Pelas ruas que foram interditadas a você
As lágrimas desciam junto com a chuva enquanto eu corria e lembrava da minha avó. Estava numa rua perto do mar e alguém poderia dizer que…
Pelas ruas que foram interditadas a você

As lágrimas desciam junto com a chuva enquanto eu corria e lembrava da minha avó. Estava numa rua perto do mar e alguém poderia dizer que já era muita água, para que esse excesso? Para eu nascer novamente, responderia rápida, muito mais rápida do que nos primeiros passos de alguém que decidiu começar a correr para desacelerar na vida.
Não sei se faz sentido, mas desconfio que nada realmente faça ao mesmo tempo em que lembro os passos arrastados dela nos últimos anos de vida. O arrastado das chinelas da minha avó permeiam toda a memória do tempo que compartilhei com ela nessa existência.
Não lembro da pressa dela ao sair da casa da minha mãe depois de cuidar de mim nos meus primeiros meses aqui nessa terra, atravessando um lugar escuro e desabitado, sozinha, até chegar a sua casa — eu era apenas um bebê, mas ela precisava atravessar aquele lugar inseguro para ajudar minha mãe, que morava longe dela, nos primeiros cuidados da primeira filha. Ou dos outros passos apressados quando dava voltas na rua à noite, a qualquer barulho estranho ou sinal de perigo que percebesse, nas horas em que meu avô estava em algum outro lugar da cidade — talvez na casa de uma de suas outras mulheres. Minha avó fazia isso não por ela, mas para garantir a segurança da minha mãe e do meu tio.
Não lembro desses passos apressados, mas lembro do barulho do arrastado das suas chinelas, depois que fomos morar na casa dela, enquanto corria para colocar uma comida no fogo, apanhar uma roupa no varal porque começou a chover, varrer uma parte da casa ou ir até o portão gritar para perguntar onde eu ou um dos meus irmãos estávamos.
O barulho do arrastado das suas chinelas, para mim, era a marca da sua presença, feita de passos delimitados, restritos às paredes da casa. Nunca vi minha avó sair de casa, a não ser nas poucas vezes em que minha irmã a levava à missa: nem para um supermercado — ela não tinha renda — nem para encontrar alguma amiga ou amigo ou mesmo para fazer um passeio comigo ou meus irmãos ou sozinha. Minto. No início da minha infância, eu a via sair para as passeatas de campanha eleitoral, gritar e torcer por algum político que nada faria por ela — aquele era o seu único carnaval.
Minha avó passava os dias assim, arrastando as chinelas enquanto cuidava da gente ou da casa. Sua alegria era quando a minha tia Zefa vinha do sítio receber o salário do mês e passava algumas poucas horas com ela: aguardava com tanta expectativa aquela visita que era só no que falava. “Zefa vem hoje, vou guardar esse biscoito aqui pra ela”. E escondia o biscoito como escondia qualquer comida diferente ou mais gostosa que aparecesse na casa e eu ou meus irmãos não tivéssemos comido. Escondia tão bem que às vezes esquecia onde tinha guardado e a gente encontrava dias depois, às vezes já estragado. Eu não entendia que ela escondia porque, se nos nossos dias era difícil, em outros tempos, para ela, faltava. Eu não entendia que ali eram as marcas da escassez de dinheiro e de confiança — aquela que faz a gente compartilhar sem medo porque sabe que amanhã não vai faltar.
Eu não entendia as minhas negativas quando ela me oferecia alguma coisa. “Não, voinha, deixe que eu mesma coloco meu almoço. Pode deixar essa roupa aí que eu lavo. Não precisa me trazer esse copo d’água, eu mesma vou buscar”. Eu sentia a prisão em que ela estava instalada — mesmo sendo a sua razão de existir: cuidar dos netos como tinha cuidado dos filhos, sem descanso, sem outro prazer, sem outra possibilidade. Se manter presa à casa como havia feito a vida toda. Aceitar as traições do meu avô, os xingamentos do meu pai e os abusos do meu irmão ao receber tudo o que ela se dispunha a fazer, mesmo sendo uma senhora com mais de oitenta anos que, ainda que forte e resistente, merecia ser mais cuidada que cuidar.
Minha avó morreu após duas semanas no hospital. Ao ser levada para lá ainda pediu que esperassem porque tinha que lavar as roupas do meu irmão que estavam sobre a pia. Tinha que. Foi assim que aprendeu que tinha que ser uma mulher: decente, devota à Nossa Senhora, de valor porque voltada unicamente para a família, restrita à casa, abnegada, forte e disponível, o tempo todo, a todos os outros. Foi assim que ela viveu, foi assim que ela morreu.
