Ôrí (1989), de Raquel Gerber
O cinema é uma arte da magia por muitas razões. Uma delas é seu poder de congelar imagens no tempo, de modo que possamos acessá-las no…
Ôrí (1989), de Raquel Gerber

O cinema é uma arte da magia por muitas razões. Uma delas é seu poder de congelar imagens no tempo, de modo que possamos acessá-las no futuro. Assim, através do cinema conseguimos conhecer figuras que já não estão mais vivas neste plano terreno, e que por aqui fazem tanta falta. Este é o caso de Beatriz Nascimento, historiadora e militante negra morta prematuramente em 1995, e que seis anos antes narrou o documentário “Ôrí”.
Partindo, como os navegadores portugueses, do encontro das águas do Rio Tejo com o mar, o documentário tece as relações culturais e outros laços que unem África e Brasil, respondendo à pergunta: quem são os quilombos do século XX? São as escolas de samba e os terreiros de macumba e candomblé. Partindo disso, são mostrados paralelamente um terreiro e uma escola de samba, ambos com sede na maior metrópole do Brasil.

A narração nos conta que era tarefa feminina deixar oferendas nas encruzilhadas, não apenas por obrigação com fundo religioso, mas para auxiliar os negros em fuga. Fraternidade praticada por hábito, mas que fazia toda a diferença para quem dela se beneficiava.
O documentário define que, havendo a União Ibérica — união de Portugal e Espanha sob uma mesma coroa, por anos durante o século XVII — e com ela o descaso pela colônia brasileira, com o quilombo de Palmares o Brasil começou a ser “pai de si mesmo”.
Nesta mesma época, reinava no que hoje é o país Angola a rainha Nzinga. Desde tenra idade ela lutou, literalmente, contra os portugueses que invadiram seu reino em busca de ouro e prata e, não os encontrando, escravizaram seu povo. Depois de coroada, ela rompeu um pacto com os portugueses e obteve o honroso título de “principal inimiga do reino português”. Lutou no campo de batalha e fez diversos acordos estratégicos que garantiram o livramento do cativeiro para muitos de seus súditos. Um filme sobre ela foi feito em 2013.
Para além do assunto quilombos modernos, o documentário mostra outra forma de “aquilombar-se”: através de movimentos de reivindicação de direitos, que não são nem um pouco homogêneos. Um duro golpe é sentido por estes movimentos com a invasão norte-americana de Granada, que seria, como mostra o filme, a sede do IV Congresso de Cultura Negra das Américas.

Para Beatriz Nascimento, é única a experiência do negro brasileiro nos quilombos — considerando aqui que “quilombo” é modo de ser e de viver, e não apenas um local. Por ter tido trocas culturais, entre outras, com os povos originários e os brancos pobres, os negros escravizados- sejam eles nascidos no Brasil ou traficados para cá de África — têm características singulares. O pensamento de Beatriz Nascimento é notável não apenas por sua envergadura, mas por ela se basear, além do conhecimento acadêmico, em suas próprias vivências no ativismo antirracista.
É curioso ver uma manifestação durante o Dia Nacional da Consciência Negra em 1979, sabendo que demorariam 45 anos para que a data se tornasse feriado nacional. Mas não foi por falta do status “feriado” que a data não representou um dia de lutas, reivindicações e orgulhosas demonstrações da cultura negra.

Beatriz Nascimento e Raquel Gerber
Um homem estrangeiro, integrante da banda Black Rio, afirma de cima do palco de um show que revolução é quando as minorias querem se tornar maioria. Mas essa noção implica a subjugação das novas minorias, antes maiorias. Não é isso que queremos: desejamos respeito enquanto minorias, pois não somos sub-cidadãos.
A palavra “ôrí” remete a uma cerimônia de abertura para uma vida nova. Beatriz Nascimento teve sua vida interrompida por um feminicídio, ao tentar defender uma amiga. Mas ela vem tendo uma nova vida: nos últimos anos, o legado de Beatriz, que sequer chegou a concluir seu mestrado, vem sendo reconhecido e celebrado nas áreas de educação, ativismo e luta contra o racismo. Como deve ser.
메타데이터
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