalmente no Manuscrito Mediciano, datado do século XI. Esse manuscrito contém uma réplica dos Anais de Tácito que foi escrito em 116 d.C.. Um relato da história romana da época, produzido pelo senador e historiador romano *Cornelius Tácito*, em latim.
Segundo Tácito, o imperador Nero havia tentado culpar os cristãos pelo incêndio de Roma de 64 d.C. E com isso estava executando cristãos violentamente no seu Circo de Nero (onde depois foi construída a Cidade do Vaticano).
Tácito explicou que Nero precisava de bodes expiatórios, e escolheu os cristãos porque se recusavam a adorar os deuses romanos.
“Portanto, ao suprimir o rumor, Nero submeteu os culpados às punições mais rigorosas, a quem o povo comum chamava de cristãos por causa de seus crimes. O autor de seu nome, Cristo, havia sido executado pelo procurador Pôncio Pilatos durante o reinado de Tibério; E a superstição destrutiva, tendo sido reprimida naquele momento, irrompia novamente, não apenas por toda a Judeia, a origem de seu mal, mas também por toda a cidade, onde todas as coisas atrozes ou vergonhosas de todos os lados convergem e são celebradas.” Annales, historiador romano Cornelius Tácito, 116 d.C.

Antiga Basílica de São Pedro ao lado do Circo de Nero, imagem gerada por computador
Sabe-se que os judeus e os romanos perseguiam os cristãos na época de Tácito (começo do século II d.C.), mas o mesmo não acontecia necessariamente na época de Nero, meio século antes (60 d.C.). Nero cobrava altos impostos de toda a população, mas provavelmente não perseguia nem aos judeus nem aos cristãos.
Existia alguma perseguição aos cristãos ainda no primeiro século, mas muito mais por parte dos judeus do que pelos romanos. Os cristãos não eram classificados pelos romanos como praga religiosa (religuiopraga), não eram denominados ainda de cristãos (o termo latino “Chrestianos” era usado na época de Tácito, mas não na época de Nero) e nem eram considerados um grupo relevante e independente, dissociados dos judeus.
“O judaísmo sempre foi uma religião de poucas pessoas. Ele só é conhecido no mundo por causa do cristianismo. Jesus é o judeu mais famoso que já existiu.”
Outro anacronismo grave do relato de Tácito é a descrição de Pôncio Pilatos como procurador (“procuratorem Pontium Pilatum” em latim) da Judeia, porque na época de Nero, quem controlava a Judeia era um prefeito (“praefectus” em latim).
Nenhum outro historiador daquela época, que falou sobre o incêndio de Roma, relacionou Nero à perseguição aos cristãos (um evento de relevância mais que suficiente para isso), e Tácito também não explicitou nenhuma de suas fontes para essa associação tardia (mais de 50 anos após o ocorrido). É possível que Tácito tenha projetado a perseguição aos cristãos de sua época para a época anterior de Nero, baseando-se em fontes lendárias e apocalípticas escritas pelos próprios cristãos para relatar o incêndio.
Sempre existiram fortes esforços do cristianismo para minimizar os males realizados pelos judeus aos cristãos e atribuir a culpa dessa perseguição aos romanos.
Os versículos abaixo descrevem essa revolta violenta dos judeus contra o apóstolo Paulo, quando este tentava pregar sua nova doutrina dentro das sinagogas:
“⁹ E disse o Senhor em visão de noite a Paulo: Não temas, mas fala, e não te cales; ¹⁰ Porque eu sou contigo, e ninguém lançará mão de ti para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade. ¹¹ E ficou ali um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus. ¹² Mas, sendo Gálio procônsul da Acaia, levantaram-se os judeus concordemente contra Paulo, e o levaram ao tribunal, ¹³ Dizendo: Este persuade os homens a servir a Deus contra a lei. ¹⁴ E, querendo Paulo abrir a boca, disse Gálio aos judeus: Se houvesse, ó judeus, algum agravo ou crime enorme, com razão vos sofreria, ¹⁵ Mas, se a questão é de palavras, e de nomes, e da lei que entre vós há, vede-o vós mesmos; porque eu não quero ser juiz dessas coisas. ¹⁶ E expulsou-os do tribunal. ¹⁷ Então todos os gregos agarraram Sóstenes, principal da sinagoga, e o feriram diante do tribunal; e a Gálio nada destas coisas o incomodava.” Livro dos Atos dos Apóstolos 18:9–17
E esta outra passagem do historiador romano Suetônio, de 121 d.C., que também evidencia os conflitos entre judeus e cristãos desde o começo do cristianismo.
“Iudaeos impulsore Chresto assidue tumultuantis Roma expulit.” (“Expulsou de Roma os judeus que, instigados por Cresto, viviam constantemente a provocar tumultos.”) A Vida dos Doze Césares, historiador romano Suetônio, 121 d.C.
Foram criadas inclusive várias estórias de perseguição e execução violentas por parte dos romanos para todos os apóstolos de Jesus. Segundo relatos apócrifos todos morreram de forma absurdamente trágica e consequentemente viraram grandes mártires cristãos.
Pedro e Paulo, por exemplo, teriam sido executados violentamente em Roma pelo próprio imperador Nero, Pedro inclusive crucificado de cabeça para baixo no Circo de Nero.
Abaixo encontra-se uma foto da reprodução de uma laje encontrada em um cemitério cristão de Roma. Nessa tumba, datada do primeiro ou segundo século, e que se encontra na Basílica de São Paulo fora dos Muros em Roma, estava a inscrição seguinte: “Paulo apostolo mart”.

Inscrição “Paulo apostolo mart” sobre uma tumba cristã dos primeiros séculos
Veja como Jesus avisa ao apóstolo Pedro (Simão) sobre sua morte redentora:
“Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas. Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras. E disse isto, significando com que morte havia ele de glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-me.” Evangelho de João 21:17–19
O texto apócrifo chamado Atos de Pedro foi escrito no século II d.C. pelo escritor *Leucius Charinus*, discípulo do apóstolo João. É o único texto da época que descreve a crucificação de Pedro de cabeça-pra-baixo em Roma, sem descrever algum local mais exato (mito do Martírio de Pedro).
Nenhuma dessas biografias podem ser verificadas por nenhum outro artefato histórico a não ser os próprios textos apócrifos, escritos vários séculos após a vida de Jesus.
“Há uma escassez e uma fragilidade dos dados sobre a ‘primeira perseguição aos cristãos’ que teria levado à morte de Pedro e Paulo”

Afresco da Capela Paulina, no Palácio Apostólico do Vaticano, de Michelangelo, 1546
Antes de Tácito, o livro do Apocalipse já tentava bestificar o imperador Nero. O apocalipse do cristianismo foi escrito em grego *koiné por um cristão exilado na [ilha de Patmos](pt.wikipedia.org/wiki/Patmos) por volta do ano 95 d.C., durante o reinado do imperador romano [Domiciano](https://pt.wikipedia.org/wiki/Domiciano)*.
Nesse livro, pseudoepigrafico, como se fosse escrito pelo apóstolo João, o autor teria tido visões e recebido revelações do próprio Jesus Cristo. Ele também associa Nero à besta e atribui-lhe o número *666 (“εξακόσια δεκαέξι”, por extenso, em grego), de acordo com a gematria hebraica (numerologia judaica) associada a palavra “Nero César” (“נרון קסר*” em hebraico).
“⁷ E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação ¹² E exerce todo o poder da primeira besta na sua presença, e faz que a terra e os que nela habitam adorem a primeira besta, cuja chaga mortal fora curada. ¹⁶-¹⁸ E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na mão direita ou na testa, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome. Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, porque é número de homem; e seu número é seiscentos e sessenta e seis.” Livro do Apocalipse de João 13
Existe muita associação pela fé cristã do incêndio da Babilônia (a “grande prostituta”) em 539 a.C., e o incêndio de Roma (“a nova Babilônia”) em 64 d.C., ambos representam o poder do mal que persegue os fiéis e se opõem a Deus.
“E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas; Com a qual fornicaram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua fornicação.” “Em sua testa havia esta inscrição: Mistério: Babilônia, A Grande: A mãe das prostitutas e das práticas repugnantes da Terra.’ Apocalipse de João 17:1,2 e 5

Quadro “Incendie à Rome” do francês Hubert Robert, de 1785
Monomito
Existe uma escala criada em 1936 pelo antropólogo britânico *Lord Raglan *que classifica padrões para heróis históricos e mitológicos tradicionais das civilizações antigas.
A escala com seus 22 itens foi primeiramente baseada no clássico conto de Édipo Rei, escrita pelo dramaturgo grego *Sófocles *em 496 a.C..
Posteriormente Raglan estendeu a classificação para vários outros heróis tradicionais.
1 — Mãe é uma virgem real 2 — Pai é um rei 3 — Pai frequentemente um parente próximo da mãe 4 — Concepção incomum 5 — Herói considerado filho de deus 6 — Tentativa de matar o herói quando criança, frequentemente pelo pai ou avô materno 7 — Herói desaparecido ainda criança 8 — Criado por pais adotivos em um país estrangeiro 9 — Sem detalhes da infância 10 — Retorna ou vai para um reino futuro 11 — Vitória sobre rei, gigante, dragão ou fera selvagem 12 — Casa-se com uma princesa (geralmente filha do predecessor) 13 — Torna-se rei 14 — Por um tempo, ele reina sem incidentes 15 — Ele prescreve leis 16 — Mais tarde, perde o favor dos deuses ou de seus súditos 17 — Expulso de Trono e cidade 18 — Encontra morte misteriosa 19 — Frequentemente no topo de uma colina 20 — Seus filhos, se houver, não o sucederão 21 — Seu corpo não está enterrado 22 — Possui um ou mais sepulcros ou túmulos sagrados
Jesus de Nazaré receberia no mínimo 19 pontos desta escala. Outros heróis clássicos ranqueados são: *Édipo (22), [Krishna](https://pt.wikipedia.org/wiki/Krishna) (21), Moisés (20), Rei Arthur (19), Maomé (17), Hércules (17), [Buda](https://pt.wikipedia.org/wiki/Buda) (15), [Zeus](https://pt.wikipedia.org/wiki/Zeus) (15), Robin Hood (13), Apolo (11), [Alexandre, o Grande](https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre,_o_Grande)* (7), e por aí vai.
Outro conceito semelhante é o de Monomito, descrito por Joseph Campbell em seu livro “O Herói de Mil Faces”, de 1949.
Baseado na mitologia das várias religiões antigas, Campbell gera um roteiro básico para se criar novos heróis modernos que serão amados pelas novas gerações. Inspiração para *George Lucas em Star Wars, e para [Disney Pixar](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pixar), com [Mulan](https://pt.wikipedia.org/wiki/Mulan) *e a pequena sereia Ariel, por exemplo.
“Um herói se arrisca a sair do seu dia-a-dia comum para uma região de maravilha sobrenatural: forças fabulosas estão lá para ser encontradas e uma vitória decisiva está a ser ganhada: o herói volta a partir desta misteriosa aventura com o poder de conceder bênçãos sobre seus companheiros.”
“Tipicamente, o herói do conto de fadas obtém um triunfo microcósmico, doméstico, e o herói do mito, um triunfo macrocósmico, histórico-universal. (…) Os heróis tribais ou locais, tais como o imperador Huang-ti, Moisés ou o asteca Tezcatlipoca, comprometem as bênçãos que obtêm com um único povo; os heróis universais Maomé, Jesus, Gautama Buda trazem uma mensagem para o mundo inteiro.”

Luke Skywalker, Mulan e Ariel heróis modernos inspirados pelo conceito de Monomito
Antigo e Novo Testamentos
Nos tempos do Antigo Testamento (aproximadamente entre os séculos XIII e I a.C.), a vasta maioria da população não sabia ler nem escrever. Essas eram habilidades de poucos especialistas no assunto (escribas, sacerdotes, sábios, profetas, etc.).
Todo conhecimento popular era passado de boca em boca, no comércio, nas casas, nos templos, etc. Ler ou escrever não era algo importante nem necessário para a população em geral.
Os ensinamentos religiosos eram praticados nos cultos de uma forma prática e oral. A escassa escrita era feita em pedra, argila, papiro vegetal ou pergaminhos de couro, por exemplo.
No judaísmo, muita coisa era praticada no Templo em Jerusalém, a capital da Judeia, por volta dos séculos X e VI a.C.. Os judeus acreditam que esse foi o local onde Deus criou Adão e Eva.
Quando *Nabucodonosor II*, o rei do Império Babilônico, invade o reino de Judá, destrói o Templo de Jerusalém e exila os judeus na Babilônia em 586 a.C., eles não têm mais seu templo para pregar suas crenças. É quando a documentação escrita dos ensinamentos religiosos começa a fazer sentido.
Em 538 a.C. então, *Ciro II*, o rei do Império Persa, liberta os judeus da Babilônia, e eles voltam para a Judeia. Lá reconstroem seu templo e intensificam a documentação da Torá (ou Pentateuco, os 5 primeiros livros da Bíblia Hebraica), escrita entre os séculos XIII a.C. ao V a.C..
Os manuscritos religiosos produzidos naquela época eram geralmente transcrições de estórias populares contadas pelo povo de uma determinada cultura. Nesse contexto, ter um autor específico para essas estórias ou textos não fazia muito sentido.
Já os gregos, esses sim davam muita importância à autoria dos textos escritos. No Período Helenístico (séculos III a I a.C.), a época das guerras de Alexandre, o Grande, e da construção da Biblioteca de Alexandria em 295 a.C., por exemplo, todo o mundo antigo passa a ser muito influenciado pelos gregos. Designar um grande mártir para a autoria do texto sagrado da Torá passa a ser então muito relevante para os judeus.
É quando os judeus decidem pseudoepigrafar a Torá como sendo escrita pelo profeta Moisés, devido a sua importância e misticidade dentro do judaísmo.
Vários versículos do Pentateuco explicitam esse anacronismo. Por exemplo, Moisés não poderia, teoricamente, ser o autor de trechos que relatam sua própria morte ou eventos posteriores à sua morte.
Artefatos encontrados na região de *Edom *(atual Jordânia) na década de 1990, confirmam a existência de um reino edomita após o século XI a.C., se consolidando entre VIII e VI a.C., antes do surgimento da monarquia em Israel.
O Livro do Gênesis já descrevia essa estrutura monárquica com detalhes (mesmo que míticos). Ou seja, o verdadeiro autor de Gênesis viveu séculos após a morte de Moisés (século XIII a.C.).
“E estes são os reis que reinaram na terra de Edom, antes que reinasse rei algum sobre os filhos de Israel. Reinou, pois, em Edom Bela, filho de Beor, e o nome da sua cidade foi Dinabá. E morreu Bela; e Jobabe, filho de Zerá, de Bozra, reinou em seu lugar.” Livro do Gênesis 36:31–33

Escavações em Edom, encontrando evidências de estruturas monárquicas na antiguidade
Entre os séculos III e II a.C., os escribas egípcios da Biblioteca de Alexandria, a mando do faraó Ptolomeu II, começam a traduzir os textos judaicos hebraicos para o grego koiné (o grego helenístico).
Deu-se o nome de *Septuaginta (LXX*) para essas versões gregas da Bíblia Hebraica, por acharem que foram 72 escribas que realizaram essa tradução. Foi essa a versão que posteriormente os cristãos se basearam para formar sua própria religião.

Fragmentos da Septuaginta do século I e sua versão impressa no século XVI
No ano 70 d.C., Jerusalém é invadida novamente, agora pelo Império Romano, e o Segundo Templo de Jerusalém é de novo destruído. É a mesma época em que os evangelhos cristãos começam a ser escritos.
Os primeiros seguidores dessa nova seita apocalíptica, dissidente do judaísmo, já começavam a se organizar, mas ainda usavam sinagogas judaicas para pregar sua crença. Com a crescente perseguição dos judeus, os cristãos também começam a ver a necessidade de criar seus próprios templos e documentar sua emergente doutrina.
O apóstolo Paulo, por exemplo, que vivia antes da derrubada do Segundo Templo, escrevia cartas para doutrinar povos distantes, onde ele não poderia estar ao mesmo tempo. Mas para os fiéis que estavam em sua presença, ele pregava oralmente.
Fotos abaixo do atual santuário islâmico da Cúpula da Rocha que foi construído no local em que o Segundo Templo foi destruído, na Mesquita de Al-Aqsa no Monte do Templo. E última foto, é do Muro das Lamentações, única parte que sobrou intacta do antigo templo, onde os judeu costumam rezar voltado para ele.

Fotos do atual santuário da Cúpula da Rocha e do Muro das Lamentações, no Monte do Templo em Jerusalém
Os textos cristãos primitivos eram elaborados de forma dissociada, cada um com seus objetivos particulares. Ainda não existia a ideia de unidade, legitimidade ou canonicidade.
O primeiro artefato, que se tem hoje, de unificação dos textos e evangelhos bíblicos é o *Canon Muratori*, do ano 170 d.C., que é um fragmento de uma lista dos livros do Novo Testamento.
Neste cânone são listados 22 livros, incluindo o Evangelho de Lucas e o Evangelho de João, por exemplo, além dos Atos dos Apóstolos e de 13 epístolas associadas a Paulo.
O Canon Muratori também já entende que existem falsificações como as epístolas de Paulo aos Laodicenses e aos Alexandrinos.
Uma réplica desse cânone, do ano de 1740, encontra-se hoje em posse da Biblioteca Ambrosiana de Milão.

Cópia do Canon Muratori, a primeira lista de livros da Bíblia que se tem ciência
Oficialização da Religião Cristã
No quarto século da era comum, o Império Romano passava por transformações e reformas significativas, após uma fase bastante crítica marcada por crises internas e grandes divisões (Crise do Terceiro Século).
Com o exército do lado oeste do império (ocidente) devastado pelas guerras, em 293 d.C. o imperador Diocleciano resolve o problema dividindo o império em quatro (Tetrarquia) para proteger o lado leste (oriental).

Extenso Império Romano do quarto século, dividido pela Tetrarquia de Diocleciano
Essa divisão ocasionou uma série de guerras civis e então, no século seguinte, o imperador *Constantino I *sentiu a necessidade de unificar o império novamente e também queria o poder de todo o império só para si.
O cristianismo monoteísta apocalíptico já tinha alguma base de seguidores espalhados pelo império. Constantino, pragmático, vê no monoteísmo uma boa forma de iniciar e fortalecer essa reunificação, derrubando o complexo politeísmo greco-romano e simplificando o domínio da população sob uma única fé, assim como já acontecia no Zoroastrismo persa.
“Um Deus, um Império, um Imperador” — Constantino “Um Rei, uma Fé, uma Lei” — Absolutismo Francês “Ein Volk, ein Reich, ein Führer” (Um povo, um reino, um líder) — Hitler
Esse slogan de propaganda política é muito utilizado por ditadores extremistas e teocratas. Ele ilustra a ideia central das políticas de Constantino, Maomé, de reis absolutistas, Otto Von Bismark e Hitler, por exemplo.
*Constantino I* legaliza então o cristianismo no Império Romano em 313 d.C., promulgando o Édito de Milão (mais de uma década antes do Concílio Ecumênico de Nicéia, realizado em 325 d.C. em Roma).
“Nós, Constantino e Licínio, imperadores, encontrando-nos em Milão para conferenciar a respeito do bem e da segurança do império, (…). Pareceu-nos justo que todos, os cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Assim qualquer divindade que no céu mora ser-nos-á propícia a nós e a todos nossos súbditos.” Édito de Milão, Constantino I, 313 d.C.
Depois disso então, Constantino reunifica finalmente o império, em 324 d.C., e desloca sua antiga capital Roma, no leste, para a nova capital recém fundada, Constantinopla, em 330 d.C. Constantinopla era a antiga cidade grega de Bizâncio, e atualmente é a cidade de Istambul, na Turquia.
Em 380 d.C., o imperador *Teodósio I *oficializa essa tendência monoteísta promovendo o cristianismo à religião oficial do Império Romano, por meio do Édito de Tessalônica, e passa a proibir violentamente os recém banidos cultos pagãos.
Uma série de basílicas cristãs começam a ser construídas e os textos do Novo Testamento começam a ser selecionados por Bispos (líderes) da jovem Igreja Católica (do grego “katholikós”, ou “universal”), tudo de acordo com o que interessa para a manutenção de seus poderes.
— Igreja do Santo Sepulcro (Jerusalém): templo para a ressurreição — Igreja da Natividade (Belém): templo para o nascimento de Jesus — Igreja da Ascensão (Monte das Oliveiras): templo da ascensão aos céus — Basílica de São Pedro (Vaticano): templo para o túmulo de São Pedro — Basílica de São João de Latrão (Roma): primeira igreja pública — Igreja dos Santos Apóstolos (Constantinopla): mausoléu para Constantino

Basílica San Giovanni in Laterano, em Roma, fundada em 313 d.C.
Bíblia
Em 382 d.C., o Papa *Dâmaso I*, reúne o Concílio de Roma que define os livros bíblicos aceitos pela Igreja. Promulgou o cânon de 73 livros (46 do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento).
Talvez seja nessa época que começam a chamar o compilado de textos sagrados cristãos de Bíblia (do grego “τὰ βιβλία”, ou seja “os livros”).
Esses textos relatam o passado do judaísmo e do cristianismo até o evento da queda do Segundo Templo de Jerusalém em 70 d.C., e param então por aí.
“Contrariando a própria fé, uma história sagrada acaba quando começa a ser escrita.”
Em 384 d.C., o mesmo Papa *Dâmaso I contrata o sacerdote [Jerônimo de Estridão](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jer%C3%B4nimo) para traduzir os textos cristãos para o latim, baseando-se na Torá em hebraico e nos evangelhos em grego, dentre outros textos. A intenção dessa tradução era que os textos fossem um pouco mais acessíveis para o povo romano (“vulgus” em latim), por isso deu-se o nome de [Vulgata](https://pt.wikipedia.org/wiki/Vulgata)*.
Em 1439, o gráfico alemão *Johann Gutenberg constrói uma máquina de imprensa de tipo móvel, após ter sido inventada pelo chinês [Bi Sheng](https://pt.wikipedia.org/wiki/Bi_Xengue) em 1040 d.C.. E em 1455 Gutenberg publica a [primeira versão impressa da Vulgata](https://pt.wikipedia.org/wiki/B%C3%ADblia_de_Gutenberg)*, com 180 cópias.
Foto abaixo de uma das 42 cópias restantes da Vulgata, com 1282 páginas, impressa por Gutenberg no século XV. Uma dessas cópias encontra-se no Museu *Gutenberg da cidade de [Mainz](https://pt.wikipedia.org/wiki/Mainz)*, na Alemanha.

