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Um lugar em que pessoas e bichos vivem juntos

Moradores do Recreio dos Bandeirantes, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, se deparam frequentemente com capivaras, jacarés e saguis…

Júlia Fernandes Marcos · 2022-01-19 18:32 · 44 claps · 4.4 min read
#recreio-dos-bandeirantes #capivaras
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Um lugar em que pessoas e bichos vivem juntos

Moradores do Recreio dos Bandeirantes, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, se deparam frequentemente com capivaras, jacarés e saguis. Mas o crescimento da região já ameaça o futuro de alguns desses animais


Quando se fala em Rio de Janeiro, a primeira imagem que se tem é aquela de cartão postal. O Pão de Açúcar, o Bondinho, a Lagoa Rodrigo de Freitas, as praias de Ipanema e do Leblon. Lotados de turistas, esses lugares carregam uma bagagem histórica enorme, mas não cessam de mudar e de modernizar — assim como toda cidade grande. Basta andar um pouco para ver prédios sendo erguidos e áreas sendo revitalizadas. Agora imagina que, dentro dessa mesma cidade, há um lugar pouquíssimo explorado. Um bairro com vastas áreas verdes, atrações gratuitas e uma beleza de tirar o fôlego. Um local com um ecossistema tão rico que abriga tesouros da fauna e da flora brasileira. E ao andar pela rua, é provável que você… se depare com uma capivara. Ou com um jacaré passando perto do rio. Essa é a realidade dos moradores do Recreio dos Bandeirantes, bairro em que a urbanização massiva é tão recente que pessoas e animais convivem no mesmo espaço. Enquanto prédios são levantados e áreas verdes, retiradas, a convivência é mútua até que um desses atores predomine.

Quem vive no local, como Alexandre Portella, de 24 anos, afirma que a cena é mais comum do que se imagina. “Antes de me mudar para cá, eu morava em Bangu, um bairro em que a urbanização e a desordem já tomaram conta. Foi um choque muito grande quando vim morar aqui. Você convive com muitos bichos. Eu acordo de manhã e tem uns cinco saguis fazendo barulho na minha janela. Quando volto do trabalho, à noite, vira e mexe eu vejo uma capivara perto de um mato. Isso quando não vejo um jacaré perdido no meio da rua”, afirma o jovem que mora no bairro há quase um ano.

As capivaras são símbolo da região e já se tornaram as queridinhas dos moradores do Recreio. Apesar de haver boatos de que esses animais seriam pragas e fizessem mal à saúde, Simone Giacobbo Copezynski, presidente da AMOR (Associação dos Moradores do Recreio) há três anos, afirma que elas fazem parte do ecossistema local. “Elas chegaram aqui antes das pessoas. Antes era tudo mato e elas ficavam no meio dele. Agora que tem rua, elas ficam nela. Por isso é mais comum vê-las por aí. Tem mais gente para ver e tem mais espaço para se compartilhar”. Segundo Copezynski, elas convivem bem com os outros animais existentes. Ainda que, por exemplo, um jacaré possa comer um filhote de capivara, não se trata de uma anormalidade, mas da ordem natural das coisas. A presidente da AMOR, entretanto, cita os reais problemas que envolvem essas adoradas capivaras. Recentemente, uma imagem da página Recreio Nosso (@recreionosso) de uma capivara morta à tiro viralizou entre os moradores do Bairro. Simone Copezynski afirma que, provavelmente, tenha sido mais um caso de caça. Segundo ela, a carne da capivara é famosa por ser exótica e, por isso, muita gente mata esses animais para comer. Mas apesar dessa questão ser, sim, relevante, há uma preocupação ainda maior. A crescente urbanização tem retirado a vegetação local e poluído rios. Com isso, as capivaras ficam em situação vulnerável, já que o abrigo e o sustento começam a ser ameaçados.

Capivara no Pontal Oceânico, Recreio dos Bandeirantes.

Capivara no Pontal Oceânico, Recreio dos Bandeirantes.

Ainda que seja comum avistá-las, essa situação já não é mais a mesma de anos atrás. O sargento Agrimário Vitorino, chefe de guarnição do Corpo de Bombeiros do Recreio, afirma que a frequência em que elas aparecem é cada vez menor. “De uns três anos para cá, a gente tem visto bem menos capivaras. Antes os chamados de resgate eram mais comuns. Hoje não tem tantos.” Apesar de ainda não haver estudos concretos sobre o que estaria, de fato, ocorrendo, a percepção dessa queda do número já deveria acender um alerta. Para o sargento, “a população, infelizmente, ainda está muito desinformada.”. Ao mesmo tempo em que não há dimensão dos estragos que o crescimento acelerado do bairro tem trazido para os animais, o bombeiro indaga que as pessoas ainda não sabem como lidar com a presença deles. “Quando há uma situação de risco, como um animal no meio da estrada, nós somos chamados para retirá-lo dali. O problema é que nos chamam para tudo. Na maioria das vezes, o resgate deveria ser feito pela Guarda Municipal ou pela Patrulha Ambiental, mas as pessoas ligam primeiro para nós, e isso acaba sobrecarregando muito a gente.”

Para o sargento, as funções estão descentralizadas, mal distribuídas. Quando uma capivara está em um local inapropriado, é dever da Patrulha Ambiental realocá-la em um ambiente mais seguro e mais adequado. Segundo ele, além da sobrecarga, isso causa dois grandes problemas. O primeiro é que eles se ocupam resgatando esses bichos quando deveriam atender a casos mais sérios. “Já aconteceu de eu receber um chamado de acidente de moto na Avenida Lúcio Costa, mas eu não pude ir porque estava atendendo uma moradora que nos ligou para tirar uma preguiça de cima de uma árvore.”, afirma, indignado. O segundo problema é que os bombeiros não têm instrução do lugar ideal para levar os animais depois do resgate. “Quando a gente pega um bicho, a gente leva ele para bem longe, em um lugar de mato perto da Prainha. Mas ali ficam todos os bichos juntos. Se uma capivara entra ali, por exemplo, pode ter cobra e outros animais que não façam parte do habitat dela. É algo que foge do nosso controle.”

O Parque Chico Mendes, órgão administrado pela Prefeitura do Rio, é o lugar mais preparado para cuidar da fauna e da flora características da região. O Parque, que é monitorado pela Fundação RIOZOO e pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente, acompanha, especialmente, espécies ameaçadas de extinção, mas hoje a situação já é um pouco diferente. A estudante de Ciências Biológicas, Larissa Arcênio, que é estagiária no Chico Mendes, afirma que eles começaram a receber animais a partir do segundo semestre, coisa que não acontecia há anos. Para ela, cabe à Patrulha Ambiental decidir onde vai alocá-los. Essa talvez seja uma grande evidência de que alguns bichos que antes viviam sem monitoramento, agora precisam de mais atenção. Além disso, deve servir, também, como um sinal de alerta para as consequências que a urbanização crescente pode trazer. Afinal, se o bairro não receber as devidas medidas de proteção a esses animais, o desaparecimento deles pode sair de controle.

Por Júlia Fernandes


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