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Interseccionalidade: espaço e direitos

Por Mariana de Oliveira Souza. Graduanda na FDUSP e membra do GEF.

GEF - Grupo de Empoderamento Feminino · 2023-06-19 18:38 · 0 claps · 2.5 min read
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Interseccionalidade: espaço e direitos

Por Mariana de Oliveira Souza. Graduanda na FDUSP e membra do GEF.

Na música “Língua solta”, Elza Soares consegue apresentar através de sua letra a falta de espaço na sociedade para que se possa discutir e reivindicar os direitos daqueles que são diariamente oprimidos. Ela vai além e entende que esses grupos oprimidos precisam se levantar e lutar por esses direitos.

Elza Soares sempre foi muito sintonizada com a realidade e conseguia expressar isto de forma clara em suas músicas, como pode ser visto no trecho:

“Nós não temos o mesmo sonho e opinião

Nosso eco se mistura na canção

Quero voz e quero o mesmo ar

Quero mesmo é incomodar”

Essa luta tem sido travada há tempos, mas não para que haja apenas uma declaração de direitos, e sim para que esses direitos efetivamente protejam todos os indivíduos que precisam da sua titularidade. Entretanto, vale destacar que muitos desses direitos são universalizantes, o que não é positivo.

A preocupação com esse caráter universalizante dos direitos existe principalmente porque a sociedade enxerga os indivíduos através de marcadores sociais como classe, raça, cor, etnia e gênero, por exemplo, que fazem com que as pessoas sejam tratadas de formas diferentes, tenham vivências e necessidades diferentes. Nesse sentido, a escritora Sueli Carneiro, no seu texto “Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”, traça a herança deixada pela colonização. Esta herança é marcada pela exploração e subjugação de povos indígenas e pessoas negras que foram escravizadas, que provoca reflexos na forma que esses dois grupos são tratados atualmente.

Um exemplo interessante apresentado pela autora é o da fragilidade da mulher que necessita de proteção. Mas quem é essa mulher frágil? É uma mulher branca, porque mulheres negras não são tratadas como frágeis. Mulheres negras eram mão-de-obra escravizada na colônia, e, depois da publicação da Lei Áurea, trabalhavam arduamente para sobreviver num país racista e misógino. Assim, Sueli Carneiro revela a falácia do “mito da fragilidade feminina”, desmontando, também, a universalidade das demandas das mulheres.

Por isso, é interessante olhar para esses fatores a partir da interseccionalidade, que busca entender quais são as diferenças dentro de um grupo oprimido. Esse conceito foi utilizado pela primeira vez pela pensadora Kimberlé Crenshaw que entende que dentro desses grupos existe uma subordinação entre os que têm menos poder social para os que têm mais poder social. Assim, pode-se fazer uma análise profunda dos sistemas discriminatórios, pois revela-se a existência de sobreposição entre eixos de subordinação.

Para além disso, é importante pensar a interseccionalidade dentro do movimento feminista, pois ao olhar para a história fica claro que mulheres brancas e negras foram tratadas de forma distinta desde sempre.

Dito isso, não é possível viver em um mundo ilusório em que se assuma que direitos universais das mulheres são suficientes, pois não são. É necessário entender que as mulheres não são um grupo unificado com as mesmas experiências, mas sim um grupo com identidade diversa.

Assim, com a interseccionalidade é possível ter um movimento que avalie as estruturas discriminatórias, de modo que evite a exclusão de grupos que já são oprimidos.

Então, é importante deixar ressoar as palavras de Elza Soares:

“Nosso eco se mistura na canção

Quero voz e quero o mesmo ar”

No sentido de que o movimento feminista é diverso, mas que também dentro dele é preciso dar espaço para que todas as vozes tenham espaço e direitos.

Bibliografia:

CARNEIRO, S. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: ASHOKA Empreendedores Sociais; Takano Cidadania (org.). Racismos contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano Ed., 2003. p. 49–58.

CONCEIÇÃO, Francis Willams Brito da. Feminismo negro e interseccionalidade na canção “Mulher do fim do mundo” (2015) interpretada por Elza Soares. Criação & Crítica, n. 31, dez 2021.

CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas [online]. 2002, v. 10, n. 1, pp. 171–188.


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