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Amor de plástico

De cabelo cacheado, olhos abertos ou fechados, e bochechas rosadas, os bebês reborn fazem sucesso ao imitar crianças de verdade

Ana Beatriz Diogo Rodrigues · 2025-05-26 15:39 · 0 claps · 9.6 min read
#bebê-reborn #reborn-dolls
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Amor de plástico

De cabelo cacheado, olhos abertos ou fechados, e bochechas rosadas, os bebês reborn fazem sucesso ao imitar crianças de verdade

por Ana Beatriz Rodrigues para a Revista Misto

Em um ambiente calmo e silencioso, todos anseiam pelo novo membro da família. Após meses de espera, tudo aconteceu bem durante o nascimento. A equipe estava preparada, com todos os instrumentos à mão, e a mãe, ansiosamente, acompanhava cada movimento. Pequeno, angelical e com lindas bochechas rosadas, parecia que em qualquer momento poderia dar seu primeiro choro. Mas, ao nascer em um hospital, esta criança nasceu no ateliê de um artista, que dedicou horas de trabalho para criar um bebê reborn.

Uma febre entre crianças e adultos, os bebês reborn, ou bebês reborn, podem ser vistos como brinquedos, itens de colecionador ou até apoio em terapias específicas. Para desmistificar falácias em torno dessas características, a Revista Misto reuniu mães de bonecas, artesãs e especialistas no assunto.

Capa da reportagem na Revista Misto. Clique aqui para ver a diagramação completa

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Pode parecer um pouco absurdo pensar em pessoas cuidando de bonecos como se fossem filhos, mas o surgimento dessa técnica torna tudo ainda mais interessante. Em meio aos conflitos da Segunda Guerra Mundial, dar brinquedos para as crianças se tornou muito difícil. Com uma ideia de “renascimento”, as mães da Europa transformavam bonecas antigas para os filhos poderem brincar. Essa teoria não está confirmada.

Mas os Estados Unidos podem se orgulhar quando se trata desse tópico. A artista estadunidense Joyce Moreno é considerada pioneira na produção de bebês reborn. Em 1980, Joyce “deu à luz” bonecas de vinil realistas ao aprimoramento brinquedos já existentes que eram semelhantes a rostos de crianças.

A técnica não é a mesma, muito menos os resultados dos bebês reborn, porém, a essência de se ter uma boneca realista permanece. Os kits, compostos pelos moldes de bebê reborn em branco, são de autoria do artista Pat Moulton.

No universo dos bebês reborn, há dois tipos de bonecos:

Bebê renascido: Criado a partir de moldes feitos por artistas, com base em fotos ou criações próprias. Produzido artesanalmente ou semi artesanalmente;

Bebê realborn: Baseado na digitalização de um bebê real, replicando suas características.

Ao entrar em grupos do Facebook com as mamães dos bebês reborn, você aprende muito. Descobre-se que há uma enorme diferença entre bebês reborn feitos pelas cegas, como são chamados de artesãs que dão a vida às bonecas, e os que são comprados em lojas e fabricados por grandes empresas. Há tantos tipos de técnicas, moldes e de pinturas que dá para se perder em meio a tanta informação.

O “Porkchop”, o primeiro kit de 2003, deu novas oportunidades para as cegonhas. Até então, elas precisavam adaptar bonecas comerciais, removendo a pintura original para então repintá-las para imitar a aparência realista de um bebê.

Em 2017, Pat explicou como o cenário mudou depois dos kits: “As coisas eram diferentes porque ninguém dava ao artista reborn o que ele merecia”. Inclusive ela disse que o comércio desses bonecos, “não era uma indústria como é hoje”. Mais de 10 anos depois que a artista revolucionou o setor, os kits continuam sendo usados das mais diversas formas.

Mãe é quem cria

Inspiradas pela tradição que diz que as cegonhas entregam recém-nascidos às suas famílias, as artesãs são responsáveis por levar os bebês reborn aos novos lares. Com o avanço dos kits, essa técnica saiu do território estadunidense e europeu. Aqui no Brasil os reborn babies se tornaram uma tendência, e agora até ‘maternidades’ especializadas em bonecas existem.

Apesar de todos os avanços relacionadas ao desenvolvimento da técnica, brasileiras enfrentavam dificuldade em encontrar cursos sobre o assunto. Luanda Rodrigues, cegonha há mais de nove anos, relatou que, no início das pesquisas sobre a profissão, precisou recorrer a cursos de ‘gringas’.

“Não tinha ninguém que ensinasse a fazer bebês reborn”, disse, explicando que apesar de não entender completamente inglês, ela “visualizava e fazia igual ao que a professora estava fazendo”.

Mesmo que muitas cegonhas comecem na profissão com a intenção comercial, Luanda iniciou na carreira com a missão de reproduzir os próprios filhos em bonecos. Quase uma década depois, ela conta que ainda não conseguiu fazer os reborns desejados, mas que ainda obtém inspiração em crianças reais.