Lembro disso enquanto corro na rua perto do mar e percebo a liberdade que desfruto hoje, construída também da sua abnegação, da sua dedicação, da sua fortaleza. Foi ela quem foi comigo, um dia, de madrugada, esperar o ônibus que me levaria a outra cidade onde fui morar ainda adolescente, para estudar, mesmo que seu amor às vezes dissesse: minha filha, fique. Não precisa de mais, você já sabe ler.
Foi até onde ela conseguiu ir: aprender a ler e a escrever, o que, para ela, naquele tempo e na configuração de escassez da sua vida, já foi um enorme passo. Ultrapassar aquele lugar, para ela, muito provavelmente era uma impossibilidade. Porque, talvez, exigisse a quebra de amarras que ela nem sabia que existiam, pois já tinham se normalizado, de tão habituais, de tão conhecidas. Amarras que ela não conseguiria quebrar sozinha, que precisariam da consciência, da ação e da coragem de muitas mulheres.
O desconhecido dá medo, minha avó, eu sei, mais ainda quando a escolha é nossa, de desbravar ou não, de seguir ou não. A gente quer parar ali, onde já sabe como é porque depois daquela esquina não sabe o que vem. E para nós, mulheres, andar pelas ruas e virar esquinas ainda é muito perigoso. Mas foi você quem me ensinou a ter coragem e foi essa coragem que me fez — e me faz — pensar que uma mulher pode atravessar as paredes da casa e virar as esquinas que aparecerem na sua vida — inclusive descansar ou se divertir em algumas delas.
É essa coragem que me faz insistir em pensar que viver e amar podem ser de um jeito diferente, um jeito que eu ainda não conheço, mas que desejo: com confiança e não só entrega, mas troca, sem precisar esconder por medo de que falte, sem precisar recusar por achar que estão entregando demais, dispondo-se a desaprender o que está internalizado para reaprender com novos passos.
Quero me movimentar em busca desse novo modo de viver e de amar: é o depois da esquina. E é por isso que sigo, porque lembro a sua coragem e só de pensar nisso já sinto a confiança que preciso. Ainda não cheguei lá, mas talvez eu esteja naquela madrugada, esperando o ônibus que vai me levar para a nova cidade, onde começará uma história que eu ainda não conheço, mas para a qual vou porque desejo que seja boa.
É por amor a você, minha avó, que também quero essa nova forma de viver e de amar, essa vida que, sei, nem sempre será boa, mas será (porque já é) a minha vida possível. É por amor a sua vida, que foi tão gigante em tudo o que acessou, sustentou, fez, amou e entregou, que também quero viver a minha. Próximo mês viro mais uma esquina da minha vida e acesso uma nova rua: serei doutora.
Daqui a alguns anos, quando estiver com o diploma em mãos, lembrarei que foram os seus passos, os rápidos e os arrastados, que permitiram que eu desse os meus passos para conseguir chegar e receber o que construímos juntas, por todos os anos que já passaram e pelos que ainda vêm, mesmo que você não esteja mais fisicamente aqui comigo. Mas a sua coragem está, mora em mim, é uma parte sua que também é minha!
Até lá, e quando passar de lá também, correrei pelas ruas que foram interditadas a você, usarei a minha liberdade e cuidarei de mim como não foi permitido a você se cuidar, para seguir mais leve, para apreciar o que está em cada momento e não apenas depois da esquina. Depois de correr muito na vida, de tentar entregar tudo a todos como você entregava, sem descanso, corro para desacelerar, para sentir o mar. Por amor a mim, por amor a você, por amar. Obrigada, minha avó!
“Escrevo para falar em nome dos meus antepassados que se calaram.” Liliane Wouters
메타데이터
- post_id
- 459c95e71ee7
- slug
- pelas-ruas-que-foram-interditadas-a-você-459c95e71ee7
- url
- https://medium.com/@clarabezerra/pelas-ruas-que-foram-interditadas-a-voc%C3%AA-459c95e71ee7
- canonical_url
- https://medium.com/@clarabezerra/pelas-ruas-que-foram-interditadas-a-voc%C3%AA-459c95e71ee7
- author_url
- https://medium.com/@clarabezerra
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-24 09:38:12