Versão da Vulgata impressa por Gutenberg em 1455
É somente em 1563, na reunião do Concílio de Trento, que a Igreja Católica promulga a Bíblia cristã com uma versão oficial, fixa e imutável, por causa das Reformas Protestantes do monge teólogo alemão Martinho Lutero (Martin Luther) que estavam ocorrendo na época.
Durante a Idade Média, a Igreja Católica Apostólica Romana possuía mais terras e recursos que os reis e rainhas da Europa. Vendia uma grande quantidade de indulgências (Simonia), sugando os recursos dos cidadãos europeus e coletava muitos impostos (dízimo), onde boa parte era enviado exclusivamente para a Santa Sé em Roma (sede da Igreja Católica), deixando de ser consumida pelos demais monarcas.
A credibilidade dos sacerdotes também estava em baixa, com bispos vivendo em luxo abusivo, padres intolerantes e impopulares e muito nepotismo.
O Papa *Leão X (Giovanni de Medici) de 1513, por exemplo, era da [família Medici](https://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_dos_M%C3%A9dici) florentina, filho de [Lourenço de Médici](https://pt.wikipedia.org/wiki/Louren%C3%A7o_de_M%C3%A9dici)*, uma das mais ricas dinastias da Europa.
A Igreja há muito tinha ignorado suas funções pastorais e espirituais e tornava-se cada vez mais uma máquina burocrática e corrupta.
Com os séculos, isso criou uma grande insegurança e cobiça nos monarcas europeus.
Na Inglaterra de 1536, por exemplo, o rei Henrique VIII dissolveu os mosteiros e confiscou suas propriedades por razões primordialmente políticas e econômicas, não teológicas. Tornou-se também o chefe da Igreja na Inglaterra. A situação só se reverteu de volta para a Igreja 20 anos depois.
Antes, em 1517, o monge católico alemão Martinho Lutero, redige, em latim, 95 Teses sobre o Poder e Eficácia das Indulgências, protestando a respeito dos enormes abusos da Igreja. E devido ao poder da imprensa, suas críticas espalharam-se por toda a Europa em semanas, sendo impossível conter o movimento revolucionário contra o Papado Romano (Reforma Protestante).
Foto abaixo de uma Carta de Indulgência de 1513 emitida pela Igreja. E ao lado, cópia da primeira impressão das 95 Teses de Lutero.

Carta de Indulgência emitida pela Igreja Católica e cópia das 95 Teses de Lutero
No século XVI, traduções da Bíblia para outras línguas em geral eram proibidas pelo Igreja Romana, mas com a separação da Igreja Anglicana na Inglaterra, o Rei James do Reino Unido, contrata 50 especialistas e traduz a Bíblia latina para o inglês em 1611 (*King James Bible*).
E em 1681 o pastor protestante português João Ferreira de Almeida, traduz a Bíblia protestante para a língua portuguesa.

Capa da Bíblia Sagrada do Rei James em inglês e tradução portuguesa de João Ferreira de Almeida
“A Bíblia é uma compilação de textos diversos, narrativas, poesias, leis, cartas e visões apocalípticas, escritos ao longo de aproximadamente 1500 anos por cerca de 40 autores diferentes, todos homens, a maioria desconhecidos ou controversos.” Aline Câmara, psicóloga e ex-evangélica

Origens do Cristianismo de ~6 a.C. a ~100 d.C.

Origens do Cristianismo de ~100 d.C. a ~1600 d.C.
Maomé, o profeta armado
Após a morte do imperador *Teodósio I *em 395 d.C., o Império Romano vai ser novamente dividido entre Oriente e Ocidente.
Uma série de invasões e crises militares e financeiras, dissolve a urbanização romana da Europa do século IV (Império Romano do Ocidente) e transforma-a em um continente feudal (Feudalismo).
Já o Império Romano do Oriente passa a se chamar Império Bizantino e prospera por mais de 1000 anos. Só vai se dissolver após sua invasão pelo Império Otomano Turco em 1453.

Império Bizantino após a divisão de Diocleciano
No século VII d.C., os romanos do oriente (Império Bizantino cristão, atual Turquia) e os persas (Império Sassânida zoroastrista, atual Irã) estavam em guerra (Guerras Bizantino-Sassânidas).
A desértica península arábica era uma agitada região comercial, que não tinha sido invadida por nenhum desses dois impérios que a cercavam. Era habitada por tribos beduínas nômades de origem semita, onde predominava o politeísmo pré-islâmico dos coraixitas (“قريش”, “quraysh”).

Extensão dos impérios bizantino e sassânida, e a península arábica no século VII d.C.
Meca (“مكة”, “Makkah”) era um importantíssimo centro comercial e religioso para os árabes da época, onde os coraixitas já cultuavam a peregrinação e a circunvalação no Santuário da *Kaaba (“ٱلْكَعْبَة”, “al-Kaʿbah” *em árabe, ou “o cubo”).
As principais divindades do antigo panteão árabe eram *Hubal (“هبل”), o deus dos deuses, associado ao deus semita [Baal](https://pt.wikipedia.org/wiki/Baal), e as três deusas de Meca: [Al-Lat](https://pt.wikipedia.org/wiki/Alilat) (“اللات”, “al-Lāt”), [Al-Uzza](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Al-Uzza?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc) (“العزى”, “al-uzza”) e [Manat](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Manat_(goddess)?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc) (“منات”, “maˈnaːh*”).

A circunvalação da Kaaba (“o cubo” em árabe) na cidade árabe de Meca
Em 570 d.C. nasce em Meca o profeta Maomé (”مُحَمَّد”, “Moḥammed”, ou “louvado” em árabe), descendente do clã dos haxemitas (“هاشمي”, Hāšimī), de *Banu Hashim*, o bisavô de Maomé.
Maomé virou um renomado comerciante e casou-se com a rica viúva *Khadijah (“خديجة*”) aos 25 anos.
Durante sua vida, conheceu o monoteísmo cristão, judeu e zoroastrista. Convivia também com um grupo chamado *Hanifs (“حنيف”, “ḥanīf”*), que rejeitavam o politeísmo árabe dos coraixitas e seguiam o monoteísmo abraâmico puro (Hanafismo), ou seja, não concordavam com o monoteísmo judaico nem cristão.
Maomé costumava meditar na Caverna de *Hira (“غَار حِرَاء”, “Ghar-i-Hira”), e aos 40 anos de idade, em 610 d.C., diz ter tido a primeira visão do famoso arcanjo Gabriel (“رئيس الملائكة جبرائيل”, “rayiys almalayikat jibrayiyl*”), o mesmo que visitou Abraão, Moisés e José. Gabriel recita o versículo abaixo para Maomé:
“اِقۡرَاۡ بِاسۡمِ رَبِّكَ الَّذِىۡ خَلَقَۚ خَلَقَ الۡاِنۡسَانَ مِنۡ عَلَقٍۚ اِقۡرَاۡ وَرَبُّكَ الۡاَكۡرَمُۙ” (Leia, em nome do teu Senhor, que criou, criou o homem de um coágulo. Leia, e teu Senhor é o mais Generoso) Surah Al-’Alaq, Alcorão 96:1–3
O termo “O Coágulo” (“العلق” “Al-Alaq”), nesse contexto, pode significar o embrião humano, em seu estágio inicial.
Durante os próximos 23 anos, até a morte de Maomé, Gabriel vai recitar mais de 6000 versículos, que Maomé tem que memorizar de cabeça, porque era analfabeto.

Caverna de Hira em Meca, onde o arcanjo Gabriel recitava versículos a Maomé
Maomé passa sua vida pregando esses versículos oralmente e convertendo seus primeiros seguidores (*Sahaba, “الصحابه”, “alsahabuh”, ou “os companheiros” em árabe). *Catequiza todos à sua volta para o novo monoteísmo abraâmico, similar ao hanafismo pré existente.
Maomé, e os hanifs, acreditavam que a mensagem de Deus foi corrompida pela Tanakh judáica e pela Bíblia cristã. Por isso pregavam o mesmo Deus abraâmico, que em árabe se traduz como Allah (“الله”, “Allāh”, “o Deus”). porém com uma mensagem mais pura, vinda direta do profeta Abraão (“إِبرَاهِيْم”, “Ibrahim” em árabe).
Para Maomé a salvação vem da submissão absoluta a Allah e das boas práticas individuais, e não somente pela simples fé nos profetas Jesus (“عيسى”, “ʿĪsā”) ou Moisés (“موسىٰ”, “Mūsa”).
“Para o Corão a fé sem submissão é incompleta, assim como a submissão sem a fé é insuficiente.”
“بَلَىٰ مَنْ أَسْلَمَ وَجْهَهُۥ لِلَّهِ وَهُوَ مُحْسِنٌۭ فَلَهُۥٓ أَجْرُهُۥ عِندَ رَبِّهِۦ وَلَا خَوْفٌ عَلَيْهِمْ وَلَا هُمْ يَحْزَنُونَ” (Sim, quem submeter seu rosto a Allah enquanto for benfeitor terá sua recompensa diante de seu Senhor. E não haverá temor sobre eles, nem se entristecerão) Surah Al-Baqarah, Alcorão 2:112
“وَمَنْ أَحْسَنُ دِينًۭا مِّمَّنْ أَسْلَمَ وَجْهَهُۥ لِلَّهِ وَهُوَ مُحْسِنٌۭ وَٱتَّبَعَ مِلَّةَ إِبْرَٰهِيمَ حَنِيفًۭا ۗ وَٱتَّخَذَ ٱللَّهُ إِبْرَٰهِيمَ خَلِيلًۭا” (E qual religião é melhor do que a daquele que se submete a Allah, pratica o bem e segue a religião de Abraão, o monoteísta? E Allah tomou Abraão por amigo. Surah An-Nisa, Alcorão 4:125
Observe no verso (“آية”, “āyah”) acima, Surah An-Nisa 125, a palavra hanifan (“حَنِيفًۭا”) sendo traduzida como o monoteísmo puro de Abraão.
Meca era uma cidade próspera, dominada pela comércio dos coraixitas (“قريش”, “quraysh”) com sua intensa peregrinação à Kaaba. O monoteísmo de Maomé e dos hanifs logo cria muitos conflitos com a elite coraixita de Meca, que começa uma violenta perseguição contra Maomé e seus seguidores.
Em 622 d.C., Maomé foge para Yathrib, a futura Medina (“المدينة”, “al-Madinah”, “a cidade”), próxima à Meca, na atual Arábia Saudita.
Chegando lá, funda a primeira comunidade muçulmana em Medina (*Umma, “أمة”, “Ummah”, “nação”). Muçulmano (“مسلم”, “muslim*”) em árabe significa “aquele que se submete”.
Esse evento, chamado de *Hégira (“هجرة”, “Hijra”, “migração” em árabe), futuramente passará a ser considerado o início do Islamismo e o ano 1 do calendário islâmico ([1 AH](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ano_da_H%C3%A9gira), Ano da Hégira). No caso, o nosso 2025 d.C. é o ano 1447 AH*.
Em 624 d.C. (ano 2 AH), no oásis de Badr, acontece a primeira vitória armada de Maomé contra os coraixitas (Batalha de *Badr*), em uma campanha desvantajosa numericamente, mas altamente motivada pela fé e estrategicamente bem planejada. Mapa abaixo de sua campanha militar e um quadro retratando sua vitória.

Mapa da campanha militar e quadro sobre a vitória da Batalha de Badr
Diferente dos outros líderes religiosos anteriores (como Abraão, Moisés, Zaratustra, Budah, Jesus, por exemplo), Maomé se torna também um líder político-militar, governando militarmente as cidades por onde passa com seu discurso religioso.
Em 630 d.C. (8 AH), Maomé une as tribos de Medina e retorna à Meca, que também domina politica e religiosamente. Converte então a Kaaba em um templo monoteísta, consolidando seu novo regime político-religioso, o Monoteísmo Teocrata.
Maomé morre por decorrência de uma febre em 632 d.C., aos 62 anos de idade, em Medina. Seu corpo encontra-se sepultado até hoje no mesmo local onde morreu, em baixo da Cúpula Verde (“قبة الخضراء”, “Qubbat al-Khadra”). Nenhuma pesquisa científica em Maomé é aceita pelos sauditas.
Fotos abaixo da atual Mesquita do Profeta (“ٱلْـمَـسْـجِـدُ ٱلـنَّـبَـوِيّ”, “al-Masjid an-Nabawī”), em Medina, sua pintura do século XIX, e fiéis visitando o túmulo de Maomé.

Mesquita do Profeta em Medina e o local do túmulo de Maomé
Após a morte de Maomé, seus primeiros discípulos, os quatro “califas bem guiados” (“الخلفاء الراشدون”, “al-Khulafāʾ ar-Rāshidūn”, “os sucessores corretamente guiados” em árabe), assumem a liderança religiosa e política dos fiéis muçulmanos (Islamismo Político, “al-Islamiyyun”).
Os quatro califas começam um aceleradíssimo processo de unificação do povo árabe e expandem para a Ásia e a África, a nova religião islâmica (Islã, “الإسلام”, “al’iislam”, “submissão” em árabe), formando um grande império islâmico (Califado Ortodoxo). São eles:
— *Abu Bakr (“ابو بكر” , “pai da camela” em árabe, ou “Abd Allāh ibn Abī Quḥāfah”), unifica a península arábica em apenas 2 anos, de 632 a 634 d.C., cobrando o [zakat](https://pt.wikipedia.org/wiki/Zakat) (“زَكَاة”, “zaˈkaːt*”, “que purifica” em árabe), o imposto de purificação da nova religião. Morreu de febre em 634 d.C..
— *Omar (“عمر بن الخطاب”, “Umar bn al-Khattab”), o [Farouk](https://en.wikipedia.org/wiki/Farooq) (“فاروق”, “faruq”, “que faz diferença” em árabe), sucessor de Abu Bakr*, é o grande expansor do islamismo. Invade parte do Império Bizantino (Síria e sua capital Damasco) em 634 d.C., toma Jerusalém e toda a Palestina em 637 d.C., invade o Egito em 639 d.C. e derrota todo o Império Sassânida (Pérsia) em 644 d.C.. Foi assassinado por um carpinteiro persa em 644 d.C..
“O abraço de Omar ao Islã foi a nossa vitória, a sua migração para Medina foi o nosso sucesso e o seu reinado, uma bênção de Alá, nós não oferecíamos orações na Grande Mesquita até Omar aceitar o Islã, quando ele aceitou o Islã, os coraixitas foram obrigados a deixar-nos rezar na mesquita.” Teólogo Abedalá ibne Maçud, um dos primeiros discípulos de Maomé
— *Otomão (“عثمان بن عفان”, “Uthman ibn Affan”), eleito califa em 644 d.C.. Compilou a versão oficial das revelações de Maomé, o livro sagrado do islamismo, ou Alcorão (“القرآن” , “al-Qurʾān*”, ou “a recitação” em árabe), e distribuiu cópias para todo o Islã (mundo islâmico). Foi morto em um linchamento em sua casa em 656 d.C., por muçulmanos revoltados com seu califado.

Alcorão Cúfico de Samarcanda, encontra-se no complexo do Imã Hazrati no Uzbequistão, do século VII d.C.
— *Ali (“علي بن أبي طالب”, “Ali ibn Abi Talib”), enfrentou muitos conflitos internos vindo de fiéis fundamentalistas que exigiam um sucessor legítimo descendente de Maomé. Por isso foi escolhido califa, por ser primo e genro do profeta, virando o primeiro [Imã](https://pt.wikipedia.org/wiki/Imame) (“إمام”, “imām”, “líder espiritual”) dos Xiitas (“شيعة علي”, “Shīʻatu ʻAlī”, *“apoiadores de Ali”). Foi assassinado em 661 d.C. com uma flecha envenenada, por conspiradores.
Os próximos califas, Califado Omíada (de Meca), continuaram a expansão do islamismo. Em apenas 100 anos já haviam chegado até a Europa (Portugal e Espanha, na península ibérica), no califado de *Ualide I (“لوليد بن عبد الملك”, “Al-Walid ibn Abd al-Malik*’”), em 711 d.C..

Expansão islâmica sobre três continentes em apenas 100 anos, de 610 d.C. a 711 d.C.
A dinastia do Califado de Abássida, de 750 d.C. a 1258 d.C., com a fundação da Casa da Sabedoria em Bagdá (no atual Iraque), foi o período dos grandes avanços árabes (Idade de Ouro islâmica) nas ciências, matemática (*Al-Khwarizmi, inventou a base da álgebra e dos algoritmos), medicina ([Ibn Sina](https://pt.wikipedia.org/wiki/Avicena) escreveu mais de 240 tratados científicos), filosofia (com o polímata [Averróis](https://pt.wikipedia.org/wiki/Averr%C3%B3is)*), etc..
Após esse período, terminam os califados islâmicos com a queda de Bagdá em 1258 d.C., devido aos ataques dos impérios Mongol, Otomano e Persa.
O islamismo possui hoje mais de 1.8 bilhões de muçulmanos espalhados por todos os países do mundo.
Fotos abaixo da Grande Mesquita de Meca (“المسجد الحرام”, “Al-Masjid al-Ḥarām”) atualmente, e da atual Kaaba em seu centro. Mesquita (“مسجد”, “masjid”) em árabe significa “local de prostração”.