“A minha inspiração de continuarcriando os bebês reborn são os bebês de verdade. Eu me inspiro nas crianças para criar”, destaca a cegonha Luanda

Katia Kuriu também foi influenciada pela própria filha a entrar no ramo das artes reborn. “Devido minha formação em Artes Plástica, acreditei que poderia fazer um curso específico para aprender a confeccionar uma bebezinha e presenteá-la. Fiz o curso e me encantei”.

Ela conta que foi seu marido quem a incentivou a transformar o hobby em profissão. Essa decisão, que aconteceu há 10 anos, acompanha todas bonecas feitas por Katia.

No Instagram, a cegonha expõe em detalhes as bonecas Maggie, Sarah, Laura e entre tantos outros. Ela trabalha na maioria com bebês sob encomenda, e o cliente é quem define todos os detalhes. “Como comentei, muitas pessoas estão realizando um sonho ao adquirir O bebê reborn, eu ofereço meu melhor para realizá-lo”.

Os bonecos cheios de detalhes precisam de muitas etapas até ficarem do jeito que o cliente solicitou. Para realizar esse trabalho, as cegonhas escolhem as partes do corpinho como cabeça, mãos e pernas — geralmente de silicone, vinil ou ambos. É possível importar esses materiais ou até fabricar com moldes. Com a base, as cegonhas começam a dar o sopro da vida para os bebês reborn.

O preenchimento do corpo é feito com fibras de plumante — uma espécie de manta sintética — e pequenos saquinhos de areia, que dão ao boneco o peso e a textura adequados solicitados pelo cliente. Nessa etapa, as tintas — específicas para a art reborn — são usadas para dar a cor de pele desejada e ainda adicionar toques realistas, como bochechas rosadas e até veias.

Além disso, as artesãs incluem cílios, sobrancelhas, unhas e cabelo, que é implantado fio a fio. O cabelo pode ser feito de fios humanos ou de lã de ovelha. Todas esses detalhes são feitos para as bonecas ficarem ainda mais parecidas com um bebê de verdade.

Clique aqui para ver a diagramação da reportagem na Revista Misto.

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História de maternidade

Da mesma maneira que médicos e enfermeiros colecionam lindas memórias de partos, as cegonhas podem contar relatos emocionantes sobre bebês reborn. A artesã Katia Kuriu relata que sempre se emociona em ver sacrifícios de pais, como, por exemplo, vendendo doces na porta de escola para realizar o sonho da filha.

“Crianças que vão juntando dinheiro e com a ajuda dos parentes e pais, voltam a me procurar para comprar e até vídeos que recebo com a criança chorando agradecendo aos pais, ao receber sua bebezinha”, contou a cegonha.

Mas duas histórias fisgam seu coração e a fazem pensar que a art reborn vale a pena. Katia tinha uma bebê reborn que estava a venda há muito tempo, mas ninguém se interessava por ela. Até que um dia, a mãe de uma garotinha entrou em contato com ela para comprar. A filha acabara de perder a avó e estava muito triste.

Quando ela recebeu a bebezinha, voltou a sorrir. “A mãe ficou agradecida, desabafou pelo que estava passando e, por coincidência ou não, a bebê reborn que vendi para ela, nasceu no mesmo dia que a mãe dela faleceu. Não vendia porque aguardava por ela. Eu acredito assim!”.

Além dessa história, a médica de Katia estava no processo de tentar ter filhos. Durante uma consulta, ela desabafou com a artesã falando que esteve na cidade de Aparecida (SP) e viu a Sala dos Milagres, em que bonecas que foram deixadas por pessoas que receberam a graça de ter um filho. “Então, ela me pediu para fazer a bebê porque, caso a graça dela fosse alcançada, levaria para Aparecida. Passados alguns meses, ela me disse: ‘Katia, pode me fazer mais uma, minhas filhas serão gêmeas’. Assim fiz, ela se preparou e levou de bicicleta as bonecas para Aparecida”.

Com essas e outras histórias, os bebês reborn ultrapassam o conceito de brinquedos e se tornam companheiros de diferentes formas. Crianças, adolescentes, e até idosos se veem entusiasmados pela ideia de ter um desses bonecos, cada um por suas próprias razões, que vão desde a diversão até o conforto emocional.

A colecionadora de bebês reborn Liah, como é chamada na internet, conheceu a art reborn por vídeos no YouTube em 2014. Mas somente com 15 anos, em 2021, conseguiu comprar sua primeira bebê reborn.

“Decidi comprar, pois era um sonho de infância que nunca pude realizar”, diz Liah

Ela decidiu postar conteúdo direcionado ao nicho no Instagram, “para interagir com pessoas que também colecionam, e por diversão”. Para Liah, devido às bonecas terem o peso parecido com um bebê de verdade, se torna algo terapêutico.

Quem enxerga os bebês como terapia também é Angelica Kerches, que além de mamãe reborn também é uma cegonha. Ela nunca comprou uma bebê reborn, mas ao participar em uma rifa de kit de pintura, ela ganhou o material e começou como artesã no ramo. Angelica já é mãe de mais de 20 reborns, além dos que faz para vender. “Minha rotina mudou muito através da art reborn, pois foi nela que me achei e que acabei me apaixonando. Além disso, também saí de um profundo desânimo que tinha de não fazer nada”, contou a cegonha.

