Ensaio sobre Empatia e Simpatia
“É extremamente fácil considerar que o outro não passa de um corpo — o qual, então, pensamos poder usar para os nossos objetivos, sejam…
Ensaio sobre Empatia e Simpatia

imagem gerada por I.A.
“É extremamente fácil considerar que o outro não passa de um corpo — o qual, então, pensamos poder usar para os nossos objetivos, sejam eles prejudiciais ou benéficos. Enxergar uma alma naquele corpo representa uma conquista”. (Nussbaum, 2015, p. 102)
Você sabe a diferença entre empatia e simpatia? Primeiramente, essas palavras (assim como antipatia ou apatia, por exemplo) dizem sobre experiências sensoriais, tanto no sentido das relações afectivas (no sentido de afetar, de afecções) quanto nas formas de percepção da alteridade, ou seja, sobre a maneira como afetamos e somos afetados pelo outro, e sobre os modos que adotamos para reconhecer e nos relacionar com o outro. Em segundo lugar, tanto uma experiência quanto a outra são escolhas, isto é, ser empático ou simpático é uma decisão por uma postura afectiva.
Antes de tudo, precisamos clarear algumas dessas palavras para que fiquem visíveis as suas conexões e componham um sentido coletivo para esclarecer a questão. Para isso, vamos recorrer à etimologia, ou seja, àquilo que podemos dizer sobre as estruturas das palavras. Comecemos pela palavra que une o empático, o simpático ou antipático e toda a sorte de agentes afetivos (ou os patéticos): páthos (πάθος).
Todas essas palavras partem de um núcleo em comum: páthos, ou “o afeto” — mas não afeto no sentido restrito de sentimentos como felicidade ou tristeza, e sim algo mais amplo, o afeto enquanto toda dimensão de afecção da existência. Páthos diz sobre o acontecimento de afetar e ser afetado, como ser atingido por absolutamente tudo que incide sobre nossos sentidos no presente, de maneira física ou mental (como sensações, lembranças, saudades ou por perspectivas futuras). Páthos é, de maneira mais precisa, aquilo que ocorre quando algo ou alguém “toca” nossos sentidos (ver mais em: Projeto Perseus — Greek Dictionary: Páthos). Assim, quando falamos de afeto, falamos de formas de mobilizar o outro em sua existência, de modo sensível. Da mesma forma, uma comunicação ou uma educação afetiva é aquela que afeta os envolvidos: tanto os comunicadores quanto sua audiência, como os educandos e os seus agentes educacionais.
Se páthos é sobre afetar e ser afetado, como empatia, simpatia e as demais posturas patéticas se relacionam com o afetar? Segundo o pesquisador Edward Schiappa, em Did Plato Coin Rhetorike?, as palavras gregas que terminavam em “ica” (“iké” — ική) atribuíam à palavra o sentido de “arte de…” (Schiappa, 1991, p. 464). Como no exemplo do texto referenciado, rhetoriké seria a junção de rhetor (orador) e iké (arte de), logo, a retórica é a prática, ou a arte, do orador. Outras palavras também seguem essa estrutura, como, por exemplo, Política, Ética, Estética, Lógica, Dialética, Erística, Maiêutica, etc. Política, por exemplo, é a composição de polités (o cidadão livre que exercia as funções da pólis) e iké (a arte, ou prática). Político é todo aquele cidadão em ação, e política é a prática dessa ação. Outro bom exemplo é a Erística (que é diferente da Heurística), que significa a arte de Éris (a deusa da discórdia), ou seja, erística diz sobre a arte de discutir, com sentido de disputa, convencimento ou persuasão.
Seguindo esta lógica, patético é aquele que é agente, vivente e promotor de afecções. Quando esse agente vivencia, pratica, sofre ou promove afecções, ele exerce a arte dos afetos, a patética. E essa prática, em ação, pode se expressar de diferentes maneiras. Uma delas é a empatia, que fala da disposição para afetar e ser afetado pelo mundo. Empatia trata da adoção, voluntária e consciente, de uma postura afectiva que busca afetar com consciência, e que escolhe como, por que e por quem afetar e ser afetado.
Martha Nussbaum, em Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das humanidades (2015), aponta que o ensino das artes, especialmente as artes cênicas, é essencial para o desenvolvimento da habilidade da empatia. Nessa prática, o agente cênico — o educando/o ator ou atriz — precisa se abrir para as afecções do personagem que irá representar. Não deve haver julgamento daquele que interpreta, apenas um exercício de abertura ao que afeta aquele ente que será representado no espaço cênico. Quanto maior a abertura para sentir o outro, mais rica será a possibilidade de uma representação mais robusta e consistente na cena. Nussbaum defende que o desenvolvimento das habilidades empáticas enriquece a experiência profissional e humana, fortalecendo a imaginação e criatividade dos educandos — cidadãos e profissionais em formação.
