Onde os números falam — e onde o silêncio grita
por Sara Wagner york
Onde os números falam — e onde o silêncio grita
por Sara Wagner york
Pela primeira vez, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) perguntou diretamente à população adulta brasileira sobre sua orientação sexual, por meio de um módulo específico da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019. A iniciativa foi divulgada pelo próprio IBGE e trata-se de uma coleta inédita em território nacional, feita em caráter experimental para ampliar o conhecimento sobre essa dimensão da população brasileira. (Agência de Notícias — IBGE)
Mas, por que isso ainda é tão importante em 2026?

Os resultados geraram manchetes: 94,8% dos adultos se declararam heterossexuais; 1,2% homossexuais; 0,7% bissexuais; 1,1% disseram não saber; 2,3% preferiram não responder; e 0,1% indicaram outra orientação sexual — como assexual ou pansexual. Cerca de 2,9 milhões de pessoas com 18 anos ou mais relataram ser homossexuais ou bissexuais, o que corresponde a cerca de 1,8% da população adulta. (Agência de Notícias — IBGE)
Mas os números contam apenas uma parte da história.
O que os dados revelam — e o que escondem
Os dados foram coletados em mais de 108 mil domicílios em 2019, por amostragem probabilística, com seis opções de resposta sobre a orientação sexual. (Jornal de Brasília) No entanto, a pesquisa não incluiu identidade de gênero, deixando de capturar quantas pessoas se reconhecem como trans, travestis ou não binárias — uma lacuna metodológica que o próprio IBGE reconhece estar estudando para futuras pesquisas. (Agência de Notícias — IBGE)
Especialistas ouvidos por veículos de imprensa ressaltam essa limitação: ao investigar apenas orientação sexual autodeclarada e não identidade de gênero, a pesquisa deixa de registrar a diversidade completa da sigla LGBTQIA+. (Banda B)
Além disso, milhões de entrevistados não responderam ou disseram não saber sua orientação sexual — 3,6 milhões preferiram não responder esse quesito, número maior que o total de homossexuais e bissexuais autodeclarados. (Agência de Notícias — IBGE)
Isso indica que os números refletem mais quem se sentiu seguro para responder do que a prevalência real de orientações sexuais no país.
O problema da subnotificação
Vários fatores podem interferir na disposição de uma pessoa responder sobre sua orientação sexual, como o contexto cultural, viver em cidades pequenas, a presença de preconceito e a insegurança em falar sobre um tema ainda estigmatizado — especialmente em entrevistas domiciliares, mesmo com garantias de privacidade. (Agência de Notícias — IBGE)
Essa subnotificação sistemática é um desafio metodológico conhecido em pesquisas sensíveis: quando a variável de interesse depende de uma autoidentificação em espaços onde a violência simbólica e física ainda é uma ameaça, os resultados tendem a subestimar a realidade social.
Ranking por estados: o que ele realmente significa
Algumas análises regionais mostraram que estados do Norte, como Amapá, e o Distrito Federal apareceram com percentuais maiores de pessoas que se declararam homossexuais ou bissexuais, enquanto outros estados, como São Paulo ou Rio de Janeiro, ficaram abaixo da média nacional. (Brasil de Fato)
Mas esses “rankings” não devem ser interpretados como a distribuição real da população LGBTQIA+ pelo país. Os próprios documentos técnicos do IBGE alertam que os percentuais por estado não são estatisticamente diferentes entre si, devido ao tamanho da amostra e aos intervalos de confiança envolvidos. (Agência de Notícias — IBGE)
Ou seja: não é possível afirmar, com os dados disponíveis, que “há mais LGBTQ+ no Norte do que no Sudeste”. O que é mensurado é quem se sente confortável e seguro para se autodeclarar em um contexto de pesquisa.
O contexto social que os números não capturam
É nesse ponto que os dados ganham dimensão social e política: a visibilidade estatística está diretamente ligada ao medo, ao estigma e às relações de poder que moldam a vida das pessoas. Em um país que continua entre os que mais registram violência contra pessoas LGBTQIA+ no mundo — com altas taxas de homicídios e discriminação — responder sobre orientação sexual pode ser um ato de risco, mesmo em pesquisas anônimas.
A própria comparação internacional, feita pelo IBGE, mostra que pesquisas semelhantes em outros países geralmente revelam percentuais maiores de pessoas que se autoidentificam como LGBTQ+. A diferença está, em grande parte, na segurança simbólica e legal que permite que uma pessoa se assuma publicamente. (Agência de Notícias — IBGE)
Conclusão: o silêncio também é dado
Mais do que apontar onde há mais ou menos pessoas LGBTQIA+, a pesquisa do IBGE nos força a olhar para o mapa do silêncio imposto — para quem não respondeu, para quem não se reconheceu nas categorias oferecidas, para quem retém sua existência por medo ou desconhecimento dos termos.
Essa pesquisa é um avanço inevitável e necessário, mas seus limites revelam que cifras sem proteção e acolhimento ainda não significam igualdade.
Em um Brasil onde visibilidade não é sinônimo de segurança, os números são um começo — e o silêncio pode ser tão revelador quanto qualquer percentual divulgado.
메타데이터
- post_id
- 4191de50c6b0
- slug
- onde-os-números-falam-e-onde-o-silêncio-grita-4191de50c6b0
- url
- https://medium.com/@sarawagneryork/onde-os-n%C3%BAmeros-falam-e-onde-o-sil%C3%AAncio-grita-4191de50c6b0
- canonical_url
- https://medium.com/@sarawagneryork/onde-os-n%C3%BAmeros-falam-e-onde-o-sil%C3%AAncio-grita-4191de50c6b0
- author_url
- https://medium.com/@sarawagneryork
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-13 13:01:55