A mamãe reborn também é responsável pela organização de encontros entre colecionadoras e artesãs. As reuniões acontecem mensalmente no Parque do Ibirapuera, na cidade de São Paulo.

Ao contar essas histórias super pessoais sobre o envolvimento com as artes reborn, Angelica ainda menciona que, atualmente, seu filho de 14 anos também pegou gosto pela área e coleciona as bonecas. Porém, nem sempre a família da Angelica viu a paixão dela assim.

“No começo minha mãe não gostava muito não. Ela falava que as bonecas pareciam um bebê morto. Mas com o tempo que fui fazendo os bebês reborn, ela se adaptou e passou a colecionar também”, relata.

A mamãe reborn — e cegonha — Adriana Barbosa, compartilha uma história semelhante. Ela tem três filhos, de 29, 23 e 19 anos, e relatou que no ao dar os primeiros passos na art reborn foi estranho, “mas depois de um tempo aceitaram, porque viram várias bebês renascerem pelas minhas mãos, e acharam interessante”. Adriana ainda destacou que acha que esta arte é para quem realmente tem o dom e que ama muito essa profissão.

Quando pensa sobre sua relação com os bebês reborn, a artesã volta à infância e afirma que esse sentimento materno sempre esteve com ela. “Decidi comprar porque desde a infância sou apaixonada por bonecas. Esse instinto maternal sempre existiu, mas na época eram aqueles bonecões de plástico. Mesmo assim eu era muito feliz brincando com eles”.

Se alguém entrar no perfil da Adriana no Facebook, é possível conferir vários ensaios fotográficos com as bonecas, que parecem mesmo os filhos dela.

Clique aqui para ver a diagramação da reportagem na Revista Misto.

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Mais que uma boneca

A compra dos bebês reborn podem ser influenciada por diversos motivos, como o instinto materno e até apego por brinquedos. Por outro lado, a psicologia também indica o uso para fins terapêuticos, como o caso da gerontóloga, Claudia Alves Silva. Ela é filha da Francisquinha, que enfrenta o Alzheimer há 11 anos, e compartilha nas redes sociais como estimula a afetividade da mãe com o uso dos reborns.

No artigo “O impacto da terapia “Baby Reborn” no resgate de memórias de idosos com Alzheimer”¹, os autores exploram que a prática procura minimizar alguns comportamentos como agitação, agressividade e ansiedade em pacientes com a doença, proporcionando uma melhora significativa no resgate de memórias e na interação paciente-terapeuta.

A terapia baseia-se na “Teoria do Apego”, de John Bowlby, e na “Teoria do Objeto Transicional”, de Donald Winnicott, que explicam como os vínculos emocionais e objetos físicos podem trazer conforto e segurança para pessoas com demência. Além disso, a “Teoria Centrada na Pessoa”, de Carl Rogers, mostra que as interações podem se converter em uma atividade positiva e em uma maneira de se conectar com outras pessoas.

O estudo mostrou que a “maioria dos idosos que apresentavam dificuldades de sociabilização e agressividade tornaram-se menos agressivos e mais sociáveis, demonstrando afeição quando observados” com as bonecas.

Já o trabalho das psicólogas Ane Ribeiro Patti e Lucília Sousa Romão, da Universidade de São Paulo (USP), intitulado “O corpo inanimado em dis(curso): de como reborn-babies são tornados bebês”, trata o fenômeno desses bonecos no contexto das novas tecnologias e redes digitais.

A pesquisa procura explicar como os discursos em torno dos reborn babies revelam interações entre sujeito, linguagem e tecnologia. Por meio da análise de discurso francesa, é possível observar como os discursos relacionados a essas bonecas naturalizam certos sentidos e silenciam outros, ao mesmo tempo em que refletem um desejo inconsciente de preenchimento e satisfação que é característico da era digital.

Ane Patti escolheu o tema, porque estava procurando algum fenômeno que pudesse articular com a vivificação do inanimado, uma vez que se “interrogava sobre os percursos da pulsão”. Ela informou que, ao desenvolver o artigo, as duas psicólogas tentaram “escrever de forma a não emitir juízo moral, pois não se trata disso, mas descrever a partir do entrecruzamento entre o materialismo histórico, discurso e a psicanálise como esse fenômeno discursivo implica em práticas que silenciam outras”.

Para a psicóloga, no caso dos bebês reborn, “o significativo mãe e filho são deslocados para um nicho comercial, mas também afetivo”.

"Pensamos que seja uma resposta dada ao mal-estar na civilização de nossa pós-modernidade, assim como outras características. Os reborns são objetos colocados num lugar afetivo. Que servem de pretexto para encontros reais e ocupação prazerosa do dia a dia", destacou Ane.

Seja pelo desejo de ser mãe, pela vontade de brincar ou até pela terapia, parece que os bebês renascidos cumprem seu papel primordial, definido ainda na Segunda Guerra Mundial: o de renascer. Agora, não apenas as bonecas, mas também o instinto materno, o espírito de criança guardado dentro de nós ou a revitalização da vida.

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