Grande Mesquita de Meca (“المسجد الحرام”, “Al-Masjid al-Ḥarām”) e da Kaaba atualmente
As sociedades do mundo eram, e ainda são, profundamente patriarcais e misóginas, com as mulheres completamente subordinadas aos homens na família e na sociedade.
Nas antigas tribos árabes pré-islâmicas mais precisamente, as mulheres eram ainda mais violentamente oprimidas, inclusive com a prática do infanticídio feminino, por motivos de vergonha ou pobreza, por exemplo.
“وَإِذَا ٱلْمَوْءُۥدَةُ سُئِلَتْ بِأَىِّ ذَنۢبٍۢ قُتِلَتْ” (Quando a filha, sepultada viva, for interrogada: Por que delito foste assassinada?) Surah At-Takwir “O Enrolamento”, Alcorão 81: 8–9
Maomé de certa forma reduz algumas dessas condições desumanas, proibindo o infanticídio e legalizando o divórcio (*Khula, “خلع*”), por exemplo, mesmo que ainda sem direitos humanos para as mulheres.
“يَـٰٓأَيُّهَا ٱلنَّبِىُّ إِذَا طَلَّقْتُمُ ٱلنِّسَآءَ فَطَلِّقُوهُنَّ لِعِدَّتِهِنَّ وَأَحْصُوا۟ ٱلْعِدَّةَ ۖ وَٱتَّقُوا۟ ٱللَّهَ رَبَّكُمْ ۖ لَا تُخْرِجُوهُنَّ مِنۢ بُيُوتِهِنَّ وَلَا يَخْرُجْنَ إِلَّآ أَن يَأْتِينَ بِفَـٰحِشَةٍۢ مُّبَيِّنَةٍۢ ۚ وَتِلْكَ حُدُودُ ٱللَّهِ ۚ وَمَن يَتَعَدَّ حُدُودَ ٱللَّهِ فَقَدْ ظَلَمَ نَفْسَهُۥ ۚ لَا تَدْرِى لَعَلَّ ٱللَّهَ يُحْدِثُ بَعْدَ ذَٰلِكَ أَمْرًۭا” (Ó Profeta, quando vos divorciardes de mulheres, divorciai-vos delas durante o período de espera prescrito, contando-o e temendo a Allah, vosso Senhor. Não as expulseis de suas casas, nem elas devem sair [de casa], a menos que cometam uma imoralidade evidente. Estes são os limites de Allah. E quem transgride os limites de Allah certamente cometeu um erro contra si mesmo. Sabeis que talvez Deus faça algo novo depois disso?) Surah At-Talaq “O Divórcio”, Alcorão 65:1
O extremismo islâmico até hoje ainda é uma forma desumana de violação do Alcorão, prolongando a opressão de mulheres e omitindo seus direitos mais básicos, como educação, trabalho, não violência, liberdade, dentre vários outros.
O mito islâmico das “72 virgens (“حور عين”, “*Hoor al-Ayn”) no paraíso (“جنة”, “Jannah*”)” é até hoje disseminado como se a existência das mulheres se resumisse unicamente a ser um troféu sexual para os homens.
“لِلشَّهِيدِ عِنْدَ اللَّهِ سِتُّ خِصَالٍ يُغْفَرُ لَهُ فِي أَوَّلِ دَفْعَةٍ وَيَرَى مَقْعَدَهُ مِنَ الْجَنَّةِ وَيُجَارُ مِنْ عَذَابِ الْقَبْرِ وَيَأْمَنُ مِنَ الْفَزَعِ الأَكْبَرِ وَيُوضَعُ عَلَى رَأْسِهِ تَاجُ الْوَقَارِ الْيَاقُوتَةُ مِنْهَا خَيْرٌ مِنَ الدُّنْيَا وَمَا فِيهَا وَيُزَوَّجُ اثْنَتَيْنِ وَسَبْعِينَ زَوْجَةً مِنَ الْحُورِ الْعِينِ وَيُشَفَّعُ فِي سَبْعِينَ مِنْ أَقَارِبِهِ” (O mártir tem seis qualidades com Allah: ele é perdoado no primeiro momento, lhe é mostrado seu lugar no Paraíso, ele é protegido do castigo da sepultura, ele está a salvo do Maior Terror (Dia do Juízo), uma coroa de dignidade é colocada em sua cabeça, cujo rubi é melhor que o mundo e tudo que nele há, ele é casado com setenta e duas esposas dentre as huris de belos olhos, e lhe é permitido interceder por setenta de seus parentes.) Sunan al-Tirmidhi, Hadith 1663
“أُو۟لَـٰٓئِكَ ٱلْمُقَرَّبُونَ فِى جَنَّـٰتِ ٱلنَّعِيمِ وَحُورٌ عِينٌۭ كَأَمْثَـٰلِ ٱللُّؤْلُؤِ ٱلْمَكْنُونِ جَزَآءًۢ بِمَا كَانُوا۟ يَعْمَلُونَ” ((os crentes) Esses são os que se aproximam (de Allah) nos Jardins das Delícias e [serão] belas mulheres (huris) com olhos grandes e belos, como pérolas escondidas, como recompensa por tudo o que fizeram.) Surah Al-Waqi’ah, Alcorão 56: 11–12,22–24
São muitos os países islâmicos, mas não restrito a essa religião, que até hoje violentam a mulher de forma legal e cultural, principalmente os que as obrigam na forma da lei a cobrirem seus cabelos, corpos e até o próprio rosto, com o uso do *niqab (“نِقاب”, “máscara”), ou até mesmo a burqa (“برقع*”).
“وَقُل لِّلْمُؤْمِنَـٰتِ يَغْضُضْنَ مِنْ أَبْصَـٰرِهِنَّ وَيَحْفَظْنَ فُرُوجَهُنَّ وَلَا يُبْدِينَ زِينَتَهُنَّ إِلَّا مَا ظَهَرَ مِنْهَا ۖ وَلْيَضْرِبْنَ بِخُمُرِهِنَّ عَلَىٰ جُيُوبِهِنَّ ۖ وَلَا يُبْدِينَ زِينَتَهُنَّ إِلَّا لِبُعُولَتِهِنَّ أَوْ ءَابَآئِهِنَّ أَوْ ءَابَآءِ بُعُولَتِهِنَّ أَوْ أَبْنَآئِهِنَّ أَوْ أَبْنَآءِ بُعُولَتِهِنَّ أَوْ إِخْوَٰنِهِنَّ أَوْ بَنِىٓ إِخْوَٰنِهِنَّ أَوْ بَنِىٓ أَخَوَٰتِهِنَّ أَوْ نِسَآئِهِنَّ أَوْ مَا مَلَكَتْ أَيْمَـٰنُهُنَّ أَوِ ٱلتَّـٰبِعِينَ غَيْرِ أُو۟لِى ٱلْإِرْبَةِ مِنَ ٱلرِّجَالِ أَوِ ٱلطِّفْلِ ٱلَّذِينَ لَمْ يَظْهَرُوا۟ عَلَىٰ عَوْرَٰتِ ٱلنِّسَآءِ ۖ وَلَا يَضْرِبْنَ بِأَرْجُلِهِنَّ لِيُعْلَمَ مَا يُخْفِينَ مِن زِينَتِهِنَّ ۚ وَتُوبُوٓا۟ إِلَى ٱللَّهِ جَمِيعًا أَيُّهَ ٱلْمُؤْمِنُونَ لَعَلَّكُمْ تُفْلِحُونَ” (Dize às mulheres crentes que reduzam [algumas] das suas visões e guardem as suas partes íntimas e que não exibam os seus adornos, exceto o que [necessariamente] aparece deles e que puxem os seus véus sobre os seus peitos, (…). Nem devem bater os pés para revelar o que escondem de seus adornos. E arrependam-se diante de Allah. Todos vocês, ó crentes, para que sejam bem-sucedidos.) Surah An-Nur, Alcorão 24:31
Fotos abaixo de mulheres islâmicas usando a burca, e da jovem filósofa paquistanesa, ganhadora do prêmio Nobel da Paz em 2014 com apenas 17 anos, *Malala Yousafzai.*

Mulheres islâmicas de Burca e a jovem feminista Malala
“Eu levanto a minha voz, não para que eu possa gritar, mas para que aqueles sem voz possam ser ouvidos… não é possível prosperar quando metade das pessoas ficam para trás.”
“Quando o mundo inteiro está em silêncio, até mesmo uma só voz se torna poderosa.” filósofa paquistanesa Malala Yousafzai, no discurso na ONU, 2013
Cruzadas
Após a oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano, a região da Judeia, Israel, Palestina e partes da atual Jordânia passa a ser cada vez mais sagrada.
Mas com o enfraquecimento do Império Romano e a união dos judeus aos persas contra os cristãos, essa Terra Santa fica extremamente vulnerável. O Islamismo em ascensão decide então dominar a casa de seus profetas mais ancestrais.
Jerusalém, a capital judaica, cristã e muçulmana, que estava sob o domínio cristão do Império Romano do Oriente (Império Bizantino), foi entregue pacificamente em 637 d.C. para o exército muçulmano do califa Omar, do Império Árabe, após sua investida na região.
Os árabes muçulmanos permitiam os cultos cristãos e permitiram também que os judeus voltassem a cultuar no Templo de Salomão, impedidos anteriormente pelos cristãos.
Construíram a Cúpula da Rocha e a Mesquita de *Al-Aqsa *no Monte do Templo, adicionando também a cultura islâmica a esse local sagrado compartilhado.

Cúpula da Rocha construída em Jerusalém pelos muçulmanos
Os próximos 3 séculos são de extrema ascensão das religiões pelo velho mundo. O islamismo no Império Árabe; o cristianismo, o judaísmo e o paganismo pela Europa; o budismo pela Ásia; o hinduísmo pela Índia, e por aí vai.

Principais religiões da Era Medieval
Um caldeirão de fortes crenças se forma, e dogmas mais extremistas começam a se agitar.
Em 1073, os turcos Seljúcidas, muçulmanos sunitas, invadem Jerusalém, e intensificam consideravelmente a perseguição aos cristãos e à pequena comunidade judaica da Terra Santa.
A Igreja Católica decide então organizar investidas militares para recuperar de vez os lugares sagrados do cristianismo, chamadas Cruzadas.
Os cavaleiros das cruzadas eram em geral nobres europeus em busca de novas terras e comércio, vendiam suas propriedades para financiar as investidas militares.
Já na Primeira Cruzada, liderada pelo Papa Urbano II, os soldados libertam a capital cristã de Jerusalém em 1099.
Os cruzados massacram violentamente a maioria dos religiosos muçulmanos e judeus da região.
Durante o século XII, as cruzadas continuam a ser patrocinadas pela Igreja e pelos nobres católicos do Império Bizantino, com o objetivo de manter o controle da Terra Santa e expandir as rotas comerciais europeias.

Mapa das 8 principais Cruzadas da Idade Média
Além dos nobres, a Igreja passa a mandar seus monges (Monges-Guerreiros), para proteger a perigosa viagem dos peregrinos cristãos à Terra Santa.
Cria também em 1113, a Ordem dos Hospitalários de São João de Jerusalém, para cuidar dos peregrinos enfermos.
Apesar das investidas das Cruzadas terem sido baseadas em dogmas católicos, elas não se encontram na Bíblia. Porque foram eventos religiosos que aconteceram após o Império Romano fechar o cânon principal do Novo Testamento, os 27 livros reconhecidos nos concílios católicos do século IV.
”Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”. Evangelho de João 15:13
Em 1118, o rei Balduíno II de Jerusalém sede uma ala das ruínas do Templo de Salomão (Segundo Templo de Jerusalém, ou Mesquita de *Al-Aqsa) para o lorde francês [Hugues de Payens](https://pt.wikipedia.org/wiki/Hugo_de_Payens)* (primeiro Grão-Mestre) e seus oito cavaleiros, formando então a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (os Cavaleiros Templários).

Reino de Jerusalém reconquistado pelos cristãos após a Primeira Cruzada
A necessidade de combater os árabes e dominar o comércio na Europa era tanta, que a Ordem dos Templários teve que fundar o primeiro sistema bancário da Europa para receber tantas doações de terras e riquezas.
Teobaldo II, Conde de Champagne, a região natal de Hugues, funda em 1127 a primeira sede administrativa da Ordem, para receber essas doações.
Um peregrino cristão podia depositar dinheiro numa Preceptoria Templária em seu país, ou seja, uma “agência bancária” dos Templários espalhadas pela Europa, e receber uma carta de crédito para resgatar o valor lá na Terra Santa, evitando viajar com suas riquezas.
Esse sistema bancário primitivo deixou a Ordem dos Templários incrivelmente rica.
Dona Teresa de Leão, rainha de Portugal, já em 1128 doou aos Templários o castelo da cidade de Soure e a Quinta de Baldrame, fundando uma das primeiras Preceptorias, ou Comendadora, da Ordem dos Templários.

Castelo da cidade de Soure doado à Ordem dos Cavaleiros Templários
Em 1136, *Hugues de Bourbouton funda a [Casa de Richerenches](https://en.wikipedia.org/wiki/Richerenches)*, no sul da França, outra Preceptoria inicial dos Templários. E por aí vai.
Fundaram também vários castelos próprios, como o Castelo Peregrino ao norte de Israel, em 1218.

Castelo Peregrino ao norte de Israel
Os cruzados no entanto fracassam religiosamente. Os turcos e mamelucos voltam a dominar Jerusalém em 1244, e o antissemitismo europeu aflora (*pogrom*), com violentos ataques contra comunidades judaicas na Europa.
Financeiramente, porém, as Cruzadas foram bem sucedidas, porque aumentou o poder do Papa sobre a população, e os nobres intensificaram o comércio com o Oriente. Novos produtos (açúcar, algodão, sedas, especiarias) e conhecimentos (medicina, matemática, filosofia) fluíram para a Europa.

Selo medieval com o símbolo dos dois cavaleiros templários montados em um cavalo
A Maçonaria foi criada na França no século XIII a partir dos sindicatos (“confrérie”) de operários da construção (“maçons” em francês). O objetivo era oferecer treinamento e assistências aos trabalhadores e padronizar o ofício do pedreiro.
Eles costumavam usar símbolos para proteger seus conhecimentos profissionais e se reuniam em oficinas nos canteiros de obras (“*loges”, *ou “lojas” em francês).
O mestre-de-obras francês *Villard de Honnecourt escreve em 1235 um caderno com várias anotações e símbolos secretos sobre seu ofício, que, assim como registros financeiros da construção da [Catedral de Notre-Dame* de Paris](https://pt.wikipedia.org/wiki/Catedral_de_Notre-Dame_de_Paris), são adotados pela Maçonaria posteriormente.
Abaixo fotos de marcas de *Tâcheron *(“construtor de pedras” em francês) encontradas nos tijolos de pedra das catedrais góticas francesas do século XIII, com símbolos de esquadro e compasso usados até hoje pela maçonaria.

Marcas de Tâcheron com símbolos de esquadro e compasso usados pela Maçonaria
Algumas vertentes da Maçonaria, como o Rito Escocês (REAA) por exemplo, reivindicam a herança simbólica dos Cavaleiros Templários. Mas apesar de incorporarem filosofias semelhantes, não existe comprovação histórica de associação direta entre esses grupos.
Até hoje a vasta maioria das Lojas Maçônicas no mundo proíbe estritamente a participação de mulheres.
Inquisição
Toda riqueza e poder acumulados pelos Templários gerou grande revolta nos nobres europeus.
No ano de 1231, o Papa Gregório IX centraliza e oficializa a Inquisição emitindo a bula Excommunicamus. A Inquisição autorizava tribunais de bispos e autoridades do governo a punir cidadãos. A Igreja julgava e o governo executava.

Bula “Excommunicamus et anathematizamus” do Papa Gregório IX expedida em 1231
“Excomungamos e anatematizamos todos os hereges, os cátaros, os patarinos, os pobres de Lião [valdenses], os josephinos, os arnaldistas, os espertos, os orleaneses, e outros sob qualquer nome que se chamem… E queremos e ordenamos que, tão logo sejam condenados por heresia, sejam deixados ao juízo secular para receber o devido castigo. (…) Os condenados… sejam recebidos pelas autoridades seculares ou seus agentes [Governo], e sejam punidos com a devida pena (debita animadversione puniendus). (…) Aqueles que recebem, defendem ou sustentam hereges… sejam excomungados… e se não derem satisfação no prazo de um ano, sejam declarados infames. (…) Os bens dos hereges condenados sejam confiscados.”
Bula “Excommunicamus et anathematizamus”, Papa Gregório IX, 1231
Estava focada nos dissidentes do sul da França quando foi criada, mas o controle de massas através da violência e do pavor se provou eficiente e por isso logo se espalhou pelos demais reinos da Europa, principalmente pela Espanha.
A maioria dos condenados recebiam pena de prisão, mas alguns milhares receberam a pena máxima de morte na fogueira, principalmente judeus.
A caça às feiticeiras ocorreu já na Era Moderna (séculos XVI) e era executada por tribunais civis e religiosos protestantes (por volta de 50.000 execuções), não necessariamente pela Igreja Católica.
Em 1307, o rei *Filipe IV da França e o [Papa Clemente V](https://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Clemente_V), destituem por completo a Ordem dos Templários, usando o tribunal medieval católico da Inquisição. Condenam dezenas de milhares de Templários à prisão e sentenciam dezenas à morte, incluindo o [Grão-Mestre Jacques de Molay](https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacques_de_Molay) *que foi queimado vivo.
A maioria das riquezas dos Templários volta para os nobres em forma de taxas, passando pela Ordem dos Hospitalários (ou Ordem de Malta), sediados por um tempo na Ilha de Malta, mas com exceções fora da Itália .

Ordem dos Hospitalários na Ilha de Malta
A Espanha, por exemplo, cria a Ordem de Montesa em 1317 para herdar esse patrimônio. E em Portugal, o patrimônio dos Templários vai para a Ordem de Cristo criada pelo rei Dom Dinis I em 1319.
Tráfico Negreiro
A Ordem de Montesa e a Ordem de Cristo herdam dos Templários uma enorme riqueza, incluindo terras, castelos, vilas e rendas.
Ao mesmo tempo que, de toda a Europa, Portugal e Espanha (Península Ibérica) eram os reinos mais desesperados por novas rotas marítimas, por serem os mais distantes das rotas das Especiarias da Índia e da China, comandadas pelos árabes e pelas cidades-estado italianas de Gênova e Veneza.

Rota da Seda chinesa (vermelha) e Rota das especiarias tropicais (azul) na Era Medieval
Por ser uma região marítima de clima temperado, Portugal produzia sal, vinho, azeite, cortiça, peixes salgados (sardinha e bacalhau), dentre outros. Mas tinham um pequeno acesso ao ouro dos africanos, e a aquisição de especiarias tropicais era por meio das altas taxas cobradas pelos italianos.
Com o dinheiro da Ordem de Cristo, começa então uma série de investimentos em navegação por parte dos nobres portugueses, com tendências claramente imperialistas e escravocratas.
Objetivavam inicialmente invadir e dominar a costa africana em busca de ouro e escravizados, e diminuir os intermediários no comércio com as Índias.

Nau portuguesa com a Cruz da Ordem de Cristo
O Infante D. Henrique, o quinto filho do rei D. João I de Portugal, e o Administrador Geral da Ordem de Cristo, patrocina pesquisas e viagens sistemáticas de exploração da costa africana a partir do porto de Lagos, vizinha a Sagres no sul de Portugal.
Coloniza a Ilha dos Açores em 1419 e da Madeira em 1427, onde começa a cultivar o açúcar.
Em 1434, os portugueses cruzam o Cabo *Bojador, e um novo capítulo da história se inicia. Os portugueses chegam ao centro comercial da [Baía de Arguim](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ba%C3%ADa_de_Arguim) *(atual Mauritânia), onde os árabes africanos já comercializavam ouro, especiarias e escravizados, tanto árabes quanto negros subsaarianos.

Invasões portuguesas ao litoral africano no início do século XIV, comandadas pelo Infante D. Henrique
Em 1444, a expedição de Lançarote de Freitas, patrocinada pelo Infante Dom Henrique, chega ao porto da cidade de Lagos com 235 escravizados africanos, capturados na região do Rio do Ouro (Saara Ocidental), iniciando o primeiro tráfico sistemático de escravizados do atlântico europeu.
A Coroa portuguesa detinha o monopólio real sobre o comércio com a África. Um quinto (20%) do lucro com os escravizados capturados pertenciam aos nobres.
A partir daí, são 444 anos de navios negreiros pelo Atlântico, num total aproximado de 12,5 milhões de pessoas escravizadas. Até 1888, com o Brasil sendo o último país do continente americano a abolir a escravidão.

Navio Negreiro do pintor alemão Johann Moritz Rugendas
Religião
Bento de Espinosa, filósofo holandês do século XVII, fala sobre a origem das religiões:
“Se os homens fossem capazes de exercer controle total sobre todas as suas circunstâncias, ou se tivessem sempre uma boa sorte, eles nunca seriam vítimas de superstição.” “A piedade e a religião assumem a forma de mistérios ridículos, e os homens que desprezam totalmente a razão e que rejeitam o intelecto como se fosse algo naturalmente corrupto, esses são os homens que as pessoas acabam acreditando que possuem a luz divina.” “Se essas pessoas possuíssem apenas uma centelha da luz divina, não se entregariam a tais delírios arrogantes, mas estudariam para adorar a Deus com mais sabedoria e para se destacar pelo amor, e não pelo ódio, como tem sido o caso.” Bento de Espinosa, século XVII
“Eu acredito no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia legal e ordenada do mundo, não em um Deus que se preocupa com o destino e as ações da humanidade.” Albert Einstein, 1929
Nós humanos, temos uma intolerância biológica contra a dúvida, a incerteza. Temos dificuldade de lidar com o que não conseguimos explicar. Rapidamente nos gera angústias e ansiedades inquietantes. Então temos tendência a sempre atribuir algum significado à nossa realidade, mesmo que místico e não necessariamente racional (Crença da Crença).
“O nosso cérebro e o nosso sistema nervoso constituem uma máquina geradora de crenças, um sistema que evolui não para garantir a verdade, a lógica e a razão, mas a sobrevivência.” A Máquina de Crenças, do psicólogo canadense James Alcock, 2024
Observe abaixo essa citação antiga de Aristóteles sobre as águas do Mar Morto:
“Há um lago na Palestina, tal que, se você amarrar um homem ou animal e jogá-lo nele, ele flutua e não afunda, o que confirmaria o que dissemos. Dizem que este lago é tão amargo e salgado que nenhum peixe vive nele, e que se você molhar roupas nele e sacudi-las, elas serão limpas.” Aristóteles, em “Meteorologia”, século IV a.C.
Agora compare a apropriação nesse versículo bíblico no Mar da Galiléia:
“Ele viu os discípulos remando com dificuldade, porque o vento soprava contra eles. Alta madrugada, Jesus dirigiu-se a eles, andando sobre o mar; e estava já a ponto de passar por eles. Quando o viram andando sobre o mar, pensaram que fosse um fantasma. Então gritaram, pois todos o tinham visto e ficam aterrorizados. Mas Jesus imediatamente lhes disse: “Coragem! Sou eu! Não tenham medo!” Evangelho de Marcos 6:48–50

Arte Sacra renascentista mostrando milagres de Jesus
Outro grande milagroso da antiguidade seria o lendário filósofo grego Pitágoras de Samos, que fundou a Escola Pitagórica em 530 a.C., uma sociedade filosófica secreta composta por várias mulheres, tanto mestras quanto discípulas (*Temistocléia, Teano, Melissa*, etc.).
Uma das inspirações para o cristianismo, Pitágoras, além de filho do deus Apolo, também era conhecido por vários milagres, incluindo a bilocação (capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo) e reencarnação (metempsicose).
“Ah, a metempsicose de Pitágoras! Que fosse verdade E esta alma abandonava-me, transformando-me eu Numa qualquer besta bruta.” A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, 1592
Não existem provas de que o profeta místico Pitágoras tenha realmente existido, nem que executou milagres ou criou teorias famosas. O que existem são várias evidências que ele não foi o autor do Teorema de Pitágoras, por exemplo.
Desde a Babilônia já temos tábuas com resoluções de cálculos envolvendo catetos e hipotenusas.
A tábua babilônica *IM 67118*, datada de 1770 a.C., mais de mil anos antes de Pitágoras, encontrada nas proximidades de Bagdá (no Iraque), contém uma solução usando diagonais, larguras e superfícies que calculam resultados corretamente. Encontra-se exposta no Museu do Iraque.

