Não Dá pra Disfarçar o Cheiro
Admiro quem consegue disfarçar os desconfortos cotidianos, pois eu sou do time dos que não consegue. Eu sei, há momentos em que é preciso…
Não Dá pra Disfarçar o Cheiro

Admiro quem consegue disfarçar os desconfortos cotidianos, pois eu sou do time dos que não consegue. Eu sei, há momentos em que é preciso cara de paisagem, fingir entender a razão de coisas sem razão para seguir em frente sem esquentar a cabeça por pouca coisa, mas eu, particularmente, não consigo. Minha esposa sempre me diz que mostro meu desconforto com certa facilidade, através do rosto, que não esconde a insatisfação, a incompreensão, o inconformismo com algo que escuto ou vejo. Mas eu juro, eu tento!
E eu tento porque quero ser desses que não esquenta a cabeça com imbecilidades alheias, afinal, de imbecis e sem noção já bastam as vozes intrusivas que de vez em quando vem e sopram algo no meu ouvido, como um espírito zombeteiro de novela da década de 1990. O problema é que eu não dou meu braço a torcer a eles, que estão doidos para ver o circo pegar fogo, ainda mais quando o sujeito que tá com a gasolina é aquele que duvidam que pode ser o mensageiro do caos. Agora, quem disfarça, faz a egípcia é tá suave — só não digo que as palavras e gestos que esses julgam absurdos serão esquecidos por eles pois são esses que, na surdina, serão aqueles que vão iniciar a conversa com o primeiro que lhe cruzar o caminho com um “e seu amigo lá, hein? Me deu vergonha alheia o que ele disse/fez”. E assim as fofocas tornam-se bíblicas, ao adotarem o “crescei e multiplicai-vos”, isto é, crescem sendo aumentadas de tamanho e multiplicam-se os ouvidos que estarão ligados na fofoca. E ninguém vai desconfiar do sujeito que disfarça os desconfortos cotidianos, pois ele tem cara e jeito de que não liga pra nada.
Já os que precisam entrar na escolinha Wolf Maia de interpretação e fazer um estágio nas novelinhas do Kwai, como eu, estão lascados. Cada constrangimento é enorme, o dos outros, mas também o nosso. Isso só acontece pois há entre esse tipo de pessoa um quê de compaixão em se colocar no lugar do outro, mas não necessariamente em entender o outro, mas de se colocar no lugar do outro a partir da vergonha que o outro comete. É um pensamento como “se eu falasse um absurdo desses, minha advogada estaria perdendo uma noite de sono”, ou “Deus me livre andar com o cofrinho aparecendo, ainda mais com essa bunda murcha que tenho”. É um colocar-se no lugar da pessoa, mas com sua própria métrica de noção de ridículo ou algo assim. Portanto, acredito que essa seja a chave da falta de talento no disfarce.
Posto isso, se há uma contribuição que podem fazer a pessoas como eu, que são terrivelmente transparentes no quesito “auto-constangimento” é na área de higiene da casa, do banheiro para ser exato. Há um evento canônico na vida dos que não disfarçam que é o “cagar no banheiro dos outros”. Evitamos a todo custo, mas como tem horas que a cabeça, o intestino e o ânus se entendem menos do que a zaga do Vasco, essa hora — cedo ou tarde — chega. E aí mora o cerne da questão, a “Escolha de Sofia” da cagalhofância: após o ato cocozístico, tendo um produto para disfarçar o cheiro do que acabou de ser feito, uso ou não uso? Toda vez que isso acontece, essa pergunta de difícil resposta para mim aparece, e explico a partir de dois cenários: o primeiro, que é o de não usar, mas um fio do cheiro do ato permanece no recinto ou usar, mas fica um cheiro desmedido de “rosas virgens e selvagens do Vale das Tulipas Holandesas de Seropédica” (ou um nome pomposo e impressionável qualquer). Em ambos os casos, o cheiro acusa o ato, e além do cheiro, um certo constrangimento fica no ar, pois todos saberão o que você andou fazendo ali no banheiro de imediato. Imaginem, então, a falta de jeito de pessoas tímidas e/ou mais discretas diante disso. Mesmo que ninguém, absolutamente ninguém, ligue para o que aconteceu, a cabeça carrega uma espécie de sentimento de “culpa cristã”, como se aquela ação fosse algum pecado, mas é a coisa mais natural do mundo. Afinal, falar de cocô é como falar de sexo: todos gostam de falar a respeito, mas há certos tabus em torno do antes, durante e depois da ação.
Por isso, venho por meio deste escrito, em que relato em parte o drama que pessoas com esse perfil passam para fazer um apelo às marcas de produtos de higiene doméstica: por favor, esqueçam cheiros mirabolantes para seus produtos. Não me venham com “cheiro de campos silvestres”, “cheiro de bundinha de bebê recém-limpa”, “cheiro de mulher bonita após sair do banho” ou equivalentes. Não ornam com um momento tão delicado como esse. Vocês, galera do marketing desses produtos, colocam tais nomes como se cagassem cheiroso, e vocês químicos envolvidos no processo de desenvolvimento dos produtos, dão a entender que sequer cagam. Sejam mais realistas! Produzam cheiros de cheiros domésticos, de coisas limpas do cotidiano do banheiro, como um “cheiro de cloro”, “cheiro de água sanitária”, “cheiro de produto que tira limo”, até “cheiro de sabonete genérico” eu aceito. Melhor, vendam kits com sabonetes e esse produto, todos com o mesmo cheiro. Ideia conservadora a princípio, admito, mas que tenho certeza que vai render bons resultados, pois eu sei que eu não sou o único que passa por esse constrangimento — embora seja o primeiro que conheço a falar dele.
Por favor, imploro, não caguem para meu constrangimento ao cagar. Não consigo disfarçar o cheiro que deixo, sendo ele natural ou industrializado.
메타데이터
- post_id
- 4516f5cd37cf
- slug
- não-dá-pra-disfarçar-o-cheiro-4516f5cd37cf
- url
- https://medium.com/um-blog-de-nada/n%C3%A3o-d%C3%A1-pra-disfar%C3%A7ar-o-cheiro-4516f5cd37cf
- canonical_url
- https://medium.com/um-blog-de-nada/n%C3%A3o-d%C3%A1-pra-disfar%C3%A7ar-o-cheiro-4516f5cd37cf
- author_url
- https://medium.com/@flaviobraga
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-13 07:35:29