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Mulheres, estresse e a fera do tempo

Lucianna Auxi Costa · 2024-03-04 01:56 · 0 claps · 3.3 min read
#fadiga #mulheres #cortisol #tempo
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Wiki topics: 🧠 · Mental Wellness

Mulheres, estresse e a fera do tempo

Mulheres querem tempo para si e não só para a família.

Não espere aqui um texto sem eco próprio só para alavancar polêmicas cansativas. Ao invés disto, você lerá o texto de uma médica que atende todos os dias mulheres que estão exauridas e que de vez em quando, faz parte deste grupo.

Convivemos com o estresse desde sempre. Ele se encarrega de liberar o Cortisol, hormônio que carinhosamente chamo de "da Vida"pois ele nos coloca para "lutar ou correr", aos modos do que fazíamos quando éramos Neanderthais. Naquela época, não éramos nem os animais mais ágeis, nem os mais velozes ou mesmo, nem chegávamos perto de sermos os mais fortes. Éramos presas fáceis, sem dúvida. Neste período crítico, a adaptação para a sobrevivência deveria ser instintiva e sem demora. Precisávamos de algo que colocasse nosso corpo em ritmo de guerra antes de quaisquer raciocínio lógico, coisa que desenvolveríamos ( nosso neo córtex), muito tempo depois. Necessitávamos de um combustível que nos mantivesse vivos à prova dos estresses de todas as horas. Nascia então essa relação visceral de Cortisol e suas reações.

Então funcionava assim: em circunstâncias mais agudas de perigo, o hormônio era liberado diretamente das glândulas supre-renais em resposta às ordens do Hipotálamo dadas à Hipófise, comandante e primeiro- imediato, por exemplo. A união deste trio, Hipotálamo, Hipófise e Adrenal é conhecido até hoje como como Eixo HPA, onde P significa Pituitária, um nome mais antigo para Hipófise. Esse eixo precisa funcionar perfeitamente.

Na presença de um estresse agudo, como era o caso das nossas ancestrais que precisavam dar de comer à sua prole enfrentando feras perigosas, esse alicerce era fundamental. Liberar o sangue para os músculos correrem, aumentar a frequência cardíaca para dar suporte à circulação das pernas e agir sob impulso e reflexo, era o que elas precisavam. E isso funcionou muito bem.

Até agora.

Agora, as feras são outras. Não tão obvias assim. Não tão grandes ou ferozes assim.Temos até dificuldade de saber quem são ou o que querem. Temos dúvidas de quem são elas e, infelizmente, estamos altamente dependente delas. Queremos essas feras. E quem são? Nosso tempo. O relógio que passa por e para todas e que marca a hora de forma igualmente desigual para todas as mulheres.

O tempo fez o que nenhum animal irracional fez, nos colocou uma coleira. Nos confundiu. Nos traicionou e nos atacou pelos flancos, cortisol desajustado (coitado),não teve tempo para nos acudir. Estava desregulado, sem seu próprio timing. Nós próprias os desregulamos.

Na época das cavernas não tínhamos Fadiga Crônica por ansiedade ou depressão, por prazos esgotados no trabalho, por plantões noturnos, por privações de sono, por compulsões alimentares e o pior de todos, não tínhamos exaustão pela falta de óvulos. Tudo isso por conta de uma fera só: o tempo. Não, nossas avós Cro-magnos não teriam nenhuma dessas doenças. As fadigas agudas eram curadas com uma boa noite de sono, sem luzes artificiais, claro e não evoluiam para fadiga crônica. Parece uma piada, mas não tinham tempo.

O que podemos fazer quanto a isso então, uma vez que mudar o caos externo do dia a dia está fora de cogitação? Mudar a única coisa que nos cabe mudar, nosso mundo interno através de nossos limites internos.

Segundo a psiquiatra especialista em mulheres, Pooja Laksmi, praticar o "Auto-Cuidado de Verdade" é fazer aquilo que para você faz sentido, apoiando-se nos pilares de um tratamento direcionado às suas expectativas. Eu chamo isso de ter uma "Mentalidade de Saúde Integral", ou seja, algo que faça sentido para você e não algo de fora para dentro, só porque está na moda. Inclusive se eu puder dar um único conselho na vida seria exatamente esse : "Fuja de modismos", eles vão contra o que somos.

Mulheres estão fadigadas,não deprimidas. Mulheres querem tempo para si e não só para a família. Sim, amamos nossos filhos e maridos, porém sem tempo de qualidade até a demonstração deste amor ficará comprometida.

Posso ajudar como médica integrativa? Sim, sempre posso, mas não consigo "repartir"o tempo desta mulher de maneira que ela fique em paz e satisfeita. No máximo vou dividir conforme o que eu acho importante fazer e isso provavelmente não caberá na vida dela. Estão entendendo onde eu quero chegar?

Dentro dos meus pilares de Saúde Integral a Mentalidade vem primeiro. Ajustar a bússola interna, refletir sobre onde coloco meus valiosos minutos e aproveitar as minhas 24h com o que me realiza é o começo para o re-ajuste do relógio interno. E esse interior será refletido no exterior, com menos fadiga, com menos exaustão e mais saúde.

É isso que, como médica, desejo para o Dia Internacional da Mulher, 8 de Março. Que todas nós consigamos enxergar o que é mais importante, constriuirmos juntas a nossa saúde e …domarmos a besta fera do tempo!


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