Tábua babilônica IM 67118, de 1770 a.C., contendo cálculos com o Teorema de Pitágoras
Antes de abraçar qualquer hipótese sobrenatural (Crenças Limitantes), é muito importante manter um equilíbrio entre fé e ceticismo e considerar todas as ideias plausíveis.
“Acreditar é tão louco quanto não acreditar.” Chico Xavier, líder da doutrina espírita Kardecista no Brasil
Fica a cargo da religião a função de ser acalentadora e protetora (Psicologia da Religião), de dar respostas a questões que não conseguimos responder de outras maneiras, de dar uma perspectiva de final feliz para os nossos sofrimentos (conforto existencial).
“A fé é a substância de coisas esperadas e o argumento das que não aparecem; e isso parece-me ser a essência da fé.” Paraíso (Divina Comédia), Dante Alighieri
“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem.” Epístola de Paulo aos Hebreus 11:1
São poucas as pessoas que têm a humildade intelectual de conviver com a própria ignorância, que não precisam da religião para sufocar suas inseguranças e terceirizar a própria salvação.
“Aqueles que renunciam à liberdade em troca de segurança acabarão sem uma nem outra.” Deus Não É Grande, escritor britânico Christopher Hitchens, 2007
“A religião se originou do desamparo da criança prolongado na idade adulta. No lugar do pai protetor da infância, o homem adulto põe o Deus, Pai, Todo-Poderoso, a quem se deveria louvar e dar graças em todo o tempo e lugar” O futuro de uma ilusão, psicanalista austríaco Sigmund Freud, 1927
Se o ser humano fosse onipotente e não se sentisse tão inseguro, talvez a religiosidade não fosse necessária.
“Deus não tem um deus.”
“Como ele poderia ser Deus se ele não sabia que era Deus? Da mesma forma, você poderia perguntar, como ele poderia ser humano se ele soubesse que era Deus? O que significa ser humano? Entre outras coisas, significa não ser capaz de saber (e fazer) tudo o que Deus sabe (e faz).” Como Jesus se tornou Deus, Bart Ehrman, 2014
A Aposta de Pascal, que diz que acreditar na existência de Deus é sempre mais vantajoso, não é verdade quando se pesa tantos e tantos dogmas limitantes que são impostos pela religião. Este é mais um dos argumentos terroristas usados pelos líderes religiosos para manter seu rebanho sob controle.
“Se acreditar em Deus e estiver certo, terei um ganho infinito; (…) se não acreditar em Deus e estiver errado, terei uma perda infinita.” Pensamentos, Blaise Pascal, 1657
Guerras Religiosas
No politeísmo, se para um fiel um deus estiver errado, não significa que os outros também estarão.
Nações politeístas em geral brigam por território e poder, mas praticamente não existem guerras religiosas entre diferentes Panteões de deuses.
Mas quando se trata de religiões monoteístas, que são muito mais recentes que o politeísmo, surgindo por volta de 3000 anos atrás, essas têm que ser necessariamente evangelizadoras para poderem prosperar.
Para cada religião monoteísta seu Deus é único e está sempre certo (Inerrância e Infalibilidade bíblicas).
“Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças;” Livro de Isaías 45:5
Pessoas que trazem dúvidas à sociedade geram perturbações e são em geral rechaçadas.
“O foco não está na história em relação com a realidade, mas sim na forma como funciona. Nunca será matéria de debate, muitas pessoas podem se irritar ao questionar a veracidade da história sagrada. Os guardiões dessa fé nunca participarão num debate com eles. Os questionadores serão ignorados, ou denunciados como blasfemos.” Zeitgeist (“espírito do tempo”), filme estadunidense, 2007
Os monoteístas, principalmente os teocratas, precisam se livrar de toda a dúvida e enfatizar fortemente suas mensagens para se expandir cada vez mais, exercer intensamente a pregação e divulgação de seu Deus indivisível (Fundamentalismo cristão).
“Jesus, tal como outros deuses pagãos, foi uma figura mítica. Foi sempre o poder político que procurou monopolizar a figura de Jesus para controle social.”
“Após as doutrinas políticas com motivação cristã serem estabelecidas (pelos imperadores romanos Constantino I e Teodósio I no terceiro século), começou uma longa história de derramamento de sangue e fraude espiritual. Nos 1600 anos que se seguiram, o Vaticano dominou politicamente, com uma guerra de estrangulamento, toda a Europa, conduzindo-a a um período de obscurantismo, através de eventos como as Cruzadas e a Santa Inquisição.” Zeitgeist (“espírito do tempo”), filme estadunidense, 2007
Quando o fundamentalismo passa de todos os limites e vira extremismo, esses buscam constantemente ampliar suas influências e converter todo e qualquer seguidor a qualquer preço, inclusive de formas extremamente imperialistas e escravocratas. E assim guerras religiosas entre os monoteístas se tornam constantes.
Exemplo de países atualmente extremistas e terroristas tem-se os Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, Israel, Paquistão, Irã, Afeganistão, Coréia do Norte, e vários outros.
Mesmo as Cruzadas e a Santa Inquisição tendo aniquilado a diversidade religiosa na Europa, ainda mais devastador culturalmente para o mundo foi o Imperialismo europeu após os anos de 1500, com a colonização das Américas e a escravização dos povos africanos.
Inclusive também ao transmitir, infelizmente, para uma colônia americana (os Estados Unidos) sua herança imperialista.
Para os Neocons estadunidenses (políticos Neoconservadoristas) é muito importante sempre criar forçadamente a propaganda, mesmo que falsa, de um inimigo em comum para manter a sociedade sob seu controle (Campanha do medo).
Apesar de não necessariamente se utilizarem da religião de forma direta para atingir seus planos de poder, os alvos ideológicos dos capitalistas nas últimas décadas foram os comunistas e depois os “terroristas”.
“Si vis pacem, para bellum” (“Se queres a paz, prepara-te para a guerra”) Ditado popular, escritor romano Flávio Vegécio, IV d.C.
A guerra é uma excelente ferramenta para alavancar lucro e controle. Desde a criação do Federal Reserve Act em 1913, que determinou a criação do seu Banco Central, os Estados Unidos começaram a se envolver incessantemente em guerras internacionais, e não pararam até hoje.
Para ilustrar, algumas dessas guerras mais recentes seriam: Guerra do Kosovo (1998), Guerra do Afeganistão (2001), Guerra do Iraque (2003), Guerra Israelo-Palestina (2021), etc..
“Acredito que as instituições bancárias são mais perigosas aos países do que os exércitos.” Thomas Jefferson, estadista estadunidense, século XIX
“Os grandes interesses bancários estiveram na raiz da Grande Guerra, por causa das grandes oportunidades de lucro.” William Jennings, secretário de estado dos EUA, 1913
“A grande indústria está controlada pelo sistema de crédito, que está concentrado privadamente. O crescimento da nação está nas mãos de alguns homens, todas as conveniências estão centradas nos empreendimentos onde seu próprio dinheiro está envolvido e acabam destruindo a verdadeira economia livre. Nós acabamos por ser um dos governos mais controlados do mundo civilizado, pela opinião e dureza de um pequeno grupo de homens dominantes.” Woodrow Wilson, 28º presidente dos Estados Unidos, 1913
“A Primeira Guerra Mundial (1914) causou 323 mil mortes entre os estadunidenses. J.D. Rockfeller lucrou o equivalente a cerca de 3 bilhões de dólares no padrão atual (anos 2000). E a guerra custou 400 bilhões de dólares ao estado (atualizado), em sua maioria emprestados pelo Banco Central estadunidense (Federal Reserve) a juros, promovendo ainda mais lucro aos banqueiros internacionais. (…) Na Segunda Guerra Mundial (1939), a família do presidente Franklin Roosevelt era composta por banqueiros de Nova York desde o século XVIII. Três dias antes do ataque japonês à base naval de Pearl Harbor no Havaí, a inteligência australiana informou o presidente Roosevelt sobre o ataque e ele ignorou. Os feitos de guerra da Alemanha foram apoiados por uma empresa chamada I.G. Farben, que produziu 84% dos explosivos da Alemanha. A Standart Oil Company de J.D. Rockefeller vendia combustíveis para a I.G. Farben. Os negócios estadunidenses financiavam os dois lados da Segunda Guerra Mundial. O Union Bank de Nova York, cujo vice-presidente era o pai do presidente George Bush, foi denunciado publicamente por ter lavado dinheiro do partido Nazista de Hitler” Zeitgeist (“espírito do tempo”), filme estadunidense, 2007
O imperialismo europeu moldou a cultura e a mentalidade dos povos colonizados nas Américas.
Enquanto na China, um povo que já foi invadido e dominado várias vezes durante sua história, o Confucionismo milenar moldou a mentalidade chinesa, baseado no coletivismo como condição de sobrevivência. A ordem trazida pela existência de um governo soberano, traz o sentimento libertador de paz, onde o caos da guerra ainda acarreta em traumas nas gerações atuais.
Já para os capitalistas do ocidente, o conceito de liberdade é individualista. Prezamos pela autonomia do indivíduo e repelimos governos controladores e autoritários.
Anne Morelli, historiadora belga especialista em crítica histórica aplicada à mídia moderna, descreveu explicitamente os 10 “mandamentos” da propaganda de guerra:
- Não queremos guerra, estamos apenas nos defendendo!
- Nosso adversário é o único responsável por esta guerra!
- O líder do nosso adversário é inerentemente mau e se assemelha ao diabo
- Defendemos uma causa nobre, não nossos interesses particulares!
- O inimigo está cometendo atrocidades propositalmente; se estamos cometendo erros isso acontece sem intenção
- O inimigo faz uso de armas ilegais
- Sofremos poucas perdas, as perdas do inimigo são consideráveis
- Intelectuais e artistas reconhecidos apoiam nossa causa
- Nossa causa é sagrada
- Quem duvida da nossa propaganda ajuda o inimigo e é um traidor
Princípios elementares da propaganda de guerra, historiadora das religiões belga Anne Morelli, 2001
A ideologia religiosa quando não é utilizada diretamente, está sempre permeando a propaganda de guerra capitalista. Não importa nem se os próprios comandantes da guerra são ateus.
“Deus, pátria e família” Slogan propagandista do regime fascista italiano, de 1922 a 1943, do ditador ateu Benito Mussolini

Lema do fascimo italiano copiado pelos movimentos ultranacionalistas brasileiros, da AIB e atuais
“Não se fica rico escrevendo ficção científica. Se você quer ficar rico, comece uma religião” Escritor estadunidense L. Ron Hubbard, fundador da Igreja da Cientologia
Os maiores problemas de uma religião são quando ela gera preconceito contra outras religiões (Intolerância Religiosa) e quando ela tenta interferir na política de uma sociedade (Teocracia).
“Os sete montes da sociedade são: religião, cultura, entretenimento, economia, educação, política e família. Grande parte dos pastores ficaram no monte da religião, se alienaram do que está acontecendo. Mas eu não.” Silas Malafaia, psicólogo, teocrata e empresário neopentecostal Presidente da igreja/empresa Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), CNPJ: 34.292.797/0001–60

Cena do documentário “Apocalipse nos Trópicos” de 2025, da cineasta Petra Costa
“Todas as religiões são contra as mulheres, todas seguem o racismo, a opressão de classes. Os livros sagrados são políticos, religião é uma ideologia política, não moral. Não existe ética na religião, existe ética na política? Não há separação real. Governos não podem existir sem religião. Eles precisam de Deus o tempo todo para justificar injustiças. Quando você usa Deus para oprimir as mulheres, oprimir os pobres, todo mundo tem medo de criticar, e de se arrepender. Opressão não é liberdade de escolha.” Nawal al-Sa’dawi, psiquiatra feminista egípcia, 2025
O Brasil é um Estado Laico desde a sua criação como república federativa, em 1889. A Constituição Brasileira garante a liberdade de crença, o livre exercício dos cultos religiosos e proibe qualquer tipo de discriminação religiosa.
“O Rei não é mais a Lei, agora a Lei é o rei.”
“Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa” Fragmento do Artigo 5º Inciso VIII, Constituição Federal
“E Jesus, disse-lhes: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” Evangelho de Marcos 12:17
A forma de interpretar um texto reflete muito mais as ideias do leitor do que as ideias do próprio texto. Um extremista terrorista e violento pode achar respaldo nas palavras dos livros sagrados das religiões e promover guerras em seu nome (Guerras Santas). Mas outros, preferem interpretar a Bíblia cristã com palavras de paz.
A belíssima oração abaixo foi pseudoepigrafada paradoxalmente durante a Primeira Guerra Mundial, como sendo do frade italiano Francisco, da cidade de Assis, porque se aplicava perfeitamente à biografia relacionada a ele.
“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei que eu procure mais: Consolar, que ser consolado; Compreender, que ser compreendido; Amar, que ser amado. Pois é dando, que se recebe. É perdoando, que se é perdoado. E é morrendo, que se vive para a vida eterna.”
Hino à paz, pseudoepígrafa do frade Francisco de Assis, 1912

Publicação do Hino da Paz no periódico italiano “L’Osservatore Romano” de 1916
Profecias Apocalípticas
É bastante grande a parcela da humanidade que sempre acreditou, e até hoje acredita, que um Messias virá salvar a humanidade, independentemente dos que já vieram no passado.
São convictos inclusive que essa vinda será em breve, nas próximas décadas, ainda enquanto estiverem vivos.
“² Porque eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada, e as casas serão saqueadas, e as mulheres forçadas; (…) ⁴ E naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras, que está defronte de Jerusalém para o oriente; (…) ⁹ E o Senhor será rei sobre toda a terra; naquele dia um será o Senhor, e um será o seu nome. ¹¹ E habitarão nela, e não haverá mais destruição, porque Jerusalém habitará segura. ¹² E esta será a praga com que o Senhor ferirá a todos os povos que guerrearam contra Jerusalém: a sua carne apodrecerá, estando eles postados de pé, e lhes apodrecerão os olhos nas suas órbitas, e a língua lhes apodrecerá na sua boca.”
Essa era a crença de Jesus e seus discípulos (*Zeitgeist *de Jesus).
Segundo *Albert Schweitzer*, em seu livro de 1906 “A Busca do Jesus Histórico”, Jesus foi um pregador judeu apocalíptico (Escatologia Judaica), sua mensagem principal era que o fim dos tempos estava próximo, e que Deus iria intervir logo no mundo para vencer o mal e reestabelecer seu Reino na Terra, nos moldes do antigo reino de Davi e de seu herdeiro Salomão. Jesus e seus discípulos acreditavam que esse fim dos tempos iria acontecer durante suas vidas (Apocalipse Iminente).
O Evangelho de Mateus replica a mesma profecia apocalíptica do Antigo Testamento, feita pelo Livro de Zacarias sob o Monte das Oliveiras em Jerusalém (Discurso Escatológico do Monte).
“³E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo? ²¹Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio dos tempos até agora, nem tampouco há de haver. ²⁸ Porque onde quer que estiver o cadáver, ali se ajuntarão as águias. ²⁹ E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas. ³⁰ Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. ³³ Igualmente, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo, às portas. ³⁴ Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam. ⁴² Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor. ⁵⁰ Virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe”

Foto do Monte das Oliveiras e sua vista para a atual cidade de Jerusalém
É muito importante ressaltar aqui que a expressão “fim do mundo” usada no versículo 3 acima (“que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?”) na verdade é mais um leviano erro de tradução da Bíblia.
A palavra “αιωνοϲ” (“aionos” em grego), dos manuscritos mais antigos do Evangelho de Mateus, deve ser traduzida pela palavra “era” e não “mundo”, como foi feito nas futuras traduções para o inglês e português. Ou seja, o versículo correto seria: “que sinal haverá da tua vinda e do fim da era?”
Assim como a tradução da palavra “ελεων” (“eleōn” em grego) que significa “misericórdia” (monte da misericórdia), e não “Ελαιών” (“Elaión”, em grego) que pode ser traduzido por “Oliveira” (Monte das Oliveiras).
A versão mais antiga que temos desse versículo, escrita em grego koiné, seria a do *Codex Sinaiticus do século IV d.C. Observe as palavras “era” (“αιωνοϲ”) e misericórdia (“ελεων*”) na transcrição grega abaixo:
“καθημενου δε αυτου επι του ορουϲ τω ελεων προϲηλθο αυτω οι μαθηται καθ ϊδιαν λεγοντεϲ ειπε ημιν ποτε ταυτα εϲτε και τι το ϲημιον τηϲ ϲηϲ παρουϲιαϲ και ϲυντελιαϲ του αιωνοϲ” Versão grega de Mateus 24:3, presente no Codex Sinaiticus

Codex Sinaiticus digital, com versão do evangelho de Mateus 24:3 escrito em grego no século IV d.C.
A palavra apocalípse (“ἀπο κάλυψις”, “apo kálypsis” em grego) na verdade significa descobrir, revelar, e não é sinônimo de fim dos tempos.
Mas para os crentes, não faltam datas para o fim do mundo. Tudo de mal que acontece já são as profecias apocalípticas se concretizando para a chegada do salvador.
Nessas condições, para essas pessoas, planejar um futuro sustentável para a humanidade torna-se de certa forma paradoxal.
“E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho.” Evangelho de Marcos 1:15
“Nada é mais proeminentemente apresentado no Novo Testamento do que a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo.” John Nelson Darby, escritor protestante britânico do século XIX
O Livro do Apocalipse é um livro chave para os fundamentalistas. Para essas pessoas as coisas vão piorar até a chegada do fim do mundo, e por isso não há motivo para promoverem a paz. Quanto pior as coisas ficarem na Terra, mais rápido será o retorno de Jesus.
“O cristianismo tem um apelo popular forte porque é uma religião de aspecto apocalíptico, onde uma intervenção divina inverterá radicalmente as coisas que estão muito ruins e mudará tudo para melhor.” filosofia alemã Zeitgeist (“espírito do tempo”)
Através do Arrebatamento Cristão, os líderes religiosos evangélicos e pentecostais, tentam fazer as pessoas acreditarem que somente os fiéis à sua doutrina serão salvos por Deus na hora do fim do mundo (Fraude Espiritual).
“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor.” Primeira Epístola da Paulo aos Tessalonicenses 4:16,17
Os demais (que não forem evangélicos), incluindo ateus, agnósticos e pessoas de outras religiões, permanecerão na Terra para o período de maior aflição e sofrimento que já houve na estória (Grande Tribulação).
“Mas, quanto aos covardes, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte.” Livro do Apocalipse 21:8
O conceito de Juízo Final vem do Zoroastrismo persa (*Frashokereti*), mas foi abraçado fortemente pelos cristãos e adicionado à vários livros da Bíblia.