As artes, na visão de Nussbaum, “estimulam tanto o autodesenvolvimento quanto à receptividade aos outros” (Nussbaum, 2015, p. 104), e a empatia (base para uma imaginação criativa) “significa a capacidade de pensar como deve ser se encontrar no lugar de uma pessoa diferente de nós, de ser um intérprete inteligente da história dessa pessoa e de compreender as emoções, os anseios e os desejos que alguém naquela situação pode ter” (Nussbaum, 2015, pp. 95–96). Essa qualidade no processo educacional necessariamente alimenta uma cultura social mais sensível à diversidade afectiva.
Para Nussbaum, o desenvolvimento da empatia no âmbito da formação educacional (especialmente pelo componente humanista) é essencial para “desenvolver nos estudantes a capacidade de se perceberem como membros de uma nação heterogênea […] e de um mundo ainda mais heterogêneo”. A empatia permite nos inteirar sobre a natureza cultural dos mais diversos grupos e ativamente expandir o campo e o alcance da nossa capacidade sensorial.
Se a empatia é estar aberto ao outro, a composição afectiva ocorre mesmo é na simpatia, pois o sentido de simpatia é “sentir ao mesmo tempo”. Simpatia é a junção de “syn” (junto) e páthos. O “syn” é a mesma partícula que aparece em sincronia (mesmo tempo), sintonia (mesma frequência), sinfonia (“falar” junto), indicando simultaneidade. Não muito antigamente, as “simpatias” eram práticas populares que acreditavam ter o poder de forçar uma disposição afectiva compartilhada, isto é, duas pessoas serem afetadas pela mesma “disposição amorosa”.
Na prática cotidiana, ser simpático é muitas vezes reduzido a apenas dizer bom dia; no entanto, conceitualmente, simpatia é uma experiência de reconhecer a alteridade — isto é, que há uma natureza diferente de mim: o outro — e se relacionar afectivamente com ela, buscando sentir o que o outro sente. Sentir junto exige sair de nós mesmos e fazer o movimento oposto ao antipático — aquele que permanece encerrado em si mesmo ou ensimesmado — e afirmar aquilo que afeta o outro. Quando um “bom dia” é dirigido a alguém com genuína simpatia, há nesse gesto uma intenção de compartilhamento de disposição afectiva, e não uma mera formalidade cotidiana e superficial.
A atenção, nesse caso, é condição necessária para a simpatia. Como Simone Weil defende, segundo o artigo Um estado de graça: a condição da atenção em Simone Weil (Marques, 2023), a atenção é uma forma elevada de abertura ao outro, um estado de disponibilidade que permite estender-se ao outro e captar a realidade tal como ela é, com receptividade e generosidade. Estar atento é condição indispensável para estar realmente em condições de possibilidade de simpatia com o outro.
Por outro lado, a antipatia e a apatia também nascem desse mesmo campo semântico. O antipático reconhece a alteridade afectiva e a nega, isto é, não se dispõe a sentir o que o outro sente. Já o apático pode tanto não se afetar (no sentido da indiferença, insensibilidade ou frieza — ver mais em Projeto Perseus — Greek Dictionary: Apathéia) quanto estar em um estado filosófico, como no estoicismo clássico, que visa o desligamento consciente das disposições afectivas. Portanto, a apatia pode ser tanto ausência de afecção quanto uma disciplina interior de suspensão das paixões (enquanto afecções).
Em resumo, somos todos patéticos — todos vivemos à medida do afetar e do ser afetado. O que nos diferencia é a maneira como escolhemos nos afetar e nos relacionar com os afetos do outro. Empatia é tanto uma habilidade que pode ser devidamente treinada quanto a adoção de uma postura, da mesma forma, a simpatia é um esforço genuíno e atento de estender-se à afecção do outro para sentir junto. Seja como for, quando falamos dessas habilidades (ou das suas disposições negativas), falamos de escolhas de posturas mentais sobre como queremos agir frente à experiência humana, que se revela, inevitavelmente, afectiva.
Referências Bibliográficas:
SCHIAPPA, Edward. “Did Plato Coin Rhetorike?”. The American Journal of Philology, v.111, n.4, 1991, p. 457–470.
NUSSBAUM, Martha C. “Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das humanidades”. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.
MARQUES, Bárbara R. R. “Um estado de graça: a condição da atenção em Simone Weil”. Horizonte — Dossiê: Teologia Negra e Africana — Temática Livre, Belo Horizonte, v.21, n.66, set./dez. 2023
메타데이터
- post_id
- 443f0aa0e4ac
- slug
- ensaio-sobre-empatia-e-simpatia-443f0aa0e4ac
- url
- https://medium.com/@rsalimena/ensaio-sobre-empatia-e-simpatia-443f0aa0e4ac
- canonical_url
- https://medium.com/@rsalimena/ensaio-sobre-empatia-e-simpatia-443f0aa0e4ac
- author_url
- https://medium.com/@rsalimena
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-24 13:29:15