Imagens persas do Frashokereti, o Juizo Final do Zoroastrismo
“O Cristianismo sustenta a submissão cega do ser humano à autoridade. Reduz a responsabilidade humana sob a premissa de que ‘Deus’ controla tudo, e que por sua vez os crimes mais terríveis podem ser justificados em nome da perseguição Divina. E o mais importante, dá o poder àqueles que sabem a verdade, e usam o mito para manipular e controlar sociedades.” Zeitgeist (“espírito do tempo”), filme estadunidense, 2007
Na verdade as três religiões abraâmicas são extremamente apocalípticas. O Alcorão também tem várias citações intimidadoras que espalham um medo profundo do juízo final.
“إِذَا وَقَعَتِ ٱلْوَاقِعَةُ لَيْسَ لِوَقْعَتِهَا كَاذِبَةٌ خَافِضَةٌۭ رَّافِعَةٌ إِذَا رُجَّتِ ٱلْأَرْضُ رَجًّۭاوَبُسَّتِ ٱلْجِبَالُ بَسًّۭا أُو۟لَـٰٓئِكَ ٱلْمُقَرَّبُونَ فِى جَنَّـٰتِ ٱلنَّعِيمِ” (Quando o Inevitável acontece, não há como negar sua ocorrência. Degradante (para uns) e exultante (para outros). Quando a terra é abalada por um poderoso tremor e as montanhas são reduzidas a pó, (…) (os crentes) Esses são os que se aproximam [de Allah] nos Jardins das Delícias.) Surah Al-Waqi’ah, Alcorão 56:1–4, 11–12
Era de Aquário
Desde o início das civilizações, a humanidade já tem conhecimento sobre os equinócios solares, ou seja, os dois dias do ano em que o dia e a noite têm a mesma duração.
Mais precisamente, é quando a Terra está passando pelo exato meio de sua órbita elíptica com relação ao Sol, o que geralmente ocorre nos dias 20 de março e 22 de setembro.
Por outro lado, os Solstícios são os dois dias do ano em que a Terra está mais distante ou mais perto do Sol (por volta de 21 de julho e 21 de dezembro respectivamente).
Figura esquemática representando a órbita da Terra com seus equinócios e solstícios
Sabemos que o clima e as estações do ano são sempre opostas entre os hemisférios norte e sul da Terra, justamente por causa dessa órbita elíptica e da inclinação do eixo axial da Terra (a linha imaginária que vai do Polo Sul ao Polo Norte).
Por isso, quando nós aqui no Brasil, no hemisfério sul, estamos no inverno, os países do hemisfério norte estão no verão, e vice-versa. Ou ainda, quando as civilizações do hemisfério sul comemoram o seu equinócio de outono, as civilizações do hemisfério norte celebram o seu equinócio de primavera.
Praticamente todas as civilizações humanas possuem seus calendários específicos e contam a passagem dos dias de suas formas características. Mas é interessante observar que são muitas as civilizações que contam a mudança de ano, e que celebram o Ano Novo, exatamente nos seus equinócios de primavera (ou Ponto Vernal).
Em geral fazem isso porque esta é a época do ano em que os ecossistemas da Terra florescem, transitam da escassez do inverno frio para a abundância da primavera fértil.
Não é o nosso caso aqui, nas civilizações ocidentais atuais. Mas é o caso de muitas outras civilizações, antigas e contemporâneas, que possuem, por exemplo, as festividades abaixo:
— *Nowruz, o ano novo do calendário persa — [Akitu,](https://pt.wikipedia.org/wiki/Aquitu) festival da cevada, da primavera e ano novo da antiga Mesopotâmia — [Mensis Martius](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Martius_(month)?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc) (ou “mês de março” em latim), primeiro mês do ano para os antigos romanos, o mês da constelação do deus Marte — [Baisakhi](https://pt.wikipedia.org/wiki/Vaisakhi) para os hindus, festa do Ano Novo Solar Indiano ([Mesha Sankramana](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Mesha_Sankranti?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc)) — [Shunbun no Hi](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Vernal_Equinox_Day?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc) (“春分の日” ou “Dia do Equinócio Vernal”), relacionado ao xintoísmo japonês, quando acontece a florada das cerejeiras no Japão ([Sakura](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sakura_(cerejeira))) — dia da aparição da [serpente sagrada Kukulkán,](https://pt.wikipedia.org/wiki/Kukulc%C3%A1n) no templo piramidal de [Chichén Itzá](https://pt.wikipedia.org/wiki/Chich%C3%A9n_Itz%C3%A1), a antiga capital dos povos Maia — [Ostara](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ostara), o festival medieval da deusa da fertilidade [Eostre](https://pt.wikipedia.org/wiki/Eostre)*, dos antigos povos germânicos, quando os coelhos se acasalavam em março, e se decoravam ovos de pássaros para comemorar, o que virou hoje os nossos rituais da Páscoa cristã.
Foto abaixo do solstício de verão em *Stonehenge (dia mais longo do ano), um calendário para os antigos britânicos, onde o sol nasce exatamente sobre a Pedra do Calcanhar (Heel Stone*), que fica fora do círculo de pedras.
Ao lado, o Templo de *Kukulkán, em [Chichén Itzá](https://pt.wikipedia.org/wiki/Chich%C3%A9n_Itz%C3%A1) no atual México, uma pirâmide Maia dedicada à serpente sagrada (“[Kukulkán](https://pt.wikipedia.org/wiki/Kukulc%C3%A1n)*”), que surge iluminada pelo Sol exatamente nos dias dos equinócios, tanto de primavera quanto de outono.
Abaixo um *Torii, portal xintoísta japonês, rodeado pelas cerejeiras floridas nos dias do [Sakura](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sakura) Matsuri* (festival da florada das cerejeiras).
E por último uma imagem da deusa *Eostre, no dia da [Ostara](https://pt.wikipedia.org/wiki/Ostara)*, rodeada por coelhos no cio e ovos de pássaros decorados.

Fotos de Stonehenge, da serpente no Templo de Kukulkán, de um Torii na Sakura e da deusa Eostre na Ostara
O Ano Novo dos cristãos, o dia 1 de janeiro, oficializado pelo calendário gregoriano da Igreja Católica desde 1582, vem do seu predecessor, o calendário juliano, implantado pelo ditador romano *Júlio César* em 45 a.C., que mudou o ano novo romano de março (mês do deus Marte da fertilidade) para janeiro, para homenagear o deus Jano, das mudanças e dos começos.
Os calendários tanto gregoriano quanto juliano são calendários solares, que se baseiam nos movimentos do Sol para a contagem do tempo.
Já o calendário egípcio (o mais antigo do mundo, desde 7000 a.C.), e os calendários judaico, islâmico e chinês, utilizados até hoje, são calendários lunissolares que se baseiam também nos movimentos da Lua. Por isso o *Rosh Hashaná, o ano novo judaico, [Al-Hijra](https://en-m-wikipedia-org.translate.goog/wiki/Islamic_New_Year?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc), o Ano Novo islâmico e o Ano Novo Chinês (“春节”, “Chūnjié*”, ou “Festival da Primavera”), não seguem equinócios solares para determinar a virada de ano.
Para complicar ainda mais, os equinócios e solstícios na verdade mudam de data lentamente com o passar dos milênios. Ou seja, a cada 2150 anos a ocorrência desses fenômenos retrocedem em um mês.
Dois milênios atrás, o equinócio de outono aqui no hemisfério sul (ou o equinócio de primavera do hemisfério norte) ocorria em abril, um mês depois do que é hoje.
Os antigos já conheciam esse fenômeno milenar relacionado aos movimentos celestes, mesmo sem ter conhecimentos mais avançados de astronomia, ou mesmo antes de saber que a Terra é redonda.
Como hoje já conhecemos os movimentos de rotação, sabemos que esse deslocamento dos equinócios e solstícios se deve a um movimento da Terra chamado de Precessão.
Precessão é aquele movimento de cambaleio que um pião executa quando está girando no chão. Ou seja, além das voltas da rotação, a Terra também “cambaleia” lentamente em torno de si mesma, sob o seu eixo axial.

Movimento de Precessão da Terra e a posição das constelações zodiacais no céu
O movimento de precessão da Terra é um movimento retrógrado, que faz com que aparentemente as constelações “retrocedam” de posição no céu durante os milênios, gerando o que os astrólogos chamam de Eras Astrológicas.
Quando a Astrologia foi inventada na Mesopotâmia, mais de 3 mil anos atrás, o Sol “entrava” na frente da constelação de Capricórnio durante os meses de Dezembro e Janeiro. Por isso que esses foram os meses definidos para o signo zodiacal de Capricórnio pelos mesopotâmicos.
Hoje, nessa mesma época do ano, o Sol “entra” na frente da constelação de Sagitário durante os meses de Dezembro e Janeiro, mas os astrólogos decidiram manter o zodíaco da mesma forma que era quando foi inventado.
Imagem abaixo da tela de um aplicativo de celular chamado *Stellarium*, que mostra os astros e constelações do céu em tempo real.
A imagem demonstra que a localização do Sol estava “à frente” da constelação de Sagitário no dia 1 de janeiro de 2025. E não mais “à frente” da constelação de Capricórnio como era antigamente nos tempos das civilizações mesopotâmicas.

Sol “à frente” da constelação de Sagitário em janeiro de 2025. observada pelo app Stellarium
Os antigos também já chamavam de Era os séculos em que os equinócios aconteciam no mesmo mês do ano. Ou seja, quando o Equinócio de Primavera mudava de mês (o Ponto Vernal), aproximadamente a cada dois mil anos, eles já diziam que estavam entrando em uma nova Era.
De 4300 a 2150 a.C, as civilizações antigas chamavam esse período de “Era de Touro”, a era das civilizações sumérias, egípcias, hindus, etc..
Touro era o primeiro signo do zodíaco para os sumérios, quando eles comemoravam a chegada da primavera lá no hemisfério norte e o começo de um novo ciclo anual.
Também chamado de Gugalana (“O Grande Touro do Céu”), o Touro Sagrado é uma simbologia da constelação de Touro (Taurus) presente em várias culturas da antiguidade.
Hoje, o Ano Novo astrológico começa com o signo de Áries, justamente por causa do movimento de precessão da Terra.

O Gilgamesh sumério e o Mithra romano matando touros (tauroctonia), simbolizando o fim da Era de Touro
O período de 2150 a.C. até o ano 1 d.C. foi chamado de “Era de Áries”. A Era do desenvolvimento da Grécia antiga, do surgimento do judaísmo com o êxodo de Moisés, do nascimento de Budha, etc.
A Era de Áries terminou exatamente no século do nascimento de Jesus, nos primórdios do Cristianismo.
De 1 d.C. até os dias de hoje, estamos na “Era de Peixes”, era da queda do Império Romano, do surgimento do Cristianismo e do Islamismo, do imperialismo nas Américas, da escravização dos negros africanos, da ascenção do capitalismo, etc.
Foto abaixo à esquerda do Mosaico de Megiddo datado de 230 d.C.. É a primeira representação cristã já encontrada usando o símbolo dos dois peixes, localizado na Igreja de Megiddo, no atual Israel.
E ao lado o símbolo *Ichthys (acrônimo “ΙΧΘΥΣ*”, ou a palavra “peixe” em grego), também um dos primeiros símbolos do cristianismo.

Mosaico de Megiddo com os dois peixes e o símbolo Ichthys que representa o cristianismo
O ano de 2150 d.C. (até 4300 d.C.) será o início de uma nova era, a tão esperada “Era de Aquário”, em que os astrólogos preveem um tempo de mais humanidade, mais sabedoria e consequentemente mais paz para o mundo (*New Age*).
Há várias referências astrológicas na Bíblia. A palavra “era” é uma dessas referências que aparece várias vezes em vários versículos, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.
Mas infelizmente, em quase todas as traduções da Bíblia, a palavra “era” foi corrompida.
Durante as inúmeras traduções e cópias dos manuscritos bíblicos, principalmente na tradução para o inglês (na Bíblia do Rei *James do século XVII), a palavra “era” (“עוֹלָם”, “olam” em hebraico, ou “αἰῶνι”, “aiōni” em grego) foi adulterada e transformada na palavra “mundo” (“world” em inglês) e não em “age*” (“era” em inglês).
Observe o versículo 20, do capítulo 28 do Evangelho de Mateus traduzido para o português de forma adulterada::
“(…) e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação do mundo. Amém.” Evangelho de Mateus 28:20, tradução atual incorreta da Bíblia
Agora observe sua versão em hebraico e a versão do Codex Sinaiticus em grego, séculos antes das traduções para o inglês e português:
“וְהִנֵּה אָנֹכִי עִמָּכֶם כָּל הַיָּמִים עַד קֵץ הָעוֹלָם” (vehina enochi imahem kal hayamim ad katz ha’olam) Evangelho de Mateus 28:20, versão em hebraico
“και ϊδου εγω ειμι μεθ υμων παϲαϲ ταϲ ημεραϲ εωϲ τηϲ ϲυντελειαϲ του αιωνοϲ” (kai idoú, egó eímai meth’ ymón pásas tas iméras, éos tis synteleías tou aiónos) Evangelho de Mateus 28:20, versão em grego koiné do Codex Sinaiticus
E por último a tradução realizada para o inglês da Bíblia do Rei James, no século XVII:
“and, lo, I am with you alway, even unto the end of the world. Amen.” Mathew 28:20, King James Bible, tradução adulterada
A tradução correta deveria ter sido:
“And lo, I am with you, all the days, to the conclusion of the age.”
Que quer dizer:
“e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação da era.” Evangelho de Mateus 28:20, tradução correta para o português
Perceba a enorme diferença que uma única palavra é capaz de fazer. Dimensione as gravíssimas consequências que essa adulteração causou e ainda causa para toda uma sociedade cristã baseada no pavor da chegada de um apocalípse de fim de mundo. Ao invés de estar esperando a simples chegada de uma nova Era, de mais harmonia entre sociedades que já estão mais evoluídas religiosa e filosoficamente.
Um outro versículo que também foi vítima de uma clara e proposital adulteração da palavra “era” na Bíblia, Mateus 12:32:
“Mas qualquer que falar contra o Espírito Santo, não será perdoado, nem neste século nem no futuro.” Evangelho de Mateus 12:32, versão atual adulterada
Versão em hebraico: ”אבל מי שמדבר ברוח הקודש לא ייסלח לו, לא בעולם הזה ולא בעולם הבא” (abel mi shmadvar bruch hakodsh le yislach lu, le be’ulam haza vele be’ulam haba)
E então a tradução correta: “Mas qualquer que falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem nesta era nem na era vindoura.”
Não dá para negar que as traduções da Bíblia tentaram imputar forçosamente uma ideia apocalíptica extremamente violenta, enquanto a mensagem original na verdade falava sobre o fim de uma era. No caso, o fim da Era Cristã (ou da Era de Peixes).
As profecias apocalípticas bíblicas da antiguidade não queriam dizer que o mundo iria acabar, mas sim, provavelmente, que o cristianismo vai deixar de reinar no ocidente quando a nova era chegar, a Era de Aquário.

Chegada da Era de Aquário em 2150 d.C.
A única religião que foi capaz de sobreviver a várias eras da humanidade e ainda é altamente ativa até hoje é o Hinduísmo.
Uma das religiões mais antigas do mundo, tem suas raízes no Vale do Indo (atual Índia) por volta de 3300 a.C..
Com mais de um bilhão de fiéis atualmente, os politeístas hindus têm uma mentalidade altamente flexível e adaptável às mudanças. Conseguiram lidar e superar as inúmeras influências externas, mesmo quando sob o domínio de outras culturas, como por exemplo, quando foram colonizados pelos violentos imperialistas ingleses, ou quando foram invadidos por extremistas islâmicos.
Fotos abaixo dos banhos hindus no sagrado Rio Ganges em *Varanasi; do [Templo hindu de Akshardham](https://pt.wikipedia.org/wiki/Templo_de_Akshardham) em Nova Delhi; do líder anticolonialista [Mahatma Gandhi](https://pt.wikipedia.org/wiki/Mahatma_Gandhi), criador do movimento [Satyagraha](https://pt.wikipedia.org/wiki/Satiagraa), de resistência não violenta na Índia; e da Grande Estátua de [Brahma](https://pt.wikipedia.org/wiki/Brama) *na Tailândia, o deus da criação do hinduísmo.

Fotos do Rio Ganges, do Templo de Akshardham, de Mahatma Gandhi e da Grande Estátua de Brahma
Apoteose, o Pecado Original
A estória de Jesus de Nazaré e de seus apóstolos é recheada de extrema violência, barbárie e sofrimento, assim como várias outras estórias da antiguidade.
Infelizmente essa é a forma que os fiéis mais se identificam com seus heróis.
“Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa estranha vos acontecesse. Pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também vos alegreis e exulteis na revelação da sua glória” Primeira Epístola de Pedro 4:12,13
“Porque a vós vos foi concedido, em relação a Cristo, não só crer nele, como também padecer por ele” Epístola de Paulo aos Filipenses 1:29
Os tribunais da Inquisição cristã e suas monstruosas execuções, assim como os tribunais romanos e suas arenas, e tantos outros da história, na verdade refletem o que as doutrinas expressam naturalmente entre seus crentes.
“A Bíblia é um livro extremamente violento e mentiroso, deveria ser proibido para crianças”
Religiosos doutrinam seus fiéis a jamais questionarem suas crenças e seus livros sagrados, de forma totalmente inflexível, condenando-os a penas terríveis e amedrontadoras caso o façam.
“O dogma é uma verdade de fé inquestionável, um acordo entre a liderança do magistério. Religião não é uma banca de feira, onde você passa e escolhe apenas aquilo que agrada aos seus olhos. Aceite a banca por completo, a religião não permite que você escolha.” Psicanalista católico Padre Fábio Marinho, 2025
Isso porque os dogmas pregados por praticamente todas as religiões são altamente mitológicos, misturados com poucas pinceladas de histórias reais.
“Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não semeei;” (…) “Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado, mas ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado. E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim.” Evangelho de Lucas 19:22,26,27
“Qualquer, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, nunca obterá perdão, mas é culpado do eterno juízo” Evangelho de Marcos 3:29
Nas igrejas é incentivado ao religioso não fazer nenhuma checagem de *fake news*, mas simplesmente acreditar em tudo o que é dito em nome da fé (Fé Absoluta), o inverso da Sindrome de Tomé.
Os próprios evangelhos explicitam que foram escritos para arrebatar fiéis e convencê-los a acreditar nas estórias de Jesus, mas não necessariamente para serem relatos históricos.
“Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” Evangelho de João 20:29,31
“Um dos efeitos verdadeiramente ruins da religião é que ela nos ensina que é uma virtude estar satisfeito em não compreender.” Deus, um Delírio — biólogo britânico Richard Dawkins, 2006
A doutrinação religiosa faz com que o fiel se sinta vigiado em tempo integral (Olho de Deus), até mesmo dentro de seus pensamentos (onisciência divina).
Primeira imagem abaixo do Olho de *Hórus, um amuleto egípcio que representa o olho humano associado ao olho da águia, significando que o deus Hórus *pode ver além do alcance humano.
A imagem do meio é o Olho da Providência, o “olho que tudo vê”, que aparece nas notas de 1 dólar estadunidense, representando a vigilância constante do Deus cristão sobre seus fiéis.
E a imagem à direita é da nebulosa de *Hélix, apelidada de “Olho de Deus”, foto tirada em 2002 pelo telescópio [Hubble](https://pt.wikipedia.org/wiki/Telesc%C3%B3pio_espacial_Hubble)*.

Olho de Hórus, Olho da Providência e Olho de Deus, respectivamente
A Culpa Religiosa Tóxica é a sensação do fanático religioso de que está sendo sempre observado e monitorado por cada ação, pensamento ou desejo, criando divisões artificiais (Separação entre Carne e Espírito) e gerando conflitos internos grandiosos que levam à profunda autoalienação.
“Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais as coisas que quereis.” Epístola de Paulo aos Gálatas 5:17
“Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo.” Deus Não É Grande, escritor britânico Christopher Hitchens, 2007
O dogma do Pecado Original e do Fruto Proibido (Árvore do conhecimento do bem e do mal) são reflexos da ideia de que se um fiel buscar o conhecimento, a realidade histórica dos contos bíblicos, a verdade por trás das palavras do livro sagrado (o conhecimento do mal), este fiel estará incorrendo no grande Pecado Original (“sereis como Deus, sabendo o bem e o mal”).
Um crente que busca a verdade sobre sua religião estará blasfemando contra o Espírito Santo, desobedecendo as leis de Deus (Revelação Divina). E as consequências serão altamente trágicas, como ser expulso do paraíso (jardim do Éden).
“E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” Livro do Gênesis 2:9
Mas a serpente (representação do demônio para os cristãos) já alertava à Eva que o fruto do bem não mata e só o conhecimento salva, fato este que Eva concordou prontamente.
“Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.” Livro do Gênesis 3:4–6
Mas o Deus antagonista não perdoou a afronta e entendeu que isto era um risco à sua própria divindade, e puniu toda a humanidade severamente.
“O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.” Livro do Gênesis 3:23,24
“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram.” “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir.” Epístola de Paulo aos Romanos 5:12 e 14
E no caso das mulheres, a punição é ainda maior.
“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” Livro do Gênesis 3:16
Até hoje milhões de mulheres são assassinadas por causa dessa absurda punição lendária.
Quando o medo e a moralidade são disparados juntos, a lógica e o pensamento crítico perdem força, desencadeando reações mais rápidas e impulsivas. Na Neurociência isso é chamado de Manipulação da Amígdala (ou Sequestro Emocional). É o processo onde impressões sensoriais são enviadas diretamente do tálamo à amígdala cerebral, antes de serem plenamente processadas pelo neocórtex.
“Em um sentido muito real, temos duas mentes: uma que pensa e uma que se sente. Se suas habilidades emocionais não estiverem sob controle… não importa o quão inteligente você seja, você não irá muito longe” Inteligência Emocional, Daniel Goleman, 1995
“Não se arrependa do ontem. A mente, quando tem uma experiência antiga, adicionará esses dados à sua experiência atual e continuará a ter respostas erradas.” Dianética: A Ciência Moderna da Saúde Mental, escritor estadunidense L. Ron Hubbard, 1950
Existe um evangelho apócrifo datado do segundo século, dito como escrito pelo apóstolo Tomé, que em sua maior parte reproduz o conteúdo dos outros quatro evangelhos canônicos, mas o conteúdo restante, porém, é bastante afrontoso para o pensamento limitador da Igreja Católica.
Nesse Evangelho de Tomé, o cristão é empoderado a pensar e adquirir conhecimento, enfatizando no enorme poder que a mente pode atingir.
“¹ Aquele que descobrir o significado desses ditos não provará a morte. ⁵ Reconheça o que está diante de teus olhos, e o que está oculto a ti será desvelado. Pois não há nada oculto que não venha ser manifestado ⁵⁰ Quando fizerdes de dois, um, vos tornareis filhos do homem, e quando disserdes: ‘Montanha, move-te!’, ela se moverá. ⁷⁰ Se trouxerdes à tona o que está dentro de vós, o que trouxerdes salvar-vos-á. Se não trouxerdes à tona o que está dentro de vós, o que não trouxerdes destruir-vos-á.” Evangelho de Tomé
Esse evangelho foi banido dos ensinamentos da Igreja, assim como todo tipo de mentalidade independente e autossuficiente como a descrita por esses versículos acima.
O conceito de Apoteose (do grego “apo theosis” ou “ἀποθέωσις”), é o ato do homem tornar-se deus. É um conceito muito comum e naturalizado nas culturas politeístas anteriores ao Antigo Testamento, desde as culturas egípcia, hindu, grega, africanas, mesopotâmicas, chinesas, etc..
Na Grécia antiga temos o mito de *Prometeu que também é bastante ilustrativo para esse conceito (ou o mito de [Mātariśvan](https://en.wikipedia.org/wiki/M%C4%81tari%C5%9Bvan) *na mitologia védica da Índia antiga).
O rebelde Prometeu (“Προμηθεύς” em grego, que significa “antevisão”, ou seja, aquele que antevê, que pensa antes) teve a ousadia de roubar o fogo (que pode ser entendido como o conhecimento, a luz) que era exclusivo dos deuses, e dar à humanidade, a qual foi ele mesmo quem criou.
Porém mais um horripilante castigo foi dado ao homem pelos deuses antagonistas. *Zeus *acorrentou Prometeu no topo do monte Cáucaso, onde uma águia dilacerava seu fígado todos os dias por 30.000 anos.
“Pois aqui estou! Formo Homens À minha imagem, Uma estirpe que a mim se assemelhe: Para sofrer, para chorar, Para gozar e se alegrar, E pra não te respeitar, Como eu!”” Trecho do poema “Prometeus”, 1774, do estadista alemão Goethe
No politeísmo, ser um humano e um deus ao mesmo tempo é um conceito comum e naturalizado pelos fiéis.
Mas com o monoteísmo, a soberba (do latim “superbia”, que significa “se colocar acima”) vira um Pecado Capital, criado no século VI pela Igreja Católica.
Com o surgimento das religiões monoteístas, o fato do homem buscar o conhecimento verdadeiro sobre exatamente o que é ser Deus, teve que ser extremamente condenado como o maior de todos os pecados, o Pecado Original.
“Há incredulidade na nossa fé” O Pecado da Incredulidade, teólogo batista inglês Charles Spurgeon, século XIX
A lenda da Torre de Babel, na terra de *Sinar (“שִׁנְעָר”, “dois rios”, ou *Mesopotâmia em hebraico), é mais uma passagem bíblica onde tocar o céu é inaceitável. E a punição é mais uma vez extremamente severa e apavorante.
Babel (“בָּבֶל”), que em hebraico significa “confusão”, é uma corruptela da palavra Bavel (“בָּבֶל”) que é também a cidade da Babilônia em hebraico. O nome original da Babilônia é “Bāb-ili(m)” (“bāb”, portão + “ilim”, deus) em acádio, idioma local, que significa “Portão de Deus”.
Não é de se admirar que os judeus demonizem os babilônios, pois são o povo que destruiu o Templo de Salomão e a cidade onde foram exilados por 70 anos durante o reino de *Nabucodonosor II* em 586 a.C..
“E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra. Por isso se chamou o seu nome Babel, porquanto ali confundiu o Senhor a língua de toda a terra, e dali os espalhou o Senhor sobre a face de toda a terra.” Livro do Gênesis 11:4,9
Existe uma teoria de que o zigurate (templo piramidal sumério) *Etemenanki, da antiga Babilônia (atual Iraque), foi a construção que inspirou a lenda da Torre de Babel. Era o “templo da fundação do Céu e da Terra”, dedicado ao deus [Marduk](https://pt.wikipedia.org/wiki/Marduque)*, patrono da cidade.

Ruínas do zigurate babilônico Etemenanki
Abaixo foto da “Estela da Torre de Babel” (*MS 2063), datada por volta de 604 a.C., que mostra o rei [Nabucodonosor II](https://pt.wikipedia.org/wiki/Nabucodonosor_II) em frente ao zigurate Etemenanki. Este templo foi construído na época de [Hammurabi](https://pt.wikipedia.org/wiki/Hamurabi) (importante rei babilônico) por volta de 1750 a.C. e reconstruído por Nabucodonosor II*, quando a estela foi feita em 604 a.C.

Estela da Torre de Babel (MS 2063)
*Hammurabi foi também o rei que transcreveu o [Código de Hammurabi](https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3digo_de_Hamurabi) em 1772 a.C.. Um compilado de leis antigas incluindo a [Lei de Talião](https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_tali%C3%A3o). Hammurabi *afirmava que essas leis foram enviadas pelos deuses babilônicos e serviam “para que o forte não prejudique o mais fraco”.
Art. 25 § 227 — “Se um construtor edificou uma casa para um Awilum, mas não reforçou seu trabalho, e a casa que construiu caiu e causou a morte do dono da casa, esse construtor será morto”. Fragmento do Código de Hammurabi
“Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” Livro do Êxodo 21:24, também conhecida como Lei de Talião
Foto abaixo da Estela do Código de *Hammurabi, datada do século XVIII a.C. e encontrada em [Susã](https://pt.wikipedia.org/wiki/Sus%C3%A3)*, no atual Irã. Encontra-se hoje exposta no Museu do Louvre em Paris.

Estela do Código de Hammurabi contendo a Lei de Talião
Nós humanos não somos supostos pelos religiosos a possuir o conhecimento dos imortais, só os deuses devem saber das coisas. Quanto mais estudamos, mais poder acumulamos, e mais perto chegamos de ser um imortal. Por isso o cristianismo nos quer bem longe da Árvore do Conhecimento e consequentemente da Árvore da Vida.
Na verdade, tanto no monoteísmo quanto no politeísmo, os deuses não gostam nem um pouco quando os homens começam a pensar. Podemos substituir facilmente aqui a palavra deuses por classe dominante, quase que um sinônimo na cabeça deles. Todos esses mitos que castigam os homens quando eles estudam e pensam são mais uma estratégia de manipulação de massa por aqueles que detêm o poder em uma sociedade.
“Deus nos criou seres racionais. Ele quer que exercemos a razão. Aqueles que abandonarem a razão e forem para a fé, esses Ele vai mandar para o inferno.”
“O mito religioso é o mais poderoso dispositivo de dominação jamais criado.”
“A Igreja evita falar sobre consciência de classe porque a Igreja é parte estrutural do sistema que explora você (…). Historicamente as religiões sempre foram o braço auxiliar dos impérios, dos reis, dos senhores de escravos, dos latifundiários, e hoje, do capital financeiro. A religião precisa te manter acreditando que sofrer é parte do plano de Deus e que questionar é rebeldia.” Aline Câmara, psicóloga e ex-evangélica
“Existe algo por trás do trono maior que o próprio rei.” House of Lords, estadista britânico William Pitt, 1770
Misoginia
Observe a profecia abaixo, bastante famosa do Livro de Isaías:
“E continuou o Senhor a falar com Acaz, dizendo: Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel. Na verdade, antes que este menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis.” Livro de Isaías 7:10,14,16
A palavra “virgem” no texto original em hebraico está como (”עַלְמָה”, “almáh”), que na verdade deve ser traduzida como “mulher jovem”, “donzela” ou “recém-casada”, ou seja, não significa alguém que ainda não teve relações sexuais.
O termo “virgem” no sentido de casta em hebraico é outro: “בְּתוּלָה“ (“betûlāh”).
Mas a tradução da Bíblia Hebraica para o grego traduz a palavra “mulher jovem” (”עַלְמָה”, “almáh”) já de forma distorcida, como parthenos (“παρθενοϲ”) que significa “virgem” (“בְּתוּלָה“, “betûlāh”).
Observe o mesmo versículo de Isaías 7:14 no original em hebraico, observe a tradução já adulterada:
“הִנֵּה הָעַלְמָה הָרָה וְיֹלֶדֶת בֵּן וְקָרָאת שְׁמוֹ עִמָּנוּ אֵל” (hina ha’alma hara veyoledet ben vekarat shmo imanu el)
Em grego: “δια τουτο δωϲει κϲ αυτοϲ ϋμιν ϲημιον ┬ ϊδου η παρθενοϲ · εν γατρι εξει · και τεξεται ϋϊον · και καλεϲει το ονομα αυτου εμμανουηλʼ” (dia touto dosei ks aftos ÿmin simion ┬ ïdou i parthenos : en gatri exei : kai texetai ÿïon : kai dia touto dosei ks aftos ÿmin simion ┬ ïdou i parthenos: kai en gatri exei. aftou emmanouil)
Tradução correta: “Eis que a jovem grávida dará à luz um filho, e o chamará Elohim”
Outra adulteração gravíssima da tradução para o grego, o termo “הָרָה” (“hara”) em hebraico, quer dizer grávida, ou seja, que já concebeu a criança, que a jovem já está grávida e dará à luz no futuro.
Essa versão atual “Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho”, está cheia de vieses, que foram propositadamente adicionados à Bíblia para provocar esse sugestionamento coletivo da misoginia religiosa.
A profecia de Isaías acima também nunca foi direcionada à Maria, mãe de Jesus. Mas sim ao rei *Acaz *no século 8 a.C., como um sinal de Deus de que o reino de Judá (reino do Sul) não sucumbirá na guerra contra Aram-Damasco (Império Assírio) e Israel (reino do norte de Jerusalém).
O que de fato aconteceu. Na Guerra Siro-Efraimita de 734 a.C., os reinos do Norte (Israel) e Arã-Damasco (atual Síria) foram destruídos pelo Império Assírio (“a terra, de que te enfadas, será desamparada dos seus dois reis”).
Inclusive o nome da criança, Emanuel (“עִמָּנוּאֵל”), que significa “deus entre nós” em hebraico (deus, “אל” ou “el’), é mais um sinal de que a cidade de Jerusalém (onde fica o monte Sião) é a casa de Deus, e não poderia ser invadida por estrangeiros, de acordo com o dogma arraigado na cultura judaica da “Inviolabilidade de Sião”.
Porém, esse mesmo versículo do Livro de Isaías do Antigo Testamento se repete fielmente no Novo Testamento no Evangelho de Mateus, em grego, não mais como uma profecia de um futuro próximo, mas já com o objetivo de descrever um acontecimento já ocorrido.
É quando, em Mateus 1:23, o arcanjo Gabriel (o mesmo mensageiro que fala com o Abraão, Moisés e Maomé) fala em sonho com José, marido de Maria, sobre a chegada do Messias.
Aqui novamente, a palavra grega parthenos (“παρθενοϲ”) continuou sendo utilizada propositadamente e o verbo da gravidez colocado no futuro:
“ιδου η παρθενοϲ εν γαϲτρι εξι και τεξετε υν και καλεϲουϲι το ονομα αυτου εμʼμανουηλʼ ὁ εϲτιν μεθερμηνευομενο μεθʼ ημων ο θϲ”
“Eis que a virgem dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel, que significa “Deus conosco”.” Evangelho de Mateus 1:23
Os versículos do Novo Testamento que realmente são direcionados à Maria e que explicitam sua possível castidade, foram levianamente adicionados à estória de Jesus muito após o Livro de Isaías e o Evangelho de Mateus terem sido escritos, como por exemplo os versículos Mateus 1:18 e Lucas 1:34.
“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se unirem, achou-se grávida do Espírito Santo.” Evangelho de Mateus 1:18
“E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, pois não conheço homem algum?” Evangelho de Lucas 1:34
Um outro detalhe, é que a Epístola de Paulo aos Romanos (considerada autêntica historicamente) faz uma menção sobre Jesus ser descendente do esperma de Davi.
Mas daí houve uma adulteração proposital na Bíblia com relação à palavra “esperma” (“ϲπερματοϲ”, “spermatos” em grego), de acordo com o interesse dos copistas misóginos que lideravam a primitiva religião cristã que estava começando a dominar uma população cada vez mais crescente.
Segue a versão mais original que temos do versículo 3 da Epístola de Paulo aos Romanos capítulo 1. Versão em grego koiné do Codex Sinaiticus:
“περι του ϋϊου αυτου του γενομενου εκ ϲπερματοϲ δαδ κατα ϲαρκα” (peri tou ÿïou aftou tou genomenou ek spermatos dad kata sarka) Epístola de Paulo aos Romanos 1:3 em grego koiné
“sobre esse filho dele feito de esperma de Davi segundo a carne” tradução correta para o português
Mas adulteraram as traduções posteriores:
“Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne” versão adulterada em português
Esse versículo é mais um indício da versão altamente falaciosa do cristianismo de que Maria era virgem. Até porque nascer milagrosamente de uma virgem não era um mito autêntico na época do judaísmo. Já se dizia que vários outros heróis da antiguidade tiveram um nascimento virginal.
Por exemplo, *Olímpia*, a mãe de Alexandre, o Grande, segundo o historiador grego Plutarco, alimentava a lenda de que ele era filho de Zeus, e não filho de Filipe II, que foi personificado na divindade egípcia Amom, e que foi concebido através de um raio que caiu em seu ventre.
“Olímpia, por sua vez, afirmava que Alexandre não era filho de Filipe, mas de Zeus. E que ela sonhara com um raio caindo em seu ventre, e depois com um grande fogo que se espalhou e se extinguiu.” Vidas Paralelas, historiador grego Plutarco, final do século I d.C
A falácia da Virgem Maria (Nascimento Virginal de Jesus) é mais uma das absurdas misoginias arraigadas nas várias e várias adulterações que os livros sagrados sofrem durante as passagens políticas da História.
Infelizmente o famoso viés de confirmação (ou *cherry picking*) é muito conveniente para os homens que detêm o poder, para que eles continuem tendo mais poder indefinidamente, e para isso precisam suprimir o poder das demais.
O Primeiro Evangelho de Tiago consegue piorar exponencialmente essa misoginia imposta à concepção de Jesus. Esse evangelho apócrifo (não oficializado pela Igreja Católica), escrito após 150 d.C. e traduzido para o latim no século XVI, naturaliza completamente o abuso à mulher, inclusive com requinte de violência obstétrica.
Mesmo sendo apócrifo, o Evangelho de Tiago sempre foi muito difundido pelos cristãos, perpetuando sua influência extremamente maligna até hoje (dois milênios depois), chegando até o islamismo.
Tiago, irmão de Jesus, pseudônimo usado pelo autor desconhecido do evangelho, descreve com detalhes a infância de Maria e o nascimento de seu filho quando ela tinha 16 anos, numa tentativa desesperada de responder aos céticos críticos da época.
Tiago coloca bastante ênfase em uma mágica concepção do Messias (Virgindade Perpétua de Maria). Detalha como Maria foi mantida em cárcere privado durante toda sua infância, depois entregue a José em casamento aos 12 anos de idade (pedofilia) e que José era um viúvo ancião já com filhos, incluindo o próprio Tiago, ou seja, o meio-irmão de Jesus.
⁶´¹ Dia a dia a menina se ia robustecendo. Ao chegar aos seis meses, sua mãe deixou-a só no chão, para ver se se sustentava de pé, e ela, depois de andar sete passos, voltou ao regaço de sua mãe. Esta levantou-a, dizendo: “Salve o Senhor! Não andarás mais por este solo, até que te leve ao templo do Senhor”. E lhe fez um oratório em sua casa e não consentiu que nenhuma coisa vulgar ou impura passasse por suas mãos. Chamou, além disso, umas donzelas hebréias, todas virgens, para que a entretivessem. (…) ⁷´¹ Entretanto, os meses iam-se passando para a menina. E, ao fazer ela dois anos, disse Joaquim a Ana: “Levemo-la ao templo do Senhor para cumprir a promessa que fizemos, para que o Senhor não a reclame e nossa oferenda se torne inaceitável a seus olhos.” Ana respondeu: “Esperemos, todavia, até que complete três anos, para que a menina não tenha saudades de nós.” E Joaquim respondeu: “Esperaremos.” (…) ⁸´² Mas, ao completar doze anos, os sacerdotes reuniram-se para deliberar, dizendo: “Eis que Maria cumpriu doze anos no templo do Senhor. Que faremos para que ela não chegue a manchar ao santuário?” E disseram ao sumo sacerdote: “Tu que tens o altar a teu cargo, entra e ora por ela, e o que o Senhor te disser, isso será o que haveremos de fazer.” (…) ⁹´² José replicou: “Tenho filhos e sou velho, enquanto que ela é uma menina; não gostaria de ser objeto de zombarias por parte dos filhos do Israel.” (…) ¹⁴´² Mas eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos dizendo-lhe: “Não temas por esta donzela, pois o que ela carrega em suas entranhas é o fruto do Espírito Santo. Dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, pois que ele há de salvar seu povo dos seus pecados.” E, ao despertar, José levantou-se e glorificou a Deus de Israel por haver-lhe concedido tal graça, e continuou guardando Maria. (…) ¹⁵´³ E o sacerdote iniciou dizendo: “Maria, como fizeste tal coisa? Que te levou a vilipendiar tua alma e esquecer-te do Senhor teu Deus? Tu que te criaste no santo dos santos, que recebias alimento das mãos de um anjo, que escutaste os hinos e que dançavas na presença de Deus? Como fizeste isso?” E ela se pôs a chorar amargamente dizendo: “Juro pelo Senhor meu Deus que estou pura em sua presença e que não conheci varão”. (…) ¹⁹´³ E, ao sair a parteira da gruta, veio a seu encontro Salomé. “Salomé, Salomé, exclamou, tenho de te contar uma maravilha nunca vista, e é que uma virgem deu à luz; coisa que, como sabes, não permite a natureza humana.” Mas Salomé replicou: “Pelo Senhor, meu Deus, não acreditarei em tal coisa, se não me for dado tocar com os dedos e examinar sua natureza”

Grande influência do Evangelho de Tiago nas artes sacras durante milênios
Apesar da vida e do corpo da mulher ser altamente desvalorizado em toda a história da antiguidade, o tamanho desprezo e falta de empatia que o inventor desse texto trata a personagem Maria é de uma brutalidade ímpar. E a naturalidade com que o faz, perpetua por milênios de forma extremamente catastrófica, imputando nos cristãos e cristãs uma mentalidade patriarcal e misógina que causou e causa tanto genocídio de mulheres no mundo todo.
Agora imagine tudo o que fizeram com a estória de Maria Madalena (ou Maria de Magdala).
Desde os primeiros relatos nos Evangelhos Canônicos ela era descrita como uma mulher companheira, forte, de posses, generosa, uma das pessoas mais importantes e constantes nas várias passagens da vida de Jesus.
Segundo a Bíblia, Jesus era sempre muito apoiado por mulheres fortes, inclusive financeiramente. Mulheres como Joana, Susana e as três Marias: Maria Madalena, Maria Jacobina e Maria Salomé, dentre outras.
“Essas mulheres ajudavam a sustentá-lo com os seus bens.” Evangelho de Lucas 8:3

“As Santas Mulheres no Túmulo”, com as três Marias, quadro de 1890, de William-Adolphe Bouguereau.
A partir do século VI d.C., a Igreja Católica adulterou as passagens da Bíblia sobre Maria Madalena e outras mulheres. Começou a demonizar Madalena e a mascarou como prostituta.
Essa misoginia só foi “corrigida” em 1969, quando a farsa foi assumida e desmontada pelo próprio Vaticano.
Mas vários outros erros do cristianismo nunca foram corrigidos.
A Bíblia até hoje tem verdadeira obsessão em subjugar a mulher ao seu cônjuge masculino (Patriarcado Bíblico).
“Do mesmo modo, mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento de sua mulher” Primeira Epístola de Pedro 3:1
“Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor;” Epístola de Paulo aos Efésios 5:22
“E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada.” Livro do Gênesis 2:22–23
Infelizmente, não só o cristianismo, mas praticamente todas as religiões perpetuam essas obsessões misóginas.
A Surah número quatro do Corão (*An-Nisa, “سورة النساء*”, “As Mulheres” em árabe) é um capítulo inteiro, com 176 versos, totalmente dedicado ao abuso da mulher.
Desde o primeiro verso já começa desumanizando a mulher e a reduzindo a um pedaço do homem que só existe para lhe fazer companhia:
“يَـٰٓأَيُّهَا ٱلنَّاسُ ٱتَّقُوا۟ رَبَّكُمُ ٱلَّذِى خَلَقَكُم مِّن نَّفْسٍۢ وَٰحِدَةٍۢ وَخَلَقَ مِنْهَا زَوْجَهَا وَبَثَّ مِنْهُمَا رِجَالًۭا كَثِيرًۭا وَنِسَآءًۭ ۚ وَٱتَّقُوا۟ ٱللَّهَ ٱلَّذِى تَسَآءَلُونَ بِهِۦ وَٱلْأَرْحَامَ ۚ إِنَّ ٱللَّهَ كَانَ عَلَيْكُمْ رَقِيبًۭا” (Ó humanos, temei a vosso Senhor, que vos criou de uma só alma, e dela criou a sua companheira, e de ambos dispersou muitos homens e mulheres. E temei a Deus, por meio de quem vos consultais uns aos outros, e aos ventres. Por certo, Deus é sempre, sobre vós, um Observador.) Surah An-Nisa “As Mulheres”, Alcorão 4:1
E então, o obsessivo subjugo:
“ٱلرِّجَالُ قَوَّٰمُونَ عَلَى ٱلنِّسَآءِ بِمَا فَضَّلَ ٱللَّهُ بَعْضَهُمْ عَلَىٰ بَعْضٍۢ وَبِمَآ أَنفَقُوا۟ مِنْ أَمْوَٰلِهِمْ ۚ فَٱلصَّـٰلِحَـٰتُ قَـٰنِتَـٰتٌ حَـٰفِظَـٰتٌۭ لِّلْغَيْبِ بِمَا حَفِظَ ٱللَّهُ ۚ وَٱلَّـٰتِى تَخَافُونَ نُشُوزَهُنَّ فَعِظُوهُنَّ وَٱهْجُرُوهُنَّ فِى ٱلْمَضَاجِعِ وَٱضْرِبُوهُنَّ ۖ فَإِنْ أَطَعْنَكُمْ فَلَا تَبْغُوا۟ عَلَيْهِنَّ سَبِيلًا ۗ إِنَّ ٱللَّهَ كَانَ عَلِيًّۭا كَبِيرًۭا” (Os homens são responsáveis pelas mulheres pelo que Deus concedeu a cada um sobre o outro e pelo que gastam de seus bens. Portanto, as mulheres virtuosas são devotamente obedientes, guardando na ausência do marido o que Deus quer que guardem. E quanto àquelas de quem temeis a deserção, adverti-as e deixai-as sozinhas em suas camas e batei-lhes. Mas se desobedecerem a Deus, batei-lhes. Elas te obedeceram, portanto, não procures um meio contra elas. Por certo, Deus é Exaltado e Magnífico.) Surah An-Nisa “As Mulheres”, Alcorão 4:34
Até no hinduísmo politeísta, que tende a ser menos misógino, ainda sim a mulher deve ser obsessivamente submissa a seu marido.
“A filha, ó rei, foi ordenada nas escrituras para ser igual ao filho.” Comandante Bhishma , Adi Parva, Mahabharata 1
“पिता रक्षति कौमारे भर्ता रक्षति यौवने । रक्षन्ति स्थविरे पुत्रा न स्त्री स्वातन्त्र्यमर्हति” (O pai protege na infância, e o marido protege na juventude. Quando uma mulher envelhece, seus filhos a protegem, mas ela não merece independência.) Manu Smriti “Código de Manu” 9.3
“पाणिग्राहस्य साध्वी स्त्री जीवतो वा मृतस्य वा । पतिलोकमभीप्सन्ती नाचरेत् किं चिदप्रियम्” (Uma mulher casta é aquela que segura a mão de um homem, esteja ele vivo ou morto. Se ela deseja desfrutar do mundo do marido, não deve fazer nada desagradável.) Manu Smriti “Código de Manu” 5.154
Mas claro que os abusos das religiões não se resumem à mulher. O homem e a mulher sofrem com violentas agressões em nome dos deuses.
Temos por exemplo a obsessão do cristianismo pelo celibato e a aversão ao que dá prazer ao ser humano (Ascetismo Cristão).
“Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu (celibato).” Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios 7:7
“Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos, por causa do reino dos céus. Quem pode receber isto, receba-o.” Evangelho de Mateus 19:12
“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo.” Primeira Epístola de João 2:15,16
E claro, a homofobia, típica do extremismo nas religiões.
“Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles.” Livro do Levítico 20:13
“Se um pastor ou um padre abrir a bíblia e pregar contra a prática homossexual é constrangimento filosófico. Mil vezes não!” Silas Malafaia, psicólogo e empresário neopentecostal
“إِنَّكُمْ لَتَأْتُونَ ٱلرِّجَالَ شَهْوَةًۭ مِّن دُونِ ٱلنِّسَآءِ ۚ بَلْ أَنتُمْ قَوْمٌۭ مُّسْرِفُونَ” (Na verdade, vocês se aproximam dos homens com desejo, em vez das mulheres. Pelo contrário, vocês são um povo transgressor.) Surah Al-Araf “Os Cimos”, Alcorão 7:81
Uma das poucas vertentes religiosas em voga atualmente que vai contra a homofobia e a abstinência de prazeres seria o *Kamasutra *hindu.
O filósofo *Vatsyayana escreveu o poema [Kamasutra](https://pt.wikipedia.org/wiki/Kama_Sutra) no século III d.C. para o deus [Kamadeva](https://pt.wikipedia.org/wiki/Kamadeva)*, a divindade do prazer.
“Quando o amor se intensifica, entram em jogo as pressões ou arranhões no corpo com as unhas. As pressões com as unhas, entretanto, não são comuns senão entre aqueles que estejam intensamente apaixonados, ou seja, cheios de paixão. São empregadas, juntamente com a mordida, por aqueles para quem tal prática é agradável.” Marcas com unhas e dentes, Kamasutra 2:4, Vatsyayana
Os indianos antigos já possuíam inclusive a ideia do terceiro gênero (“तृतीय प्रकृति”, “tŕtīya-prakŕti”).
Na mitologia grego-romana o homossexualismo também era naturalizado (Pederastia Grega). O próprio Zeus era apaixonado pelo jovem Ganimedes.
“Tal qual se ergue nos céus a constelação de Órion, ou quando, entre os imortais, o divino Ganimedes, por sua beleza, foi arrebatado aos céus pelos deuses, para ser o copeiro de Zeus e viver entre os imortais.” Ilíada Livro XX, poeta grego Homero, VIII a.C
Em 1992, o Papa polonês João Paulo II publicou o novo Catecismo da Igreja Católica para atualizar e modernizar as doutrinas da Igreja. Os parágrafos 2357 a 2359 regem especificamente a homossexualidade dentro do catolicismo até então.
“ A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves (103) a Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (104). São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados.
Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição.
As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã. Parágrafos 2357 a 2359, Catecismo da Igreja Católica, 1992
Síndrome do Trauma Religioso
“Eu não sei o que Deus é, mas sei o que Ele não é.” Filosofia alemã Zeitgeist (“espírito do tempo”), filme estadunidense, 2007
Os transtornos psíquicos que podem ser gerados pelo fanatismo religioso não têm limites (Dissonância Cognitiva). Uma pessoa que está neste transe é muito mais suscetível a abusos psicológicos, morais, financeiros, patrimoniais, emocionais, sexuais, etc..
“Três horas passaram como se fossem 20 minutos, e foi maravilhoso, era como se eu estivesse flutuando.” Susan Casey, jornalista estadunidense sobre sua visita no Brasil ao criminoso sexual João de Deus, exibida no talk show da Oprah Winfrey em 2012

João de Deus em ação, criminoso sexual do estado de Goiás
A fé das pessoas passa a ser um simples produto mercadológico na mão de líderes religiosos manipuladores (Exploração Divina). Em vários países do mundo religiosos lidam com bilhões e são isentos de impostos.
“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.” Livro de Malaquias 3:8–10
A Síndrome do Trauma Religioso (RTS) é classificada como um conjunto de sintomas vivenciados por aqueles que participaram de sistemas de crenças autoritárias e controladoras (Fundamentalismo Religioso e Extremismo terrorista).
“Os sintomas dos traumas religiosos podem ser mais facilmente comparados com o Transtorno de Estresse Pós-traumático, que resulta da experiência de ser confrontado com a morte ou lesões graves, que provocam sentimentos de terror e impotência.” Aline Câmara, psicóloga e ex-evangélica
“A menos que você esteja preparado para encarar toda a verdade, onde quer que ela vá, a quem quer que leve, se quiser ignorar, se quiser ter favoritos, em algum momento você descobrirá que está mexendo com a justiça divina. Quanto mais você se educa, mais entende de onde essa coisa veio, mais óbvias as coisas se tornam e você começa a ver mentiras por toda parte. Você precisa conhecer a verdade e buscar a verdade, e a verdade o libertará.” Filosofia alemã Zeitgeist (“espírito do tempo”), filme estadunidense, 2007
“Deve ser difícil para eles, aqueles que aceitaram a autoridade como verdade, em vez da verdade como autoridade.” Gerald Massey, egiptólogo inglês
“Religião é uma forma de neurose obsessiva, é comparável a uma neurose da infância.” Atos obsessivos e práticas religiosas, psicanalista austríaco Sigmund Freud, 1907
“O fanatismo religioso não é só contradição, é uma mente capturada, uma estrutura psíquica deformada por séculos de doutrinação religiosa, que bloqueia o pensamento crítico e transforma criminosos em escolhidos de Deus. Eles defendem um reino teocrático, o ungido pode cometer qualquer crime, contanto que diga o nome de Deus em público. O crime não importa. É um surto coletivo alimentado por púlpitos, algoritmos e palanques. Não é só sobre política, é um projeto de poder teocrático disfarçado de patriotismo.” (Perversão ideológica) Aline Câmara, psicóloga e ex-evangélica
É preciso ter o perfeito discernimento de que falar de Deus ou ser religioso não é garantia de decência nem de retidão de caráter. E o mesmo vale para o oposto (Moralismo secular).
“A decência humana não deriva da religião. Ela a precede.” Deus Não É Grande, escritor britânico Christopher Hitchens, 2007
Sionismo Cristão
“Uma nova classe média começou a trazer mais dinheiro para as igrejas evangélicas. E pastores começaram a virar empresários, influenciadores e até donos de oligopólios midiáticos. Passaram a se engajar numa guerra cultural, pedindo abertamente aos fieis que ajudassem a colocar cristãos em condições de poder.” Documentário “Apocalipse nos Trópicos”, 2025, da cineasta Petra Costa
Sionismo cristão é uma crença difundida entre grupos de neopentecostais e evangélicos, de que o retorno dos judeus à Terra Santa, o estabelecimento do Estado de Israel em 1948, e a expulsão dos palestinos de Jerusalém, estão de acordo com uma suposta profecia bíblica.
Cristãos sionistas acreditam que o ajuntamento dos judeus em Israel é uma precondição para uma Segunda vinda de Jesus, crença associada ao apocalipsismo cristão.
“As pessoas valorizam mais o que querem que seja verdade do que o que realmente é verdade.”
A ideia é que os cristãos devem apoiar ativamente o retorno dos judeus à Terra de Israel, ao mesmo tempo que os judeus devem ser encorajados a se converterem ao cristianismo, como um meio de cumprir a profecia bíblica (Evangelistão).
“Igrejas evangélicas estão se multiplicando incrivelmente rápido pelo mundo todo, principalmente após 2023, junto com os ataques à Faixa de Gaza. Muito mais do que dízimos locais, são doações via fundos de investimentos maiores do que políticos, de milhões, revertidos em infraestrutura, templos nababescos, com transmissões ao vivo de mega conferências, televangelismo, peregrinações turísticas à Terra Santa em Israel, escolas bíblicas evangelizadoras, circuitos com programação focados principalmente em jovens, etc.. Em conjunto, constroem redes de Sionismo Cristão, vendendo salvação e manipulando os fiéis com discursos de suporte pró-Israel, através de mensagens totalmente desconexas, e bloqueando deles todo e qualquer conhecimento verdadeiro sobre o assunto. Um modelo que funcionou muito bem nos EUA nas últimas décadas, com grande poder de controlar eleições através do extremismo religioso.”
Tal como os sionistas judeus, muitos cristãos sionistas acreditam que o povo de Israel é o povo escolhido de Deus.
“Coloca-se muito peso na religião, onde a religião não é o problema. As pessoas usam a força dos neopentecostais como um espantalho. Se tivéssemos hoje no Brasil uma dinâmica econômica de geração de pleno emprego, e melhora rápida das condições de vida, essas igrejas evangélicas todas virariam apoiadoras do governo do momento que estivesse implementando isso. Eu não acho que a religião é a principal culpada por uma direitização do Brasil, ou piora do Congresso. Desde o governo FHC, no final dos anos 90, a esquerda passou a fazer onguismo, assistencialismo, e por aí vai. Deixou de fazer majoritariamente o trabalhozinho de base. Só que não existe espaço vazio na política. Onde não tem trabalho político ideológico das esquerdas, entra outra coisa no lugar. As religiões neopentecostais conseguiram crescer num vácuo político ideológico deixado pela esquerda. Onde se deixou de fazer o trabalho de socialização, um espaço de solidariedade coletiva, de apoio psicológico e anti-drogas, um locus de organização para a vida. O único caminho que se vê é a igreja. A base do MST, por exemplo, é maioria evangélica. Onde tem trabalho político e ideológico, as pessoas são evangélicas e estão no MST. Lutando pela terra, participando de espaços de educação popular, com tecnologia Freiriana, formação sobre luta socialista, etc. Nos anos 50, a Igreja Católica dominava esse país muito mais. Dominava a saúde, os hospitais, a escola pública, educação básica e superior, os cemitérios, tudo. E a gente conseguia fazer a militância comunista, organizar e tal. O Silas Malafaia tem muita influência política, está na televisão há trinta anos. Mas só tem umas 100 igrejas no Brasil. Não está nem entre as 20 maiores lideranças evangélicas do Brasil. Várias pesquisas mostram que mais de 70% dos evangélicos foram contra o 8 de janeiro, que os bolsonaristas fizeram. Vários evangélicos votam no Lula, e em outras lideranças progressistas, a depender do trabalho político que se faça. A religião virou desculpa para a preguiça, de uma certa esquerdinha classe média, que não quer fazer trabalho popular, e aí joga a desculpa na religião evangélica. Tem muita igreja evangélica nas quebradas, mas eles são os primeiros a abraçar essas causas; alguém que está dando problema em casa com a bebida; filha que infelizmente foi abusada dentro de casa; quem é músico, instrumento que é caro tem na igreja; grupo jovem, a Igreja Católica tem crisma, catequese…” Historiador e professor Jones Manoel, 2025
Ocultismo
O ocultismo é o estudo dos conhecimentos invisíveis que permeiam o universo.
Tem raízes muito antigas, praticamente inerentes à existência do homo-sapiens, assim como o próprio conceito de religião. Sempre existiu nas civilizações antigas e continua muito contemporâneo.
O ocultismo da atualidade traz conceitos de espiritualidade muito diversos que mistura religiões teístas e não teístas naturalmente. Como cristianismo e budismo ao mesmo tempo, por exemplo.
Sidarta Gautama, mais conhecido como Buda, foi um príncipe que viveu no século VI a.C. no reino de *Kapilavastu*, próximo ao Himalaia (o que seria hoje o atual Nepal).

Ruínas do palácio de Kapilavastu onde acredita-se que Sidarta teria vivido
Segundo a tradição budista, Sidarta também era um predestinado iluminado, que havia descido do reino dos céus (*Tuṣita*) para encarnar no ventre de sua mãe, a rainha Maya.

Estátua do Grande Buda de Ibiraçu, no Espírito Santo, às margens da rodovia BR-101
Assim como Jesus de Nazaré e tantos outros, Buda também é um herói lendário bastante diferente do provável humano que tenha existido na realidade.
Todos os escritos sobre Buda datam de séculos após a sua estória ter acontecido. O poema épico *Buddhacharita*, por exemplo, é o mais antigo de todos, datado de II a.C..
Segundo esses escritos, Sidarta, aos 35 anos de idade, atingiu o nirvana e a iluminação espiritual (*Bodhi), através do Caminho do Meio, após meditar por 49 dias sob uma figueira na cidade de [Bodhgaya](https://pt.wikipedia.org/wiki/Bodh_Gaya)*, no nordeste da Índia.
“Então… um dia, Siddhartha escutou um velho músico… Se apertares esta corda demais, ela arrebenta; e se a deixares solta demais, ela não toca. (…) O caminho para a iluminação está no Caminho do Meio.” Filme “O pequeno Buda”, 1993
Após esse episódio, Sidarta transformou-se em Buda, e *Brahma (o budista, não o [Brahma](https://pt.wikipedia.org/wiki/Brama) *hindu) o teria convencido a repassar esses ensinamentos para o resto da humanidade. Mais precisamente ele deveria ensinar ao mundo as Quatro Nobres Verdades, que indicam um caminho para o fim de todo o sofrimento humano.

Figueira do templo de Mahabodhi que representa a árvore em que Buda alcançou a iluminação
Buda, no entanto, não era um Messias, ou um salvador da humanidade. Pelo contrário, de acordo com o budismo, a salvação vem de dentro do próprio ser humano, principalmente através do controle de sua própria mente e da prática de sua espiritualidade.
Abaixo o símbolo taoísta *Yin-Yang*, muito utilizado pelo Budismo Chan desenvolvido na China. Está relacionado ao Caminho do Meio, pois representa a dualidade das forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas.
E ao lado, o símbolo *Ohm *hindu, o som primordial do universo (a-u-m), muito utilizado pelos budistas para meditação.

Símbolo Yin-Yang do taoísmo chinês e símbolo Ohm hindu, apropriados também pelos budistas
“Nada aprisiona você a não ser seus pensamentos, Nada limita você a não ser seus medos, Nada controla você a não ser suas crenças.” Ditador popular baseado no budismo
Eu, pessoalmente, aqui que vos falo, sou simpatizante do Hermetismo moderno.
Apesar de não existirem evidências históricas de uma associação direta entre Hermetismo e Budismo, o Hermetismo tem também suas raízes nas civilizações antigas e conceitos extremamente relacionados com o Budismo.
O lendário *Hermes Trismegisto, um egípcio fictício, “escreveu” em copta, uma obra chamada “[Corpus Hermeticum](https://pt.wikipedia.org/wiki/Corpus_Hermeticum)” no século II d.C. ([NHC VI-6](https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Discurso_sobre_o_Oitavo_e_o_Nono), da [Biblioteca de Nag Hammadi](http://gnosis.org/naghamm/nhl.html)*).
Este documento permaneceu em papiro até o ano de 1471 quando foi traduzido para o latim e impresso sob o comando do mecenas florentino *Cosimo de Medici. Esta primeira edição encontra-se hoje na [Bibliotheca Philosophica Hermetica](https://embassyofthefreemind.com/en/library/about-the-library)* em Amsterdã, na Holanda.

Primeira edição do Corpus Hermeticum de 1471, na Bibliotheca Philosophica Hermetica,
Assim como o budismo, o hermetismo incentiva a busca por autoconhecimento na prática e enfatiza o poder da mente na criação da realidade.
“A chave de todo ser humano é seu pensamento. Resistente e desafiante aos olhares, tem oculto um estandarte que obedece, que é a ideia ante a qual todos seus fatos são interpretados.” Homens Representativos, transcendentalista estadunidense Ralph Waldo Emerson, 1850
O livro *Caibalion (“The Kybalion”) escrito em inglês em 1908 pelo advogado, editor e ocultista estadunidense [William Walker Atkinson](https://en.wikipedia.org/wiki/William_Walker_Atkinson) (fundador do movimento espiritual [New Thought](https://pt.wikipedia.org/wiki/Novo_Pensamento)*), sintetizou o Hermetismo em 7 princípios:
1 — Mentalismo: “O Tudo é Mente; o Universo é Mental.” 2 — Correspondência: “Como acima, assim abaixo; como abaixo, assim acima.” 3 — Vibração: “Nada descansa; tudo se move; tudo vibra.” 4 — Polaridade: “Tudo é dual; tudo tem polos; tudo tem seu par de opostos” 5 — Ritmo: “Tudo flui, para fora e para dentro; tudo tem suas marés” 6 — Causa e Efeito: “Toda causa tem seu efeito; todo efeito tem sua causa” 7 — Gênero: “O gênero está em tudo; tudo tem seus princípios masculinos e femininos”

Primeira edição do “The Kybalion” de 1908 com os 7 princípios herméticos
O *Caibalion está também associado ao ocultismo, que é um conjunto de doutrinas proveniente de uma tradição primordial que teoricamente encontra-se na origem de todas as religiões e de todas as filosofias ([Prisca Sapientia](https://en.wikipedia.org/wiki/Prisca_theologia)*).
O ocultismo é geralmente associado à teorias da conspiração, mistérios ocultos, reuniões clandestinas, rituais de magia, segredos ancestrais, caça a tesouros escondidos, experiências paranormais, comunicações extra-terrenas, sacrifícios de animais, e também a muitas atrocidades.
Mas ocultismo não é, e nem nunca foi, sinônimo necessariamente de magia, muito menos de práticas malignas ou demoníacas. Nem sequer sinônimo de práticas secretas. Apesar de uma prática ou outra precisar se tornar secreta quando é perseguida.
Um dos ocultistas mais antigos que temos conhecimento era o próprio Rei Salomão, filho do Rei Davi, das antigas tribos de Israel do século X a.C., com vários relatos e lendas antigas associadas à sua sapiência, riqueza e misticismo.
Cena abaixo do filme estadunidense “Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida” de 1981, sobre a arca de ouro de Moisés que o Rei Salomão teoricamente guardava em seu templo.

Cena do filme “Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida”
O esoterismo, astrologia, xamanismo, tarot, paganismo, alquimia, por exemplo, são pseudociências que unem filosofia, misticismo e religião, e têm suas origens na antiguidade africana e asiática, mas floresceram grandemente na Idade Média européia.
Fotos abaixo de páginas do indecifrável manual alquímico datado do século XV, encontrado na Polônia, chamado Manuscrito *Voynich. *Escrito em couro de vitelo, em uma língua proto-românica já extinta, ancestral do latim. Contém tratados de botânica, astrologia e farmacêutica.

Manuscrito Voynich com tratados botânicos, astrológicos e farmacêuticos da época medieval
As relíquias esotéricas medievais são muitas. Dentre as mais famosas tem-se a Pedra Filosofal, um grande mito dos alquimistas, que teria o poder de transformar cobre em ouro e dar a vida eterna aos humanos.
Outra relíquia muito famosa é o Santo Graal, um mito cristão, que diz que o cálice que Jesus tomou o vinho na Última Ceia é sagrado e realizaria milagres até hoje.
Foto abaixo dos manuscritos de Isaac Newton com sua própria receita para produzir a Pedra Filosofal, e ao lado, foto do Papa João Paulo II segurando o Santo Graal de Valência.

Manuscritos de Isaac Newton sobre a Pedra Filosofal e João Paulo II com o Santo Graal de Valência
A Cabala judaica (do tetragrama hebraico “קַבָּלָה”, “Kabbalah”, que significa “recebido”) é um conjunto de ensinamentos místicos religiosos desenvolvida entre os séculos XII e XVI, anterior à Maçonaria, muito atuante até os dias de hoje.
Amadeus Mozart, William Blake, Dante Alighieri, Salvador Dalí, Leonardo Da Vinci, Carl Jung e vários outros intelectuais adicionaram vários simbolismos esotéricos em suas obras. Como por exemplo, em “A Flauta Mágica” de Mozart, ou “A Última Ceia”, “Mona Lisa”, “Virgem dos Rochedos”, de Da Vinci, dentre várias outras.
“Até que o inconsciente se torne consciente, ele irá dirigir sua vida e você o chamará de destino.” “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” A Prática da Psicoterapia, psicoterapeuta suíço Carl Jung, 1954
Imagens abaixo da Árvore da Vida da Cabala, do baralho de Tarot (*RWS), ilustrado pela artista britânica [Pamela Smith](https://pt.wikipedia.org/wiki/Pamela_Colman_Smith) (Pixie*) em 1909, e a Rosa Cruz Hermética. Todos usam simbologias ocultistas.

Árvore da Vida da Cabala, Tarot RWS ilustrado por Pixie e a Rosa Cruz Hermética
Pode-se dizer, por exemplo, que o Espiritismo Kardecista, fundado no século XIX em 5 livros escritos pelo espírito de *Allan Kardec, pseudônimo do educador e psicografista francês Hippolyte Léon Denizard Rivail*, é uma prática ocultista, além de cristã. Isso porque envolve doutrinas de mediunidade e comunicação com entidades não visíveis aos olhos, consideradas encarnações espirituais de pessoas humanas e não deidades.
“A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. O estado das almas depois da morte não é mais um sistema, porém o resultado da observação. Ergueu-se o véu; o mundo espiritual aparece-nos na plenitude de sua realidade prática; não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa, são os próprios habitantes desse mundo que nos vêm descrever a sua situação.” A Justiça Divina Segundo o Espiritismo, espírito de um druida gaulês chamado Allan Kardec, 1865
Os fundadores do espiritismo o apresentam como uma ciência experimental e de observação, mas é na verdade uma pseudociência devido à ausência de falseabilidade, impossibilidade de refutação das suas afirmações, falta de evidências empíricas e conhecimento verificável, por exemplo.
Assim como a Umbanda, religião afro-brasileira, oriunda dos *Iorubás africanos miscigenada com o candomblé, o espiritismo e o cristianismo do Brasil, que também tem a prática da caridade e do auxílio ao próximo como dogmas principais. Possui rituais ocultistas para se conectar com suas divindades, incluindo [Exu](https://pt.wikipedia.org/wiki/Exu_(orix%C3%A1))*, um orixá guardião e mensageiro.
Foto abaixo da Marcha para Exu, evento de aglomeração popular realizado no Brasil para promover a valorização e o respeito às religiões afro-brasileiras, incluido a figura de Exu; e ao lado um ritual de oração para Exu.

Marcha para Exu na Avenida Paulista e ritual de oração para Exu
“Aqueles que chegam, cheguem em paz. Aqueles que partem, partam com sabedoria. Que todo o mal se perca nas encruzilhadas, E que todo bem floresça em nosso caminho!
Exu, senhor do movimento, faz-nos andar sem medo! Exu, dono da fartura, que a prosperidade nos abrace! Exu, guardião da vida, que a saúde nos fortaleça!
Laroiê, Exu! Caminho aberto, palavra firme e vitória certa! Axé! Mojubá!” Fragmento de uma Oração umbandista para o Orixá Exu
A Golden Dawn (“Ordem Hermética da Aurora Dourada”) surgiu na maçonaria inglesa em 1887 para reunir todas as práticas ocultistas ocidentais em uma única sociedade intelectual.
Em 1904, *Aleister Crowley, um escritor ocultista britânico membro da Golden Dawn, criou uma seita chamada [Thelema](https://pt.wikipedia.org/wiki/Thelema)*. Seita essa envolvida em vários escândalos de coerções, abusos sexuais, overdoses, sacrifícios animais e humanos, etc.
Aleister influenciou grandemente o mercado da música do final do século XX, com vários adeptos na Inglaterra e no mundo, como Led Zeppelin, Black Sabbath, The Beatles, Ozzy Osbourne, Fernando Pessoa, Raul Seixas, Paulo Coelho e muitos outros.
“Faz o que tu queres, Há de ser tudo da lei (viva, viva) Viva a Sociedade Alternativa A lei de Thelema (viva, viva)” Trecho da música “Sociedade Alternativa”, Raul Seixas e Paulo Coelho, 1974
“O verdadeiro mago não tem orgulho, não tem vontade, não tem medo. Como Aleister Crowley dizia: ‘Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei’.” O Diário de um Mago, escritor brasileiro Paulo Coelho, 1987
“Mr. Crowley, won’t you ride my white horse (…) I wanna know what you meant” (Sr. Crowley, você não irá cavalgar no meu cavalo branco? (…) Eu quero saber o que você quis dizer) Música “Mr. Crowley”, músico britânico Ozzy Osbourne, 1981
“Crowley é um charlatão, mas um charlatão interessante… Um homem notável, mas um notável vigarista.” Carta a João Gaspar Simões, poeta português Fernando Pessoa, 1930
Fotos abaixo de Aleister Crowley e seu “Livro da Lei”, dos álbuns das bandas Led Zeppelin, Ghost e The Beatles e o Ozzy Osbourne.

Aleister Crowley, seu “Livro da Lei”, álbuns das bandas Led Zeppelin, Ghost e The Beatles e o Ozzy Osbourne.
Em 1950 o escritor estadunidense *L. Ron Hubbard* publicou o livro de auto ajuda intitulado “Dianética: A Ciência Moderna da Saúde Mental”, que deu origem à Igreja da Cientologia.
No início de sua trajetória Hubbard era associado à Ordem dos Templários Orientais (OTO), também associada a Aleister Crowley, em parceria com o engenheiro espacial *Jack Parsons, mas em 1946 deu um golpe no parceiro e se dissociou do [Thelema](https://pt.wikipedia.org/wiki/Thelema)*.
Em cultos de aconselhamento espiritual, a Cientologia utiliza a mídia de massa como estratégia de arrebatamento, cobrando altíssimas contribuições financeiras de seus fiéis e coagindo celebridades como Tom Cruise, John Travolta, dentre muitas outras.
Também possui várias denúncias de crimes hediondos associados às suas práticas como trabalho escravo, cárcere privado, abusos psicológicos e patrimoniais, perseguições violentas, tortura, corrupção, etc.
Fotos abaixo de *Ron Hubbard *e sua invenção chamada e-meter; da Gold Base, a sede da Igreja da Cientologia na Califórnia; do prédio azul da Cientologia em Los Angeles; e de Tom Cruise e John Travolta participando dos cultos da Igreja estadunidense.

Hubbard e o e-meter; Gold Base na Califórnia; prédio azul de Los Angeles; e Cruise e Travolta pregando
“A Cientologia é um culto que destrói famílias, que destrói pessoas, que tira o seu dinheiro, que tira a sua liberdade de pensamento.” Entrevista à ABC News, atriz e ex-cientologista Leah Remini, 2015
“Eles usam táticas de intimidação, processos judiciais e difamação para silenciar críticos. É uma máquina bem oleada para destruir qualquer um que se levante contra eles.” “Going Clear: Scientology and the Prison of Belief”, documentário da estadunidense HBO, ex-executivo sênior da Cientologia Mike Rinder, 2015
Irreligiosidade
“Somos todos ateus em relação à maioria dos deuses em que a humanidade já acreditou. Alguns de nós simplesmente vão um deus adiante.” Deus, um delírio — biólogo britânico Richard Dawkins, 2006
Existe uma correlação robusta entre sofrimento e fé. Pessoas que vivem em países com melhor distribuição de renda e altos níveis de educação e saúde são pessoas menos religiosas.
Abaixo uma pesquisa do Instituto *PEW *de 2018 que mostra essa associação. Nos países europeus, em geral menos de 50% das pessoas rezam uma vez por dia.

Pesquisa do Instituto PEW de 2018
“Um homem que está livre da religião tem uma oportunidade melhor de viver uma vida mais normal e completa” O futuro de uma ilusão, psicanalista austríaco Sigmund Freud, 1927
Mesmo a Anomia (ausência total de normas na sociedade) sendo um sentimento desconfortável para muitas pessoas, mesmo assim a Irreligiosidade (ausência ou desconversão de uma religião) está crescendo cada vez mais no mundo (atualmente 16% da população mundial, ou 1,1 bilhão de pessoas), principalmente entre os jovens. Na irreligiosidade incluem o ateísmo, humanismo secular, agnosticismo, ignosticismo, não-teísmo, deísmo, pandeísmo, ceticismo religioso, livre-pensamento, não crença, etc..
“A maior vulnerabilidade de uma religiao é poder ser rejeitada.”
Isso acontece porque a ciência está cada vez mais acessível para todos, e com o advento da Internet, quanto mais ela se torna acessível, menor é a religiosidade das pessoas.
Várias questões cruciais para o entendimento do Universo e da vida na Terra avançaram nos últimos séculos, e as antigas certezas (firmeza existencial), principalmente quando vindas através da ignorância, estão caindo por terra.
“É muito melhor compreender o universo como ele realmente é do que persistir no engano, por mais satisfatório e tranquilizador que possa parecer.” O Mundo Assombrado Pelos Demônios, do agnóstico Carl Sagan, 1996
Cientistas têm pesquisado sobre o ateísmo. Seguem quatro causas da irreligiosidade identificadas por psicólogos da religião:
— Dificuldade de imaginar seres sobrenaturais (como deuses, anjos e demônios) — Segurança existencial — Criação sem religiosidade — Tendências ceticistas The origins of religious disbelief, Ara Norenzayan e Will Gervais, 2013
O Iluminismo, a partir do século XVII, diminuiu a necessidade da existência de Deus. A crença cega na religião deixou de ser o centro das culturas europeias.
“Deus está morto” A Gaia Ciência, filósofo alemão Friedrich Nietzsche, 1882
Mas infelizmente o imperialismo europeu rapidamente contrapôs essa ideia por mais alguns séculos.
Um ser humano deveria fazer o bem porque é o certo a se fazer, e deveria saber discernir o certo do errado por conta própria, baseado no raciocínio e na ética genuína. E não porque tem medo de um Deus imaginário, ou porque a Bíblia diz isso ou aquilo, ou porque o pastor mandou fazer alguma coisa.
“A religião é um pobre guia moral” Deus, um Delírio — biólogo britânico Richard Dawkins, 2006
A ética secular é um ramo da filosofia moral, que é baseada unicamente nas faculdades humanas, e não em crenças sobrenaturais. Seguem seus princípios mais relevantes:
— Os seres humanos, através da sua capacidade de ter empatia, são capazes de determinar os fundamentos éticos. — O bem-estar dos outros é fundamental para a tomada de decisões éticas. — Os seres humanos, através da lógica e da razão, são capazes de derivar princípios normativos de comportamento. — Isso pode levar a um comportamento preferível a que se propaga ou tolerado com base em textos religiosos. Alternativamente, isso pode levar à defesa de um sistema de princípios morais que um amplo grupo de pessoas, tanto religiosos quanto não religiosos, pode concordar. — Os seres humanos têm a responsabilidade moral de garantir que as sociedades e os indivíduos ajam com base nesses princípios éticos. — As sociedades devem, se possível, avançar de uma forma menos ética e justa para uma forma mais ética e justa.
Pode-se inclusive utilizar abordagens científicas para determinar o que é ético, e o que certo e errado, em contraste com crenças generalizadas ou evidências empíricas sobre o assunto (Ciência da moralidade).
“Nosso comportamento moral, embora mais complexo do que o comportamento social de outros animais, é semelhante, pois representa nossa tentativa de administrar bem a ecologia social existente. A verdade parece ser que os valores enraizados nos circuitos para cuidar — para o bem-estar de si mesmo, filhos, companheiros, parentes e outros — moldam o raciocínio social sobre muitas questões: resoluções de conflitos, manutenção da paz, defesa, comércio, distribuição de recursos e muitos outros aspectos da vida social em toda a sua vasta riqueza” Patricia Churchland, filósofa canadense
Fé
“A razão natural pode conhecer a existência de Deus, mas a fé nos revela seus mistérios.”
“Gratia non tollit naturam, sed perficit” (A graça [de Deus, ou a fé] supõe a natureza [razão humana] e a aperfeiçoa) Summa Theologiae, teólogo italiano Tomás de Aquino, 1265
Não faltam discussões filosóficas sobre o embate entre razão e fé. Santo Agostinho, Tomás de Aquino e vários outros formaram-se nas universidades teológicas criadas pela Igreja durante a Idade Média e tornaram-se mestres na Filosofia da Religião.
“O homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer” filósofo alemão Arthur Schopenhauer, em O Mundo como Vontade e Representação de 1819
Existem várias questões filosóficas ligadas à religião que ainda não temos resposta, assim como questões não ligadas à religião.
“Porque tudo existe ao invés do nada?” “Tudo sempre existiu?” “O universo precisa fazer sentido?” “Tudo existe para um propósito (Teleologia)?” “Há uma causa inicial que não foi causada?” “Se o universo não tem um propósito, porque nós humanos temos o instinto de compreendê-lo?” “Se existe o presente, então tem que existir o passado.”
Muitas pessoas respondem essas perguntas usando Deus como uma simples resposta (Salto de fé).
“Vivemos sobre o silêncio de Deus”
Mas para outras, Deus não responde essas perguntas, ou seja, Deus não necessariamente está nas lacunas da ciência. A simples ignorância humana não é uma prova da existência de Deus.
“A ausência da evidência não é a evidência da ausência.”
“A ciência não tem a pretensão de responder a tudo, essa pretensão é da religião.”
“Porque existe uma lei como a gravidade, o universo pode e vai criar a si mesmo a partir do nada. Não é necessário invocar Deus para acender a chama e pôr o universo em movimento.” The Grand Design, Stephen Hawking, 2010
“Se Deus existir, deixa de ser Deus. Deus é um absurdo por definição.”
A Metafísica de Aristóteles é uma das principais bases teológicas das religiões, definindo um “Motor Imóvel”, que seria a “causa não causada” de todas as coisas (Causa Primeira), que age através do intelecto (Teleologia).
“Portanto, a necessidade é um princípio de tal natureza que a essência é energia. […] mas ela não vê nenhuma essência que seja eterna, imóvel e separada dos sentidos. […] mas aqui ela move o apetitivo e o intelectual; move o que não é movido. […] aqui, portanto, move o primeiro ser imóvel.” Metafísica, filósofo grego Aristóteles, século I a.C.
“No princípio, Deus criou os céus e a terra” Livro de Gênesis 1:1
O Platonismo Cristão entende que a intenção, o Mundo das idéias, está dissociado do mundo material, e é a essência de todas as coisas (dualismo psico-físico).
Ao mesmo tempo que outros filósofos posteriores, tem outras teorias que contrapõem a metafísica grega. *Hegel*, por exemplo, acredita num caminho do meio, onde a razão e a realidade são intrínsecas e não dissociadas.
“O que é real é racional e o que é racional é real” Princípios da Filosofia do Direito, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, 1821
Ou *Sartre*, que entende o oposto de Platão:
“A existência precede a essência” O Ser e o Nada, Jean-Paul Sartre, 1943
Segundo o Epicurismo, a felicidade pode ser alcançada através da moderação dos prazeres e do conhecimento.
“Se você não violar as leis, nem perturbar os bons costumes, nem entristecer alguém próximo a você, nem forçar o corpo, nem gastar o que for necessário para as necessidades, usar suas próprias escolhas como quiser, será plenamente feliz” “É impossível viver uma vida agradável sem viver com sabedoria, bem e justiça, e é impossível viver com sabedoria, bem e justiça sem viver uma vida agradável.” Carta sobre a Felicidade, filósofo ateniense Epicuro de Samos, século IV a.C
“Se Deus existisse, seria bom demais. Senhor, que tu exista. Amém.”
“A boa notícia da Bíblia não é que Deus só existe. A boa notícia da Bíblia é que Deus é bom.”
Mas o Paradoxo de Epicuro (ou problema do mal) coloca à prova a existência de um Deus onipotente e benevolente ao mesmo tempo, já que o mal é uma realidade na humanidade.
“Enquanto omnipotente e onibenevolente, Deus tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz (…)” Filósofo grego Carnéades, III a.C.
Sempre existirá argumentos religiosos para manter a fé. Em geral o Apocalipse é a resposta para esses paradoxos, pois a religião aposta nessas promessas de futuro onde o bem prevalecerá e seus dogmas passarão a fazer sentido.
“Respondeu Jesus, e disse-lhe: O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois.” Evangelho de João 13:7
“O amor de Deus é como o amor de mãe para com um filho, não tem como explicar ou ensinar, só se pode sentir.”
Para os religiosos, Deus não é antropomórfico, mas sim metafísico e incognoscível, ou seja, incompreensível para nós humanos que somos limitados em conhecimento e recursos.
Nesse sentido, falar em nome de Deus, e se dizer conhecedor de seus desígnios e objetivos, é um grande erro do ser humano.
No final fica a máxima eterna, a mais certa de todas as coisas:
“Fé não se discute.” Ditado popular
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